Wishmaster
7 Relações Ruins
Notas iniciais
O senhor que aparentava estar na casa dos sessenta anos fitava o loiro a sua frente com um olhar severo, apoiando o queixo sobre as mãos enrugadas e enegrecidas pela idade. Por mais que o outro explicasse, não conseguia entender os motivos por trás daquele pedido tão estranho e repentino. O senhor fechou os olhos por um momento, abaixando levemente a cabeça, deixando que os longos fios grisalhos lhe cobrissem parcialmente a face.
– Ainda não estou convicto. — murmurou tranquilamente, voltando a fitar o loiro por cima dos óculos de armação fina.
– Veja bem, Marechal. — tornou a dizer, endireitando a postura. — O garoto tem habilidades que se comparam a do jovem Arlert. Seria uma grande vantagem estratégica contra os titãs ter-lo na tropa de exploração.
O senhor endireitava-se sobre sua poltrona, suspirando pesadamente.
– Se me permite falar, Marechal. — O outro homem se pronunciou, atraindo os olhares dos outros dois para sua face pálida e marcada por uma grande cicatriz sobre o nariz. — Não creio que um garoto cego seria útil em campo de batalha. Seria apenas um peso morto para a tropa de exploração e apenas atrapalharia as coisas.
– Preciso concordar com Elaijia. — disse o Marechal, fitando o suave sorriso que brotava sobre os lábios do homem ruivo, cujas madeixas eram presas por um rabo de cavalo desleixado. — Se suas habilidades intelectuais são tão boas assim, deveria ingressar na Polícia Militar.
– A Polícia Militar é a elite do exército, responsável por proteger a burguesia e o rei. — O loiro interrompeu, atraindo a atenção dos outros dois para si. — Por isso, suas habilidades devem ser reservadas para algo que aconteça no interior de Sina. No entanto, as tropas estacionárias e a tropa de exploração são responsáveis pelo bem estar de toda a população em geral. Por isso, além de talentos físicos, também precisamos do intelecto para, desta forma, sermos capazes de proteger a humanidade mais uma vez.
– Não devo deixar de reforçar que os titãs foram praticamente extintos. — disse Elaijia. — Os poucos que sobraram foram os que estavam sob nossa custódia, do exército da humanidade, que se rebelaram a pouco tempo. No entanto, não vejo problema algum em contê-los com os homens que temos no momento. Creio que os argumentos que Irwin esteja usando não sejam suficientes, ou então, está escondendo alguma coisa de nós.
O ruivo voltou seus orbes acinzentados para Irwin, provocando-o, enquanto o homem apenas retribuía com um olhar sério e decidido, ato este que não passou despercebido pelo Marechal, que ouvia às duas declarações com atenção.
– Ambos os argumentos são bons. — Disse. — Mas pelo o que posso entender, vejo que a Polícia Militar não está interessada no rapaz, certo, capitão Elaijia? — O ruivo nada respondeu, fazendo o senhor voltar os olhos para Irwin. — Como o garoto se chama?
– Eren Jaeger, senhor. — respondeu prontamente e então Elaijia franziu o cenho em demasia, sentindo os olhos saltarem levemente de suas órbitas, fato que atraiu a atenção do loiro. — Algo errado Savage?
O ruivo então voltou o olhar para o capitão ao seu lado, fuzilando-o.
– Nada demais, Smith. — respondeu no mesmo tom, voltando sua atenção para o Marechal mais uma vez. — Como Irwin disse antes, senhor, a Polícia Militar é a responsável por proteger a região de Sina, onde estão todos os homens mais importantes e influentes da humanidade, além, claro, de ser o local onde a cidade subterrânea se encontra. Por este mesmo motivo, creio que nós deveriamos ser responsáveis pela posse daqueles cujo intelecto seja superior.
Tanto o Marechal quanto Irwin ergueram as sobrancelhas com tal argumento tão contraditório ao anterior. O loiro voltou sua atenção, mais uma vez, para o capitão ao seu lado, desconfiado. Até o momento, tudo o que o capitão da Polícia Militar dizia dava a entender que não estava interessado no rapaz, e parecia que o senhor de madeixas grisalhas estava a entender o mesmo.
