Wishmaster
35 Inesperado
Notas iniciais
O moreno sentia a cabeça latejar na medida em que guiava o cavalo pelo caminho programado. Não sabia ao certo como reagir, apenas sabia que aquilo seria melhor para todos e, principalmente, para Levi, que aparentemente não estava nem um pouco satisfeito pela sua decisão de ter insistido ao comandante para participar daquela expedição. Não sabia se o capitão tinha total conhecimento dos planos de Irwin, mas caso soubesse de algo, provavelmente deixaria claro durante a missão.
Mal fazia ideia do quão complicada seria aquela situação quando deixou a reunião, apenas compreendendo de fato o que estaria prestes a acontecer quando se deitou sobre a cama e finalmente relaxou, lembrando-se das palavras do comandante. Usariam a mesma formação que lhes foram útil para o abatimento de vários titãs ao longo dos anos, que abria-se como um leque e estendia-se por um grande território. Irwin permaneceria na dianteira, liderando os demais soldados e sendo acompanhado pela tenente Zoe à sua direita e pelo major Zakarius à sua esquerda que, respectivamente, eram acompanhados por um determinado número de soldados experientes em combates na vanguarda.
Logo atrás estaria disposto o esquadrão de operações especiais, liderado pelo capitão Levi Rivaille, que seria acompanhado por Petra Ral à sua direita e Eren Jaeger à sua esquerda. Atrás do trio estaria a carroça com os mantimentos e equipamentos necessários, que era guardada por dois soldados da Polícia Militar acompanhados do restante do esquadrão, Gunther Schultz, Auruo Bozard e Erd Jin. O centro da formação seria preenchido por soldados veteranos, responsáveis pela segurança da retaguarda.
As extremidades seriam formadas pelos soldados recém chegados, que serviriam como alerta caso algum titã se aproximasse demais, atirando para o alto um sinal de fumaça com uma determinada cor para cada situação enquanto esperariam pelo sinal do comandante para a mudança de rota, que atiraria com uma fumaça verde para a direção que deverá ser tomada. Neste momento, todos os soldados deverão fazer o mesmo a fim de não haver confusões. Caso o confronto seja inevitável, esses soldados deverão se preocupar com o abatimento e rapidamente voltar à formação.
Quando todas as informações e dúvidas sobre o plano e o objetivo foram sanadas, Irwin pediu uma audiência ao comandante da Polícia Militar, Elaijia Savage, onde seria feita a seleção dos soldados que auxiliariam a tropa de exploração durante a missão de retomada. No mesmo período, foram anunciadas as mudanças de patentes que haviam ocorrido com a morte dos comandantes de ambas as divisões. Com a perda inesperada de Mikasa Ackerman, o posto de cabo da tropa de exploração foi dado à Nanaba, que prontamente arcou com a responsabilidade de auxiliar os demais soldados que seriam selecionados para a expedição, que, mesmo descontentados, prepararam-se para o que os esperaria.
Nos dias que antecederam a missão, Rivaille se empenhou em ensinar o máximo que pôde à Eren sobre o uso dos dispositivos de manobras tridimensionais, ignorando todas as tentativas do outro de se afastar e as duras palavras que eram dirigidas para si o tempo inteiro. A preocupação com a segurança do outro era maior que qualquer coisa, e foi com isso que pensou em uma excelente tática para que o moreno não se perdesse durante a expedição, pendurando alguns guizos em seu equipamento para que o Jaeger pudesse segui-lo pelo som. Além disso, seu cavalo estaria conectado ao de Eren, pare evitar quaisquer deslizes.
As vozes das pessoas ao redor do grande grupo que seguia em seus respectivos cavalos para fora da muralha Sina ecoaram em sua cabeça, expulsando-o de seus devaneios. Eren conseguia ouvir alguns comentários do que julgava ser algumas crianças, admiradas por verem seus heróis da tropa de exploração de tão perto. No entanto, a maioria das vozes dos adultos eram acusadoras, comentando em alto e em bom som sobre as consecutivas derrotas daquela divisão e a incapacidade do exército em proteger devidamente o povo. Sempre soube que comentários daquele nível eram feitos, porém, o número de civis que o faziam era assustador.
