Wishmaster

21 Memórias Que Não Deveriam Serem Relembradas


Notas iniciais
Estão prontos para altas emoções? Bom, o plano seria terminar o flashback com esse capítulo, mas acabei mudando de ideia, visto que não iria conseguir incluir tudo o que havia planejado nesse capítulo. Por isso, é bem provável que ainda vá postar cerca de mais dois flashback's. Enfim, eu definitivamente adorei escrever esse capítulo! Creio que seja um de meus favoritos. Espero que vocês também gostem. Dessa vez escrevi ouvindo o álbum Mizerable, do Gackt. Todas as músicas combinam com esse início de capítulo. Enfim, boa leitura!

Bebericava do líquido quente e escuro que sugava da xícara que lhe fora oferecida quando chegou ao refeitório enquanto os acinzentados permaneciam fixos sobre a figura loira a sua frente, que parecia suar de nervosismo. Podia imaginar o porquê, levando-se em consideração o acontecimento de minutos atrás. Todavia, para o alívio do soldado, não tocaria naquele assunto.

Pousou a xícara sobre a bancada do refeitório e pigarreou algumas vezes, alertando ao outro que iria se pronunciar, observando-o se tensionar com aquilo.

– Não precisa me olhar como se fosse arrancar seu fígado, pirralho idiota. — comentou ríspido. — Trouxe você aqui para conversarmos sobre seu irmão.

Os ombros de Armin então relaxaram, no entanto, preferiu continuar em silêncio quanto ao que o moreno lhe dissera a poucos segundos. Não sabia se Eren havia comentado com o cabo sobre compartilhar com outras pessoas sobre o relacionamento que estavam a ter.

– O que o senhor quer saber, heichou? — perguntou, relaxando melhor o corpo ao apoiar ambos os braços sobre a bancada.

Os olhos de Levi desceram até a superfície de madeira na qual estava apoiado. Como perguntaria aquilo sem soar suspeito?

– Bom, aconteceu alguma coisa com o Eren quando ainda eram crianças, além do incidente com o titã ruivo? — Resolveu perguntar direto e, ao fitar o olhar surpreso do jovem Arlert, acrescentou: — Ele me contou sobre o que fez com que vocês fossem morar em Trost.

– Ah... B-Bom, depois disso nós fomos para Trost e moramos por um tempo na casa da senhora Lockwood até que meu avô conseguisse montar o abrigo. — explicou, o que fez Rivaille erguer uma das sobrancelhas.

– Apenas isso? — quis saber, visivelmente insatisfeito com a resposta que recebera. Armin observou os acinzentados voltarem para si, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.

– O que o senhor quer saber, exatamente, heichou? — arriscou, desconfiado, fazendo o cabo exitar por breves momentos.

– Tsc. — resmungou, olhando para um ponto aleatório enquanto apoiava a cabeça sobre a mão. — Estou desconfiado de que tenha acontecido algo com o garoto... Algo, digamos, pessoal. Como uma espécie de a-

– Abuso? — O jovem cortou, atraindo a atenção do homem para si. — O senhor quer dizer abuso sexual?

Levi iria descartar aquela hipótese, não fosse a entonação que o soldado usara para lhe dirigir a palavra. Parecia surpreso e sua expressão denunciava que havia tocado em um assunto deveras delicado.

– Estou certo? — insistiu, observando Armin fechar ambas as mãos em punho, com os braços levemente trêmulos. — Tsc... Conte-me, eu quero saber.

O loiro engoliu em seco, os azulados fechando-se na medida em que se recordava das sôfregas palavras que escutara do amigo no passado, o que o fazia se perguntar como o próprio cabo havia chegado àquela conclusão. Eles teriam avançado tanto assim na relação em tão pouco tempo?

Armin suspirou. As particularidades de seu amigo e irmão não eram da sua conta. No entanto, para que Rivaille possuísse alguma suspeita a cerca daquilo, algo deveria ter acontecido.

