Wishmaster

3 Nostalgia Perturbadora


Notas iniciais
Olá! Estou de volta com mais um capítulo e com um pequeno aviso. Não é nada de sério, apenas irei mudar o nome da fic para "Wishmaster". Traduzindo ficaria: Mestre dos Desejos. Tenho meus motivos para isso e irei explicar aqui. Bem, dependendo do desempenho dessa fanfic, ela se tornará um fan project real. Se a aceitação dos leitores for bem positiva, irei fazer uma espécie de fan-série sem fins lucrativos, contando a história da fic. Ainda não sei como e nem quando poderei fazer isso, mas é um bom planejamento e queria a opinião de vocês quanto a isso. O outro motivo para eu querer mudar o nome da fic é: a música Wishmaster do Nightwish retrata exatamente o que eu quero passar para vocês nesse enredo. Deixarei o link da música e da tradução nas notas finais, caso vocês estejam curiosos. E caso a fic seja transformada em fan-série, essa música será a de abertura. O título Bless the Child também veio de uma música do Nightwish, que também deixarei nas notas finais. Mas analisando melhor a letra, resolvi mudar. O enredo vai permanecer o mesmo rs' Outro aviso: provavelmente irei atualizar a fic uma vez na semana a partir de hoje, já que as aulas voltam e meu colégio é mestre em nos surpreender com trabalhos surpresas que não gosto de fazer. Além disso, as provas estão chegando, então sim, apenas aos finais de semana que poderei atualizar esse projeto. E eu também quero dormir gente, passei esses dias dormindo de madrugada ou nem dormindo apenas pensando no enredo haha' Foi mal. Bem, esses foram os avisos, caso lembre de mais alguma coisa eu deixarei nas próximas notas. Irei alterar o título no próximo capítulo, por isso não se assustem quando aparecer "Wishmaster" na próxima atualização rs' Agora, tratando-se do capítulo. Sim, ainda continuaremos com o flashback! Irei avisar quanto terminar, prometo rs' Enfim, espero que gostem da leitura!

Deveria se lembrar de agradecer Irwin quando voltasse à base com os suprimentos. O cabo provavelmente já teria atentado contra a vida da garota de óculos ao seu lado caso o capitão não ordenasse que deixassem seus equipamentos na base. Às vezes esquecia-se de como a garota poderia ser extremamente irritante em todos os aspectos. Além disso, estava enraivecido pelas compras terem sido adiadas em uma semana porque a carinhosamente chamada de quatro olhos estava passando por mais uma crise existencial.

Suspirou, tentando se acalmar enquanto carregava as sacolas de papel com ambas as mãos e ignorava completamente a existência da mulher ao seu lado. Talvez assim conseguisse controlar sua insanidade e o desejo de fatiá-la até que se calasse por completo.

– Tsc... Não entendo o motivo de estarmos fazendo isso... — Ouviu um dos soldados reclamar. — Esse é o trabalho da Polícia Militar, não deveríamos estar fazendo isso.

– Calado Kirschtein. — cortou o cabo, sem se virar para o rapaz atrás de si. — Se quiser passar os próximos seis meses com fome, pode largar as compras aí mesmo. Irei assegurar que não receba sequer uma gota d'água.

O homem ouvia o soldado resmungar mais algumas palavras, mas continuando a acompanhá-los. Provavelmente estaria duvidando de suas palavras, mas preferia não arriscar. O cabo gostava de saber que causava tal reação nas pessoas, porém, falara sério quanto a deixar o soldado sem comida caso abandonasse aquele trabalho. Afinal, não achava justo um reclamar enquanto tantas outras pessoas estavam se empenhando nisso mesmo sem gostarem. Talvez Irwin devesse ser mais rígido com os treinamentos daqueles soldados.

