Kenan

Brian estava indo embora batendo os pés, Jimmy teria que ir com ele, eu não ia entregar isso tão facilmente, mas sei que Brian também não ia desistir tão facilmente, ele ia insistir no teste. Me sentei no sofá e respirei fundo, quando o telefone tocou:

– Aqui é da recepção do Hospital Saint Marie, gostaria de falar com Kenan Leto.

– É ela, o que houve?

– Elizabeth Morgan sofreu um acidente de moto. Ela é sua parente?

– O que? Ela é minha prima. Estou indo para aí. – Desliguei o telefone e peguei minhas chaves.

– Amor Lizzie sofreu um acidente. – Todos olharam chocados, enquanto sentia lagrimas nos meus olhos.

– Em que hospital ela está? – Jimmy pegou Lis no colo.

– Saint Marie, estou indo pra lá.

– Nós também vamos. — Estávamos à caminho do hospital, Lis estava sentada no colo de Jared

– Papai, o que aconteceu? – Ela pôs as mãozinhas no rosto dele.

– Tia Lizzie se machucou meu amor.

– Ela vai ficar bem né?

– É claro querida. – Ele abraçou Lis e pude ver pelo retrovisor, Brian olhando para eles.

Estacionei o carro e entramos no Hospital, Zacky estava lá sentado com o rosto entre as mãos.

– Como ela está? – Jimmy perguntou abraçando o amigo.

– Nenhuma notícia até agora. – Zacky tinha os olhos vermelhos. O medico apareceu ao lado da recepcionista, ele olhou uns papeis.

– Parentes de Elizabeth Morgan? – Todos se levantaram ansiosos. – Muito bem, Elizabeth não teve nenhum ferimento grave, apenas uma perna quebrada e alguns arranhões pelo corpo. Fizemos um check-up e o diagnostico eu darei na presença da paciente. Se quiserem vê-la fiquem a vontade, quarto 155.

O medico saiu as pressas e suspiramos aliviados indo em direção ao quarto dela.

– Ta vendo meu amor, a tia está bem. – Lisbeth pulou e deu um gritinho. – Aqui não meu amor, é proibido.

Entramos todos no quarto, Zacky entrou por último. Lizzie estava acordada e fez uma cara feia ao ver o Gates.

– Sua doida, como é que faz isso com a gente? Quase nos mata de susto. – A abracei.

– Zacky mesmo, só faltou morrer de tanto que chorava. – Jimmy riu ao receber um murro do amigo no braço.

– Como se eu fosse vidente né Dona Kenan. – Dei o dedo para ela.

– TITIA. – Lis pulou em cima de Lizzie que fez uma cara de dor.

– Sua Tia está machucada meu amor. – A peguei no colo querendo rir.

– Ah desculpa tia. – Ela ficou vermelhinha e mandou um beijinho pra ela.

– Gates, o que faz aqui?

– Eu estava na casa da Kenan. – Syn ainda emburrado e Jared revirou os olhos.

– Ah... – Ela me olhou, mexi minha cabeça negando para ela.

– Titia, você vai ficar bem? – Lis estava sentada na cama.

– Vou sim meu amor, logo vou estar brincando com você novamente.

– Com licença – O Doutor entrou no quarto com a prancheta nas mãos. – Gostaria que ficassem apenas os mais próximos. — Todos saíram ficando apenas eu.

– Na verdade, eu daria alta para a senhorita Elizabeth hoje mesmo, se não fosse esse resultado. A senhorita não percebeu nada de errado com você ultimamente?

– Não, tudo normal. – Comecei a ficar preocupada com as palavras do medico.

– Não é uma noticia fácil de dar. – Ele respirou fundo e depois de alguns minutos voltou a falar. – Dona Elizabeth sinto informar, mas, você tem um câncer no pulmão num estagio muito avançado.

Demorei um pouco a absorver aquela informação. Lizzie com câncer? Só podia ser brincadeira... É uma brincadeira. Lizzie estava em choque, os olhos arregalados.

– O câncer é resultado do uso constante de nicotina senhorita. Você permanecerá no hospital para fazermos alguns exames e começar a quimioterapia.

Assim que o medico saiu da sala abracei a Lizzie com força e ela começou a chorar e eu também.

– Olha Lili vai ficar tudo bem e-eu vou cuidar de você. É a pessoa mais forte que conheci você vai ficar bem. Eu tenho certeza.

Zacky

Sentei-me na cadeira na sala de espera, provavelmente ela teria alta ainda hoje. Mas ela não ia voltar pra mim, ia voltar pra aquele serzinho nojento. Que por acaso nem veio ver a namorada acidentada. É eu estava magoado por ela ter me deixado hoje cedo, mas eu devia perdoá-la, eu a deixei sozinha primeiro, e agora ela está apenas seguindo a vida dela...

– Kenan o que houve? – Levantei da cadeira e Kenan estava aos prantos nos braços do Jared.

– Mamãe? – Lisbeth perguntou preocupada.

– Jimmy tire-a daqui. – Jimmy a pegou no colo.

– A Lili... – Ela começou a falar e soluçou. Meu coração deu um solavanco.

