Wishmaster
4 Morto Para o Mundo
Notas iniciais
O rapaz corria apressadamente por entre os corredores daquele casebre, tropeçando vez ou outra pela afobação. Estava mais preocupado com as crianças e onde elas poderiam estar. Suspirando pesadamente, procurava contar os passos que estariam faltando para chegar à área de serviço o mais rápido possível. Porém, sua preocupação apenas aumentara ao ouvir um dos muitos gritos daquela noite.
– Eren! — Parou imediatamente no momento em que ouvira o chamado de uma de suas crianças, seguido de vários outros chamados. O rapaz permitiu-se suspirar aliviado, ajoelhando-se e ficando de quatro em seguida para assim engatinhar até onde estaria aquele amontoado de crianças.
– Façam silêncio! — sussurrou, aproximando-se mais. — Eu perdi a conta... Aqui é a área de serviço, estou certo?
– Sim! — sussurrou em resposta uma outra criança que o moreno não soube identificar.
– Certo... V-Vamos para o porão agora. — avisou, levantando uma das mãos e tocando sobre o rosto de uma das crianças que não identificara no momento. — Entrem todos, irei por último... Klaus!
– O que? — O menino chamado Klaus respondeu, colocando-se em frente à Eren enquanto as demais crianças se afastavam, abrindo uma portinhola de madeira camuflada sobre o chão e descendo as possíveis escadas do local.
– Temos velas acesas pela casa? — perguntou e sorriu ao ouvir a resposta negativa do outro. — Acenda as que estão no porão e feche a porta assim que eu entrar, entendeu?
– 'Tá!
Eren voltou a engatinhar, tateando toda a superfície empoeirada daquele chão de madeira até encontrar a portinhola aberta do porão. Tentava ao máximo manter a calma, por mais que fosse difícil. Deveria fazê-lo pelas crianças que estavam visivelmente assustadas com o que estavam a presenciar. Até mesmo o próprio moreno, que já passara pos situações como aquela, estava assustado.
O rapaz mordia a própria língua, procurando distrair-se com outra coisa enquanto as crianças entravam naquele apertado porão. Deveria agradecer mentalmente ao avô de Armin, sr Arlert, por ter-lo construído antes de partir junto com outros cidadãos que vieram de Shiganshina. Sentiu certo incômodo na garganta ao se lembrar dos últimos momentos com o idoso.
O moreno era tirado de seus devaneios pela voz de Klaus, que o chamava por cerca de alguns minutos. Desculpando-se, Eren rapidamente apoiava-se sobre o menino, descendo as escadas com cuidado ao mesmo tempo em que as ouvia ranger pelo peso de seu corpo. Logo em seguida sentia as pequenas mãos das outras crianças que o guiavam para um canto qualquer daquele apertado porão enquanto Klaus trancava a portinhola do porão, que era iluminado apenas pelas velas que foram acesas naquele momento. O moreno conseguia ouvir os murmúrios assustados dos mais novos, que rapidamente arrastaram-se para próximo do seu corpo, abraçando sua cintura e pernas. Céus, por que deveriam passar por isso novamente?
– Venham aqui. — chamou baixinho, abrindo ambos os braços como uma demonstração de carinho e proteção, logo em seguida sentindo finos e pequenos braços envolverem seu corpo com força. Eren fechava os olhos, resmungando mentalmente ao sentir os corpos trêmulos de suas crianças.
– Eren... Eles vão nos matar hoje... — murmurou uma voz feminina que o moreno julgara ser de Emi.
– Relaxe Emi... — O moreno pediu, abaixando o braço e puxando as crianças mais próximas de si, aprofundando ainda mais aquele gesto de proteção. Sentiu o próprio corpo se contrair ao ouvir outro grito, dessa vez mais próximo de onde estavam. — A Polícia Militar apenas está fazendo uma patrulha...
