Wishmaster

30 Um Ato Com Consequências III


Notas iniciais
Primeiramente quero agradecer por cada comentário de apoio e compreensão que vocês me enviaram tanto aqui nos comentários quanto no jornal que publiquei. Não irei entrar em detalhes aqui nas notas iniciais, mas deixarei mais claro nas notas finais. Gostaria de pedir que antes que começassem a ler, fossem nas notas finais e pegassem os links de duas músicas que me inspiraram a escrever esse capítulo. É apenas uma sugestão, mas admito que a leitura será mais agradável assim. Enfim, espero que gostem do capítulo.

Lembrança

Brincava sozinho com o misto de areia e poeira daquele lugar, usando o dedo para formar desenhos aleatórios, estes nos quais se forçava para enxergar com perfeição por conta da má iluminação daquele casebre mal tratado. Os acinzentados piscavam poucas vezes, concentrados apenas nas formas à sua frente enquanto o corpo permanecia encolhido, procurando se aquecer o máximo que conseguia. A ausência da luz do sol naquele lugar servia apenas para que o frio que se habituou a sentir piorasse naquela estação do ano. Lembrava-se de ouvir algumas pessoas dizerem que geralmente pequenos flocos esbranquiçados costumavam descer dos céus sempre que esfriava daquela forma. No entanto, apenas os que moravam na superfície conseguiam contemplar sua beleza, visto que os mesmos não conseguiam ultrapassar as poucas fendas que iluminavam a cidade subterrânea.

Sentia alguns espasmos em seu corpo por conta da baixa temperatura, obrigando-o a abraçar as próprias pernas a procura de mais calor. Lembrava-se vagamente desses flocos, porém, a memória de que um dia já vivera em Trost era tão vaga que não mais acreditava que um dia conhecera um lugar longe daquela cidade.

Os olhos então se fecharam, a cabeça foi apoiada nos joelhos magros que outrora foram tão limpos e, agora, encontravam-se repletos de hematomas e sujeira acumulada. Estava cansado daquela vida, não queria depender de uma pessoa que gostava apenas de tratá-lo como um brinquedo, foi por isso que havia fugido de Sina e agora se encontrava naquele lugar estranho.

O corpo se exaltou levemente ao ouvir um ranger estranho à sua frente, fazendo-o erguer o rosto apenas para que seus olhos fizessem seu trabalho. A porta estava aberta, revelando um homem alto trajando um sobretudo desbotado e rasgado pelo tempo. Segurava o conhecido chapéu com uma das mãos enquanto levava uma das várias armas de fogo que possuía com a outra. Apenas aquela visão fez seu corpo se estremecer mais do que o normal, e não era por causa do frio.

Aquele homem então fechou a porta atrás de si com um dos pés, depositando o chapéu sobre uma mesa ali próxima antes de se aproximar do corpo do garoto, que permanecia na mesma posição de antes no canto daquela parede, apenas abaixando a cabeça novamente e fechando os olhos, rezando mentalmente para que aquele homem se afastasse o quanto antes de si. Tal reação fez o homem abrir um largo sorriso.

Ora, por que está tão assustado, garotinho? O homem perguntou em tom sarcástico, colocando-se de frente para o corpo encolhido do rapaz e levando uma das mãos até seus compridos fios negros, puxando-os para baixo a fim de fazer com que o mesmo levantasse a cabeça. — Não é para isso que estou te criando, moleque. Não é assim que os Ackerman’s são!

— Eu não sou um Ackerman! — praguejou, franzindo o cenho e fitando o rosto daquele homem com uma raiva aparente que fez o outro rir. — Não ria, Kaney, seu maldito!