– Como o senhor... S-Soube disso? — perguntou, o que pegou o outro desprevenido. — Quer dizer... O Eren... Disse que nunca mais tocaria no assunto.

O homem de baixa estatura crispou os lábios, não poderia dizer a verdade.

– Eu observo garoto. — disse por fim. — Agora, conte-me o que aconteceu.

Era óbvio para Armin que havia acontecido alguma coisa entre o cabo a sua frente e o irmão. No entanto, estava dividido entre obedecer seu superior e respeitar o segredo de Eren, visto que, ao não compartilhar com seu possível amante, não queria que o mesmo soubesse. O jovem Arlert suspirou pesadamente, o que deveria fazer?

– Estou esperando Arlert. — pressionou, observando o corpo do outro se encolher. — É uma ordem.

O loiro mordeu a própria língua ao ouvir aquela frase e, sem opções, resolveu contar o que sabia.

Lembrança

As orbes esmeraldinas, fixas em um ponto em específico, descansavam sobre um par de olheiras e pálpebras inchadas e avermelhadas. A imagem de sua mãe sendo engolida por aquele titã estava gravada em sua mente, o que lhe rendera noites em claro por conta de pesadelos constantes e horas de choro excessivo. Nem mesmo a euforia de Armin em descrever a bela casa de uma mulher que chamavam de senhora Lockwood o fazia sentir-se animado de novo.

Suspirando, a criança tateou desajeitadamente a superfície de madeira à sua frente. Ainda estava se acostumando com a cegueira repentina. Perdera as contas das vezes em que tropeçava ou pisava em falso, indo de encontro ao chão na maioria das vezes. Além disso, não conseguia interagir com as demais crianças da vizinhança, visto que nenhuma delas tinha paciência para lidar com um garoto com um alto nível de deficiência visual, sendo obrigado a permanecer dentro de casa praticamente o dia inteiro.

Fora seus amigos, as únicas pessoas que o tratavam com gentileza e às vezes conseguiam levá-lo para caminhar pelas ruas de Trost eram o sr Arlert e o sr e a sra Lockwood. A mulher era um amor de pessoa, mostrando-se prestativa desde o primeiro momento em que os encontrara ao desembarcarem do barco que chegava de Shinganshina. Já seu marido, por mais estranho que parecesse aos olhos de Eren, também parecia ser uma boa pessoa. No entanto, o garoto não se sentia a vontade ao lado do sr Lockwood, visto que recebia demasiada atenção do homem.

Apenas parou com os movimentos ao sentir uma superfície diferente entrar em contato com seus dedos que, curiosamente, procuraram descobrir o que seria aquela superfície rugosa e molenga. Seus dedos passaram a sentir outra e outra superfície com a mesma textura e, franzindo o cenho logo em seguida, decidiu por afastar as mãos pequenas daquele local. Logo em seguida, uma risada arrastada ecoou por aquele lugar e então o barulho de passos chegou aos ouvidos de Eren, que movia a cabeça de um lado para o outro, a procura da direção que aquele som estaria vindo.

– Te assustei, garoto? — Ouviu, logo relaxando o corpo ao perceber que a voz pertencia ao sr Lockwood. — Sinto muito, não foi a minha intenção.

– T-Tudo bem, senhor. — respondeu tímido, levando ambas as mãos à mesa e abaixando levemente o corpo, deixando a ponta do queixo apoiada sobre a mesma enquanto balançava as pernas curtas. — Senhor? O que era aquilo que eu estava segurando?

Ouviu um som parecido com o de uma cortina sendo puxada, o que chamou sua atenção por breves segundos.

– Meus dedos. — respondeu, observando o garoto fazer um bico. — Não se assuste Eren, os dedos de um velho são exatamente assim. — O comentário fez a criança rir por alguns segundos. — Por que não vai brincar com os outros do lado de fora?