– Continue. — pediu o Marechal.
– Digamos que a Polícia Militar esteja com baixas, tratando-se de estrategistas. — explicou. — Enquanto que a tropa de exploração possui o cabo Rivaille, o soldado Arlert e até o próprio Irwin. — O loiro fechou uma das mãos em punho. — No momento, nossos soldados não têm um plano de treinamento eficiente a seguir, e levando em conta a atual situação, devemos estar preparados. Todos nós.
O Marechal tornou a fechar os olhos, ponderando sobre aquele perfeito argumento. Realmente deveria concordar com todas as questões que Elaijia levantara naquele momento. Como sendo o responsável por todas as tropas, deveria ponderar todas as possíveis condições para aprimoramento por igual, sem precisar prejudicar uma e favorecer outra.
– Senhor, ainda não terminei. — disse Irwin, atraindo a atenção do Marechal e de Elaijia. — Devo dizer que também concordo com o capitão Savage e que sei como o senhor não quer prejudicar nenhuma tropa. Mas a tropa de exploração se encontra em uma situação complicada que nem mesmo o Arlert conseguiria resolver. E por causa desse garoto, conseguiremos ter pelo menos uma chance de superar essa "crise" e, talvez até mesmo, aniquilarmos todos os titãs do mundo.
Irwin conseguiu perceber um brilho diferente se formando sobre os olhos tom ônix de seu superior, julgando ter conseguido tocar em um assunto que realmente lhe interessara.
– Continue. — pediu e então o loiro apontou para um pequeno aglomerado de papéis que se encontravam sobre a mesa de seu superior.
– Aqui está o relatório de uma semana atrás, do incidente em Trost. — continuou. — Sugiro que o senhor leia com calma, porém, queria adiantar no terceiro parágrafo da página treze está redigido o que o senhor precisa saber para concluir, temporariamente, esta conversa.
[...]
O garoto caminhava de braços dados com a irmã, que apresentava-lhe todo o local ao mesmo tempo em que prestava atenção na maneira como o rapaz contava os passos cada vez que chegava em um lugar diferente. Sempre se surpreendia pela capacidade de memorização invejável do irmão. No entanto, ao mesmo tempo em que caminhavam e conseguia manter uma conversa relativamente saudável, sentiam-se levemente incomodados pelos outros soldados que cruzavam com os dois e lançavam-lhes comentários preconceituosos.
O moreno, por mais que tentasse não demonstrar o quanto se sentia incomodado, não conseguia simplesmente deixar o semblante melancólico que adornava-lhe a face. Já havia sido apresentado como um soldado oficial da tropa de exploração, mais especificamente, como membro do Esquadrão Rivaille, o que dava certo status ao seu posto. Mas nem mesmo isso fazia com que o jovem de pele bronzeada deixasse a triste expressão do rosto.
– Eren. — A garota asiática chamou, parando de caminhar e logo puxando o braço do jovem Jaeger, para que este também parasse. — O que está acontecendo?
– Nada Mikasa. — respondeu direto, ouvindo a irmã pigarrear levemente. — É só que... Eu não deveria estar aqui.
A jovem Ackerman ergueu uma sobrancelha, voltando a caminhar e guiando seu irmão até um local aberto da base, onde poderiam sentar-se e conversar mais à vontade.
– Eren, era o seu sonho estar na tropa de exploração, certo? — O moreno assentiu, olhando ainda fixamente para frente. — Qual o problema?
– Eles não me querem aqui. Sou apenas mais um inútil. — disse por fim, sentindo a irmã auxiliá-lo quando resolveu sentar-se sobre o gramado. — Além disso... Estou com um mal pressentimento...
– Acha que o capitão Irwin não vai conseguir convencer o Marechal? — perguntou, fitando a resposta negativa que Eren fazia com a cabeça.
– Eu não deveria estar aqui. — repediu, levando a mão direita até o peito, sentindo o ritmo das batidas de seu coração se descompassarem por breves momentos. — Algo me diz que eu não deveria estar aqui. É estranho, mas é como se esse ambiente estivesse me expulsando, como se eu fosse um ser estranho que não deveria fazer parte deste cenário...