– O que tem a minha Lizzie?

– Ela... Esta com um câncer Zacky, um câncer. – Ela apertou o Jared com força.

Sai do hospital como um furacão. Precisava de um tempo sozinho. Syn veio correndo atrás de mim. Nada fazia sentido na minha cabeça.

– O que aconteceu Gordo? – Empurrei o Syn e entrei no meu carro e arranquei. Senti lagrimas escorrendo pelo meu rosto. Acelerei mais o carro, ouvindo pessoas xingando e buzinando. Mas isso não importava.

Quando estacionei o carro já era tarde e estava escuro. Desci do carro ouvindo o barulho do mar e uma brisa maravilhosa no meu rosto. Tirei os sapatos e a areia estava fria, caminhei um pouco pela praia com minha garrafa de Daniel’s.

Subi em uma pedra não muito alta e me deitei lá olhando a lua, era lua cheia. Lizzie amava lua cheia. Tirei a camisa e apoiei minha cabeça nela, meu rosto devia estar inchado de tanto chorar. Minha Lizzie tinha câncer e eu aqui acabado e bêbado. Eu deveria estar com ela... Não, mas se ela me quisesse por perto, não teria ido embora.

Cancer. Elizabeth. Cancer. Elizabeth.

Ainda não tinha caido à ficha. A minha princesa está doente e é grave.

– COVARDE — Gritei para o nada e joguei uma pedra com força. Fechei os olhos sentindo eles queimarem.

Mas ela tem outro e ele vai cuidar dela. Senti as lagrimas escorrendo pelo meu rosto e um aperto no peito. Inveja. Ela escolheu ele. Virei à garrafa de Daniel's, sentindo aquele liquido queimar minha garganta.

Jared

Minhas duas princesas estavam deitadas cada uma do meu lado. Kenan dormiu depois de chorar muito. E Lisbeth ainda não sabia do que tinha acontecido, teria que contar a ela com cuidado. As coisas estavam complicadas. Eu sabia que a volta do Brian tinha mexido com a Ken, só não sabia se isso era bom ou ruim.

– Papai. — Ouvi a voz manhosa da Lis e ela subiu em cima de mim. — O que ta acontecendo?

Respirei fundo e a abracei — Olha minha princesa, é complicado. A tia Lizzie ta dodoi.

– Mas ela tava melhor pai. — Uma lagrima caiu do seu olho e eu a limpei.

– Eu sei querida, mas ela vai ficar bem. Sua tia é um ogro, ela é durona vai ficar boa logo.

– É ela é um ogro. — Lis sorriu e se deitou. — Eu te amo pai.

Narrador

Duas semanas após o acidente haviam se passado, a situação estava complicada. Elizabeth teve que começar a quimioterapia o mais rápido possível, pois poderia ocorrer uma infecção dos outros orgãos.

A primeira seção foi tensa, todos estavam ansiosos. Lizzie passou mal, mas era normal que se sentisse assim, mas seu corpo não respondeu a primeira fase do tratamento. Então o medico preferiu que ela ficasse todo o tempo no hospital em observação. K ia ao hospital todos os dias e a cada dia um dos garotos ia junto.

Menos um. Nenhum deles sabia do amigo, mas ele tinha ligado avisando que não precisavam se preocupar. A cada visita ela tinha esperança dele vir, mas ele nunca aparecia.

Lizzie estava abatida e triste. Suas olheiras enormes revelavam o quão mal ela estava. E Ken não estava muito diferente, era a sua irmã que estava ali. Jared e Shannon cuidavam de Lisbeth e da casa. Syn insistiu tanto no teste que conseguiu, ele iria acontecer em breve.

Cada dia era uma batalha. O corpo de Lizzie estava fraco e precisava de Kenan para tudo. Os sintomas estavam aparecendo. Ela comia com dificuldade, as vezes vomitava tudo. Cuspia sangue e não conseguia respirar, essa era a pior parte. Ela sentia dores fortes no tórax, e tossia muito, as vezes com sangue.

Ela tomava um banho por dia, pois Kenan não conseguia com o peso do corpo de Lizzie, sempre que Jimmy ia visitar, ele ajudava Kenan a dar banho nela.

Na segunda seção ocorreu tudo bem, ela passou mal novamente, mas seu corpo começou a reagir ao tratamento. Em comemoração James começou a correr pelos corredores cantando We Are The Champions, mas foi convidado gentilmente a se retirar do hospital.

Mas os cabelos de Lizzie começaram a cair. Apenas alguns fios a mais, mas o suficiente para deixá-la desesperada. Algumas enfermeiras disseram que era melhor ela raspar logo, para poupar sofrimento, mas ela não quis. Prendeu os cabelos em um coque e não passava a mão no cabelo para evitar a queda dos fios. O que não ia adiantar muito. Ela só não queria passar a mão no cabelo e ver seus fios se soltando aos poucos.

[...]

– Val amor, abre a porta! — Matt gritou ainda concentrado no seu jogo. A campainha tocava insistentemente.