Aquela situação causava-lhe certa nostalgia, afinal, há poucos meses atrás ele próprio estava no lugar daquelas pessoas, apenas esperando enquanto os soldados partiam aos milhares e voltavam aos frangalhos. Grande parte da população jamais saberia o quanto era cruel ser enviado para a morte para salvar o futuro da humanidade.
Rapidamente expulsou tais pensamentos quando ouviu o sinal de seu comandante, anunciando finalmente a partida daquele grupo, que rapidamente pôs-se a se movimentar com os cavalos e a entrar em formação quando se encontraram finalmente à uma distância segura de Sina. Estavam agora no grande território pertencente à Rose que, aparentemente, não demonstrava tantos obstáculos quanto haviam previsto, o que causava certo sentimento de confiança entre alguns soldados.
Eren segurou as rédeas de seu cavalo com mais firmeza, concentrando-se em seguir as instruções que lhe foram oferecidas por Rivaille dias atrás, seguindo o som dos guizos em seu equipamento. Não era tão complicado quando já se estava acostumado a ouvir as coisas ao seu redor, porém, haviam algumas falhas que provavelmente o prejudicariam futuramente, tais como o mal domínio do DMT e sua grande dificuldade em manusear as lâminas, que seriam de suma importância para sua sobrevivência naquela expedição. Por mais que soubesse o que estaria por vir, não conseguia deixar de se sentir inseguro e, até mesmo, arrependido por algumas escolhas feitas até então.
Tal reação não passou por despercebido pelo capitão que, desde o momento em que deixaram a base da Polícia Militar central ainda em Sina não havia desviado o olhar de seu subordinado. Estava tão preocupado que conseguia sentir seu estômago se contraindo vez ou outra. Simplesmente não conseguia entender o real motivo por trás da reação proativa vinda de Eren quanto àquilo. Não iria relutar caso o moreno desistisse daquela ideia antes de saírem e iria arcar com as consequências, apenas queria evitar que o outro se encontrasse em uma situação de alto risco.
No entanto, era tarde demais para ficar se lamentando sobre. Tudo o que poderia fazer no momento era oferecer o máximo de si para proteger aquele garoto à qualquer custo.
– Essa é sua primeira expedição, Eren. – comentou, fitando de relance o garoto, que voltou levemente o rosto para a sua direção. – Precisará do dobro de atenção que tinha durante os treinamentos.
– Sim senhor. – O outro respondeu, franzindo o cenho enquanto continuava guiando seu cavalo. Aquilo fez Levi suspirar pesadamente.
– Tome cuidado. – pediu, logo voltando sua atenção para Irwin, que se encontrava à alguns metros de distância naquele momento.
"Dará tudo certo" pensou, franzindo o cenho mais profundamente quando percebeu, em seu lado direito, um sinal de fumaça que indicava a aparição de um titã. Rapidamente levou uma das mãos à cintura, onde se encontrava presa em seu equipamento uma das pistolas que usaria, atirando o sinal de fumaça para o alto e auxiliando Eren para que fizesse o mesmo a fim de confirmar o recebimento da mensagem, não demorando muito para que o sinal de mudança de rota fosse anunciado pelo comandante.
[...]
Recostou-se graciosamente sobre sua poltrona, depositando ambos os pés sobre a mesa de sua sala antes de relaxar por completo o corpo. Não conseguia esconder de ninguém sua satisfação, optando por permanecer dentro de sua sala até pelo menos rever todas as etapas de seu plano até aquele crucial momento. Aquela expedição não havia sido prevista, no entanto, de nada mudaria significativamente em seus passos. Poderia até mesmo encontrar ali a chave que precisava para finalmente ter o garoto em suas mãos e usá-lo ao seu bel prazer.
Um sorriso libertino desenhou seu rosto, provavelmente a tropa de exploração voltaria com um grande número de baixas, o que apenas iria beneficiá-lo. Afinal, como comandante da Polícia Militar, poderia mandar em quaisquer membros daquela divisão enquanto continuassem sob seus cuidados.
