Wishmaster
39 Memórias I
Notas iniciais
A preocupação estava estampada no rosto do jovem Jaeger quando foi praticamente arrastado para fora da base da Polícia Militar central e, naquele momento, roía a unha do polegar enquanto era levado de carruagem até onde o Marechal estaria.
À sua frente estava Elaijia que, em silêncio e com os braços cruzados, observava a paisagem ao lado de fora com certo desinteresse. O ruivo não sabia ao certo o que sentir no momento, porém, ao olhar de relance para Eren, obrigava-se a lembrar do porquê de estar dando aqueles passos tão...
Suspirou um pouco incerto. Há muito que não havia mais como contornar aquela situação e, também, já não mais sabia se o queria fazer de fato. As lembranças o assombravam todas as noites e faziam com que não se esquecesse de seu objetivo.
Mas, ainda assim...
Sorriu levemente quando finalmente chegaram e iria abrir a porta, não fosse a mão de Eren segurá-lo pelo pulso repentinamente. Elaijia ergueu uma das sobrancelhas com aquilo, voltando os acinzentados para o garoto, que parecia tremer um pouco.
– Não precisa ficar com medo, ninguém irá machucá-lo. – disse, mas ainda assim continuou curioso por ver que o aperto em seu pulso apenas aumentou.
Admitia que ainda sentia um grande receio por estar perto daquele homem, mesmo depois de ter recuperado as memórias de suas vidas passadas. Pelo menos pensava que as havia recuperado. No entanto, não conseguia encontrar sentido em algumas das imagens que se formavam em sua mente vez ou outra. A única coisa na qual tinha certeza até o momento era que deveria confiar no homem ruivo à sua frente.
Porém...
– Eu... Não sei se deveria estar perguntando isso, mas eu não consigo entender algumas coisas. – disse, movendo os lábios vez ou outra enquanto tentava formular uma frase que fizesse sentido.
O Savage apenas suspirou.
– Eu o trouxe até aqui para que o Marechal declarasse oficialmente que agora está sob minha responsabilidade. – Foi direto, percebendo quando os orbes esverdeados de Eren se arregalaram de repente. – Sua guarda seria transferida para mim de qualquer forma, no entanto, isso apenas se agilizou após a prisão de Levi.
– Pri-Prisão? – O moreno franziu o cenho. – Mas... Ele não fez nada de errado!
– Porte ilegal de material proibido é um crime severo, até mesmo para o homem mais forte da humanidade. – Elaijia entortou o nariz ao dizer aquilo, finalmente saltando para fora da carruagem, oferecendo a mão para que o jovem Jaeger pudesse se apoiar e descer sem muitos problemas.
Eren mordeu o lábio inferior com força enquanto descia, sentindo-se zonzo. Tinha conhecimento, em partes, de que o capitão possuía certos manuscritos que eram proibidos e que deveriam ter sido entregues para a Polícia Militar. No entanto, não imaginava que o mesmo os teria trago para Sina depois da invasão à base da tropa de exploração, em Rose.
Sentia um embrulho estranho no estômago apenas em imaginar o amante, que era um insano admirador da limpeza e higiene, largado nas celas imundas das masmorras de Sina ao lado de criminosos cruéis.
Aquilo, definitivamente, não deveria estar certo.
[...]
A morena espalmou exageradamente ambas as mãos sobre a secretária do comandante sem se preocupar com a ardência que sentiria por conta disso. As narinas infladas apenas indicavam o quão aflita poderia estar naquele momento, fitando o rosto do loiro à sua frente por cima dos óculos.
Simplesmente se negou em acreditar no que seus olhos lhe mostraram há pouco tempo atrás, quando viu o amigo capitão algemado e sendo arrastado por um grupo de oficiais da Polícia Militar que era liderados por Nile. Portanto, não pensou duas vezes antes de ir até à sala de Irwin tirar tal história a limpo.
No entanto, não esperava que o Smith, assim que a avistou, saltasse em sua direção extremamente furioso e tagarelando sobre seus devaneios e loucuras que haviam conseguido influenciar Levi ao ponto de leva-lo a ir preso. Em sua defesa, a única coisa que pôde dizer era que deveriam pensar rápido em um plano para que conseguissem reverter aquela situação.
A verdade era que a tenente já imaginava que algo do tipo poderia vir a acontecer e, também, sabia que se não fosse pelos manuscritos, Elaijia provavelmente teria encontrado uma outra forma de incriminá-lo para que pudesse monopolizar Eren o quanto quisesse.