— Agora sim está parecendo alguém da família! – continuou, orgulhoso de seu “feito”. — Sabe... Fiquei até mesmo com vontade de me divertir agora. O que você acha, Levi? — Os acinzentados do garoto então se arregalaram, fitando atentamente o tão conhecido sorriso libidinoso se formar sobre os lábios daquele homem. — Faz um bom tempo que não fazemos, deve estar com saudade, não? — continuou, aproximando o rosto do pescoço magro de Levi, fazendo um rastro com a língua desde a nuca até o queixo do mesmo. — Olhe como está gelado... Isso vai te esquentar, eu garanto.

As mãos de Levi trabalharam rápido, empurrando aquele homem antes que o mesmo pudesse ao menos tocar em sua camisa encardida, o que não agradou ao Ackerman, que franziu o cenho e então se levantou, levando ambas as mãos ao cinto que segurava suas calças.

Aquilo fez o garoto engolir em seco, rapidamente se movimentando para fugir daquele local, o que não surtiu efeito, visto que a corrente presa em um de seus tornozelos não o permitiu ir tão longe, ocasionando na queda afobada do mesmo. Tal cena fez Kaney rir audivelmente enquanto se aproximava do corpo magro do rapaz.

— Ah, Levi... Não posso acreditar que se esqueceu que estava acorrentado. – comentou desdenhoso, parando ao lado do corpo do garoto caído e usando um de seus pés para golpear sua mão esquerda com força. O grito que se seguiu era terrível para qualquer pessoa normal ouvir, consequência da pressão que o pé de Kaney fazia sobre a mão de Levi, ocasionando na fratura de alguns dedos. — Você é mesmo patético! Pensei que tivesse aprendido alguma coisa em todo esse tempo. Como irei confiar meu sobrenome à alguém assim? — Kaney então aumentou a pressão que seu pé fazia sobre a mão de Levi. — Isso me deixa irritado...

O garoto levou a outra mão até o pé do Ackerman, tentando em vão afastá-lo dali e proporcionando apenas uma pequena apresentação para o outro, que sorria novamente.

— Ah, Levi... Você me surpreende a cada dia que se passa! – disse, abaixando-se o suficiente para posicionar o corpo sobre o do garoto, que engoliu em seco ao mesmo tempo em que recolheu a mão ferida. — É por isso que, mesmo com esta desfeita, irei me divertir contigo. — Mordeu o lábio inferior antes de segurar firmemente sobre a cintura do menor.

— Kaney, não-Ah! – gritou outra vez ao perceber que o ato havia se iniciado dolorosamente, o que o obrigou a abaixar a cabeça e encostá-la sobre o chão sujo.

Levi mordeu o lábio com força ao ponto de sentir o gosto ferroso do sangue em seu paladar. Sabia o quanto Kaney gostava quando se rebaixava ao ponto de gritar e chorar, portanto, tentaria não dar esse prazer àquele homem. No entanto, a dor vinda daquele ato e da fratura em sua mão apenas dificultavam as coisas.

Os acinzentados foram reabertos ao mesmo tempo em que a mão intacta era esticada para um ponto em específico, como se quisesse alcançar alguma coisa ou alguém que o tirasse daquela situação o mais rápido possível. Aquela era a única coisa que se passava em sua mente naquele momento, queria que alguém surgisse naquele momento e segurasse sua mão.

“Alguém... Por favor...”.

Fim da lembrança

Sentiu um toque familiar em uma de suas mãos que o fizeram acordar para a realidade, exaltando-se levemente.

— Aconteceu alguma coisa, Levi? — Ouviu a conhecida voz do amigo perguntar, voltando então sua atenção para o mesmo, que segurava sua mão firmemente. — Você está mais pálido que o normal.

O capitão piscou algumas vezes, finalmente se lembrando dos acontecimentos recentes e percebendo apenas naquele momento que sua visão ainda não havia melhorado.

— Está tudo bem. — respondeu apenas, afastando a mão do ruivo discretamente antes de fechar os olhos e suspirar pesado. Por que aquelas lembranças tinham que surgir em sua mente naquele momento? — Foi apenas um devaneio.