O jovem Jaeger arregalava os olhos ao ouvir o barulho da porta da frente daquele casebre ser arrombado, imediatamente cochichando algumas palavras que serviam para acalmar as crianças ali presentes. Por mais que não adiantasse, era a única coisa que poderia fazer, além de pedir para que fizessem silêncio absoluto. Ao ouvir barulhos de passos que se aproximavam do local onde se encontravam, Eren fechou os olhos, em seguida abaixando a cabeça enquanto continuava a sussurrar palavras como "Não falem nada" e "Isso logo vai passar".
O rapaz mal conseguia controlar o próprio nervosismo, respirando descompassadamente enquanto perguntava-se mentalmente o porque de terem entrado justamente em sua residência, ao mesmo tempo em que rezava para que os soldados que lá estivessem fossem embora logo. Não sabia quantos poderiam sobreviver caso os encontrassem.
[...]
Era despertado por uma das crianças, que balançava seu corpo euforicamente de um lado para o outro. O moreno abria os olhos devagar, bocejando em seguida enquanto erguia o corpo lentamente. Não se lembrava de quando acabara por cair no sono, porém, aquilo não era assunto de maior importância. O rapaz levantou uma das mãos, tocando sobre o braço da criança que o havia despertado.
– Onde estão os outros? — perguntou com a voz ainda embargada pelo sono.
– Dormindo. — respondeu um menino, assim identificando-o como sendo Thuomas. — Tem alguém aqui, eu ouvi passos.
O moreno franziu o cenho, tossindo levemente apenas para limpar a garganta.
– Fique aqui com os outros. — avisou, levantando-se com cuidado, sentindo as costas doerem por ter dormido sentado. — Provavelmente já amanheceu... Irei ver quem é.
– Eren, não faça isso! — disse Thuomas, segurando sobre o braço do moreno com ambas as mãos. O jovem Jaeger apenas lançava-lhe um sorriso amigável, puxando o braço com força.
– Eles não farão nada comigo, fique tranquilo. — assegurou. — Precisamos sair daqui em segurança, por isso estou indo.
Thuomas pareceu ponderar sobre o que o moreno dissera, logo dando espaço para que o moreno caminhasse e guiando-o em seguida até as escadas. Eren subia devagar, odiando aquelas madeiras por rangerem tão alto, ao mesmo tempo em que tateava a superfície de madeira da portinhola a fim de encontrar a tranca. No entanto, o menino de cabelos negros acabava por fazer tal favor à Eren que sorria, agradecendo em seguida.
O moreno levantou ambas as mãos, empurrando a portinhola lentamente e apenas o suficiente para que pudesse sair. Arrastou-se pelo chão empoeirado e a fechou, erguendo o corpo em seguida e abrindo os braços para se guiar dentro daquele ambiente, já que não estava com sua bengala. Por mais que soubesse a localização de todos os móveis do local, nunca sabia o que poderia encontrar após uma patrulha da Polícia Militar. Ainda não entendia o motivo por trás dessas rondas noturnas, mas de uma coisa tinha certeza: não serviam para ajudar a população de Trost.
Eren respirou fundo, caminhando e contando os passos que deveria dar até chegar ao corredor, atento a quaisquer sons do lado de fora. Infelizmente franzia o cenho, estranhando o fato de as coisas estarem quietas demais, ao mesmo tempo em que sentia tanto o chão quanto o próprio corpo tremer, como se ondas sonoras muito altas estivessem atravessando aquela região naquele momento. Talvez fosse pelo nervosismo, mas ainda assim achava todo aquele silêncio estranho.
– Eren! — Era tirado de seus devaneios pelo chamado de uma voz que era mais do que conhecida para o moreno, que abriu um grande sorriso em seguida. O rapaz sentiu mãos agarrarem seus braços e puxarem-no para um abraço, que era prontamente retribuído.
– Mikasa! — O moreno exclamou contente, afastando-se da irmã ainda com um sorriso no rosto. — Por que veio tão cedo? As crianças ainda estão dormindo.
A garota, cujos traços asiáticos que adornavam sua face eram motivos de admiração, nada respondeu, apenas apertando com demasiada força o braço de Eren, que ergueu a sobrancelha com tal ato.