A grande questão que ainda não havia sido respondida era o porquê de tudo aquilo. Pelo o que se lembrava, Elaijia infernizou tanto a vida dos dois no passado que o desfecho foi terrível para David. Então, qual o real motivo para que mudasse de tática nesse momento e atacasse agora Levi?
– Não adianta mais discutir sobre o que aconteceu, Irwin. – disse Hanji antes de suspirar pesadamente e se afastar da secretária do outro, que apenas cruzou os braços. – Temos que pensar em uma forma de tirar os dois das garras de Elaijia e rápido.
– Pelo menos nisso concordamos. – O loiro respondeu, levantando-se e indo até a pequena janela de sua sala, onde suspirou profundamente. – Não consigo ver uma forma de fazer isso sem que a tropa saia ilesa. Estamos em uma situação delicada e, provavelmente, a notícia da prisão de Rivaille foi passada para nossos soldados... – Crispou os lábios, socando a parede ao seu lado. – Mais que merda!
A Zoe rolou os olhos com aquela atitude.
– Precisamos então ser ousados. Estamos de mãos atadas, literalmente, e com duas peças importantes sob responsabilidade de Elaijia. Nossa situação nunca esteve pior e isso é ruim, muito ruim. – apontou, levando ambas as mãos à cintura. – Porém, temos uma coisa à nosso favor.
– E o que seria? Porque ainda não consegui deduzir que coisa seria essa. – desdenhou, recebendo um gesto obsceno da tenente como resposta.
– Temos o elemento surpresa. – disse e viu quando Irwin franziu o cenho. – Vamos, pense comigo! Elaijia com certeza pensa que está no controle de tudo no momento, principalmente de nós e nunca esperaria por um ataque surpresa. Você sabe mais do que ninguém como os soldados da Polícia Militar são em relação à um combate arriscado.
O loiro pareceu ponderar seriamente sobre tudo aquilo, acabando por suspirar pela enésima vez.
– Você diz para pegarmos os dois à força, mas já pensou para onde poderíamos ir? A tropa inteira seria prejudicada e seria tachada como traidora. – disse, voltando a se sentar sobre sua cadeira, largando o corpo ali.
Hanji então se aproximou, contornando a secretária de seu superior e agarrando o rosto dele com ambas as mãos, erguendo-o para si.
– Eu sei que isso é quase impossível, mas você precisa confiar em mim Irwin. – A voz saiu séria demais, mas não se incomodou com aquilo. – No momento, o mundo exterior é mais seguro que o território aqui dentro das muralhas e, além disso, eu conheço uma pessoa que pode nos ajudar, mas precisamos ter Rivaille e Eren conosco primeiro.
– Por que eles precisam estar conosco primeiro? Não seria mais lógico que deixássemos tudo preparado antes de começarmos o golpe de fato? – Irwin afastou as mãos da mulher, visto que estava machucando seu rosto com a pressão que seus dedos faziam.
– Porque eu prometi à essa pessoa que levaria os dois até ela. Você entenderá isso futuramente, mas agora, por favor, apenas confie em mim. Nós precisamos ser rápidos antes que aconteça uma tragédia.
[...]
Com base nas provas aqui apresentadas e no fato de que a tropa de exploração não cumpriu com suas obrigações – em relação ao acordo proposto previamente –, declaro neste momento que a guarda permanente do soldado Eren Jaeger pertence à Polícia Militar.
Sentia-se aéreo desde o momento em que as palavras do Marechal ecoaram pela sala onde se encontrava há algumas horas, não sabendo ao certo o que fazer ou, muito menos, o que pensar. Ainda não havia processado toda a informação que lhe fora oferecida naquela espécie de audiência.
Em primeiro lugar, sua guarda estava em risco pelo simples fato de não ter respondido às expectativas e objetivos impostos por Irwin, não conseguindo usar de suas possíveis habilidades para que auxiliasse no avanço do exército contra os titãs que ainda restavam. Acreditava que o comandante Smith poderia ter simplesmente enrolado enquanto pensava no que poderia fazer para contornar tal situação.
Em segundo lugar, com a prisão de Rivaille, que era seu tutor até o momento, sua guarda deveria ter sido responsabilidade de Irwin até segunda ordem. Todavia, por conta dos motivos acerca de seu encarceramento, Darius não pensou duas vezes antes de lhe transferir para as mãos de Elaijia.