— Capitão Rivaille, quando disse que estava inválido, o que realmente queria dizer? – Ouviu a voz do Marechal de fazer presente, voltando então a atenção para o mesmo.

— Parece que minha visão não está muito boa no momento, senhor. — respondeu apenas, logo voltando a atenção para o cenário embaçado à sua frente. — Talvez ocasionado por conta do estresse.

Aquela resposta pareceu ser o suficiente para o Zackly, visto que o mesmo assentira antes de voltar a própria atenção para o cenário caótico à sua frente, focando-se principalmente na forma como o jovem Jaeger se saía em meio àquela situação, percebendo uma preocupação fora do normal com o adolescente que estava nas mãos da titã fêmea, o que o intrigava de certa forma.

Além disso, tal comentário atraiu a atenção de Hannes, visto que jamais encontrara aquele homem naquela situação e mal conseguia imaginar como isso poderia proceder de alguma forma. Era deveras estranho, até mesmo para o pior nível de estresse, que aquele tipo de coisa acontecesse.

Todavia, os ali presentes foram retirados de seus devaneios por uma cena nem um pouco agradável que fez com que Elaijia se exaltasse levemente por não esperar que aquilo acontecesse.

— Isso não é bom. — O ruivo comentou, rapidamente preparando as lâminas e checando a quantidade de gás que ainda possuía.

— O que aconteceu? – Levi perguntou, atraindo a atenção dos acinzentados do amigo, que apenas suspirou pesadamente.

— É melhor que venha comigo, Levi. – disse apenas em um tom que desagradou em demasia o capitão.

O homem de baixa estatura franziu o cenho, rapidamente checando e fazendo os devidos reparos em seu equipamento enquanto tentava equilibrar-se após uma violenta vibração contra aquela parede, que resultou em alguns comentários surpresos.

[...]

Precisava ajudar Irwin a tirar Armin daquela situação o mais rápido possível. Temia o que poderia acontecer com o amigo e irmão no qual possuía tamanha afeição e observar a maneira como o mesmo parecia assustado nas mãos daquela titã não ajudava em nada para que se acalmasse. E, para completar, mal sabia como manusear o dispositivo que estava usando pela primeira vez. Por sorte havia conseguido ajudar seu superior, porém, não poderia contar com isso naquela situação.

Eren então suspirou pesadamente, mordendo o interior da boca enquanto tentava pensar em alguma coisa. Por mais que agora poderia ter a visão como uma vantagem, não se sentia completamente seguro por conta dos anos em que passou sem enxergar um feixe de luz sequer. A única diferença era que agora poderia prever os ataques que se seguiam. Continuava indefeso de resto.

Os cabos do DMT se moveram outra vez e, com o auxílio do gás, conseguiu pousar rolando sobre o telhado de uma das construções da base de Rose. No entanto, fora obrigado a se mover outra vez pelo ataque que lhe era dirigido.

— Droga... Desse jeito não consigo pensar em nada! — lamentou-se. Mesmo com o auxílio de Irwin, que servia como uma espécie de distração, aquela anomalia tentava golpeá-lo.

No entanto, naquele momento de distração, o jovem Jaeger não percebera outro golpe se aproximando. O punho fechado da titã estava perigosamente próximo de seu corpo quando sentiu que alguém o agarrava pela cintura, erguendo-o graciosamente no ar. Surpreso e por conta da semelhança dos fatos, imaginou que fosse Levi quem o estivesse ajudando. Entretanto, surpreendeu-se ainda mais quando os esmeraldinos encontraram os fios negros esvoaçantes e os olhos rasgados da irmã, que segurava-o com uma força, para ele, anormal para uma mulher.

— M-Mikasa? — murmurou, atraindo os olhos negros da garota para o seu rosto por alguns segundos. — O que está fazendo? É perigoso!

— Vou tirar você daqui. – disse apenas, olhando de relance para Armin na medida em que passava pelo mesmo. Queria ajuda-lo, porém, precisava deixar o irmão em um lugar seguro.

