Wolf Woods

9 Capitulo 8 - Tempestade: Parte 1


— Bom dia querida. Dormiste bem? – perguntou a avó beijando-lhe o topo da cabeça enquanto passava para o balcão da cozinha para ir preparar o seu pequeno almoço.

— Bom dia vó. – respondeu Chloe dando um novo gole na sua caneca de chá.

— Querida, o carro está pronto. Temos de sair já se queremos chegar lá pela hora do almoço. – informou o avô ao entrar na divisão.

— Chegar? Vocês vão sair?

— Já que perguntas sim, nós vamos sair. Vamos visitar um casal amigo que não vemos há algum tempo, mas não te preocupes que o mais tardar á hora do jantar já estamos de volta.

— Ah, não há problema. Hoje também tenho o ensaio por isso não vou estar em casa.

— OK, mas qualquer coisa avisa.

— Vocês também.

*

O ensaio… Não havia mais por onde fugir. Era divertido pensar em quanto o tempo era relativo. Passara tão devagar, mas ao mesmo tempo tão depressa. O dia chegará mais cedo do que reparara perante os dias que, para trás, tinham-se arrastado tanto. Agora uma bolsa de ansiedade alojava-se na sua barriga e fazia tensões de lá permanecer.

Mickael intercetara-a mal esta chegara à escola. Pela milionésima vez perguntou se algo se passava, ao que ela respondeu que fora apenas uma noite difícil. Não era mentira visto que acordara a meio da noite com a sua janela aberta. Mas também não era toda a verdade. Chloe sabia que o amigo desconfiava de algo, mas não era como se pudesse falar do assunto com ele. Para qualquer dos efeitos ele não a pressionava mais do que a pergunta inicial por isso ela agradecia mentalmente e, como vinha a fazer no momento a seguir à regular pergunta dele, mudou de assunto.

Por mais que quisesse abstrair-se o inevitável isso parecia algo impossível pois o único assunto tocado por Mickael e Aida era o tão esperado ensaio geral que se realizaria como que uma prévia da peça, sem interrupções, sem espaço para erros, sem segundas oportunidades. No meio da conversa sobre passo, entradas e saídas e figurinos, Chloe apenas se recordava de que também seria a primeira vez que o veria deste a sua descoberta e, por mais que se tivesse preparado, não sabia como é que o deveria encarar. Se calhar o melhor era mesmo fazer de conta que não sabia nada, que não tinha visto ou experienciado algo tão impossível como o que vira. Se tivesse sorte ele não a teria notado e também não iria procurar levantar o assunto. Mas algo no fundo do seu âmago lhe dizia que não tinha essa sorte. Chloe suspirou e pensou para consigo que teria de ter coragem. Afinal qual era a coisa pior que lhe poderia acontecer? Ele raptá-la e fazer com que desaparece-se só para garantir que ela nunca falaria a ninguém do que viu? Ele parecia uma pessoa um pouco mais racional que isso. Não parecia?

Por volta da hora do almoço algo viria, de ambas as formas, acalmá-la e suscitar mais incertezas em si. Um telefonema. Sandra telefonava-lhe para saber se ela a poderia ajudar no café. Letícia andava a fazer recados e ela precisava de outro par de mãos. A resposta saiu tão imediata como que um comando programado, ou algo destinado a ser assim.

Jenna não ficou contente de saber que a sua primeira e única pianista não estaria presente no ensaio mais importante de todos, mas após alguma dissuasão e a promessa por parte de Chloe de que ensaiaria todos os restantes dias até que a cortina abrisse acabou por a fazer ceder.

Apenas uma coisa ficava assim por resolver, a sua conversa com um certo alguém teria de esperar.

*

— Obrigada mais uma vez por vires mesmo hoje não sendo dia de trabalhares.

— Não, não há problema algum. Além disso a Jenna conformou-se que eu não podia ir ao ensaio e já avisei os meus avós que afinal hoje vou trabalhar por isso não há nada que me impeça de ajudar. Pelo que vejo preciso mesmo de ajuda.