O sorriso do garoto morreu naquele momento.

– Não quero. — respondeu, abaixando a cabeça. — Ainda não me acostumei com isso... De estar cego. Não quero atrapalhar.

Uma das sobrancelhas do sr Lockwood se ergueu com aquele comentário, logo apressando-se em puxar uma cadeira para se sentar ao lado de Eren, que percebeu a aproximação do outro, mas resolveu não sair da posição em que se encontrava. O homem apoiou um dos braços sobre a mesa de madeira, olhando fixamente para o corpo pequeno ao seu lado enquanto sorria lascivo.

– Quer brincar comigo, Eren? — perguntou, fitando a expressão do outro se animar.

– Mas o senhor é ocupado... — comentou, erguendo o corpo e apoiando-se melhor sobre a mesa.

– Estou livre agora... Podemos brincar se quiser. — insistiu. Eren não sabia, mas desconfiou levemente do tom de voz que o outro usara consigo. No entanto, queria muito fazer alguma coisa que o distraísse dos pensamentos que o levavam novamente ao dia em que perdera seus pais em Shinganshina.

Por fim, resolveu concordar com a proposta do outro, que sorriu mais abertamente antes de segurar o garotinho em seus braços e se levantar, caminhando tranquilamente até um cômodo mais afastado da frente da casa, que Eren julgou ser um quarto. Ao chegarem, o sr Lockwood fechava a porta antes de caminhar até um ponto em específico e lançar o corpo do jovem Jaeger contra a superfície desconfortável do colchão de palha daquele lugar. O moreno resmungou, no entanto, fora impedido de se levantar por um peso estranho que de repente ela colocado sobre seu corpo.

– O-O que é isso? — quis saber, franzindo o cenho e arregalando os olhos ao sentir a textura rugosa e molenga das mãos do sr Lockwood percorrer seu corpo pequeno por baixo da camisa que usava. — S-Sen-

– Você não queria brincar Eren? — disse o outro em um tom que transbordava malícia. — Vamos fazer isso direito...

– Eu não quero! — exclamou, visivelmente exaltado enquanto começava a se debater sob o corpo do homem. Quando inspirou ar suficiente para gritar, uma das enormes mãos do sr Lockwood taparam sua boca e então os lábios daquele homem se aproximaram de sua orelha direita.

– A brincadeira é essa... — sussurrou, sorrindo ao sentir o corpo de Eren tremer abaixo de si. — Se você gritar, eu mato seus irmãos e aquele velho intrometido. Agora... — Percorreu o indicador da mão livre pelo pescoço do garoto. — Se você se comportar como deve, eles poderão viver. Entendeu?

Eren nada respondeu, estava chocado com tudo aquilo. No entanto, fora obrigado a assentir ao sentir o outro beliscar sua barriga com força. Ouviu o riso de satisfação vindo do sr Lockwood, que logo começou o trabalho enquanto as grossas lágrimas começavam a escorrer pelo canto dos olhos do moreno, que soluçava vez ou outra. Queria poder gritar ou lutar para se livras das mãos daquele que achara que seria uma boa pessoa. No entanto... E se ele cumprisse com sua palavra e matasse as únicas pessoas que restaram em sua vida? Eles seriam mortos por sua causa, e essa era a última coisa que queria que acontecesse.

Fim da lembrança

Levi espalmou ambas as mãos sobre a bancada de madeira, interrompendo o relato de seu subordinado, que saltou levemente do banco onde estava deitado pelo movimento tão repentino. Não queria ouvir mais uma palavra sobre aquilo, visto que sua mente estava tão nublada de pensamentos que não conseguiria se concentrar em nada mais.