Todavia, era tirado de seus devaneios por uma cena que chamou sua atenção. O cabo parava de andar, virando-se levemente para a direção onde um grupo de crianças estavam brincando em frente à um casebre simples de madeira. Sentiu o corpo da mulher que caminhava junto consigo se chocar contra o seu levemente, ouvindo-a também resmungar sobre o motivo de ter parado tão repentinamente. O homem não respondeu, continuando a olhar aquela cena levemente intrigado, percebendo a quatro olhos também voltar-se para aquela cena em silêncio.

– Ah! Eu sou um titã! Vou comer vocês, ah! — dizia um garotinho de cabelos negros e ondulados com uma voz miseravelmente gutural, enquanto caminhava lentamente e em passos largos.

– Não! Sai daqui! — gritaram outras duas garotas menores, uma loira e outra ruiva, que fingiam estarem assustadas com o "titã" que as ameaçava enquanto corriam, rindo.

– Eu vou pegar vocês! — insistia o menino de cabelos ondulados, correndo atrás das meninas quando foi surpreendido por um terceiro garoto, que o fez recuar alguns passos. — Hm? Quem é você humano?!

A terceira criança abriu os braços, deixando visível o cabo de uma vassoura que segurava em uma das mãos e um lençól em um marrom pastel que estava amarrado em seu pescoço como se fosse uma capa, abrindo um sorriso em seguida enquanto os compridos cabelos castanhos entravam em sua boca.

– Eu sou o cabo Levi! — respondia um pouco enrolado, como se estivesse com algum alimento na boca. — E eu vou matar você!

E então os dois garotos se aproximaram lentamente um do outro, simulando uma batalha. O de cabelos negros balançava as mãos confuso enquanto o de cabelos castanhos se afastava e simulava o barulho das DMT's com a boca. Mesmo que por fora aparentasse desinteresse em observar aquela cena, por dentro estava levemente surpreso. Não sabia que as crianças gostavam de brincar com um tema tão sério como aquele. Por mais que os titãs estivessem extintos há mais de oito anos, não era um assunto digno de brincadeira.

– Olha Rivaille, aquele garoto é igual a você! — dizia a quatro olhos enquanto tentava chamar a atenção do cabo, golpeando-o com leves cotoveladas sobre seu ombro direito.

– Tsc, ele não é nada parecido comigo Hanji. — retrucou o homem, ainda observando a cena.

– Ah... Como queria ser inocente assim como essas crianças que nunca viram um titã na vida! — exclamou a quatro olhos, levantando a cabeça e suspirando pesadamente. — Assim nunca teria me apaixonado por aqueles corpos tão exóticos!

– Hm... A cada dia que se passa vejo como você e Pixis são parecidos. — comentou, fechando os olhos enquanto ouvia um grito desnecessário vindo de Hanji.

– Não ouse me comparar com aquele maníaco! — exclamou, apontando o dedo para Levi que apenas movimentava negativamente a cabeça.

Por mais que fosse o pensamento da maioria, discordava do comentário vindo de Hanji. Na verdade, até mesmo sentia-se agradecido pelo aparecimento repentino dos titãs. Não sabia onde estaria se não fosse por Irwin e pela tropa de exploração, portadores das temidas asas da liberdade, o orgulho e dignidade dos soldados daquela tropa. Provavelmente estaria perambulando pelas ruas de Trost ou estaria morto.

No entanto, não era o fato de mergulhar em seu passado ou o fato daquela brincadeira que o estava incomodando. Se bem se lembrava, aquelas eram as crianças que o rapaz que conhecera há uma semana, Eren Jaeger, cuidava. Estava curioso e também levemente preocupado em saber como o moreno estaria, porém, não deveria se deixar levar por suas vontades. Era um membro da tropa de exploração e estava em missão, por mais insignificante que esta fosse.

Iria voltar a caminhar quando reabriu os olhos e a imagem de uma menina bem pequena, provavelmente com três anos, apareceu em seu campo de visão. Sua expressão parecia preocupada e fez as demais crianças pararem de brincar e voltar suas atenções para si. A menina pequena, arfando, disse:

– Ajuda! Eren cortou a mão! — As quatro crianças que estavam brincando agora corriam apressadas para dentro do casebre a fim de socorrer o moreno.