— Não! – Eren retrucou, levando ambas as mãos até os ombros da asiática. – Deixe-me e vá ajudar Armin!

— Eren-

— Ele pode morrer, Mikasa! – interrompeu, sentindo quando a garota pousava sobre outra superfície e finalmente o colocava no chão outra vez.

— Preciso encontrar um lugar seguro para você primeiro e-

— Um lugar seguro?! – exclamou, incrédulo. – Por favor, olhe em volta! Isso está um caos, não existe um lugar seguro! Muitos soldados morreram e isso irá continuar se não fizermos alguma coisa!

A morena piscou os olhos algumas vezes com aquilo, mordendo levemente o lábio inferior ao mesmo tempo em que seus olhos percorriam aquele cenário terrível. Conseguia enxergar o titã encouraçado avançando rapidamente para o interior da densa floresta que levava ao distrito de Klorva enquanto alguns soldados, incluindo Christa, Jean e Connie, tentavam detê-lo antes que isso acontecesse. No entanto, não era aquilo que a surpreendera, mas sim o fato do irmão que, até o momento, pensava não poder enxergar, estar falando sobre aquele tipo de coisa.

— Eren, você está enxergando novamente? – quis saber, percebendo como o moreno estava irritado com tamanha indiferença.

— Mikasa, por favor, escute. – disse após suspirar outra vez, levando ambas as mãos até os ombros da asiática, olhando fixamente para os orbes negros da outra. – Eu não sei usar o DMT, o heichou não conseguiu me ensinar a tempo antes de voltarmos. Sou um completo inútil, mas você não é, Mikasa. Segundo Armin você é uma das melhores lutadoras daqui e consegue manusear o dispositivo com perfeição. – Fez uma pausa, voltando os esmeraldinos para Armin por alguns segundos. – Por favor Mikasa, faça uso dessas habilidades para salvá-lo! Irwin não conseguirá sozinho! Eu posso servir como distração, mas você não pode falhar em tirá-lo de lá!

A Ackerman fechou ambas as mãos em punho. Sabia que o irmão estava certo, porém, receava que o mesmo que acontecera em Trost há alguns meses voltasse a acontecer caso concordasse com aquilo.

— Da última vez que me pediu algo assim, você foi devorado por um titã. – respondeu e então Eren arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvira dos lábios da morena.

— Você ouviu o que acabou de dizer? – perguntou, elevando o tom de voz mais do que o normal. – Estamos falando de Armin Arlert, nosso amigo de infância e irmão! Não podemos abandoná-lo Mikasa!

— Daquela vez também falávamos de pessoas importantes, Eren. – retrucou, suspirando levemente antes de olhar preocupada para o Jaeger. – Mas você é mais importante para mim do que qualquer outro, por isso tenho que te proteger em primeiro lugar.

O rapaz de pele bronzeada sentiu um aperto no peito após aquelas palavras, seguido por um gosto amargo que de repente se formava em seu paladar. Não conseguia entender a forma de pensar da irmã naquela situação. Além disso, a maneira como aquelas palavras foram ditas foram mais do que suficiente para que entendesse que a asiática o considerava fraco ao ponto de não conseguir lutar sozinho.

Por um lado sabia que Mikasa estava certa, no entanto, focar-se nisso e ignorar o perigo iminente de alguém tão querido era algo tão egoísta e sem escrúpulos que não conseguiu simplesmente conter as lágrimas que se seguiram e passaram a escorrer finas em seu rosto. Estava decepcionado com aquilo ao ponto de sentir os ombros mais pesados.