– O qu-
– Precisamos sair daqui. — interrompeu, fazendo o moreno unir os lábios novamente e assumir uma expressão séria. — Armin está do lado de fora nos esperando, vamos logo.
– Espera... Mikasa! — chamou, não obtendo resposta. Sentia a morena puxar-lhe pelo braço com certa brutalidade e a velocidade na qual caminhava fazia o moreno tropeçar. Em um impulso, Eren conseguia puxar com força seu braço, libertando-se assim das mãos da asiática. — Mikasa! Não faz assim, se tem algo de ruim acontecendo, leve as crianças primeiro!
– Não vou te deixar aqui Eren. — respondeu, voltando a ficar de frente para o rapaz de olhos esmeraldinos, que trincava os dentes.
– Mikasa, não ponha a razão atrás de seus caprichos! — exclamou, franzindo o cenho em aparente raiva. — Não sei o que está acontecendo, mas deve ter relação com a patrulha, certo?
A garota, Ackerman, erguia ambas as sobrancelhas com a pergunta do irmão, dessa vez virando todo o corpo na direção do moreno. Não sabia de nenhuma ordem de patrulha como a que o garoto lhe estava dizendo.
– A Polícia Militar esteve aqui ontem? — perguntou, fitando o moreno assentir com a cabeça. — Será que... — Era interrompida por um estrondo seguido de vários gritos, tanto de homens quanto de mulheres. A garota voltava rapidamente o olhar para a janela daquele local onde se encontrava, observando os cidadãos de Trost correrem, aterrorizados. — Eren, precisamos ir.
O moreno, ao ouvir os gritos, arregalava os olhos, dando poucos passos para trás a fim de afastar-se daquilo. Também ouvira o estrondo, juntamente com a vibração que o desequilibrara por poucos segundos. Aquilo poderia ser obra da Polícia Militar?
– Hm? N-Não, Mikasa! — exclamou. — Leve as crianças primeiro!
– Eren-
– Mikasa, não me contrarie! — Dessa vez fora obrigado a gritar, fazendo a jovem Ackerman voltar os belos orbes negros para o rapaz de pele bronzeada. — Será que pode me ouvir pelo menos uma vez?! — Ainda com o cenho franzido, Eren fechava ambas as mãos em punho, controlando a raiva. — Essas crianças nunca passaram pelo terror que nós passamos e quero que permaneça assim! — Continuou gritando, fitando um ponto qualquer com um olhar determinado. — Mikasa, eu te imploro, leve as crianças primeiro!
A garota pareceu ponderar e não desviou o olhar do jovem Jaeger, que permanecia com a mesma expressão determinada que tanto admirava. Suspirando, a asiática concordou, preparando-se para perguntar onde os meninos estavam quando sentiram o chão tremer mais uma vez. No entanto, a intensidade fora tanta que fez ambos os adolescentes se desequilibrarem e irem de encontro ao chão.
Eren fechou os olhos com força, sentindo o choque de suas já prejudicadas costas contra a rígida superfície do chão. Iria resmungar algo, porém, era surpreendido pelo repentino barulho de madeira se quebrando e então sentia seu corpo sendo erguido rapidamente do chão, junto com os gritos de Mikasa, que o chamavam desesperadamente.
– As crianças! — Eren gritou de volta, com o corpo completamente trêmulo pela surpresa. — Leve as crianças!
O moreno sentiu o corpo ser lançado para cima antes de ser novamente capturado por algo que parecia ser uma mão gigante, imobilizando-o juntamente com um dos braços da metade da barriga para baixo, sentindo a dor que tamanha pressão proporcionava em seu corpo. Eren arregalava os olhos em pavor, a única coisa que teria tamanho e potencial para aquilo seria...
– Um... Titã...? — questionou-se, sentindo o corpo chacoalhar como se a criatura estivesse correndo enquanto o segurava. Aquilo não poderia estar acontecendo, afinal, os titãs haviam sido extintos, certo?
Arregalando ainda mais os olhos e com um impulso, o moreno berrava em pavor, balançando o braço livre e socando a grande superfície de carne a sua volta, tentando inutilmente se livrar daquela situação. Não queria morrer naquele momento, simplesmente não queria morrer. Tentava a todo custo se soltar, sacudindo o corpo de um lado para o outro, socando e usando do braço livre para tentar se soltar, falhando miseravelmente.