Sandra olhou esbaforida para ela. O seu habitual ar composto estava agora um pouco fora disso. Um coque mal feito a desfazer-se alojava-se perto do pescoço, o avental estava sujo e havia uma confusão instalada atrás do balcão que ela nunca permitiria se o caso não fosse de extremos. Era compreensível dado o estado em que o café estava. Parecia que toda a gente tinha decidido frequentar o estabelecimento no mesmo dia. Todas as mesas estavam ocupadas e até um ou outro individuo se encontrava em pé junto ao balcão.

— Já vi dias movimentados entre aqueles que cá trabalhei, mas isto é demais. – comentou Chloe enquanto deixava as suas coisas no armário e colocava o seu avental.

— Vem aí uma tempestade linda. Estão todos a encontrar-se aqui como ponto de reunião para rever o procedimento que se deve ter. – esclareceu Sandra entre cafés que tirava e entregava. – Não me queixo e bom para o negócio mas também é demais.

— Tempestade? – interrogou olhando para o lá das janelas vendo um céu limpo e até com alguns raios de sol, o que quase nunca acontecia.

— Sim. Quando se vive aqui durante tanto tempo aprendesse a ter um nervo para estas coisas. Além disso o Bill tem uma antena meteorológica que o confirma. – Sandra sorriu e voltou a desaparecer por entre as mesas atoladas com cidadãos preocupados com o que poderia acontecer.

Chloe acabou de apertar o seu avental e seguiu o exemplo.

Horas depois, com uma batelada de loiça por lavar empilhada na cozinha e a sala desarrumada, a movimentação tinha finalmente acabado. Já todos se tinham retirado para as suas próprias casas. Tudo o que faltava fazer agora era limpar, arrumar e deixar tudo pronto para receber os clientes no dia seguinte.

Sandra limpava e arrumava as mesas quando recebeu uma chamada. Poucos minutos depois apareceu junto de Chloe, que tratava de lavar, secar e arrumar no devido lugar a loiça.

— Tenho um pedido para te fazer. Recebi um telefonema de casa e tenho de ir para lá imediatamente. Consegues orientar-te aqui sozinha?

— Sim claro, mas é alguma coisa de grave?

— Não, não, só um imprevisto que tem de ser atendido já já. Ah… Deixo as chaves no teu armário e trancas tudo quando saíres, pode ser?

— Sim, claro.

— Obrigada!

Como que se percorresse a maratona desapertou o avental, agarrou nas suas coisas e saiu disparada.

O quer que fosse parecia ser mais do que apenas um imprevisto, pensou Chloe. Acabou a sua tarefa na cozinha e dedicou-se então a terminar de arrumar e limpar as mesas. Haviam cadeiras espalhadas por toda a sala. Aquilo iria demorar tempo. Decidiu então telefonar à avó a avisar que chegaria mais tarde do que previsto.

— Estou? Avó? Oi! Olha é só para te avisar que vou chegar mais tarde do que o previsto. Tu e o avô podem jantar sem mim. Eu depois como qualquer coisa.

— Oh, filha, eu disse ao teu avó para te telefonar, mas presumo que foi o mesmo que dizer a uma parede para o fazer. Nós não estamos em casa. Nem perto de lá chegar. A estrada ficou cortada por causa de uma árvore que caiu e o outro caminho está inundado por causa da chuva. Nós tivemos de voltar para trás. Só vamos conseguir chegar a casa amanhã de manhã e isso é se tivermos sorte.

Foi então que olhou para o exterior e percebeu que as nuvens tinham cerrado e constituído uma cinzenta manta no céu que fazia cair um pequeno aguaceiro. Ao que parecia todos tinham acertado. A tempestade sempre acabara por aparecer.

— Oh, ok.

— Tens alguns taparoeres com comida no frigorífico. Aquece no micro-ondas e como qualquer coisa para o jantar.

