Wishmaster
8 Desencadeando o Divino
Notas iniciais
Bebericou mais uma vez o líquido da pequena xícara que lhe era oferecida, sem desviar os orbes acinzentados do homem à sua frente, que o fitava com certa curiosidade. Não havia sido chamado pelo comandante da Polícia Militar para simplesmente conversarem inutilidades do cotidiano e sabia disso, o que apenas aumentava ainda mais suas dúvidas sobre o motivo daquele chamado repentino. O ruivo cruzou as pernas, fechando os olhos por um breve momento.
– Que tal começarmos logo o assunto? — O ruivo sugeriu, sorrindo desdenhoso à sua maneira.
O comandante suspirou, crispando os lábios antes de voltar os olhos violeta para o pseudo subordinado. Por mais que gostasse do amigo ruivo, tinha dúvidas sobre como agir perante sua personalidade relativamente duvidosa.
– Eu não estou satisfeito Elaijia. — começou sem rodeios, levando uma das mãos até suas madeixas albinas, acariciando-as. — Daquela patrulha em Trost, digo. — Observou o ruivo erguer uma sobrancelha, cruzando os braços em seguida. — Eu não acho aquilo certo. Tem certeza que essa é a única solução?
O capitão Savage sorriu crápula, deixando seus dentes perfeitamente alinhados à mostra antes de soltar uma leve risada gutural, enquanto o capitão a sua frente o fitava receoso.
– Não acredito que está duvidando de minhas decisões. — comentou o ruivo, ainda rindo nasalmente ao se pronunciar. — Ah, James... Se você não gostava era só ter falado. Poderia muito bem ter arrumado um jeito de ter feito aquilo sem que você soubesse. — Voltou os olhos acinzentados para o albino, que se encontrava extremamente encabulado com aquela situação. Elaijia apoiou o cotovelo direito sobre o braço da poltrona onde se encontrava sentado, apoiando em seguida o queixo sobre a palma da mão erguida. — Não temos muitas opções, certo? — continuou. — A população de Trost está crescendo em um nível muito rápido, em breve as poucas cidades que sobraram não darão vazão para a quantidade de pessoas.
– Mas o plano era apenas eliminarmos o povo de Shinganshina que veio para cá nos últimos anos. — James cortou, trincando os dentes ao perceber o ruivo dar de ombros.
– Imprevistos acontecem. — respondeu simplesmente, movendo-se mais uma vez sobre a grande poltrona. — Deveria estar contente por aqueles titãs terem feito nosso trabalho dos próximos dois meses. Não sei do que está reclamando.
– Elaijia, você não existe. — O comandante riu, balançando negativamente a cabeça enquanto crucificava-se mentalmente por ser tão fácilmente manipulável. — Você praticamente toma todas as decisões dentro da Polícia Militar. Estou começando a achar que você deveria ser o comandante no meu lugar.
O capitão Savage olhou rapidamente para James com um brilho diferenciado no olhar. Parecia que estava começando a entender para onde aquela conversa estaria rumando e caso seu pensamento estivesse correto...
– É mesmo? — Sorriu em devassidão mais uma vez, franzindo o cenho. — Diga-me, não pensa assim apenas por causa das minhas decisões.
James deu de ombros.
– Você é um líder muito melhor que eu. — respondeu simplesmente.
– Então você renunciaria por mim? — perguntou, arregalando levemente os olhos em expectativa enquanto o sorriso em sua face apenas aumentava, dando ao ruivo um ar excêntrico levemente assustador que o albino pareceu ignorar.
– Claro. — respondeu e Elaijia precisou fazer um esforço descomunal para não comemorar naquele momento. As coisas estavam tomando o rumo que planejara há anos atrás e se continuasse assim, conseguiria alcançar seu objetivo.
No entanto, ainda precisava da ajuda de um descendente de certa família importante que se encontrava no exército a tanto tempo quando ele, o que parecia ser um problema, visto como era conhecido por sua personalidade. O ruivo então voltou-se para o "amigo" albino, levantando-se daquela confortável poltrona e anunciando sua saída.
Já no corredor, Savage escondeu os lábios com uma das mãos tentando disfarçar o sorriso telhudo que insistia em lhe adornar a face, o que não era tarefa fácil, visto que estava estampado em sua face o quanto estava feliz com aquilo. Saber que estava conseguindo caminhar, mesmo que lentamente, poderia ser considerado uma grande vitória pessoal.
Porém, existia apenas uma coisa que o impedia de ser feliz por completo e conseguir seguir com o plano com mais liberdade e isso o irritava levemente. Pensava que teria se livrado daquela família há dez anos atrás e no entanto, um sobrevivente voltava para assombrá-lo. Na medida em que caminhava rumo ao seu quarto, trincou os dentes. Rezava para que aquele garoto não cruzasse o destino de seu futuro ajudante mais uma vez. Estava se cansando de ver a história se repetir milênio após milênio.