Levantou-se sem dar explicações, caminhando em passos lentos para a saída do refeitório, ignorando todos os olhares que insistiam em lhe lançar. A única coisa que queria naquele momento era encontrar Eren, precisava vê-lo o mais rápido que conseguisse.
Ao sair do refeitório e entrar em um dos corredores que levavam aos quartos dos soldados, que estava estranhamente pouco movimentado naquele momento. O que, de certa forma, fora deveras incômodo, visto que não conseguiria evitar pensar sobre o que Armin lhe havia contado.

Trincando os dentes, Rivaille parou de caminhar e socou com força a parede de pedra daquele corredor, enquanto alisava os cabelos com a mão livre e praguejava em voz baixa o quão baixo e repugnante aquele homem fora com aquele garoto inocente. Céus, ele havia abusado de Eren e usado do amor que ele sentia pelos irmãos para isso! Caso viesse a se encontrar com aquele ser asqueroso alguma vez em sua vida, iria lhe ensinar uma lição que não esqueceria tão cedo. E o motivo de se sentir revoltado daquela maneira era simples: Levi sabia exatamente o que Eren havia passado.

Trincou os dentes outra vez, fechando a mão que golpeara a parede em punho ao ponto de sentir as próprias unhas cortando sua pele. Lembrava-se perfeitamente dos dias em que passara ao lado do sujeito que aprendeu a chamar de pai. De repente a sensação de desespero e impotência que estivera enterrada por anos voltava a assombrar sua mente como navalhas.

– Merda... — murmurou, sentindo a respiração falhar algumas vezes na medida em que as imagens voltavam vívidas em sua mente. A expressão de satisfação do homem acima de si ao contemplar seu sofrimento era nauseante. — Porra... Kaney...

Não percebeu quando as próprias unhas cortaram a palma de sua mão, tamanha era a força que fazia para mantê-la em punho. Muito menos sentiu o sangue escorrendo pela mesma e chegando até o chão, o que chamou a atenção de alguns soldados que ali estavam que, ao abordar o cabo olhando furioso para frente, não obtinham resposta. Levi praticamente não os enxergava, tamanha era sua concentração nos próprios pensamentos.

Havia se esquecido de perguntar à Armin se alguém havia percebido ou se tivesse feito alguma coisa para interferir naquele tratamento cruel. O que o mergulhou em uma de suas mais importantes lembranças.

Lembrança

Seu corpo magro e debilitado foi de encontro ao chão sujo sem delicadeza alguma. Estava cansado de correr fugido depois de outro abuso vindo do homem que, por mais que não fosse seu pai de verdade, obrigava-o a chamá-lo dessa forma. Sua visão, completamente turva pelo cansaço, não conseguia distinguir as figuras que se formavam por entre a penumbra da cidade subterrânea. Seu corpo estava em frangalhos, sua cintura doía miseravelmente, ao mesmo tempo em que estava completamente suja pelo sangue seco que escorrera pelo meio das pernas, que manchou também sua calça quando ainda estava úmido. Os pés, braços e tórax, repletos de hematomas e o rosto em um estado deplorável, onde um curativo cobria um de deus olhos acinzentados. Naquele momento, desejou com todas as forças que um dos vários bandidos que se esgueiravam pelos becos daquele lugar o encontrasse e o matasse de uma vez. Não aguentava mais ser obrigado a viver no sofrimento, encarcerado dentro daquela cidade sem futuro e preso à um homem doente que o tratava como uma boneca de pano. Ou então, poderia continuar ali, largado naquele chão imundo enquanto apodrecia aos poucos. Pelo menos serviria de comida para os ratos e vermes que rondavam aquele lugar.

Foi tirado de seus devaneios pelo barulho distante de passos que parecia ecoar em sua direção. Levi não deu tanta atenção para aquilo, visto que poderia ser apenas um bandido qualquer. No entanto, poucos minutos depois, sentiu seus compridos fios negros serem agarrados com força antes de serem puxados a fim de erguer sua cabeça. O garoto grunhiu baixinho, piscando algumas vezes até que seu olho exposto se focasse, deparando-se com um indivíduo tão sujo quanto ele, com as madeixas ruivas pendando até próximo ao queixo e com uma peculiar cicatriz sobre a ponte do nariz. No entanto, o que mais surpreendera o jovem Levi fora a coloração exótica de seus olhos, que eram de um cinza claro tão bonito que o lembrou do riacho cristalino que cortava a cidade de Trost.