– Tsc. — O cabo resmungou, empurrando as sacolas que estava carregando na direção de Hanji, que tentava segurá-las desajeitadamente. — Avise ao Irwin que chegarei mais tarde na base.

– O que? Ei, Rivaille! — A garota chamou, virando-se desengonçadamente na direção do homem de baixa estatura que caminhava a passos relativamente rápidos na direção de um casebre em questão que fez Hanji erguer uma das sobrancelhas. — Hm... Não é o abrigo do avô do Arlert?

[...]

O moreno franzia o cenho em preocupação enquanto era sentado em uma cadeira de madeira qualquer por algumas crianças enquanto outras buscavam ataduras, tesouras e uma pequena bacia com água. Ouvia também a voz de sua pequena Desirè chamando as crianças que estavam brincando pela avenida, pensando o quão desnecessário era todo aquele alvoroço. Não era um corte fundo, na verdade, era apenas um pequeno arranhão que sangrara um pouco.

Era surpreendido quando uma das crianças subia sua camisa, deixando seu peito e tórax totalmente exposto enquanto as outras se mantinham ocupadas com sua mão esquerda.

– E-Ei, para que tirar minha camisa?! — O moreno exclamou, voltando-se para a direção de sua mão esquerda em seguida. — Crianças tomem cuidado com essa tesoura!

– A camisa pode infeccionar isso por causa das sujeiras! — exclamou uma voz bem infantil de uma menina que o moreno julgara ser de Desirè.

– Q-Quem disse isso?! — Tornou a perguntar, pasmo.

– A senhora Lockwood. — respondeu Desirè.

– Mas eu machuquei a mão... Ai! — resmungou após sentir um beliscão em sua coxa exposta pela bermuda que usava, levando a mão livre até o local.

– Fica quieto Eren! — resmungou um garoto que Eren identificara como sendo Thuomas, o garoto de cabelos negros e ondulados que brincava ao lado de fora momentos atrás.

O moreno resolvera então ficar em silêncio enquanto as demais crianças terminavam o curativo em sua mão esquerda. Durante o tempo que ficara naquela posição, conseguia ouvir os suspiros de algumas das meninas com faixa etária entre dez e doze anos que também moravam junto consigo e não conseguia deixar de se sentir levemente desconfortável. Não que não gostasse de saber que possuía uma boa aparência, mas o que o incomodava na realidade era o fato de as meninas que havia criado sentiam este tipo de atração para consigo.

Era tirado de seus devaneios quando Thuomas desferia leves tapas sobre o ombro do jovem Jaeger, avisando que já haviam terminado o curativo. Com um suave sorriso, o moreno agradecia e se levantava, tateando levemente os móveis e avisando que iria para a área de serviço. Contava quantos passos estava a dar enquanto tateava os móveis. Mesmo conhecendo bem o local onde morava, ainda conseguia bater em algum móvel.

Contou vinte e três passos e então parou, balançando as mãos no ar até encontrar o balde de madeira onde se encontrava a água que usavam para limpeza e banhos em geral. O moreno apoiara-se com ambas as mãos sobre as bordas daquele balde, prendendo a respiração e fechando os olhos com força antes de submergir a cabeça sobre aquela água. Precisava lavar o rosto que estava bastante suado pelo vapor do almoço que fazia no fogão a lenha da cozinha, assim como também precisava de um banho. No entanto, precisava alimentar as crianças primeiro antes de pensar em um banho relaxante.

Ainda com a cabeça submersa dentro do balde, conseguia ouvir um pequeno alvoroço vindo do interior da casa, provavelmente da sala. Resolvia não dar atenção e continuava a sentir como a água o tranquilizava de certa forma, ao mesmo tempo em que o refrescava, mesmo não sendo da melhor forma.

