Wishmaster
40 Memórias II
Notas iniciais
O corpo foi lançado de qualquer jeito contra a parede irregular daquele lugar e, em seguida, o barulho das barras se fechando se fez presente, profanando o silêncio que era instalado ali.
Afastou-se daquela parede úmida e provavelmente coberta por lodo e mofo, apenas para sentir as pernas fraquejarem e o levarem de encontro ao chão, onde a água que o cobria batia em seus tornozelos. A respiração ofegante e os braços trêmulos apenas indicavam o estado deplorável em que se encontrava no momento, cortesia da sessão quase interminável de tortura que precisou passar até então. Os joelhos, cotovelos e ombros doíam infernalmente e, para completar, o odor fétido da masmorra e o frio ocasionado pela água e pela iluminação nula apenas pioravam a situação.
Porém, por pior que estivesse, não conseguia deixar de pensar na situação de Eren, principalmente depois de Elaijia o ter colocado naquela condição. Temia o que o ruivo poderia fazer com o garoto e a última coisa que queria no momento era perceber que não fora forte o suficiente para proteger a única pessoa com quem realmente se importava.
Forçou os braços fracos para conseguir se erguer daquele chão maldito, arrastando-se até as grades para descansar ali as costas, molhando ainda mais as roupas imundas de sangue, lama e lodo. Não conseguia enxergar nada além da escuridão perturbadora daquele lugar e ouvir, agora, os gemidos dos que estavam ali encarcerados, provavelmente criminosos que foram pegos em Mitras ou na cidade subterrânea.
Suspirou pesadamente, fechando os olhos e sentindo o corpo se arrepiar por inteiro por conta do frio. Sabia que não era uma pessoa inocente, cometera atos desumanos antes de ingressar para a tropa de exploração e ter seus crimes absolvidos. Todavia, simplesmente não conseguia aceitar uma condição dessas. Aquele não era o seu lugar, não deveria estar ali em meio à toda aquela podridão sem janelas ou vias onde pudesse respirar ar fresco, sem água potável ou comida até o dia em que os soldados da Polícia Militar se lembrassem de alimentá-los.
– Ah... – gemeu, encolhendo o corpo e abraçando os joelhos enquanto continuava encostado às grades de ferro. Precisava sair daquele lugar o mais rápido que conseguisse e resgatar Eren. Queria fugir, esquecer por um momento que existiam titãs e deixar o garoto em segurança antes de voltar e matar o ruivo com todas as forças que tivesse. Ele era o único com o que se preocupava, sua única prioridade.
Chutou a grade levemente com o pé, fazendo a água ficar alvoroçada com o movimento, em seguida soltando um xingamento alto. Se pelo menos estivesse armado...
– É sempre assim... Com o tempo você se acostuma. – Ouviu uma voz feminina ressoar logo à sua frente e então ficou quieto. – É mais fácil aceitar do que continuar tentando, acredite.
Os ombros caíram levemente, resmungando sôfrego pela dor que sentira no momento.
– Apenas os fracos... Que renunciaram à vida... Aceitam uma condição dessas... – respondeu lentamente, detestando a forma como a voz havia saído.
Ouviu um riso rouco da mesma pessoa, seguido do barulho de correntes a se mover.
– É o tipo de coisa que dizem aos jovens que não têm conhecimento sobre a vida. – devolveu, fazendo o outro suspirar. – Que tipo de crime cometeu para acabar aqui, conosco?
– Eu sou inocente. – respondeu rapidamente e então risadas de vários lugares começaram a soar, o que o fez crispar os lábios em desagrado.
– Claro que é, todos nós somos inocentes. – A voz desdenhosa de um homem soou alta em meio aos risos.
Aquilo fez Levi bater a cabeça contra as grades de ferro com certa força, resmungando algo sem nexo em seguida. Sabia que aquele era o discurso que praticamente todos os criminosos usavam, o que complicaria sua situação para que explicasse o que quer que lhe perguntassem. Não que estivesse realmente interessado nisso.
– Então... Se você é inocente, o que aconteceu para acabar aqui conosco? – A voz feminina voltou a soar depois de algum tempo de silêncio, após as risadas sessarem.
– Traição. – respondeu por fim, largando as pernas na água ao desfazer o abraço.
– Oh... Isso explica o porquê do capitão da tropa de exploração estar preso.
