Wishmaster
17 Prenúncio
Notas iniciais
Sabia que poderia correr mais rápido, porém, como estava a ser guiado por Clarice e a mesma provavelmente não conseguiria acompanhar seu ritmo, optou por simplesmente acreditar que aquele caminho que haviam tomado os levaria mais rapidamente para a pensão.
A notícia da invasão de titãs em Sina fora dada tão repentinamente que, naquele momento, várias especulações rondavam a mente do jovem Jaeger a cerca de como eles conseguiram atravessar Maria e Rose, onde todas elas levavam à um desfecho que não gostaria que fosse real.
Sentiu seu braço ser puxado com brusquidão para a direita, seguindo então naquela direção, onde as vozes das pessoas pareciam serem mais audíveis na medida em que adentravam correndo por aquele lugar que o moreno achava ser uma rua ou avenida.
– Chegamos Eren. — anunciou Clarice, parando logo em seguida enquanto fitava o moreno, sem mais demoras, adentrar afobadamente enquanto tateava as paredes com ambas as mãos. Usava também do que aprendera no treinamento com o cabo para se guiar em meio aquele ambiente quieto demais até mesmo para si, temendo por algo ter acontecido enquanto esteve fora.
No entanto, uma pitada de tranquilidade atravessou seu corpo quando ouviu a familiar voz de Rivaille ecoar de um canto aleatório, provavelmente resmungando sobre alguma coisa, rumando logo em seguida a passos rápidos para o local onde este estava.
Não percebeu o desnível que havia sobre o chão onde pisara em falso, o que o fez balançar os braços à procura de um melhor equilíbrio, falhando miseravelmente. Como um último recurso, levou as mãos à frente do corpo para amenizar a queda, mordendo o lábio inferior pela dor em seu pulso devido ao peso repentino sobre eles.
– Quanta afobação. Vai acabar se machucando se continuar assim. — Sentiu o corpo se arrepiar levemente ao ouvir a voz imponente do outro vir em sua direção, colocando-se rapidamente de pé.
Levi, que antes estava a degustar o pão integral que lhe fora entregue pela sra Tamashiro, agora observava o moreno com uma de suas sobrancelhas erguidas, apoiando um dos braços sobre as costas da cadeira onde se encontrava a fim de se encostar melhor sobre a mesma. Percebeu como o garoto parecia ofegante, o que aguçara sua curiosidade.
– Por um acaso você correu, garoto? — quis saber, cruzando os braços em seguida.
– S-Senhor! — Ainda um tanto alterado, Eren aproximou-se do homem ainda bastante exaltado. — Um mensageiro chegou à cidade... Ele disse que... Ah, não pode estar acontecendo!
– Hey, diga frases completas. — interrompeu, rolando os olhos.
– Titãs invadiram Sina! — exclamou, fechando ambas as mãos em punho enquanto mantinha seus esmeraldinos fixos em um ponto em específico.
O homem de baixa estatura franziu o cenho com aquele anúncio. Titãs invadiram Sina? Isso seria impossível, visto que aquela era a muralha mais segura e com maior concentração de soldados. Além disso, teriam que passar tanto por Maria quanto por Rose para chegarem em Sina.
– Tem certeza? — perguntou, fechando uma das mãos em punho quando o garoto assentiu.
– Clarice disse que o mensageiro estava com os trajes de Sina, senhor. — acrescentou, suspirando. — O que faremos heichou?
Levi, ainda mais carrancudo, começou a ponderar sobre as mais diversas opções que os titãs teriam para conseguirem acesso direto à Sina sem ao menos precisarem passar pelas outras duas muralhas. Com toda a certeza descartaria a hipótese de ter sido um ataque externo, o que apenas aumentava suas suspeitas de que haviam, ainda, humanos-titãs dentro do território da humanidade. No entanto, mesmo dentro das muralhas, aquelas anomalias deveriam atravessar os portões de acesso em direção à Sina, e para que qualquer cidadão tenha acesso às terras do Rei, é preciso passar por uma rigorosa revista.
O cabo se remexeu em sua cadeira mais uma vez, suspirando pesado. Então para que um ataque direto fosse bem sucedido, aqueles titãs deveriam ter acesso direto à Sina, acesso este que deveria ser acima de quaisquer suspeitas, ou seja...