Aqueles olhos o fitavam com uma excitação estranha que não soube interpretar. O garoto tentou murmurar alguma coisa, mas apenas conseguiu mover os lábios ressecados e rachados, sem proferir palavra alguma. Poderia ficar olhando para aquele par de acinzentados até o fim de seus dias, não fosse o barulho de uma possível briga de gangues que se aproximava do local. Por um momento, Levi imaginou que aquele homem o deixaria ali, no entanto, surpreendeu-se quando sentiu os braços do outro envolverem seu corpo extremamente magro, erguendo-o antes de começar a correr, fugindo daquele lugar.

Não lembrava-se de ter bebido e comido tanto como naquele dia, mal se importava se suas mãos estavam encardidas, simplesmente devorava o pão que lhe fora oferecido como se fosse a melhor comida do mundo. Sua visão, que havia melhorado por conta da iluminação de uma fogueira improvisada, agora era usada para analisar a figura à sua frente. O que pensava ser um homem, era na verdade um adolescente que aparentava ser pouco mais velho que ele próprio, este que agora apenas o observava comer.

Vez ou outra, fitava discretamente os olhos exóticos de seu "salvador", que refletia o movimento da chama da fogueira como um espelho. No entanto, sempre que o ruivo os voltava para os seus cinza escuro, desviava o olhar.

– Então, qual o seu nome, garoto? — O ruivo disse por fim, quebrando aquele silêncio.

– Levi. — respondeu direto, com a boca ainda cheia do pão que terminava de comer. o adolescente apoiou uma das mãos sobre o chão, descansando o corpo sobre ela antes de continuar.

– E quantos anos o Levi tem? — perguntou bem humorado, oferecendo-lhe um sorriso que não foi retribuído. O garoto exitou em responder.

– Onze... — respondeu desconfiado pela aura de gentileza e receptividade que emanava do outro. Não estava costumado com isso. — E o senhor?

O ruivo ergueu então ambas as mãos, fingindo-se de ofendido.

– Não me chame por senhor, garoto! Não sou muito mais velho que você! — respondeu, mantendo o bom humos em seu tom de voz. — Tenho dezesseis e, a propósito, meu nome é Elaijia Savage, ao seu dispor!

O ruivo então ergueu a mão na direção de Levi, na clara intenção que este o cumprimentasse formalmente. O garoto hesitou por alguns momentos, imaginando onde estaria a tão famosa pegadinha em toda aquela situação. No entanto, o olhar que o outro dirigia para si parecia ser sincero.

Suspirou, resolvendo por fim cumprimentar Elaijia como se deveria. Afinal, era o mínimo que poderia fazer.

Fim da lembrança

O aperto em sua mão aliviava-se consideravelmente. Aquela lembrança, incrivelmente, conseguia acalmá-lo quase que imediatamente, fazendo com que toda a angústia que sentira por tanto tempo simplesmente se esvaísse. Naquela época, nunca imaginaria que poderia criar um vínculo de amizade tão forte como criara com Elaijia. Aquilo o alegrava, de certa forma, mas ao mesmo tempo o entristecia, por se lembrar que o amigo ruivo fora a única pessoa que restara em sua vida depois daquele incidente.

Balançou a cabeça negativamente, espantando aqueles pensamentos de uma vez antes de voltar a caminhar, deixando para trás alguns soldados confusos a cerca de seu comportamento estranho. Queria encontrar Eren e conversar com o garoto naquele momento.

[...]