Os acinzentados foram voltados para a enorme janela à sua frente, que lhe proporcionava a visão de toda a base por se localizar exatamente no centro da mesma. Os raios de sol matutinos se chocavam contra sua pele pálida demais confortávelmente, ao mesmo tempo em que iluminava toda aquela paisagem, com os soldados indo e vindo, cuidando de seus afazeres. Não ventava naquele momento, o que era desagradável para si. Desde a infância gostava de sentir a brisa natural que saía por entre as árvores e que faziam seus fios ruivos dançarem ao seu ritmo. Sentia-se falsamente livre com aquilo, ao mesmo tempo em que todas as suas preocupações pareciam se esvair. Deixava-o tranquilo.
Fechou os olhos por alguns momentos antes de voltar sua atenção para um papel em branco em específico sobre sua mesa, fitando-o fixamente enquanto milhares de pensamentos invadiam sua mente. Àquela altura a tropa de exploração deveria estar próximo à sua antiga base e, caso seus subordinados seguissem suas ordens com perfeição, o que quer que Irwin estivesse planejando seria inútil. Deveria pensar logo em seu próximo passo, que deveria ser traçado com cautela. Não permitiria que dessa vez houvessem falhas, precisava agir enquanto ainda lhe restava tempo.
Seus olhos repousaram instintivamente sobre um pequeno calendário ao lado de sua mesa. O mês de dezembro lhe era familiar de alguma forma, o que fazia com que imaginasse se algo não estava passando-lhe por despercebido. Quando ainda morava na cidade subterrânea sabia que uma data em especial tinha sua importância.
Foi quando seus acinzentados repousaram sobre um dia em específico que não estava nem um pouco distante.
– Vince e cinco de dezembro... – murmurou, logo em seguida abrindo um enorme sorriso. – Claro... Como poderia ter me esquecido disso? – Elaijia riu alto em seguida, balançando negativamente a cabeça antes de se sentar como deveria. – Levi provavelmente ficaria desapontado comigo se não me lembrasse.
Não que se importasse verdadeiramente com aquela data, mas, acima de tudo, era um homem de princípios e gostava de respeitá-los. Havia decidido, daria seu próximo passo depois daquele dia em específico.
O ruivo então levantou, ajeitando seu uniforme como deveria e logo saindo de sua sala. Iria para cidade tentar encontrar algo de qualidade que pudesse comprar, afinal, por mais que detestasse fazer aquilo por uma pessoa que, no fundo, sabia que não gostava nem um pouco, deveria pelo menos manter as aparências.
Claro, isso também o fizera lembrar da conversa que teve com o Jaeger ainda na antiga base da tropa de exploração em Rose, que deixava óbvio que o mesmo ainda não possuía o controle total de suas habilidades, o que explicaria o fato de não conseguir enxergar por conta própria.
– Ah... Assim não tem graça. – murmurou para si mesmo quando fechou a porta. – Espero que ele já consiga fazer isso por conta própria quando finalmente matá-lo.
Também gostaria que o outro enxergasse quando finalmente estivessem lutando naquele momento da operação de retomada, o que o fez fechar os olhos e suspirar pesadamente.
– Francamente... Acho que serei bonzinho dessa vez. – comentou novamente, reabrindo os olhos e sorrindo à sua maneira antes de erguer uma das mãos à altura dos olhos, estalando os dedos em seguida. – Aproveite as lembranças que irei lhe proporcionar nessa vida, Eren Jaeger.
[...]
– Eren! – Uma mulher gritou, o que serviu como alerta para o capitão, que rapidamente segurou sobre o pulso do moreno, puxando-o para o seu cavalo ao mesmo tempo em que mudava a sua rota em tempo o suficiente para não ser esmagado pelos pés de um dos titãs que ali se encontravam.
– Você está bem? – perguntou, sem tirar os olhos do aglomerado de anomalias que se encontravam logo à frente, o que o obrigava a mudar seu caminho mais uma vez, resmungando em seguida.
– S-Sim senhor. – Eren respondeu engolindo em seco logo em seguida, tateando com ambas as mãos a cintura do homem à sua frente a fim de se segurar com mais firmeza.