O corpo foi de encontro ao colchão de seu mais novo quarto naquela base e então rolou de um lado para o outro, sentindo-se extremamente desconfortável. Sentia falta dos braços de seu capitão que rodeavam seu corpo todas as noites e que o confortavam. Consequentemente, pensou na situação em que Levi deveria estar naquele momento, sentindo um incômodo na garganta que o sufocava. Queria estar ao lado dele, mesmo sabendo que isso seria impossível por hora.
– Não era para isso estar acontecendo... – murmurou para si próprio, suspirando antes de fechar os olhos e enterrar o rosto no travesseiro. – É tudo minha culpa...
Sim, tal pensamento havia voltado desde antes de deixar a base da Polícia Militar central pela primeira vez naquele dia. As pessoas mais importantes para si estavam sofrendo mais uma vez por conta de sua fraqueza, imaturidade e experiência.
Eren ficou em silêncio por breves segundos. Aquele não era o real motivo daquilo estar acontecendo e sabia muito bem disso. Se não existisse naquele mundo provavelmente teria poupado mais vidas do que poderia imaginar e apenas tal pensamento fazia um forte aperto incomodar seu peito.
Por um momento apenas imaginou o que aconteceria se sua existência fosse varrida da face da Terra. Provavelmente faria mais pessoas sofrerem por sua causa e se sentia péssimo por isso.
Os dedos apertaram o travesseiro com força enquanto praguejava baixinho, imaginando o real motivo de ter vindo naquele mundo, sendo que por toda as outras vezes havia trago apenas desgraça, ódio e mortes.
– Porcaria... – resmungou, levando agora ambas as mãos à cabeça por conta da dor repentina que lhe havia atingido, puxando os fios castanhos vez ou outra. Sabia que sempre que isso acontecia veria alguma visão de um passado que não queria ter se lembrado, porém, aquela dor era diferente e fazia com que uma péssima sensação percorresse o seu corpo.
Levantou com uma das mãos na cabeça enquanto deixava o outro braço erguido para que tentasse se guiar por entre os objetos desconhecidos daquele quarto. O corpo estava pesado e a sensação que tinha no momento era a de que poderia cair a qualquer momento em um abismo sem fim. Além disso, sentia um medo que não sabia de onde vinha.
Isso tudo até que as imagens começaram a se formar em sua mente, o que o fez arregalar os olhos, atônito, e gritar o mais alto que pôde.
As imagens de uma infância distante se fazia presente como um filme antigo e, em um dos diálogos que ali se desenrolava, pôde perceber que eram as lembranças da época em que se chamava David.
As costas de Eren se chocaram com força contra uma superfície que julgou ser um espelho pela forma como se despedaçou e cortou partes de seu corpo. Não se importou com os ferimentos de momento, concentrando-se apenas nas imagens que então se formavam. Eram totalmente novas e pareciam cobrir os espaços brancos que existiam nas memórias que havia recuperado com o auxílio de Elaijia.
No entanto, uma delas lhe chamou a atenção.
Lembrança
Precisou se apoiar nas pedras que encontrava naquele chão para conseguir subir aquele pequeno monte, onde uma árvore enorme descansava em seu topo. Não se importou com as mãos sujas de terra, apenas batendo-as contra a roupa que usava para retirar o excesso quando finalmente chegou, encontrando ali o homem que procurava, que estava sentado confortavelmente e encostado sobre o tronco daquela árvore, olhando fixamente para a paisagem à sua frente.
– Elijah! – chamou e então os acinzentados dele repousaram em si, seguido por um leve sorriso.
– Vem aqui, David. – pediu, chamando o garoto com uma das mãos, que rapidamente foi em sua direção, sentando-se ao lado do corpo alto do ruivo.
Os enormes esmeraldinos perceberam quando o Savage voltou o olhar para a paisagem à sua frente mais uma vez e então fez o mesmo, tendo o vislumbre da cidade que procuravam há algumas semanas logo abaixo de onde estavam. Era fim de tarde e o céu alaranjado do pôr do sol fazia contraste com as árvores verdes que os rodeavam naquele lugar.
Voltou os olhos para Elijah mais uma vez, com ambas as sobrancelhas erguidas, curioso pela expressão tão serena que o outro trazia estampada no rosto.
– Por que o senhor fica tanto tempo parado assim, olhando para o longe? – perguntou David, tendo uma leve risada como resposta.