— Não sabia que seus princípios eram tão... Fúteis. – comentou por fim, desanimado, o que surpreendeu a asiática, visto que Eren referia-se a si próprio como alguém frívolo. – Penso que não esteja considerando o bem estar dos demais, mas o seu próprio e isso é terrível. – Suspirou uma outra vez, abaixando o olhar enquanto pensava nas palavras que diria a seguir. – Eu sei que sou uma pessoa vulnerável e que não passo de um peso morto para a tropa de exploração, porém, não vou ficar parado observando as coisas acontecerem. Eu quero ajudar, e se conseguir fazer algo que mude, nem se for um pouco, o destino da humanidade, ficarei satisfeito.

Eren então segurou melhor suas lâminas, afastando-se do corpo estático da Ackerman, que o observava com um misto de sentimentos que não sabia como descrever ao certo. Por que Eren estava agindo daquela forma? Apenas queria protegê-lo antes de tudo, isso era errado?

Em um ato de reflexo, segurou sobre o pulso do irmão com força antes que o mesmo partisse na direção da titã fêmea de forma suicida outra vez. Este que se virou minimamente e, em silêncio, aguardava que a outra se pronunciasse.

— O que você vai fazer? – perguntou, observando Eren franzir o cenho outra vez.

— Vou ajudar o meu amigo. – respondeu, puxando o braço de forma brusca de volta. – Alguém precisa fazer alguma coisa e, além disso... – Os esmeraldinos se voltaram para o corredor onde há momentos atrás havia deixado Rivaille, que parecia desnorteado com algo. – Estou sendo observado. Não posso ficar simplesmente parado.

— Não vou deixar que você se mate, Eren! – A morena exclamou, perdendo a postura, o que chamou a atenção do jovem Jaeger novamente. – Isso é loucura! Você não vai conseguir sozinho, mal sabe usar o DMT ou as lâminas.

O moreno crispou os lábios.

— Não tenho escolha, tenho? – alfinetou, fungando antes de limpar o rosto com o dorso da mão e pular do telhado onde se encontrava.

Antes de acionar os cabos, conseguiu ouvir os chamados preocupados de Mikasa que, provavelmente, segui-lo-ia assim que se reaproximasse da titã. Sabia que aquilo seria uma vantagem, tanto para si quanto para Irwin. Todavia, depois daquela conversa decepcionante, não esperava que a irmã o fizesse porque suas palavras a atingiram de certa forma.

No entanto, Eren não percebeu quando Mikasa parou de chamar de repente. A asiática congelou ao mesmo tempo em que seus olhos se arregalaram com a visão que lhe era oferecida naquele momento. Não sabia dizer se aquilo era uma alucinação ou se mais alguém conseguia enxergar aquilo, mas algo emanava do corpo do jovem Jaeger e que era quase impossível não perceber. Um brilho com um misto de cores fantásticos, como o espelhar de um cristal que parecia se concentrar, principalmente, em suas costas, onde o brasão da tropa de exploração deveria se encontrar.

Moldando-se como se fosse um par de asas cristalinas.

[...]

Havia perdido as contas das vezes em que implorara para que o homem à sua frente desistisse daquilo e fosse ajudar os outros soldados e, principalmente, certificar-se de que Levi estivesse bem. Não aguentava ver o desespero do homem loiro à sua frente, que lutava bravamente, golpeando em vão o braço daquela anomalia. Aquelas eram suas últimas lâminas e temia que elas se partissem à qualquer momento, deixando seu superior completamente vulnerável.

— Irwin... Por favor... – murmurou outra vez, a voz embargada pelo choro excessivo. – Você precisa ir...

E, como das outras vezes em que tentou, o homem simplesmente ignorou seu pedido e continuou investindo contra a titã, esbravejando xingamentos sempre que a mesma se esquivava ou que falhava em seus golpes. Além disso, estava começando a se cansar e seus músculos começavam a latejar em seu limite. Todavia, não poderia deixar o garoto naquela situação, precisava salvá-lo à todo custo.

