Wolf Woods
10 Capitulo 9 - Tempestade: Parte 2
— Temos de conversar.
Todos os seus nervos paralisaram por um momento. Um suor frio desceu-lhe pelas costas.
“É claro que ele iria esperar por uma situação em que eu não pudesse fugir para meter o assunto! Como é que eu me pude deixar enganar que ele apenas queria fazer uma boa ação?”, respirou fundo. “Não, não é hora para isto. Tenho de o enfrentar.”
— Pois temos.
Assim que as palavras foram proferidas ele sentiu como se levasse um murro. Agora tinha a certeza. Ela tinha visto algo. E teria de averiguar ao certo o que tinha sido. A incógnita era, qual deles é que o diria. Qual deles é que admitiria que o que acontecera não era fruto do imaginário, uma alucinação, mas sim uma verdade bem secreta? Qual deles iria continuar a conversa? Olhou para ela. Parecia também estar a ter um conflito na sua mente. Provavelmente um conflito muito parecido ao que ele estava a ter. Claro que sabia que ela deveria estar aterrorizada com a situação e, por isso, a tentar decidir se deveria ou não revelar a informação que sabia. Se estivesse no lugar dela provavelmente também estaria assim. Ou pior. O mais provável era já ter arranjado uma desculpa para os pais se mudarem e nunca ninguém o achar. Ele sabia o que tinha de fazer. Era o responsável. Teria de lidar com as consequências e resolver o problema. Abriu a boca para falar, mas não chegou a proferir palavra. Não precisou, pois ela adiantou-se.
— Se vamos mesmo ter esta conversa quero-o fazer num sítio onde me sinta segura. Em minha casa. Depois de um bom banho, porque, sejamos sinceros, ambos estamos encharcados e o mais provável, se não tomarmos medidas, é amanhã estarmos ambos doentes.
Tentou não o demonstrar, mas estava impressionado e surpreso ao mesmo tempo. Ela tinha coragem para fazer uma proposta destas. E razão. Se não tomassem o devido cuidado ambos estariam doentes na manhã seguinte. Olhou de esguelha para ela, observando-a. Ela fazia o mesmo com ele.
Tinha sido audacioso da sua parte fazer uma proposta daquelas. Mas se pensasse bem era o sítio perfeito para uma conversa como a que teriam. Era um sítio que ela conhecia bem, opositando-se a ele que não conhecia; Sabia onde estavam certos instrumentos que a poderiam ajudar a defender-se se assim precisasse; E, com o banho, teria mais algum tempo para descortinar como se iriam desenrolar os acontecimentos e preparar-se para isso. Além disso os avós não estavam em casa o que lhes garantia segurança sobre aquilo tudo. E tudo era melhor que aquele carro onde ele podia muito facilmente fazê-la desaparecer sem que ninguém nunca descobrisse o sucedido. Ela não era estúpida ao ponto de pensar que em casa teria uma grande vantagem, sabia perfeitamente que se ele quisesse ela não teria hipótese nenhuma, mas a esperança de que tinha alguma era melhor do que nada. Tudo o que Chloe agora queria era que ele concordasse.
— Ok. – acabou por dizer depois de algum tempo de ponderação.
Ela pareceu relaxar. Não o suficiente que indicasse que confiava nele, mas era melhor que nada. Se iam ter aquela conversa teria de lhe mostrar que não a magoaria. Que ela estava, assim por dizer, segura com ele. Só assim ela diria tudo. Só assim ele descobriria o que ela sabia.
O carro foi travado e desligado na entrada da propriedade. Chloe sabia o que isso significava. Optou por se manter em silêncio e deslizou do banco que começava a tornar-se confortável para a chuva que parecia intensificar-se cada vez mais. Correu para a entrada e meteu a chave na porta entrando em seguida. Kyle seguiu-lhe o exemplo fechando a porta atrás de si.
— Queres tomar primeiro banho tu ou…? – perguntou poisando a sua mochila na mesa da cozinha e pendurando o casaco numa cadeira.
Apanhado desprevenido balbuciou uma resposta.
— Ah, não. Toma tu primeiro. Eu não me constipo facilmente. – o que até era verdade pois os genes que lhe conferiam o seu outro lado tornava-o mais resistente do que um humano.
— Ok… Há comida no frigorífico se quiseres alguma coisa. Os talheres estão na primeira gaveta. Eu não me demoro.
A verdade é que ela queria demorar o máximo de tempo possível, mas como o ditado diz ‘pode-se adiar, mas não se pode evitar’, e algo lhe dizia que estava na hora de enfrentar o que por aí vinha.
Subiu ao primeiro andar, entrou no quarto, pegou numa roupa confortável e esgueirou-se para dentro da casa de banho, deliciando-se com um belo banho quente. Não fez por demorar, mas também não se despachou à pressa. Depois do banho sentiu uma certa calma que não estava à espera que fosse ter. Arrumou superficialmente as superfícies e colocou uma toalha limpa sobre o lavatório para Kyle usar depois de ter tomado banho. Vestida e penteada, saiu do conforto da quente casa de banho que aquecera devido ao vapor libertado durante o duche. Desceu até à cozinha onde o foi encontrar sentado reto sem ter tocado em nada. O mais provável era que ele tivesse feito reconhecimento do andar de baixo, mas isso não a incomodava muito. Afinal não havia nada a fazer. Ao vê-la a entrar na divisão levantou-se.
— A casa de banho é a segunda porta da esquerda. Deixei-te uma toalha no lavatório para usares. – ao ver o estado das suas roupas acrescentou – Ahm… Vou à procura de qualquer coisa para vestires.
— Obrigado.