Acabou por perder-se em devaneios enquanto desabafava com a irmã. Aprendeu desde pequeno a sempre ouvir seus instintos, e como naquele momento estava tentando ignorar todos eles, sentia algo parecido como uma pequena crise de asma, como se algo o estivesse sufocando. Balançou a cabeça quando percebeu que estava devaneando, voltando-se para a irmã.
– Desculpe, devo estar te assustando com esses assuntos. — completou, sorrindo-lhe cordial. Mikasa apenas observou aquilo de relance, voltando os olhos rasgados para um ponto qualquer daquela bela paisagem colorida que contrastava com o céu diurno de Julho. Nunca conseguiria entender os pensamentos de Eren e em como ele chegava a conclusões tão estranhas em seu ponto de vista.
Abaixou levemente o olhar, sentindo a brisa agradável que percorria aquele local balançar graciosamente seus fios negros. O tempo em que estivera fora junto com Armin foram os mais longos de sua vida, afinal, não conseguia deixar de pensar no bem estar de Eren e em como o rapaz conseguiria viver sozinho. Aliviou-se apenas quando ouviu dos lábios da própria senhora Lockwood que cuidaria do rapaz enquanto estivessem fora.
A jovem Ackerman fechava ambas as mãos em punhos, em seguida suspirando pesadamente. Sentiu muito quando o irmão lhe contara sobre a morte da senhora que tanto admirava e que os ajudaram por tanto tempo. Lembrava-se da primeira vez que a mulher se ofereceu para ajudá-los, no dia seguinte logo após mais uma das incontáveis patrulhas da Polícia Militar, quando o avô de Armin, senhor Arlert, fora morto pelos oficiais.
Desfez os punhos, relaxando mais o corpo enquanto tentava concentrar-se em outras coisas, como, por exemplo, o fato de Eren conhecer o cabo Levi ao ponto do mesmo se arriscar daquela forma para salvá-lo. Mikasa mordeu levemente a língua, não gostava de seu superior. Talvez fosse pela sua personalidade arrogante, indiferente e prepotente.
– Como conheceu o heichou? — quis saber, quebrando aquele silêncio agradável.
– Hm? — murmurou surpreso, levantando levemente a cabeça para com a pergunta. — Rivaille heichou? — quis saber e ouviu a resposta positiva da irmã, que observava-o atentamente enquanto um sorriso bobo se formava sobre os lábios do moreno. — Ele me ajudou naquele dia em que nos encontramos, quando você me deu o dinheiro para as compras. — explicou. — Tentaram me assaltar e ele me ajudou. Conversamos sempre que nos encontramos desde então.
A asiática franziu o cenho, surpreendendo-se pela afirmação do outro. Nunca imaginaria seu superior agindo de tal forma e ficava levemente feliz em saber que, talvez, sua interpretação sobre a índole do cabo estivesse errada. Permitiu-se fechar os olhos por breves momentos, enquanto deitava a cabeça sobre o ombro do moreno, que também deitava a cabeça sobre a da irmã, assim relaxando.
Eren permanecia pensando em silêncio, lembrando-se do que Rivaille lhe dissera no dia anterior, quando jantaram juntos, sobre como deveria se portar e como seria o método de treinamento especial que receberia. Desde o momento em que fora apresentado como membro oficial da tropa de exploração, já sabia que receberia treinamentos de defesa pessoal básicos, no entanto, não esperava que o cabo também lhe ensinaria os métodos avançados que todos os soltados ali dominavam perfeitamente. Isso o surpreendeu de certa forma, ao mesmo tempo em que o deixara curioso.
– Mikasa... — chamou a irmã, que levantou a cabeça para fitar o moreno. No entanto, não conseguia completar a frase ao ouvir uma voz feminina chamando-lhe. — Quem é?
– Petra. — respondeu simplesmente, acenando para que a mulher se aproximasse.