– Jaeger. — chamou, levantando-se em um impulso antes de se aproximar do moreno e agarrar-lhe o pulso. — Vamos voltar, agora.
Eles deveriam morar dentro do território de Sina.
[...]
Olhando vez ou outra para trás a fim de se assegurar que o caminho estava livre, Levi movia as pernas, fazendo-as se chocarem levemente contra a barriga do musculoso cavalo onde estava montado, a fim de acelerar seus passos, alertando logo em seguida seu subordinado para que fizesse o mesmo.
Saíram rapidamente da pensão, sem ao menos se preocuparem em deixar algo para trás, visto que a única coisa que lhes eram realmente necessária era o dispositivo de manobras tridimensionais, que estava firmemente preso sobre suas cinturas.
Eren estava preocupado, concentrando-se apenas em chegar o quanto antes ao território dentro das muralhas. O sentimento que insistia em adornar-lhe a mente fazia-o sentir horrível e, ao mesmo tempo, deveras ansioso. Como deveriam estar seus irmãos em meio à tudo aquilo? Mesmo sabendo que os dois haviam sido devidamente treinados para situações deste tipo, não conseguia deixar de sentir certo aperto no peito.
Aquele tipo de pensamento o estava desconcentrando do que realmente importava naquele momento, que era focar-se apenas em voltar para as muralhas e permanecer atento a quaisquer sons estranhos. Estavam em campo aberto e, mesmo com as DMT's, sabia que seria impossível fugir de um ataque em campo aberto.
Rivaille, tendo total conhecimento da situação em que se encontravam, era o que mais corria os olhos ao redor a procura de qualquer figura suspeita. Consequentemente, conseguindo avistar a majestosa muralha Maria — que parecia pequenina por conta da distância em que se encontravam — e o riacho que lhes serviria como guia.
– Jaeger. — chamou, atraindo a atenção do outro para si antes de bater algumas vezes com uma das mãos sobre seu aparelhamento metálico, fazendo certo barulho. — Siga esse barulho e não importa o que aconteça, continue seguindo esse barulho.
– Sim senhor! — respondeu, franzindo o cenho e mantendo-se atento àquele barulho ao mesmo tempo em que guiava o cavalo naquela direção da mesma forma como lhe fora ensinado.
– Estamos quase chegando, falta pouco. — avisou, o que fez o moreno sorrir involuntário.
–
Alguns soldados da tropa de exploração, juntamente com os soldados da tropa estacionária de Maria, foram encarregados de guardarem as muralhas enquanto outros faziam a ronda por entre as cidades. O lugar onde a calmaria dominava a população fora tomado pelo desespero e pelo medo em saber que a muralha mais segura fora invadida por titãs, o que reduzia a confiança das pessoas nas forças do exército, que há pouco vangloriavam-se de uma vitória contra os titãs que, naquele momento, parecia estar distante demais.
Mantendo-se obedientemente em seu posto, a morena observava toda a paisagem do mundo exterior enquanto fazia seu trabalho, aguardando o retorno do cabo e de seu irmão, visto que era bem provável que voltariam assim que o mensageiro completasse sua "missão". Ao seu lado estava o adolescente loiro e o comandante das tropas estacionárias, Hannes, que bebericava um líquido misterioso enquanto ria descontraído de alguma conversa aleatória que mantinha com os demais soldados.
– Você acha que eles chegam ainda hoje? — Ouviu o loiro perguntar.
– Talvez. — respondeu, abaixando a cabeça a fim de esquentar o nariz com o cachecol vermelho que usava. — Se o mensageiro chegou rápido, talvez eles cheguem hoje.
– Fico me perguntando se Eren se saiu bem... — comentou distraído. — Quer dizer... Foram quase dois meses, talvez não tenha dado tempo para aprender tudo.
– Provavelmente ele vai terminar seu treinamento aqui. — concluiu, fechando os olhos por breves segundos. — Se aquele tampinha machucou o Eren...
– Mikasa! — O outro alertou, atraindo a atenção da garota asiática.