Eren então fechava os olhos, sentindo as grossas lágrimas saltarem de seus olhos e escorrerem pelo seu rosto, umedecendo-o por inteiro. Aquele seria o fim? Acabaria morto por titãs como seus familiares? Ainda se lembrava nitidamente das promessas que fizera ao lado de seu irmão Armin, do que havia dito à Mikasa quando a mesma ingressara na tropa de exploração e da alegria por terem feito parte da história onde a humanidade teria finalmente vencido os titãs. No entanto... Como poderia ainda existir um titã e como passara por Maria e Rose?
Dúvidas. Naquele momento o coração de Eren estava repleto de dúvidas. Porém tinha certeza de uma coisa: não tinha como sair vivo daquela situação. E era exatamente isso que o desesperava. Sempre quis conhecer o mundo, as grandes planícies, o oceano... A água de fogo que Armin tanto dizia sere impressionante... Tudo isso estava sendo roubado de si. O moreno fechou os olhos, entregando-se aos prantos do desespero que o pareciam sufocar.
Todavia, era surpreendido por um barulho que o fazia abrir os olhos novamente por reflexo. Parecia algo como uma lâmina fatiando um pedaço de carne e, em seguida, sentiu o corpo desprender-se daquela provável mão gigante e antes que pudesse sentir a ação da gravidade em seu corpo, braços imediatamente percorreram seu corpo, segurando-o pelas pernas e pelas costas. Em seguida Eren ouvia o barulho de algo, como se fossem cordas movendo-se rapidamente e o seu possível salvador segurando-o mais firmemente antes de se lançar ao ar.
– Tsc... É a segunda vez que te salvo, pirralho. — A voz grave se fez presente, fazendo o rapaz arfar surpreso com aquilo.
– Hei... Chou... — murmurou, ainda com os olhos arregalados enquanto sentia o cabo pressionar mais seu corpo, fazendo com que apoiasse a cabeça em seu peito, manobrando mais uma vez com o auxílio do DMT.
O homem nada comentou, apenas certificou-se de que não estava sendo seguido por nenhuma daquelas anomalias. Todos foram pegos desprevenidos naquela manhã por um grande grupo de titãs que avançaram pela região sul de Trost e isso o incomodava em demasia. Afinal, fora encarregado de decepar o último titã que habitava este mundo. Então, como ainda poderiam existir tantos?
Além disso, ainda tinha o garoto que agora estava em seus braços. Desde a última vez em que o encontrara em seu casebre e almoçara com o moreno que não conseguia, em momento algum, parar de pensar em como sua pele bronzeada era tão tentadora e em como queria ter-lo somente para si. Nunca tivera tais pensamentos nada castos com as pessoas nas quais mantivera relacionamentos no passado, então, por que com um garoto tão mais jovem? E, como se não fosse suficiente, quando Irwin o alertara sobre o ataque dos titãs, não pensou duas vezes antes de mandar seu esquadrão para o centro de Trost.
Levi crispava os lábios, manobrando repentinamente o DMT ao ser surpreendido por um titã de aproximadamente quatro metros. Estes, diferente dos que enfrentara no passado, pareciam possuir total consciência do que estavam fazendo já que, além de devorar humanos no caminho, estavam mais concentrados em segui-lo do que destruir ou comer. O cabo pousava sobre o telhado de uma residência, passando a correr rapidamente ao mesmo tempo em que tentava segurar o moreno de uma maneira confortável, este que agora estava com os braços ao redor de seu pescoço e com a cabeça enfurnada em sua nuca, murmurando palavras desconexas que o homem não soube identificar.
Em um impulso, saltou e acionou o DMT novamente, direcionando-o para a base de Rose. Aquele não era o momento certo para ficar pensando sobre o que deveria ser possível ou não. Precisava levar Eren para um local seguro antes de voltar a se encontrar com seu esquadrão e deter aqueles titãs antes que estes chegassem aos portões.