Aquilo surpreendeu tanto à Levi quando aos outros que estavam ali presos, que comentavam entre si enquanto usavam seu nome para fazer referência à alguns feitos de que haviam ouvido falar quando ainda estavam livres.
– Como sabe quem eu sou? – perguntou, ouvindo um suave riso como resposta.
– Isso não é muito importante agora, senhor. – Ela respondeu. – À propósito... Muito prazer, eu me chamo Nowaki.
[...]
Os lábios estavam bem abertos em um grito mudo, a respiração afrontada, as costas sangrando bastante com os estilhaços do espelho e o rosto completamente úmido pelas grossas lágrimas que escorriam de seus olhos.
Kristalli, Indaco e Dúil... Todas as consequências que se seguiram por conta de suas atitudes impensadas e que as repetia mais uma vez... Agora se lembrava de tudo em seus mínimos detalhes e, mais do que nunca, sentia o peso da culpa em ter causado tanto ódio, sofrimento e ainda ter o disparate de morrer antes de consertar o que havia feito.
Fora uma pessoa tão cruel mesmo sem saber e agora os deuses lhe haviam dado mais uma chance para que consertasse o que havia feito... E mal sabia por onde começar.
Ouviu alguém bater na porta de seu quarto antes de entrar e correr em sua direção. Não havia prestado, de fato, atenção em quem poderia ser, mas assim que ouviu a voz que lhe perguntava se estava bem, o corpo se enrijeceu levemente e um nó se fez presente em sua garganta.
– Elaijia? – perguntou quando foi sentado na cama, sentindo o ruivo retirar-lhe a camisa para avaliar o estrago nas costas. O comandante nada disse, apenas começando a retirar os pequenos estilhaços que ainda estavam ali, o que o machucava de certa forma. E continuaram naquele silêncio por alguns minutos, até que o ruivo estreitou levemente o olhar para os ferimentos do garoto à sua frente.
– Você descobriu como usar sua regeneração? – comentou, fazendo Eren se exaltar levemente, indicando ao ruivo que mal sabia como aquilo acontecia. – Entendo...
Os acinzentados repousaram sobre os cortes na pele bronzeada do jovem Jaeger, que expeliam uma fina, mas espessa, fumaça esbranquiçada na medida em que os ferimentos cicatrizavam em uma velocidade incrível.
Eren não sabia ao certo como agir no momento, movendo os pés e roçando um no outro enquanto encolhia levemente o corpo. Com o retorno das memórias por completo, deveria se sentir no mínimo mais íntimo com o homem que estava agora cuidando de si. Porém...
– Por que o senhor ocultou parte das minhas lembranças? – Eren então se levantou, sendo acompanhado pelo ruivo, que franziu o cenho com aquilo.
O moreno então suspirou pesadamente, erguendo os braços para conseguir se guiar e acabar não esbarrando em Elaijia, sentindo os dedos encontrarem o que parecia ser o peito dele ao se virar. Enquanto isso, o ruivo fechava as mãos em punho com força, os olhos levemente arregalados, temendo que Eren tivesse, finalmente, recordado das brechas que havia deixado em sua memória.
– E-Eu não... – Respirou fundo antes de continuar, sentindo o nó na garganta aumentar aos poucos. Não sabia ao certo como diria aquilo, porém, sabia que era necessário. – Eu não me importo com as coisas que você fez até então, mas sim com aquele que você é agora. – comentou em um tom cordial, tendo total atenção do ruivo. – O mundo, a vida... Foram muito cruéis conosco. Eu posso não me lembrar de algumas coisas do nosso passado juntos, mas de uma coisa eu tenho certeza: Por mais que tenha mudado a escrita do seu nome, ainda continua sendo o mesmo daquela época. Gentil, atencioso e extremamente protetor.
Os joelhos do comandante encontraram o chão enquanto os olhos fitavam arregalados o rosto do moreno, que sorria cordialmente para ele enquanto abria os braços. Sentiu as mãos de Eren tateando seu rosto e então fechou os olhos, fungando alto enquanto não mais continha as lágrimas que molhavam seu rosto cada vez mais. Odiava-se por estar naquela situação e, principalmente, por saber que ele estava certo em tudo o que dizia.