– Você viu aquele treinamento Armin. — comentou ao reabrir os olhos, voltando-os para os azulados do irmão. — Eren mal conseguia se levantar antes de receber outro golpe! Só em me lembrar disso eu-
– V-Veja! — O loiro interrompeu, apontando com um dos braços para um ponto em específico, sendo acompanhado pela jovem Ackerman, que ergueu ambas as sobrancelhas ao também avistar dois cavalos marrons saltando alto demais e finalmente entrando em seu campo de visão.
A morena sorriu por breves momentos ao perceber as capas esverdeadas que acompanhavam as duas pessoas que estavam montadas naqueles cavalos. No entanto, estranhou imediatamente a velocidade na qual os cavalos se encontravam, assim como os gestos que aquele que julgara ser o cabo estava a fazer, ao mesmo tempo em que este olhava para trás várias vezes.
Foi quando seus olhos rasgados se arregalaram, fazendo-a perder a postura por breves momentos. A asiática voltou sua atenção para Armin que também parecera perceber o que estava se passando, visto que seus orbes azulados também estavam arregalados. Todavia, não era apenas aquela visão que os fizera entrar em uma espécie de estado de choque, mas sim o que aquilo significava para eles e, principalmente, para Eren.
– Mi... Mikasa... Aquilo é... — gaguejou, engolindo em seco enquanto sentia as pernas levemente trêmulas.
– O titã que matou os pais de Eren. — completou, voltando então os olhos para Hannes, que assumira uma postura séria após perceber o que estaria se passando. — Hannes, o que faremos?
O homem loiro franzia o cenho, carrancudo, olhando em volta. Seus soldados aguardavam ordens e sabia que abriria os portões caso fosse levado pelo impulso, no entanto, sabia que não o deveria fazer, afinal, mesmo que os outros dois conseguissem ultrapassá-los, não poderia garantir que aquele titã também não conseguiria.
Trincou os dentes antes de responder:
– Entrem em posição! — ordenou, virando-se para seus soldados e para os soldados da tropa de exploração que estavam sobre seus cuidados. — Eles estão em campo aberto, portanto, estão vulneráveis! Quando se aproximarem o suficiente da muralha, ataquem o titã e deixem a passagem livre para os dois!
– Sim senhor! — Ouviu os soldados responderem em uníssono, imediatamente entrando em suas posições. No entanto, quando Mikasa e Armin ameaçaram entrarem em seus devidos postos, foram chamados pelo comandante.
– Esperem! — Os dois pararam, voltando suas devidas atenções para Hannes. — Tomem o caminho de Shinganshina. Eles não irão conseguir atravessar esse portão.
O jovem Arlert franziu o cenho, sendo seguido pela morena, que trincava os dentes antes de responder:
– Irei proteger o Eren! — disse a contra gosto, fechando ambas as mãos em punho enquanto fitava o homem a sua frente.
– Iremos prender aquele titã aqui. — avisou, observando a expressão da garota se suavizar. — Eles verão vocês correndo na direção de Shinganshina e os seguirão.
Armin assentiu, fazendo em seguida a saudação para seu superior, sendo seguido por Mikasa que, ainda relutante, começava a correr na direção da cidade de Shinganshina enquanto Hannes, sorrindo, entrava também em posição, empunhando suas espadas.
–
Não sabiam dizer como e, muito menos, quando aquele titã apareceu. Apenas aumentaram a velocidade em que os cavalos corriam para tentarem, pelo menos, chegarem em segurança ao interior da muralha Maria. O cabo decidira continuar seguindo o riacho, tendo ao seu lado Eren, que parecia extremamente nervoso com a situação.
Trincando os dentes, voltou seus orbes acinzentados para a muralha, que parecia um tanto quanto mais perto, percebendo uma movimentação estranha em seu topo. Talvez devesse encarar aquilo como um ponto positivo, no entanto, levando em consideração que estavam em um ambiente sem árvores, resolvera não comemorar por enquanto.
Parou de bater sobre sua DMT por alguns segundos apenas para vefiricar o quanto de gás ainda possuía. Não era muito, visto que pela afobação não conseguiram recarregar o estoque antes de sairem. O que era ruim, muito ruim.