Contanto, por mais rápido que fosse, não conseguiu se esquivar de um ataque repentino de um titã de dez metros, que segurara os cabos de seu DMT e lançava o corpo do cabo para longe e, consequentemente, fora obrigado a largar o rapaz, que se chocava violentamente contra o chão, sentindo o corpo se arrastar por mais alguns metros antes de parar totalmente. Rivaille trincou os dentes, sentindo o próprio corpo se chocar contra uma parede antes de acionar novamente o DMT, avançando na direção do moreno, que se levantava com certa dificuldade.
Eren se apoiou sobre os joelhos, olhando para todos os lados como se procurasse por algo, ao mesmo tempo em que movia o corpo com os braços abertos. Conseguia ouvir pesados passos vindo em sua direção, mas o fato de não enxergar o impedia de descobrir de qual direção em específico estariam a vir tais passos. Isso o apavorava. Foi surpreendido quando, mais uma vez, sentia aquelas mãos enormes agarrarem seu corpo e erguê-lo.
– Eren! Seu idiota! — Ouviu outra voz conhecida que o fez se exaltar por um momento.
– Jean! — gritou. Não gostava muito do rapaz, mas naquele momento tudo o que queria era sair vivo daquela situação. — Jean! Me ajuda!
O rapaz alto rapidamente acionou seu DMT contra o titã que segurava Eren, tendo seu corpo sendo erguido por aquelas cordas enquanto preparava suas lâminas para o golpe. O jovem moreno cego gritava mais uma vez ao ter seu corpo lançado para uma direção qualquer e, quando Jean percebera que o titã havia, na verdade, lançado o moreno para dentro de sua boca, rapidamente movimentava o corpo no ar, caindo sobre a direção da nuca e cortando aquela região sensível daquelas aberrações. No entanto, o grito agonizante de Eren o assustara de tal maneira que pousava sobre o chão de qualquer jeito, ferindo levemente o tornozelo.
– Jaeger! — gritava o cabo de longe ao observar a cena. Kirschtein provavelmente não teria percebido, porém, quando desferiu o golpe, o titã fechara a boca no exato momento em que metade da perna de Eren começava a entrar naquela cavidade, violentamente amputando aquele membro e fazendo o rapaz urrar em dor. — Merda... Kirschtein! — chamou, observando o rapaz voltar o corpo para si no mesmo momento em que pousava ao seu lado. — Chame reforços, precisamos da tropa estacionária aqui. Vai! — Voltou a saltar no mesmo instante na direção de Eren, preparando-se para pegá-lo novamente enquanto Jean obedecia a sua ordem.
No entanto era surpreendido quando um titã de exatos dez metros saltava na direção de Eren, de baixo para cima e com a enorme boca aberta, enquanto o corpo apavorado do moreno caía exatamente dentro daquela cavidade. "Merda!".
– Jaeger!
O rapaz sentia dores horrendas, mas procurava ignorá-las ao perceber que outro titã o tentava devorar por baixo. Sentindo a viscosa superfície na qual se encontrava, rapidamente moveu os braços a procura de algo onde pudesse se segurar e manter-se visível. As lágrimas já escorriam involuntárias pelo seu rosto e não sabia mais o que fazer. Seus amigos estavam arriscando suas vidas para salvá-lo e sentia-se feliz com isso, porém, não conseguia deixar de pensar o quão egoísta estava sendo ao encarar as coisas daquela forma.
Conseguia agarrar-se a algo que aparentava ser cabelo com uma das mãos e imediatamente movia a outra para a mesma direção, segurando firmemente sobre aqueles fios enquanto tentava erguer o corpo para sair dali. O terrível odor que aquela cavidade exalava fazia-o sentir náuseas e era possível de se escutar os possíveis gemidos dos cidadãos daquela cidade que haviam sido devorados por aquele titã. E ele era um desses cidadãos. Sem esperança, com os sonhos roubados, apenas mais um pedaço de carne que serviria de um simples brinquedo.