Franzia o cenho enquanto tentava não tropeçar nos próprios pés enquanto a garota o puxava com força até um destino que desconhecia até o momento. Sempre que perguntava onde estavam indo, Sasha desconversava ou então diria ser uma surpresa que o iria agradas bastante. O moreno suspeitava da veridicidade daquelas palavras, mas como estava sem opções no momento, deveria apenas acatar aquilo.

Seu corpo de repente se chocou contra o da garota, que havia parado subitamente em frente a uma porta aberta, que levava a um dos dormitórios da base. A Brouse adentrou o local em passos lentos, sendo acompanhada de perto por Eren, que tentava tatear as coisas ao redor para tentar adivinhar onde se encontrava.

Sasha caminhava diretamente na direção de um soldado careca que ali estava, que levantou seus olhos para a garota assim que percebeu sua presença no lugar. A morena sorriu afobada, largando o pulso do Jaeger.

– Connie! — exclamou quando o outro se levantou. — Achei ele, vamos fazer isso logo!

– Fazer o que? — perguntou outra vez Eren, impaciente com todo aquele mistério. — E fazer o que? Não quero me meter em confusão!

– Ah, relaxa Eren! — disse Connie, aproximando-se do moreno e apoiando um dos braços sobre seus ombros. — Queremos apenas conversar... Então me diga, há alguma coisa que a Mikasa não goste?

O cenho do adolescente franziu com aquela pergunta estranha, logo relacionando aquilo à alguma possível brincadeira de mal gosto com a irmã.

– Não vou dizer. — respondeu, fazendo certo bico. — Não me envolvam nisso, por favor!

– Ah, por favor Eren! — Dessa vez fora Sasha quem pedira. — Vai ser divertido! É apenas uma brincadeira, mas não a conhecemos tão bem como você e Armin. Mas não vamos pedir a ele, vai negar imediatamente.

– Eu também estou tentado em negar. — cruzou então os braços, fechando os olhos e suspirando pesadamente ao sentir agora o peso do braço da Brause sobre seus ombros.

– Tentamos fazer alguma coisa relacionada com o Jean, mas ela não pareceu se importar. — disse Connie, atraindo a atenção do jovem Jaeger.

– O que o cara de cavalo tem com isso? — perguntou indignado, ouvindo as risadas debochadas dos outros dois.

– O Jean gosta muito da Mikasa, Eren. — Sasha explicou, desfazendo-se em risos pela expressão chocada que agora era desenhada sobre o rosto do moreno, logo sendo acompanhada pelo Springer.

– Não me diga que não sabia? — disse Connie entre risos, agachando levemente o corpo e dando alguns tapinhas sobre a perna. — Todo mundo sabe disso!

– Eu cheguei a pouco tempo, como iria saber de uma coisa dessas?! — exclamou, ainda visivelmente surpreso.

– Mas vocês viveram todos juntos por um bom tempo, não percebeu alguma coisa durante isso? — perguntou Sasha ao se recuperar da crise de risos.

Aquele comentário fez com que o jovem Jaeger ponderasse por alguns segundos. Já não conseguia mais enxergar quando fora morar no Abrigo Arlert com seus irmãos e com as outras crianças que chegaram posteriormente. No entanto... Lembrava-se que sempre que o sr Arlert pedia para que Mikasa comprasse alguma coisa para as crianças, o Kirschtein se oferecia para acompanhá-la. Também se lembrava que, sempre que brigavam ou discutiam e a asiática estivesse por perto, o amigo tentava se exibir mais do que o necessário, o que não o favorecia em nada, levando-se em consideração que a irmã sempre tivera uma maios afeição consigo.

Com aquilo em mente, um arrepio percorreu a espinha do moreno ao imaginar Mikasa e Jean como um casal. Aqueles dois estavam certos, ele realmente gostava da Ackerman há um bom tempo.