Dando de ombros, retirava a cabeça do balde enquanto as gotas de água escorriam pelo seu rosto, chocando-se contra seu peito e barriga e escorrendo para até a barra da bermuda, ao mesmo tempo em que respirava de maneira levemente ofegante.

[...]

O cabo adentrava aquele ambiente sem avisar, tossindo levemente para chamar a atenção das crianças que ali estavam. Reconhecera o rapaz loiro, Luke, que ajudara Eren com as compras da última vez, acompanhado de outras duas crianças que não se lembrava de estarem entre aquele grupo na semana anterior. O menino loiro rapidamente aproximava-se do cabo, sorridente, enquanto o outro apenas lançava-lhe um olhar tedioso.

– Cabo Levi! — exclamou com um brilhante sorriso sobre os lábios. — Veio ver o Eren? — O homem apenas assentiu com a cabeça, aguardando uma resposta. — Ele está na área de serviço, é só seguir esse corredor direto!

Rivaille seguiu o caminho que o garoto apontava com os olhos, agradecendo ao pequeno em seguida e afagando levemente os fios loiros do menino, que sorria alegremente ao observá-lo adentrando o ambiente daquele abrigo. O cabo crispava os lábios, observando cada canto daquele lugar com melhor precisão e crucificando-se mentalmente por estar em um ambiente tão imundo aos seus olhos.

Tentou afastar tais pensamentos de sua mente, não era necessário ficar matutando sobre essas coisas no momento. Afinal, apenas pisara naquele local para certificar-se de que o moreno estivesse bem e logo em seguida iria voltar para a base de Rose.

Na medida em que caminhava conseguia ouvir os murmúrios das crianças, provavelmente comentando sobre sua presença naquele local. Era sempre polêmico quando algum integrante da tropa simplesmente resolvia ficar mais tempo na cidade simplesmente por vontade própria. No entanto, não estava nos seus planos ir àquele abrigo apenas para visitar o "pirralho". Resmungara algumas vezes, tal reação era inaceitável para alguém como ele, mas era incrível como simplesmente não conseguia evitar, como se fosse um instinto.

Ao chegar a área de serviço, era imediatamente expulso de seus devaneios pela visão que lhe fora oferecida. Sentiu até mesmo seus olhos se arregalarem minimamente com aquilo. A visão de um Eren sem camisa, expondo sua pele bronzeada e com o corpo parcialmente molhado era um perfeito espetáculo que, para completar, uniam-se a expressão extasiada do moreno que ofegava com os lábios entreabertos, permanecendo com a cabeça erguida por alguns segundos.

Levi não sabia o motivo, mas percorreu os olhos por todo o corpo do jovem Jaeger. Desde seus fios castanhos úmidos que deixavam a água escorrer para suas costas delineadas, passando pelos seus ombros e clavículas antes de chegar até seu peito que subia e descia em busca de ar. O cabo desceu ainda mais os olhos, passando pela barriga do rapaz até chegar a barra de sua bermuda. Céus, era uma visão tentadora demais para qualquer um e, para Levi, amaldiçoadamente familiar.

O homem balançou a cabeça negativamente várias vezes, retomando sua expressão indiferente enquanto agradecia a Deus mentalmente pelo garoto não enxergar. Não que fosse algo bom, mas naquele momento não teria argumentos para explicar aquela reação tão repentina. Algo do gênero nunca acontecera consigo, já havia admirado várias mulheres em sua vida, mas nenhuma provocou tal reação em seu corpo. Talvez fosse por ter sido pego desprevenido, mas ainda assim não conseguia entender porque sentira aquilo por um garoto.

Resolveu afastar tais pensamentos de sua mente, pensar sobre o motivo de suas reações naquele momento apenas iria piorar as coisas.

– Jaeger. — chamou, fazendo o garoto ter um espasmo de susto e rapidamente endireitar a coluna.