[...]
Sentiu as costas se chocarem contra a superfície gélida daquela parede, o que lhe causara leves arrepios. Não conseguia enxergar devido às madeixas claras que caíam sobre seus olhos claros e não se importou muito com isso no momento. Estava mais preocupado em saber como a irmã asiática ficaria quando descobrisse os métodos de treinamento que foram adaptados à Eren. Provavelmente o irmão estaria treinando naquele exato momento e caso a garota, porventura, acabasse por presenciar tais métodos sem ser avisada anteriormente, cometeria um homicídio. Temia por isso.
Continuou a correr, atravessando pela quinta vez o corredor ao lado do campo de treinamento da tropa de exploração, olhando para todas as direções ao mesmo tempo à procura de alguma cabeleira negra. Pode ver, pela visão periférica, quando o amigo de olhos esmeraldinos recebia um chute nem um pouco carinhoso no estômago — cortesia do cabo Levi Rivaille — que acabava por levar o moreno de encontro ao chão. O rapaz loiro suspirou, sentia pelo irmão ter como treinador alguém como o cabo. No entanto, sua respiração fora bruscamente cortada ao perceber que Mikasa Ackerman, com ambas as mãos fechadas em punho, estava a fitar a cena que se desenrolava logo abaixo dos dois com um olhar nem um pouco amigável.
Cogitou a hipótese de dizer algo à irmã antes que fosse tarde, mas visto seu estado visivelmente alterado, optou por simplesmente tentar afastá-la daquele local o mais rápido possível antes que a mesma cometesse alguma loucura.
–
O moreno caía mais uma vez, rapidamente levantando o rosto com os olhos arregalados antes de sentir o forte golpe em sua cabeça, fazendo-a se encontrar com o chão mais uma vez. Respirava de maneira ofegante enquanto sentia o sangue escorrer pelas laterais de seu rosto jovial e a pressão que a bota do cabo fazia contra sua cabeça. Nunca poderia ter imaginado o que estaria por vir quando o capitão Irwin o alertara de que teria um treinamento diferenciado dos demais soldados. Suspirou, levemente aliviado quando o homem se afastava de seu corpo, dando espaço para que ainda pudesse levantar com alguma dignidade. Porém, o cabo não estava satisfeito com o desempenho do garoto e, trincando os dentes, disse:
– Isso é tudo o que você consegue fazer, pirralho? — perguntou em seu tom indiferente de sempre. — Tsc. Francamente, é apenas mais um inútil.
O moreno engoliu aquelas palavras, sentindo as pernas fraquejarem levemente.
– É... A primeira vez que... Faço algo assim... Heichou... — disse ofegante, levando ambas as mãos até os joelhos, apoiando-as, enquanto tentava recuperar o fôlego.
– Já treinei pessoas menos inúteis que você. — devolveu, cruzando os braços. — Incluindo deficientes. Então, não use isso como desculpa. — E então o moreno era surpreendido por outro golpe, dessa vez em seu rosto, fazendo-o dar alguns passos para trás. — Um bom soldado não precisa de olhos para enxergar. — Levi movimentou o corpo mais uma vez, usando do punho para desferir outro golpe na barriga do garoto, fazendo-o abrir a boca pela perda momentânea de ar e o obrigando a arquear levemente o corpo. — Um bom soldado não precisa de braços e pernas para se defender. — Movimentando-se mais uma vez até ficar atrás do moreno, o cabo usava o cotovelo contra sua coluna e chutava as costas de um de seus joelhos, obrigando o rapaz a ajoelhar-se bruscamente enquanto o mesmo grunhia em dor. — Não importa o nível de sua fraqueza, um bom soldado é capaz de superá-la e fazer dela a essência de sua força.
Decidiu esperar alguns segundos, queria ver a reação de Eren. Sabia que estava sendo rígido demais com o garoto, porém, não deveria simplesmente facilitar apenas por se sentir confortável perto do jovem Jaeger. Era sua função treiná-lo e deixá-lo apto para apresentar suas habilidades ao Marechal, caso fosse necessário. Além disso, não poderia garantir que o protegeria a todo o momento e a prova disso era o ocorrido em Trost. Não poderia simplesmente deixá-lo vulnerável e para que o plano de Irwin fosse posto em prática, precisavam do garoto vivo.
Rivaille voltou o olhar para cima, percebendo uma estranha movimentação no corredor da base logo acima daquele campo de treinamento, avistando o jovem Arlert segurando a asiática Ackerman pelos braços, provavelmente tentando impedi-la de descer até o campo. O homem de baixa estatura suspirou, voltando o olhar para seu subordinado.
– Seus irmãos estão nos observando. — comentou, percebendo como o corpo do outro se tencionava. — Vai permitir que o vejam nessa situação tão deplorável?