– É... Acho que posso ter percebido alguma coisa... — confirmou, arrancando uma breve comemoração daquela dupla, que batiam as mãos em um cumprimento animado enquanto planejavam usar daquela informação para pregar uma peça no Kirschtein. Por mais que a ideia soasse agradável aos seus ouvidos, não conseguia deixar de pensar no quão infantis aqueles dois eram.

– Enfim... — disse Connie por fim, começando a caminhar e trazendo Eren consigo, sentando-o em uma das camas espalhadas por aquele local. — Mais alguma informação sobre a Mikasa que poderia nos ajudar?

O moreno ponderou por alguns segundos, levando uma das mãos até o queixo, pensativo. No fim das contas, estava cooperando para aquela brincadeira.

– Lembro que na mesma época eu e Jean brigávamos bastante. Trocamos até uns socos algumas vezes. — começou, reabrindo os olhos, que se moviam aleatoriamente na medida em que tentava se lembrar de mais algum detalhe relevante. — Na maioria das vezes, Mikasa intervinha ao meu favor e depois ficava extremamente sentimental, o que me irrita bastante até hoje.

Sasha e Connie se entreolharam por um momento.

– Sentimental como? — A morena questionou.

– Ela parecia minha mãe, chamando a minha atenção e ficando próxima mais do que o necessário. — explicou, exaltando-se levemente ao ouvir o grito que os dois à sua frente davam. Conseguia ouvir os pés saltitantes da dupla se chocar por vezes sem conta contra o chão, como cavalos correndo ao ar livre.

– É isso! Vamos usar isso! Vai ser perfeito! — exclamava Sasha, segurando ambas as mãos de Connie, girando com ele algumas vezes em uma típica brincadeira infantil.

– Vamos fazer quando o heichou partir, assim não teremos problemas! — disse o garoto careca com a mesma empolgação, enquanto Eren levava uma das mãos até os olhos, esfregando-os com força enquanto suspirava profundamente.

– Mikasa vai me matar se descobrir isso... — murmurou. — Posso ir agora?

Os dois iriam responder, não fosse o forte barulho vindo da porta que chamava a atenção dos ali presentes. Sasha engoliu em seco enquanto Connie sorria constrangido, imaginando mil e uma coisas ao fitar a expressão de poucos amigos que o homem de baixa estatura lhes lançava. A cabeça estava levemente abaixada, fazendo com que seus fios negros cobrissem parte de seu rosto, o que apenas contribuía para o ar sombrio ao seu redor se intensificar.

Os acinzentados percorreram todo aquele quarto até repousar sobre o rapaz de pele bronzeada sentado sobre uma das camas. Finalmente o havia encontrado.

– O que está fazendo nos dormitórios, Jaeger? — perguntou em seu tom indiferente de sempre. No entanto, aquilo foi o suficiente para que Eren sentisse os pelos de sua nuca se eriçarem levemente. O moreno iria se explicar, mas fora interrompido por Levi, que adentrou o quarto e segurou firmemente o pulso do garoto, puxando-o consigo. — Tsc. Não quero saber, vamos.

– H-Heichou? — chamou, enquanto voltava a tropeçar em seus próprios pés pela velocidade em que o outro caminhava à sua frente, retirando-o daquele quarto o mais rápido possível.

Eren suspirou, cansado. Quando as pessoas iriam parar de simplesmente o agarrarem e saírem caminhando pela base arrastando-o como se fosse um brinquedo?

Notas finais
=== Prévia do próximo capítulo === [...]- H-Heichou eu... Eu-Ah! - gemeu uma outra vez, fechando os olhos e levando ambas as mãos ao rosto. - Eren, não vou fazer nada que não queira. - disse, com uma voz estranhamente calma. Levou uma das mãos ao rosto do garoto, acariciando-o levemente com tal cuidado... Era como se fosse feito de porcelana pura. - Diga-me o que quer que eu faça, irei obedecer sem pestanejar.[...] Comentários?