– C-Cabo Levi?! — respondeu surpreso, piscando várias vezes pela água que entrava em seus olhos, fazendo-os arder levemente. — O que o senhor faz aqui?

– Hm... Ouvi um alvoroço sobre você ter cortado a mão. — respondeu direto, observando como as maçãs do rosto de Eren enrubesciam pelo comentário. O moreno voltava o corpo para a sua direção, tateando uma superfície de pedra com ambas as mãos.

– Ah... Não foi nada demais senhor. Foi um pequeno corte, quase não sangrou. — comentou. — Senhor, tem algum pano por aqui? Preciso enxugar o rosto.

O cabo, cruzando os braços, correu os olhos pelo local, avistando um pequeno pedaço de tecido cinza pendurado na parede oposta onde o moreno estava. O homem caminhou, rapidamente segurando o tecido por entre os dedos caleijados antes de voltar-se para Jaeger.

– Aqui. — avisou, estendendo o pedaço de pano para o moreno, que tateou o ar algumas vezes antes do cabo segurar seus pulsos com a mão livre e direcioná-los para o moreno.

– Obrigado senhor. — agradeceu, segurando o tecido com ambas as mãos e cobrindo o rosto em seguida, esfregando algumas vezes apenas para enxugar o rosto. — Ah, lembrei! Ainda preciso compensá-lo pelo outro dia!

Rivaille crispou levemente os lábios enquanto observava o moreno deixar escapar partes que ainda estavam bastante úmidas, aproximando-se novamente de Eren e tomando o tecido de suas mãos, passando a enxugá-lo por conta própria. O moreno fechou os olhos, sentindo o toque pesado da mão do cabo que precisava ficar nas pontas dos pés para alcançar os fios castanhos do rapaz.

– Não tem necessidade para isso. — cortou sem interromper os movimentos sobre os cabelos do rapaz.

– Eu insisto, fique para o almoço! Já estou terminando de prepará-lo. — insistiu, levando ambas as mãos até os pulsos de Rivaille, que voltava os olhos para o rapaz e sentia aquela sensação levemente desnorteada ao fitar os esmeraldinos de Eren que o fitavam diretamente.

Suspirando, Levi concordava.

[...]

– Está bom.

O cabo olhava de canto para as crianças que o cercavam, fitando-o em expectativa. Segundo o que Eren o havia explicado, todos os ali presentes o ajudavam na cozinha, o que respondia a muitas de suas perguntas. Admitia sentir-se levemente animado ao perceber os olhares felizes e as pequenas comemorações daquelas crianças quanto ao comentário sobre a sopa que haviam lhe servido. Não mentira, a comida estava realmente boa.

Observou quando o moreno, com a ajuda de uma nova bengala, sentava-se ao lado esquerdo do cabo com sua tigela em mãos. O rapaz era extremamente atencioso com aquelas crianças, deveria admitir. Esperava todas comerem antes de servir a si próprio, o que era uma atitude nobre para um simples cidadão de Trost. Após sentar-se, as demais crianças se retiravam para a área de serviço com suas louças em mãos, provavelmente para lavá-las e guardá-las devidamente. Apenas naquele momento Levi entendera como que as crianças realmente ajudavam o moreno ao seu lado.

– Preciso de pessoas assim na tropa... — comentou em voz alta, dando de ombros em seguida e voltando a comer a sua sopa.

– O que? — perguntou Eren, procurando a colher sobre a mesa e servindo-se assim que a encontrava.

– Pessoas proativas. Como essas crianças. — explicou, suspirando levemente. — Muitos soldados da tropa de exploração são preguiçosos e funcionam apenas quando lhes são dadas ordens.

Eren riu alto com aquele comentário, atraindo a atenção do cabo para si.

– Verdade? — perguntou curioso, com os olhos fechados e com um sorriso estampado sobre os lábios. — Cabo Levi eu...

– Heichou. — cortou, servindo-se de mais daquela sopa enquanto fitava um moreno confuso. — Levi heichou ou Rivaille heichou. Pode me chamar assim.