– Elaijia... Não, Índigo. – Soltou um sorriso com aquilo. – O líder e guardião do povo Mélico ainda não comemorou o meu Breithe* nesta vida.
Os olhos do ruivo então se arregalaram em choque com aquela simples frase e então todo o seu corpo tremeu, ao mesmo tempo em que um terrível e assustador baque de nostalgia se fazia presente.
– Você não esqueceu... – comentou ainda vago, agarrando as roupas do moreno. – Você se lembrou de tudo? – Viu quando o jovem Jaeger balançou a cabeça positivamente. – Desculpe... Por tudo... Eu fiz tudo errado...
Os olhos do moreno se arregalaram em seguida ao sentir os braços do ruivo envolverem sua cintura em um abraço forte, o rosto de Elaijia molhando sua roupa por conta das lágrimas que caíam incessantes.
A única coisa que Eren fez foi se abaixar e retribuir o abraço que lhe era oferecido e que sabia que o homem ali ajoelhado tanto precisava. Elaijia se entregou, chorando audivelmente como não fazia há muito tempo, sendo amparado por Eren, que sorria sincero e também deixava escapar algumas lágrimas.
– Eu... Nunca pensei que fosse fazer alguém sofrer dessa forma... – Deixou escapar, cabisbaixo. – Sinto muito por todas as minhas escolhas e por fazer com que definhasse tanto assim, mas, por favor. – pediu, levando ambas as mãos ao rosto do comandante, erguendo-o para si. – Lembre-se do que me ensinou, do que disse sobre o plano que os deuses têm para todos nós... Não precisa ser assim!
Elaijia fitou os esmeraldinos daquele garoto por alguns segundos antes de afastar as mãos pequenas de seu rosto e finalmente se levantar, tentando se recompor. Suspirava várias vezes, alisando o rosto com ambas as mãos.
– Não, é assim que tem que ser. – disse, para a infelicidade de Eren. O ruivo se voltou para ele outra vez. – Você não entende, Eren? Isso não vai ter fim enquanto ele continuar aqui! Eu preciso fazê-lo entender que não é esse o caminho!
– E qual é o caminho certo?! – Eren se exaltou enquanto grossas lágrimas escorriam de seus olhos naquele momento. – Matar inocentes em nome de uma justiça sem fundamento? Nós dois sabemos que enquanto não nos entendermos, isso não terá fim! – O moreno arfou, levando ambas as mãos ao peito antes de encurvar o corpo, chorando audivelmente. – Não vai adiantar de nada toda essa luta se ele não se lembrar de nada! Será tudo em vão e esse círculo vicioso apenas irá se prolongar ainda mais!
– Eu não confio nele! – gritou Elaijia, perdendo completamente a postura e avançando contra o corpo de Eren, agarrando-lhe pelos ombros e sacudindo um pouco. – Pelo amor de Íogaireacht, você sabe o que ele fez e do que ele é capaz de fazer caso se lembre! Eu preciso fazer isso para te proteger da insanidade dele Eren! – Continuou gritando enquanto o sacudia de vez em quando, visivelmente nervoso e alterado. – Você tem ideia do quão difícil foi enterrá-lo naquele dia? Você, que eu criei como meu filho e que aquele desequilibrado matou! Matou os dois! E ao menos tive chance de fazer alguma coisa! – As lágrimas voltavam ao rosto do ruivo enquanto o jovem Jaeger apenas ficava em silêncio, com os olhos arregalados. – E agora que eu posso fazer alguma coisa antes que seja tarde, você me pede para desistir? Está fazendo a mesma coisa de antes... Se me tivesse deixado continuar como estava você nunca teria morrido...
Os braços de Eren então envolveram o corpo do homem alto à sua frente em um abraço apertado que foi imediatamente retribuído pelo ruivo, que escondeu o rosto no ombro do mais baixo enquanto fungava alto. Agora finalmente entendia os motivos de Elaijia por tudo o que ele havia feito até então, porém, mesmo assim precisava convencê-lo do contrário.
Não queria que aquele pesadelo continuasse e, muito menos, que terminasse da forma trágica que estava prevendo. Agora que havia recuperado por completo suas lembranças, conseguiria lidar melhor com a situação. E, o primeiro passo seria convencê-lo de que aquele caminho não levaria à nada.
Mas, antes de qualquer coisa, precisava ver Levi.
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