Seguindo as suas indicações Kyle encontrou a casa de banho. Entrou e olhou em volta. O espaço em tons azuis esverdeados era pequeno mas servia para o seu propósito. A toalha estava onde ela disso que a tinha deixado. Despiu-se e entrou na banheira. A verdade era que o banho lhe sabia tremendamente bem após ter andado sobre aquela chuva que lhe gelou os ossos.
Chloe foi até ao quarto dos avós e vasculhou no armário à procura de algo que servisse a Kyle. Ao passar cabides de um lado para o outro achou umas calças e uma t-shirt que deveriam servir ao efeito. Fechou o armário e foi até á casa de banho. Bateu à porta e esperou.
Kyle olhava-se ao espelho perdido em pensamentos quando a ouviu as batidas. Suspirou e só depois respondeu.
— Podes abrir.
— Encontrei umas roupas do meu avô que podes usar. Não sei se te vão servir mas vai ter de dar. – informou Chloe à medida que abria lentamente a porta. Quando finalmente viu Kyle apercebeu-se que este apenas tinha uma toalha à volta da cintura. Essa realização fez com que estacasse imediatamente balbuciando desculpas – Toma! Desculpa eu… desculpa! – disse entregando-lhe as roupas e saindo dali o mais rápido que conseguiu.
Kyle achou engraçada a sua reação. Não esperava que ela entrasse assim simplesmente, não que lhe incomodasse, estava habituado a que o vissem nu, mas mesmo assim pensara que ela iria apenas abrir um pouco da porta e passar-lhe as roupas. A ação tinha sido inesperada, mas a reação dela tinha-lhe arrancado um sorriso do rosto.
Pouco tempo depois foi encontra-la a fazer chá na cozinha. Aclarou a garganta de forma a sinalizar a sua presença. Ela acabou de encher as chávenas, aproximou-se da mesa e entregou-lhe uma acomodando-se numa cadeira. Ele sentou-se na cadeira em frente agarrando na fumegante caneca. Ela tinha tido uma boa ideia ao fazer uma bebida quente. E o facto de não se ter sobressaltado com ele e lhe ter passado o chá mostrava que estava mais à vontade com a sua presença. O que era bom pois dava mais controle sobre aquela ligação estranha que sentiam entre eles.
— O que tu viste… — começou por dizer tomando a iniciativa. Resolveu que o assunto não deveria ser mais adiado e que deveria ir direto ao ponto.
— Sabes primeiro não percebi. – interrompeu-o – Esse lance de grupo isolado que tens com os teus irmãos. Em que ninguém mais pode entrar. Depois pareceu-me que podiam apenas ser reservados. E vocês têm direito à vossa privacidade. Para além disso o que mais me surpreendeu foram os lobos enormes que existem na floresta mas que ninguém parece saber da existência. Como é que tão gigantescos animais predadores passam despercebidos? E, por fim, na minha pura ignorância a última peça do jogo encaixou-se. – a sua voz permanecia calma, compassada. Não havia pressas e era melhor não haver mal entendidos.
— Foi quando tu nos viste… — disse compreendendo. – A mim e aos meus irmãos. – soltou uma risada – Desde o primeiro dia em que te vi soube que darias problemas. – desabafou.
— Então eras tu? Naquele primeiro dia na floresta. Eras tu?
— Sim.
— Mas como?
— Como?
— Como é que pode ser? Como é que tu e os teus irmãos podem…
— Transformarmo-nos? – assentiu – Temos genes que o permitem.
— O que é que isso faz de vocês?
— Acho que sabes a resposta a isso.
— Di-lo. Preciso que o digas. – encararam-se.
— Lobisomens.
Ela susteve a respiração. Esperara pela confirmação, mas agora que se via frente a frente com ela não sabia como reagir. Então era verdade. Eles eram mesmo lobisomens. Humanos com genes de lobo que lhes permitia alternar entre formas. Os contos de fada eram na verdade reias.
Ao vê-la a processar toda aquela informação interferiu.
— Decerto que deves ter muitas perguntas…
— Algumas.
— Queres fazê-las agora? – ela ponderou. Olhou para o relógio que se encontrava por cima da porta e optou que já chegava de informação por um dia.
— Já está tarde. Deveríamos ir dormir. Mas gostava que nos pudéssemos encontrar para esclareceres as minhas dúvidas.
— Está bem. – pausa – Tens de me prometer uma coisa. – encarou-a. Ao adivinhar o que ele ia dizer antecipou-se.
— Não te preocupes, não vou contar a ninguém. E mesmo que se o fizesse, o que não vou fazer, era que ninguém acreditasse em mim e me tomassem por doida. Ainda ia parar a algum hospício ou manicómio por isso. Gosto demasiado da minha liberdade para o fazer. – ele sorriu perante a tentativa de anuviar o clima que ela fez. – Podes dormir no sofá se quiseres. Assim o banho não será um desperdício.
Ele agradeceu e, após ela lhe entregar uma almofada e uma manta, cada um ocupou o seu local de descanso. Ele o sofá da sala no andar de baixo e ela a sua cama no andar de cima.
Kyle observou discretamente Chloe enquanto esta subia as escadas depois de se despedir dele. Aquela rapariga deixava-o cada vez mais impressionado e tinha a leve sensação de que ainda o iria impressionar muito. Enquanto o sono não vinha e encarava o teto pensou em toda aquela noite, na conversa que tinham tido, no encontro que teriam e em tudo aquilo que aquilo tudo poderia significar.
Chloe, na sua cama, encontrava-se num estado de espírito semelhante. Nenhum deles sabia o que viria a seguir, mas ambos estavam um pouco ansiosos para vir a descobrir.
Para todos os efeitos aquele confronto deu início a algo novo. A algo desconhecido. E ninguém poderia imaginar o que viria a seguir.
Chloe adormeceu embalada nos seus pensamentos ao som daquela majestosa tempestade que os levara até ali.
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