– Vamos! — disse a mulher assim que se aproximava o suficiente. — Seu uniforme chegou Eren!
[...]
O Marechal corria os olhos sobre aquele pedaço de papel, surpreendendo-se com o que ali se encontrava. Vez ou outra voltava os olhos para Irwin, com um sorriso que demonstrava o quanto aquilo que ali estava escrito era absurdamente inusitado e a prova de falhas. O loiro apenas aguardava ansioso o término da leitura, enquanto Elaijia continha a vontade de arrancar aqueles papéis das mãos do Marechal e ler seu conteúdo.
Naquele parágrafo em específico, Irwin deixava claro o que havia acontecido em Trost, incluindo a forma como o jovem Jaeger conseguiu controlar os titãs e em como seus dois membros perdidos se regeneraram perfeitamente. Além, é claro, das estratégias que havia desenvolvido usando o garoto como pivô. Todas aquelas informações, incluindo o pedido de sigilo total que estava grifado na última linha daquele parágrafo, pareciam estar agradando em demasia seu superior, que ao final da leitura, já parecia ter se decidido.
Elaijia observou o Marechal fechar o relatório e colocá-lo ao seu lado direito antes de cruzar ambas as mãos e voltar sua atenção para os dois. Ambos os capitães endireitaram a postura, aguardando a decisão de seu superior, que estava a dramatizar demais aquela situação.
– Creio que também tenha pensado na margem de erro Irwin. — comentou, observando o outro assentir.
– Sim, senhor. — respondeu firme. — Tudo o que está aí relatado também tem a sua margem de erro, que poderá ser fácilmente contornável. Tudo está explicado neste relatório senhor.
– Certamente. — concordou, fechando os olhos e encostando-se melhor sobre sua poltrona, relaxando. — Até que eu diga o contrário, Eren Jaeger é responsabilidade da tropa de exploração. Principalmente do cabo Rivaille, que terá sua guarda sob custódia. — completou. — Este documento ainda será decentemente analisado, e somente após isso darei minha decisão final.
Irwin fechou os olhos e suspirou aliviado, enquanto Elaijia semicerrava os olhos, visivelmente insatisfeito com aquela decisão.
– Obrigado senhor. — disse o comandante da tropa de exploração.
– Podem se retirar. — deu a permissão, observando os dois homens cumprimentá-lo com a saudação do exército antes de virarem as costas. O Marechal se permitiu olhar fixamente para o símbolo do cavalo esverdeado da Polícia Militar estampado nas costas do capitão Savage, perdendo-se em devaneios.
–
Assim que Elaijia fechava a porta atrás de si voltava os olhos para Irwin, que fitava-o com os braços cruzados. O capitão da Polícia Militar fitava o loiro com os olhos ainda semicerrados, demonstrando sua insatisfação quanto à recente decisão do Marechal. No entanto, não conseguia deixar de sorrir em escárnio para o homem à sua frente.
– Parece que conseguiu convencê-lo momentaneamente, Smith. — provocou, cruzando os braços enquanto encostava-se em uma parede próxima, fitando o homem da mesma altura que a sua.
– Não subestime a minha lábia, Savage. — respondeu no mesmo tom de escárnio do outro, fazendo-o rir.
– Sinto que escondeu alguma coisa do Marechal. — alfinetou, observando o outro rolar levemente os olhos. — Estou certo?
– Interprete como quiser. — respondeu por fim, dando as costas para o capitão. — Já você pareceu interessado demais no Eren depois de ouvir seu nome. Algum motivo em especial?
Elaijia riu nasalmente, começando a caminhar em passos lentos, aproximando-se do loiro e passando direto pelo mesmo.
– Já foi à igreja alguma vez, Irwin? — perguntou, sem deixar de caminhar. Levou uma das mãos até os longos fios ruivos, puxando alguns fios soltos de seu rabo de cavalo. — Tem muita coisa interessante por lá.
– O que quer dizer? — perguntou, levantando os olhos a fim de fitar as costas de Elaijia, que já se encontrava a certa distância. O ruivo apenas riu, virando um corredor à esquerda e sumindo do campo de visão de Irwin.
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