Conseguia sentir o chão abaixo de si vibrar por conta daquela perseguição incessante. Voltando os olhos para Eren, percebeu que este havia fechado os olhos enquanto segurava firmemente sobre a correia do cavalo em um sinal aparente de nervosismo, o que o deixara furioso. Por breves momentos, ponderou em pular para o cavalo do moreno e assumir a partir daquele ponto, no entanto, isso apenas faria com que o ritmo da corrida diminuísse. Talvez devesse saltar o riacho e seguir na direção da cidade de Shinganshina, porém de nada adiantaria, visto que aquele titã os seguiria de qualquer forma. Estava de mãos atadas.
Levi resolveu então erguer o olhar apenas para calcular a distância que estariam daquele titã, caso estivessem com alguma vantagem, poderiam usá-la. No entanto, suas íris acinzentadas se arregalaram em demasia quando seu corpo fora coberto pela sombra da perna daquele titã de quinze metros, cujo pé era pousado com força em seu caminho, obrigando-o a fazer com que o cavalo parasse.
Todavia, Eren não havia parado seu cavalo, conseguindo atravessar por entre as pernas daquela anomalia enquanto o cabo ficava para trás. O moreno sentiu a ansiedade apoderar-se de seu corpo, fazendo-o tremer com mais intensidade. Céus, por que Deus o castigara daquela forma? Se ao menos pudesse enxergar... Foi quando seus esmeraldinos se arregalaram por breves segundos, antes que fosse obrigado a levar ambas as mãos à cabeça, pressionando-a com força devido à dor aguda que, de repente, o fazia sentir certa vertigem. Seu cavalo, aos poucos, diminuía os passos até parar por completo, visto que não era mais guiado. Aquela dor... Era exatamente a mesma que o fez quase perder os sentidos no dia do ataque em Shinganshina.
Desesperadora. Insuportável.
O jovem Jaeger gritou em agonia, fechando os olhos com força enquanto sentia seu corpo escorregando as poucos, até que seu braço esquerdo se chocasse desajeitadamente contra o chão, o que amortecera levemente sua queda. O moreno contorcia-se sobre o chão enquanto a dor continuava insistente em sua cabeça. Percebendo isso, Levi segurava firmemente a correia de seu cavalo, fazendo com que contornasse o corpo do titã que, inexplicavelmente, permanecera parado em seu caminho, bloqueando sua passagem. Precisava ajudar o garoto.
No entanto, para sua surpresa o titã também se movimentara, bloqueando outra vez sua passagem. Trincou os dentes, tentando outra vez e tendo o mesmo resultado. O que aquele titã queria, afinal?
Levou ambas as mãos até suas espadas e, franzindo o cenho, acionou sua DMT, cujos cabos foram violentamente lançados contra o corpo daquele enorme titã, que ainda se mantinha bloqueando sua passagem. Estava visivelmente irritado e, mesmo com a ausência de árvores ou de construções que lhe dessem apoio, sabia que conseguiria deter aquele titã antes que tentasse qualquer coisa contra Eren.
Contudo, fora mais uma vez surpreendido. O cabo observou quando, em um piscar de olhos, todo o corpo daquele misterioso titã tomava uma coloração azulada e os cabos de sua DMT eram ricocheteados em sua direção, obrigando-o a recuar alguns passos com o cavalo antes de recolher-lhos outra vez.
– O que?! — murmurou, aumentando a pressão com que suas mãos seguravam as espadas. — Ele consegue endurecer todo o corpo?!
Naquele momento, literalmente com as mãos atadas, ouviu outro grito vindo de Eren, este que parecia mais alto que os anteriores, o que apenas o deixava ainda mais preocupado. Além disso, aquele titã também parecia reagir aos gritos do moreno, visto que virou o rosto para trás por breves segundos antes de levantar ambos os braços, deixando-os eretos ao lado do corpo, o que atraiu a atenção de Rivaille, cujos acinzentados pousaram sobre suas enormes mãos, fechadas em punho, que começavam a se abrir.
Levi perdera sua postura por breves momentos quando lhe fora revelado o que estava oculto naquelas mãos, fazendo-o, pela primeira vez em anos, temer pela própria vida.
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