– Heichou... — murmurou, parecendo ponderar sobre aquilo.

– Significa "cabo" em uma língua que era chamada de japonês. Do antigo oriente. — explicou, observando a expressão de Eren, que naquele momento parecia entender. — Todos os meus homens me chamam dessa forma. Não gosto quando me chamam de cabo.

– Entendi. — respondeu, sorrindo em seguida e balançando a cabeça negativamente. Movimento este que fez o cabo erguer uma sobrancelha, curioso. — Sabe... Heichou. — Fez uma leve pausa, ainda tentando acostumar-se com tal palavra. — Meu sonho era entrar para a tropa de exploração.

Tal comentário fez Levi engolir rapidamente a quantidade de sopa que mantinha dentro da boca sem mastigar direito, sendo obrigado a bebericar da água que também lhe fora sido oferecida. Segurando a borda do copo à sua maneira, sugava um pouco daquele conteúdo transparente antes de voltar-se para Eren novamente.

– E por que desistiu? — perguntou logo após se recompor. Observou o moreno dar levemente de ombros.

– Bem... Eu fiquei sabendo a fama que o exército tem quando se trata de... Deficientes. — Rivaille observou a expressão de descontentamento do moreno, franzindo o cenho em seguida, parando de comer. — Além disso, seria apenas um peso morto, iria apenas atrapalhar vocês. Por isso deixei meus irmãos irem sozinhos e fiquei para cuidar das crianças.

O cabo largava a colher sobre a mesa, passando a fitar Eren diretamente. Não deveria discordar quanto à fama na qual o moreno mencionara antes. Não que Irwin permitisse tal nível de preconceito dentro da tropa de exploração, mas a Polícia Militar e as tropas estacionárias faziam questão de deixar bem claras suas "políticas de tolerância à deficientes". E como ambas também faziam parte do exército, a tropa de exploração acabava por também receber tal fama.

Todavia, sempre imaginou que tais rumores assolavam apenas os moradores de Sina, que estavam ligados diretamente ao rei e, consequentemente, com a forma de política do exército. Não tinha como imaginar que os moradores de Rose e Maria também soubessem de tal descaso.

– Quantos anos você tem, garoto? — Rivaille perguntou, surpreendendo levemente Eren.

– Q-Quinze senhor. — respondeu rapidamente, bebendo também um pouco d'água.

– Ainda dá tempo de entrar para a tropa de for de sua vontade. — Não sabia dizer porque estava fazendo aquela proposta, mas era como se algo o dizia que deveria fazer algo a mais pelo garoto. Algo como uma intuição muito forte. E Levi sempre confiava em sua intuição. — As coisas não são bem assim na tropa de exploração. Além disso, mesmo com sua deficiência visual, ainda seria bem útil criando planos estrategistas com o nosso pessoal.

Eren sorria abertamente, encostando-se melhor sobre a mesa enquanto erguia o olhar, olhando fixamente para frente.

– É uma boa oferta senhor, mas não posso aceitar. — respondeu, o sorriso morrendo aos poucos. — Digamos que não consiga me imaginar em uma vida cercado de soldados tão empenhados em darem suas vidas ao rei enquanto fico apenas escondido no conforto da base.

Tal resposta surpreendera o cabo de tal forma que o deixara sem reação por alguns instantes. Com a ausência de resposta, o moreno voltava a comer a sua sopa rapidamente, pensando em algo que pudesse quebrar aquele clima pesado ao seu ver.

– Então... Senhor. Posso perguntar uma coisa?

– Você já perguntou, pirralho. — devolveu, fechando levemente os olhos enquanto cruzava os braços. — O que foi?

– Quantos anos o senhor tem? — E então fechou os olhos, sentindo as maçãs do rosto esquentarem-se violentamente.

– Trinta e dois. Entrei para a tropa há quinze anos atrás quando tinha dezessete anos. — respondeu simplesmente, reabrindo os olhos e fitando a expressão surpresa de Eren. — Iria perguntar isso em seguida, estou certo?