Tentou golpeá-la outra vez no momento em que pousara sobre a nuca da mesma, girando o corpo e impulsionando-o contra o ponto que sabia que seria letal para a anomalia. Entretanto, não esperava que as únicas lâminas que lhe sobraram se partissem com aquele golpe.

Os azulados se arregalaram ao mesmo tempo em que foram voltados para Armin, que se debatia e berrava para que usasse o que lhe havia sobrado do gás para sair dali o quanto antes. Mas ao invés de se moverem, suas pernas amoleceram, fazendo com que caísse de joelhos sobre os ombros da titã fêmea. Estava desamparado, havia falhado em proteger a pessoa que amava e agora a veria morrer... Não foi para isso que havia entrado para a tropa de exploração. Tudo o que queria era salvar as pessoas daquele destino cruel na qual estavam destinadas desde o momento em que foram trancafiadas no interior daquelas muralhas. No entanto, não conseguia nem menos salvar a pessoa mais importante para si.

Irwin então sorriu, suspirando pesadamente antes de encontrar os azulados de Armin outra vez, que não parava de gritar por si em momento algum. Lembrava-se do exato momento em que o garoto ingressara à tropa de exploração. A ameaça parecia tão distante naquela época e o triunfo da humanidade algo tão palpável... Quando as coisas mudaram?

O comandante percebeu quando a titã se movimentou para golpeá-lo novamente, decidindo por não fazer nada para impedir. O que mais poderia fazer? Mesmo se usasse o DMT, não seria o suficiente para uma esquivada rápida. Ao que tudo indicaria, apenas iria adiar o inevitável. Irwin então suspirou pesadamente antes de fechar os olhos.

Foi quando ouviu um barulho estranho perigosamente próximo à si e quando abriu os olhos outra vez, apenas conseguiu ver o tinir de uma lâmina antes de ter a cintura agarrada por um braço forte, que rapidamente o içava daquele local. Os azulados, antes perdidos, focaram-se então na cabeleira ruiva daquele que o segurava naquele momento, surpreendendo-se por se tratar de Elaijia Savage. Imediatamente em seguida voltou sua atenção para a titã outra vez, sorrindo de canto ao perceber que seu capitão finalmente entrara em ação, movimentando-se rápida e graciosamente enquanto golpeava a titã em tal velocidade que a mesma não conseguia adivinhar onde o próximo golpe a atingiria para que pudesse se defender. Ao mesmo tempo, conseguiu visualizar o corpo de Eren aproximando-se rapidamente da titã. Aquilo o preocupou inicialmente, entretanto, surpreendeu-se quando o mesmo se impulsionou alto o suficiente para que os cabos do equipamento fossem voltados para os olhos daquela anomalia, exatamente como fizera quando voltava do treinamento.

Irwin então suspirou aliviado.

— Graças à Deus... – murmurou, sentindo quando o corpo fora lançado para um lugar que identificara como sendo um antigo corredor. O comandante rapidamente se recompôs, ignorando as dores musculares antes de voltar os azulados para o homem ruivo à sua frente, que levava ambas as mãos à cintura. – Obrigado Savage, irei recarregar meu dispositivo e logo voltarei para ajuda-los.

O comandante da Polícia Militar crispou os lábios, desdenhoso.

— Não vai conseguir fazer nada nesse estado, comandante. – disse, cruzando os braços. – Seus soldados estão completamente perdidos. Precisa ordenar alguma coisa rápido.

O loiro trincou os dentes, tentando esconder o quanto aquilo lhe soou desconfortável. No entanto, por mais que detestasse admitir, sabia que o outro estava certo e, ao voltar o olhar para o cenário caótico à sua volta, precisou engolir em seco antes de murmurar qualquer coisa.

— Tem noção do número de baixas? – perguntou e então Elaijia relaxou os ombros, também suspirando pesado.

— Muitos morreram apenas com a aparição dos titãs. – respondeu, voltando os acinzentados para fora. – A grande maioria deve ter morrido tentando defender a base.