Matt abriu a porta irritado e se assustou. Parado a sua frente estava Zacky, parado não, pois ele cambaleava pra caramba. Matt segurou seu amigo antes que ele caísse no chão.

– Amor, quem é? — Val apareceu na porta e se assustou também. Seu namorado trouxe Zacky pra dentro e o colocou no sofá.

Vengeance tinha os olhos vermelhos e as olheiras mais fundas que Matt já tinha visto. Sua barba estava enorme e as roupas sujas.

– Val prepara um café bem forte. — Ela correu para cozinha enquanto Matt o pegava no colo — O que aconteceu com você meu amigo?

Em circunstancias normais ele teria quebrado a cara de Zacky. Mas estava preocupado, nunca tinha visto ele assim. Matt sentou o corpo de Zacky na cama do quarto de hospedes, correu para o banheiro e voltou trazendo uma vasilha com água, uma gilete, pasta de barbear e uma toalhinha. Em alguns minutos tinha feito toda a barba de dele. Tirou as roupas de Zacky e o levou para a banheira, ele nem aguentava ficar em pé. Lavou os cabelos e o corpo de Baker com cuidado.

Vestiu uma de suas bermudas nele e o deitou na cama. Val trouxe o café e o deixou junto com o abajur bem perto da cama.

– Cara vai ficar tudo bem, ela está reagindo ao tratamento. Ela precisa de você, mas está agindo como um... — Matt respirou fundo. — Olha, ela está mal então descanse, precisa estar bem pra ir vê-la.

Ele cobriu o corpo de Zacky e a apagou a luz. Zacky sabia que precisava estar bem, por isso voltou. E com uma decisão. Não iria mais embora, estaria com ela até o final. Se deixou levar pelo cansaço e logo apagou.

Dois dias depois Zacky já estava com uma aparecia mais saudável, apesar de ainda estar muito triste. Ele estacionou o carro em frente ao hospital e arrastou seu corpo até a recepção.

– O senhor precisa de alguma coisa?

– Estou procurando por Elizabeth Morgan — A recepcionista mexeu no computador alguns minutos.

– Ela está na Ala Adulta, você pode ir direto por esse corredor. Vai achar facilmente.

Zacky seguiu pelo corredor e logo achou duas portas grandes, estava escrito Ala 18, ele empurrou as portas e o que viu fez seu coração se apertar.

Pessoas doentes em suas macas sendo cuidados por enfermeiros ou familiares, o clima ali era pesado. Mas ela não estava. Zacky saiu rapidamente de lá, encontrou uma enfermeira idosa no corredor.

– Enfermeira, por favor, estou procurando Elizabeth Morgan.

– Ah claro, vou te levar até ela. — A senhora sorriu simpática. Ela entrou em vários corredores até achar um par de portas enormes, a placa dizia Ala Infantil. Zacky ficou confuso.

A enfermeira empurrou as portas e ele entrou rapidamente. Era diferente da outra sala. Tinha cores e o clima era mais leve, as crianças riam e algumas brincavam. Ele percebeu que a maioria delas não tinha cabelos.

E lá estava ela, sentada na sua maca com mais duas crianças, elas estavam brincando de boneca. Ele se aproximou e Lizzie virou o rosto, os olhos dela brilharam e ela deu um sorriso lindo.

– Zacky!

– Oi Lizzie — Beijei sua testa com carinho e as menininhas riram.

– Meninas depois a gente brinca, tudo bem? — Elas assentiram e desceram da cama. — Pensei que não iria vir me ver.

Zacky

– Pensei que não iria vir me ver. — Ela disse e abaixou a cabeça. Sentei ao seu lado na cama.

– Me desculpe. Queria ter vindo antes... Mas me diga o que faz na ala infantil?

– Ah, na ala adulta era tudo tão deprimente. Me senti melhor aqui. — Ela deu um sorrisinho e senti vontade de abraçá-la.

– Você está horrível Morgan.

– Você também Baker. — Nós rimos juntos, mas parei assim que o vi. — Corey. — Ela disse animada.

– Hey gatinha. — Ele beijou o nariz dela, ele me olhou e desviou o olhar. — Trouxe seu chocolate preferido.

Ele colocou a caixa em cima da mesinha de Lizzie, pegou as mãos dela e as beijou. Eu já estava fervendo de ódio.

– Eu vim aqui só pra ver como você estava, mas já estou de saída. Prometo fazer uma visita decente essa semana. — Ela sorriu. — Amo você feiosa.

– Eu também amo você. — Então ele saiu tão rápido quanto chegou.

– Nossa, seu namorado é muito atencioso — Disse irônico.

– Ele não é meu namorado, Gordo — Fiz uma careta e ela continuou — Terminei com ele no dia do acidente... Estava indo te encontrar quando aconteceu. Pensei que você não viria mais.

Ela pareceu triste e meu peito se apertou. Eu não sabia daquilo. Ela tinha terminado com ele para ficar comigo e eu a deixei sozinha. Abracei seu corpo pequeno com força, senti seus braços me puxando para mais perto e ela soluçou.

– Não chore Lizzie, por favor, eu não vou mais embora. — Ela enterrou o rosto no meu peito. — Não vou te deixar.