— Está bem vó. Tenham cuidado na viagem, está bem?

— Claro! Tu também!

— Até manhã.

Suspirou. Agora para além de ter de arrumar tudo sozinha ainda teria de andar naquela chuva até casa. Pulverizou a mesa com o produto de limpeza e começou a passar o pano. Quando pensou que nada mais poderia tornar aquele dia mais cansativo alguém entrou e estagnou ao vê-la formando uma poça de água em volta dos seus pés.

— Ah… Vim buscar a aminha mãe. – forçou-se ele a dizer.

Ainda em choque por ver Kyle ali, encharcado, àquela hora, demorou para responder à sua afirmação.

— A tua mãe saiu acerca de quarenta minutos. Qualquer coisa a ver com um imprevisto que tinha de ser resolvido imediatamente.

— Oh, hum, ok. Então eu vou…

“Ele não sabe de nada, pode ser que tenha sorte…”, pensou Chloe.

Ele parecia indeciso entre ir-se embora e ficar por uma qualquer razão. Olhou em volta.

— Tu tens isso tudo para arrumar sozinha? – assentiu – Queres ajuda?

— Não, não é preciso decerto que tens coisas melhor para fazer.

Por um momento ele pareceu considerar, mas depois entrou na cozinha desaparecendo por momentos, voltando em seguida com o cabelo revolto por uma tentativa de secagem com uma toalha e uma camisola seca com o logotipo do café.

— Se a minha mãe foi resolver o assunto não tem por que eu ir, além disso este café pertence á minha família, não faria sentido teres de ficar aqui sozinha a arrumar esta confusão toda.

“Oh, não.”, suspirou, “Ele desconfia de alguma coisa, é por isso que quer ficar. Para ter oportunidade de fazer assunto.”, pensou. “Estou feita.”.

Combinaram que enquanto ela limpava, ele devolveria as cadeiras e mesas aos respetivos sítios. Alguns bons minutos de silêncio fizeram-se, até que Kyle os quebrasse.

— Não foste ao ensaio geral.

— A tua mãe precisava realmente da minha ajuda. Este sítio estava uma confusão.

— Acredito que sim. É sempre assim em dias de tempestade.

Após o pequeno diálogo não conversaram mais. Levando até que Chloe se esquece momentaneamente

Quando terminaram a tarefa ela dirigiu-se ao seu cacifo e, depois de pegar nos seus pertences e devolver o avental, colocando-o no cesto que indicava que ele precisava de ser lavado, indicou que deveriam sair para que ela pudesse trancar as portas. Uma vez lá fora, notou uma vez mais como o clima mudava tão depressa como um estalar de dedos se a natureza assim o entendesse. O que outrora fora um pequeno aguaceiro tornara-se agora uma grande torrente de água como se alguém tivesse deixado a torneira aberta no máximo. Trancou as portas, entregou as chaves a Kyle, visto que ele sendo filho de Sandra poderia entregar as chaves à mãe e preparou-se para entre debaixo daquele dilúvio e correr o mais seguramente até casa. Ao perceber o que ela estava prestes a fazer Kyle interrompeu-a.

— Anda vamos. Eu dou-te boleia até casa.

— Não é preciso a sério. – respondeu mecanicamente.

Ele olhou para a chuva e para o seu, como se estivesse a persentir algo.

— É sim. Anda. Não custa nada. – e sem acrescentar nada deu uma pequena corrida até ao seu carro. No tempo em que lá chegou, ficou mais encharcado do que estava quando chegou. Ao notar que não tinha opção seguiu-o. Ele abriu-lhe a porta e ela entrou, encharcando tudo o que havia para encharcar.

— Não te preocupes com a água.

Algum tempo depois de o carro estar a deslizar pela estrada e do silêncio constrangedor se ter instalado Kyle lançou a frase que ela menos queria ouvir.

— Temos de conversar.