Mais uma vez Irwin percebera como seus objetivos não estavam sendo cumpridos. A base de Rose deveria ser um dos lugares mais seguros para os soldados, e no entanto...

O loiro fechou ambas as mãos em punho, o braço trêmulo apenas indicava o nível de nervosismo do comandante Smith. Não poderia simplesmente continuar com isso ou então a tropa seria completamente dizimada. No entanto, não conseguia encontrar muitas opções favoráveis.

Foi quando uma luz iluminou seus pensamentos, fazendo com que voltasse subitamente sua atenção para o ruivo. Não gostava nem um pouco da ideia, porém, não tinha mais opções.

— Irei precisar da sua ajuda então. – comentou e Elaijia ergueu uma de suas sobrancelhas.

[...]

Não contava com a ajuda de Eren naquele momento. Na verdade imaginou que o garoto estivesse em um lugar seguro e no fundo gostaria que realmente fosse assim. No entanto, deveria admitir que aquele golpe era o que precisava para que pudesse agir com mais rapidez e conseguisse libertar o loiro o quanto antes.

Esperando então que seu moreno conseguisse fazer uma boa aterrissagem, usou o dispositivo de manobras tridimensionais para impulsionar-se velozmente na direção da mão da titã fêmea onde se encontrava o jovem Arlert. Sua visão continuava prejudicada, o que dificultava imensamente o seu trabalho, e por conta disso precisou das instruções de Elaijia para que conseguisse golpear a titã daquela forma e retardá-la por tempo o suficiente para que conseguisse tirar Irwin dali em segurança.

Assim que se aproximou o suficiente, surpreendeu-se com o que viu. Mesmo com a visão embaçada, conseguiu distinguir o corpo caído de qualquer jeito de Armin, cujo sangue escorria torrencialmente pelos dedos da titã fêmea como se tivesse sido brutalmente esmagado por aqueles músculos gigantescos.

Levi engoliu aquilo em seco, aproximando-se e percebendo também que aquela região em específico do corpo daquela anomalia estava com a típica coloração azulada, o que impossibilitava que qualquer ataque direto surtisse algum efeito. Aquilo o fez segurar a lâmina com mais firmeza ao imaginar que o loiro provavelmente estivesse morto e que não conseguiria nem mesmo recuperar seu corpo.

No entanto, outra coisa chamou sua atenção. O barulho dos cabos da DMT o fez voltar os olhos momentaneamente para trás, pensando tratar-se de Eren. No entanto, não esperava ver a Ackerman em seu lugar que, ao pousar sobre o braço da anomalia, pôs uma carranca nem um pouco agradável.

— Ele est-

Foram interrompidos por um alto rugido vindo do fundo da garganta da titã fêmea, seguido por um balançar brusco de seu corpo que fez com que ambos de apoiassem melhor sobre seu braço. Rivaille rapidamente voltou o olhar para cima, surpreendendo-se ao encontrar Eren agarrado aos fios loiros da gigante, olhando fixamente sobre os olhos da mesma enquanto vociferava palavras desesperadas para a mesma.

Grossas lágrimas escorriam dos olhos do moreno, que ficara completamente desolado ao ver o corpo do amigo completamente ensanguentado daquela forma e seus gritos agoniados eram como navalhas que atingiam fundo o peito de Levi, que sentia pelo garoto precisar passar por aquilo.

— Largue meu amigo seu monstro! – esbravejou, o corpo trêmulo pelo nervosismo. – Largue-o!

O capitão percebeu quando a titã pareceu relaxar subitamente o olhar e mais do que depressa ativou seu DMT, impulsionando-se na direção de Eren o mais rápido que conseguia. A anomalia obedeceu àquelas ordens, porém, não da maneira como todos esperavam.

Ela então movimentou o corpo bruscamente, fazendo com que os cabos que seguravam Eren se desprendessem, fazendo com que ele caísse ao mesmo tempo em que lançara o corpo de Armin para cima, direcionando-o para sua boca, agora aberta.