– S-Sim senhor. — afirmou em seguida, visivelmente constrangido. Gostaria de perguntar sobre mais coisas, porém não sabia se teria permissão para tal, ou se o cabo estivesse disposto a responder os devaneios de um adolescente. Levi, ao perceber que o moreno tinha mais coisas a falar do que apenas isso, rolou os olhos.

– Se quiser perguntar outras coisas, vá em frente pirralho.

Naquele momento Levi teve a impressão de ter visto os olhos de Eren tremerem levemente antes que o rapaz voltasse todo o corpo em sua direção. O sorriso do rapaz moreno aumentava toda vez que o cabo respondia perfeitamente às suas perguntas sobre a tropa ou sobre as missões na qual já fora escalado. Ao mesmo tempo em que Rivaille surpreendia-se pela dificuldade que encontrava em segurar o sorriso que queria adornar-lhe a face. A expressão de admiração que Eren dirigia para si o incomodava de certa forma. Principalmente pela maldita sensação de nostalgia que passara a sentir desde o momento que o encontrara em uma das sujas vielas de Trost.

No entanto, era surpreendido por uma visão deveras perturbadora que o fizera arregalar levemente os olhos. O cenário a sua volta mudara. As paredes eram agora de um tipo de pedra polida e o chão em mármore negro. O ambiente era iluminado por majestosos lustres vitorianos dourados onde enormes velas eram acesas e as cortinas — feitas por um material incrívelmente grosso — cobriam totalmente as janelas, não deixando a iluminação passar. À sua frente, onde anteriormente se encontrava um Eren sem camisa, agora encontrava-se um rapaz pendurado a uma parede por correntes que o prendiam pelos pulsos. Seu corpo, trêmulo e completamente banhado em suor, ameaçava despencar a qualquer momento se não fosse pelas grossas correntes que o prendiam.

O rapaz permanecia com a cabeça abaixada e com os fios castanhos cobrindo grande parte de seu rosto. O cabo continuaria sem identificar o rapaz se o mesmo não levantasse a cabeça, fitando o homem diretamente com um fraco e forçado sorriso estampado em seu rosto bronzeado, enquanto fitava o cabo com os belos esmeraldinos entreabertos e repletos de lágrimas que escorriam pelo seu rosto. O cansaço estava estampado em seu rosto, mas continuava a fitar o cabo com aquele sorriso nos lábios.

"Eren...?" pensou, erguendo uma das mãos quando aquela visão se desfez. Rivaille suspirava surpreso, movendo a cabeça de um lado para o outro. Estava sentado sobre a cadeira com o moreno ao seu lado, que havia voltado a almoçar enquanto ainda sorria abertamente, comentando sobre coisas que o cabo não havia prestado atenção por estar perdido em seus próprios devaneios.

Não saberia explicar como aquilo na verdade aconteceu. Parecia algo como um fragmento de memória, mas com certeza se lembraria de algo assim caso realmente tivesse acontecido. Tudo aquilo, aquela imagem que lhe veio em mente naquela fração de segundo, a forte sensação de nostalgia, tudo, era deveras estranho. No entanto, resolveu voltar a comer o almoço que lhe fora oferecido, olhando diretamente para Eren com o cenho franzido. Por mais que estivesse confuso, deixaria para pensar sobre isso quando estivesse menos ocupado. Poderia chegar em uma conclusão plausível se estivesse sozinho.

Notas finais
~ Continuação das notas iniciais ~ Como disse antes, aqui estarão os links. Wishmaster (música): http://www.youtube.com/watch?v=bf1-n-RrhVc Bless the Child (música): http://www.youtube.com/watch?v=CG16CB4yRV8 Wishmaster (tradução): http://letras.mus.br/nightwish/28398/traducao.html Bless the Child (tradução): http://letras.mus.br/nightwish/63110/traducao.html Comentários?