Sem conseguir controlar o nervosismo que o assolava naquele momento, gritou:
– Alguém me ajuda! — Moveu uma das mãos mais para cima, agarrando-se a mais partes daquele possível cabelo enquanto tentava erguer o corpo. — Alguém por favor me ajuda!
– Ei, Jaeger! — ouviu a voz do cabo gritar ao mesmo tempo em que ouvia o barulho de sua DMT trabalhando. Levi rapidamente subia pelo corpo daquele titã, pousando elegantemente sobre o rosto do mesmo e, com uma das mãos, segurava sobre os longos fios de cabelo daquela aberração para manter-se equilibrado, enquanto estendia a outra para o interior da boca do mesmo, a fim de resgatar o moreno.- Levanta esse braço garoto, eu vou te pegar!
Eren arregalava os olhos e abria um enorme sorriso, levantando um dos braços e balançando-o no ar a fim de alcançar a mão do cabo que, assim que o avistava em meio àquela penumbra, agarrava firmemente a mão do rapaz, começando a puxá-lo para cima. O moreno, apesar de tudo, sorria. O cabo estava provando o porquê de ser chamado de "as asas da humanidade" e "a esperança da humanidade". Ele não desistira de si.
– Obrigado... — murmurou entre os soluços, ao mesmo tempo em que forçava o corpo para cima, o que era trabalho difícil devido ao titã que se movimentava o tempo inteiro. — Obrigado... Rivaille Heichou.
O homem de baixa estatura se surpreendia com as palavras que o moreno lhe dirigia naquele momento. O rapaz o estava agradecendo, mas pelo o que?
Naquele momento, vários e rápidos flashes se reproduziram em seu campo de visão. A imagem de um Eren sorridente correndo por uma região de terras brancas se fez presente. O moreno corria e saltava, pegando aquela espécie de areia branca com as mãos e moldando-a em formato de bola, em seguida lançando contra uma árvore sem folhas e observando-a se desintegrar com o choque. O rapaz chamava pelo seu nome, corria em sua direção e saltava sobre seu corpo e o cabo segurava em sua cintura para não deixá-lo cair.
Rivaille rapidamente sacudiu a cabeça, livrando-se daqueles pensamentos perturbadores, concentrando-se apenas em resgatar o rapaz abaixo de si. Puxava-o com força e também percebia como o outro se esforçava para subir, mesmo com apenas uma perna, o que dificultava ainda mais o trabalho.
– Eren! — os dois rapazes ouviram uma voz feminina chamar e o cabo percebeu, pela reação do moreno, que não era uma pessoa qualquer.
"Ackerman" pensou o homem de baixa estatura, ouvindo a DMT da garota se aproximar cada vez mais. Outra pessoa, um garoto, também chamava o moreno que agora se encontrava em uma situação delicada.
– ... Mikasa? Armin? — O moreno murmurou, abaixando a cabeça, mas em nenhum momento deixava de fazer força para sair da boca daquele titã. A situação não era muito beneficiadora para si, já que escorregava sempre devido àquela saliva viscosa que molhava todo o seu corpo.
– Heichou! — Os dois chamavam ao mesmo tempo, parando logo atrás do cabo após um olhar reprovador do mesmo.
– Não irei deixá-lo morrer. — afirmou em voz alta, tanto para os três adolescentes quanto para si próprio. — Jaeger, não vou te deixar morrer aqui, força!
O rapaz, surpreso, franzia o cenho e voltava a levantar a cabeça, dessa vez com um olhar mais determinado que fez o cabo cambalear levemente para trás. "O que..." cogitou pensar, porém fora interrompido pelo movimento que o rapaz fizera com sua única perna, apoiando-a em algo que o cabo pensava ser um dente e impulsionando o corpo para cima, deixando assim metade de todo o seu braço visível. "Isso..." pensou novamente, impulsionando o corpo para trás. Só mais um pouco... Apenas mais um pouco e conseguiria tirá-lo de uma vez...
E então, com um movimento rápido, o titã fechava a boca, fazendo o corpo de Rivaille se desprender de seus cabelos, enquanto Eren deslizava garganta abaixo, na direção do estômago do titã.
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