Eren arregalou os olhos por um momento, sem saber o que fazer. Não queria que Armin e Mikasa o vissem naquele estado. Sentia o corpo completamente banhado em suor e sabia que a poeira da terra estava provavelmente impregnada em sua pele, além, é claro, do líquido escarlate que insistia em escorrer por todas as feridas abertas em seu corpo. Por mais que lhe dissessem que possuía possíveis poderes de regeneração, não conseguia acreditar e mesmo que acreditasse, as feridas estavam demorando a cicatrizar em demasia.
Fechou os olhos, lembrando-se do que o cabo lhe dissera logo no início do treinamento. "Aprenda a ouvir", era mais fácil falar do que fazer na realidade, porém, decidiu acatar ao conselho de seu superior. Logo em seguida sentiu um golpe em seu queixo, de baixo para cima, fazendo seu corpo tombar para trás e antes que pudesse ter qualquer outra reação, sentiu outro golpe em suas costas que o lançara para frente outra vez, apenas não encontrou o chão pois espalmou ambas as mãos sobre o mesmo, evitando assim a aparente queda. Eren trincou os dentes, estava se cansando de apenas apanhar.
Foi então que algo como um clarão acinzentado apareceu a sua frente, obrigando-o a franzir o cenho. Em seguida conseguiu visualizar algo que se assemelhava à um borrão preto ao seu lado esquerdo e como num instinto, ergueu o braço da mesma direção evitando, para sua surpresa e para a de Levi, um golpe que iria de encontro à sua cabeça. Eren arregalou os olhos, surpreso, aproveitando aquela oportunidade para agarrar o tornozelo do cabo com ambas as mãos e puxá-lo, desequilibrando-o momentaneamente até que pudesse esticar uma das pernas e girar o corpo, como uma rasteira, assim como Rivaille o havia ensinado.
Porém, o cabo fora mais rápido e com um leve movimentar com a perna presa, conseguiu golpear a face do moreno de pele bronzeada com a sola da bota, lançando o corpo do jovem Jaeger para trás. Naquele breve momento livre, permitiu-se analisar aquela situação, sentindo certo conforto em saber que o rapaz estava aprendendo. Mas ainda assim, não seixou de se surpreender pela ação repentina do mesmo. Afinal, até poucos segundos atrás Eren mal conseguia erguer o corpo.
Voltou seus olhos acinzentados para o corpo do dono das orbes esmeraldinas que estava deitado de barriga para cima com uma das mãos cobrindo-lhe os olhos, sentindo suas pálpebras se movimentarem aleatoriamente ao observar o estado de sujeira em que o garoto se encontrava, resmungando levemente em seguida.
– Ei, garoto. — chamou, aproximando-se em passos lentos. — Vamos, você precisa de um banho. — Tocou o garoto com a ponta da bota, que continuou deitado no chão. — Não está me ouvindo? Levanta.
Naquele momento Rivaille arregalou os olhos mais uma vez, obrigando-se a se abaixar ao lado do garoto, que havia levado ambas as mãos até o pescoço e agora cravava as unhas sobre aquela pele sensível, arranhando aquela região enquanto mantinha os esmeraldinos arregalados, respirando ofegante com os lábios bem abertos. O cabo franziu o cenho, levantando o corpo do rapaz com as mãos, fazendo com que o mesmo se deitasse em seu colo enquanto uma espessa fumaça branca começava a sair dos ferimentos do garoto, causados pelo treinamento. Aquilo o tranquilizou por um momento, mas a visão de Eren se auto mutilando daquela forma o estava perturbando.
– Jaeger, o que está acontecendo? Responda-me, é uma ordem! — disse em uma voz autoritária, apertando os ombros do moreno com mais força quando este gritara em toda a sua agonia. — Jaeger!
O corpo do rapaz de pele bronzeada então começava a se contorcer em seu colo, ao mesmo tempo em que o moreno revirava os olhos e descia as unhas pelos braços, que se regeneravam imediatamente apenas para o moreno reabrir as feridas. O líquido escarlate escorria pelos braços de Eren e manchavam seu uniforme, assim como o uniforme de Levi, que parecia não se importar com a sujeira naquele momento.
– H-Hei... Chou... — chamou, atraindo a atenção do cabo para seu rosto, cujos esmeraldinos continuavam se revirando. — Meu corpo... Q-Queima...
Céus, o que deveria fazer? Não sabia onde estava Mike, que era quem cuidava dos ferimentos da tropa, e não confiava o suficiente em Hanji para analisar o garoto e livrá-lo daquela agonia. Talvez se usassem o estoque de gelo da tropa...
Rivaille respirou fundo, segurando o garoto firmemente no colo antes de se levantar e correr, adentrando novamente a construção rústica da base da tropa de exploração, enquanto Eren se contorcia e se mutilava em seus braços.
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