Rivaille precisava pensar rápido naquele momento e como o moreno até aquele momento não havia ativado seu equipamento, resolveu dirigir-se à ele, usando abusivamente o gás para alcançar maior velocidade, conseguindo apanhá-lo pela cintura e colocá-lo de bruços em um de seus ombros. Ao perceber o garoto firme em seus braços, usou dos cabos para alcançar um ângulo diferente e conseguir contornar a titã. Caso conseguisse utilizar o mesmo caminho que havia usado quando estava o Elaijia, poderia chegar em segurança ao corredor mais uma vez.

No entanto, os acinzentados capturaram uma ação impensada da asiática, que, ao perceber que não iria ajudar Armin, rapidamente se movimentou na direção do corpo do loiro, segurando-o antes que a anomalia conseguisse engoli-lo. Aquilo o deixou momentaneamente aliviado, entretanto...

— Cuidado Mikasa! – gritou Eren, erguendo ambos os braços e debatendo-se sobre o corpo de seu superior, que também voltou a atenção para a Ackerman, que estava perigosamente próxima da boca da titã.

A morena, preocupada, tentou usar o gás para se afastar mais rápido, porém o pouco que havia saído antes de seu término não a permitiu alcançar uma distância segura. Levi ponderou em se aproximar naquele momento, no entanto, sabia que se caso o fizesse, tanto ele quanto Eren também poderiam serem mortos, e parecia que Mikasa havia pensado no mesmo, visto que sorriu cordial para o moreno antes de gritar:

— Segure, heichou!

A cena que se seguiu foi passada em câmera lenta para Eren, que assistia desesperado o corpo de Armin ser lançado em sua direção segundos antes de Mikasa ser engolida por aquela titã. Já Levi rapidamente fez uma curva, apanhando o corpo de Armin e rapidamente se dirigindo para o corredor. Nenhum deles esperava por aquilo, no entanto, o capitão mostrava-se demasiadamente preocupado com o moreno, que permanecia estagnado, olhando para um ponto fixo.

— Droga... – murmurou, pressionando o corpo de Eren com força contra o seu.

— Levi! Hey, você está bem? – Ouviu uma voz conhecida perguntar e então voltou os acinzentados para o mesmo.

— Na medida do possível Elaijia. – respondeu apenas, voltando o olhar para frente enquanto continuava a avançar.

— Irwin deu ordens para vocês recuarem. – disse por fim, atraindo novamente a atenção de Rivaille para si. – Vocês devem ir para a base da Polícia Militar central o quanto antes.

Notas finais
Nightwish - Nightwish: http://www.youtube.com/watch?v=iCieoD_jy-8 The Forever Moments: http://www.youtube.com/watch?v=q3AAd956OI0 --- Esse flashback foi proposital para criar um climinha entre o Levi e o Elaijia rs' Recebi um pedido por inbox com esse fanservice e eu, definitivamente, adorei a ideia rs' --- Gostaria de me desculpar pela demora de duas semanas em atualizar a fanfic, mas eu realmente precisei dessa pausa e me senti muito bem e renovada com isso. Consegui terminar a tela do Jimi Hendrix na qual estava trabalhando, estudei para minhas provas e agora estou pronta para minha imaginação tomar conta de mim novamente! Há um tempo que não me sinto bem comigo mesma e é excelente saber que as coisas estão se acertando com o tempo. Para quem estiver curioso, irei publicar uma foto da minha tela na minha conta do deviantart, então é só dar uma passadinha lá rs' Um aviso à quem mora no Rio de Janeiro: no dia 14 de dezembro vou estar no Anime Family, então quem estiver interessado em me conhecer ou me dar um "oi", pode dar uma passadinha por lá. Irei publicar um vídeo na minha página onde irei me apresentar à vocês então... É, quem estiver curioso já sabe rs' --- Comentários?