– Você realmente não consegue ver? – perguntou, sem desviar o olhar daquela paisagem. – A beleza por trás de tudo isso é incrível. Essa é a beleza que nos move e que nos permite viver nesse mundo. Pense, David, o que seria da humanidade se não houvessem coisas tão bonitas como essa?
O rapaz de pele bronzeada realmente ponderou sobre aquela palavras, voltando os olhos para frente. Um pequeno bando de pássaros saía de um aglomerado de árvores, rasgando aquele céu alaranjado na direção de ambos, deixando algumas penas para trás que flutuavam graciosamente até o chão. Mais abaixo, na direção da cidade, conseguia encontrar alguns possíveis comerciantes pilotando carroças com mantimentos pelo caminho de terra batida que existia por aquele campo aberto. Alguns seguiam pela rua principal que levava até uma pequena ponte onde, ao horizonte, um luxuoso castelo descansava por entre os montes e árvores.
Naquele momento uma brisa agradável se chocou contra seu rosto e então sorriu abertamente, recebendo aquele presente com gosto, balançando a cabeça levemente para que seus cabelos balançassem ao ritmo do vento. Elijah tinha razão, não era apenas a paisagem harmoniosa, mas sim a sensação de paz e tranquilidade que a mesma lhe transmitia. Era algo sensacional.
– Elijah... O seu povo gostava dessas coisas, certo? – comentou, voltando os olhos para ele, percebendo que o ruivo estava com a cabeça encostada no tronco da árvore, os acinzentados fechados, mas não estava dormindo. – Interagir com a natureza...
– Sim... Mas há um motivo em especial para isso. – respondeu, sem sair da posição que estava.
– Quer dizer os deuses? – perguntou, recebendo um acenar de cabeça negativo.
– Nós, Mélicos, acreditamos nos anjos afins. Eles são a força que guiam a humanidade e foram enviados apenas para isso. – explicou, finalmente voltando o olhar para o pequeno ao seu lado. – São três anjos no total, Kristalli, Indaco e Dúil. Em um dos livros que escrevi sobre nossa cultura, acabei traduzindo-os para Cristal, Índigo e, por equívoco, Mestre dos Desejos. – As grossas sobrancelhas do garoto se uniram minimamente. – Dúil é a fusão das habilidades de Kristalli e Indaco. Eu era muito novo quando comecei os manuscritos e quando era criança, sempre chamava Dúil de “O Grande Mestre”.
David riu alto com aquilo enquanto o rosto de Elijah se enrubescia levemente.
– O que mais? – O moreno falou quando parou.
– Você realmente gosta de ouvir as histórias de meu povo? – O ruivo perguntou, recebendo um frenético acenar de cabeça, acabando por rir. – Bom... O plano dos deuses era trazer estes três anjos para o nosso mundo para guiar a humanidade na luta contra as forças de Esu, o equivalente ao Demônio das crenças que são ensinadas aqui. Eles encarnariam em períodos diferentes e o primeiro a vir foi Dúil. – explicou, surpreendendo-se levemente pela atenção que recebia do garoto ao seu lado e então, resolveu ilustrar o que dizia, quebrando um graveto da árvore para poder desenhar no chão. – A fraqueza de Dúil é ser facilmente influenciável. Por isso, ele acabou se corrompendo pela maldade deste mundo. Foi então que os deuses enviaram Indaco, que encarnou no sétimo primogênito puro do povo Mélico.
O Savage deixou um sorriso escapar dos lábios, que não passou despercebido por David, que se aproximou mais do outro.
– Esse sétimo primogênito... É você? – perguntou e se surpreendeu pela resposta positiva, abrindo um grande sorriso com isso. – Que incrível! Você tem o poder de mudar a humanidade!
O sorriso do ruivo então morreu lentamente, resolvendo então continuar:
– Indaco... Também acabou sendo corrompido. – David então se calou. – E como uma última tentativa, enviou Kristalli.
– Ah... – O moreno desviou levemente o olhar, suspirando levemente pelo clima pesado que de repente havia se instalado entre eles. – E... Kristalli está entre nós? Quer dizer, ele encarnou?
Elijah ergueu o olhar até os esmeraldinos de David, fitando-o por longos segundos antes de se levantar, levando uma das mãos aos cabelos castanhos deste, bagunçando-os.
– É melhor irmos para a cidade, está começando a escurecer. – disse antes de erguer uma das mãos, ajudando David a se levantar.
Fim da lembrança
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