Haviam finalmente chegado à antiga base da tropa de exploração, em Rose, encontrando um grupo numeroso demais de titãs. Sabia que aquele número absurdo não estava nos planos de Irwin, o que era uma grande desvantagem para os soldados.
– Segure-se firme. – Ouviu Rivaille alertando e prontamente obedeceu quando percebeu a velocidade dos galopes aumentando. Não sabia se dariam meia volta naquele momento ou se continuariam lutanto e, sinceramente, esperava que o comandante optasse pela primeira. Afinal, seria impossível Eren lutar em um ambiente como aquele, com poucas árvores, cujo DMT seria inútil.
Conseguia ver, caso estreitasse os olhos, a titã fêmea logo em frente, usando de suas habilidades para arremessar alguns soldados da Polícia Militar contra as paredes da base. Aquilo fez com que Levi trincasse levemente os dentes, ponderando seriamente em dar meia volta e encontrar um local seguro. Todavia, mais do que depressa mudou de ideia quando seus subordinados, que até então estavam ao seu redor servindo como suporte, tomaram a dianteira com o auxílio dos dispositivos, prendendo-os contra as construções mais próximas a fim de se lançarem com mais rapidez contra a titã fêmea.
– Tsc. – O capitão resmungou coisas desconexas. Não poderia deixá-los enfrentá-la daquela forma tão precipitada, afinal, não era como se assemelhasse com os titãs que haviam matado anteriormente.
– O-O que aconteceu, senhor? Ouvi o barulho dos cabos... – quis saber, mordendo levemente o lábio inferior.
– Aqueles quatro foram atacar a titã fêmea. – respondeu, erguendo uma das sobrancelhas quando o moreno atrás de si se exaltou, endireitando a coluna e arregalando os olhos. – Sei que é preocupante, mas precisa confiar neles, Eren.
– Senhor, Armin me contou sobre tudo. – disse por fim, atraindo os acinzentados para si por alguns segundos. – Sei que aquela... É a Annie. – O moreno deu uma pausa, engolindo em seco mais uma vez antes de continuar. – Eu vivi com ela por muitos anos, senhor, e sei do que ela é capaz. Eles estão correndo perigo!
Iria dizer qualquer coisa quando foi interrompido por algo que não lhe agradou nem um pouco e que fez com que a decisão de auxiliar seus companheiros fosse tomada. A visão de Petra estando presa entre as mãos daquela titã o preocupou demasiadamente e esperava que os outros três conseguissem libertá-la antes que ali chegasse.
Sabia que não poderia deixar Eren sozinho no cavalo, visto que provavelmente iria se perder. Voltou-se então para trás, fitando firmemente as orbes esmeraldinas do garoto, dizendo:
– Quero que me ouça com atenção. Preciso que se concentre unicamente no som dos guizos de meu equipamento. – alertou, rapidamente colocando-se em posição. – Você vai se guiar apenas com isso, entendeu? – Percebeu o outro assentir e logo voltou os acinzentados para a árvore mais próxima. – Lembre que sua vida depende disso.
E então Levi acionou os cabos de seu equipamento, em seguida usando do gás para saltar do cavalo com o máximo de impulso. O Jaeger fez o mesmo, seguindo logo atrás de seu superior e concentrando-se em bloquear quaisquer sons que não fossem os dos guizos, o que era complicado devido ao caos sonoro que havia se instalado naquele local, mas preocupava-se em fazer o melhor que podia, sentindo-se levemente satisfeito por perceber que estava conseguindo corresponder às expectativas do capitão.
No entanto, Eren de repente se desconcentrou por conta de um som que se assemelhava com um estalar de dedos, que silenciou sua mente por alguns segundos.
E em seguida veio a dor.
Rivaille percebeu tarde demais o que havia acontecido, voltando o rosto para trás apenas quando saltou por cima da parede externa do que parecia ser um dos dormitórios da base, tendo o vislumbre do corpo de Eren se chocando de frente contra a parede com toda a força que o gás poderia proporcionar.
Quando finalmente pousou sobre o teto daquela construção, teve outra surpresa ao perceber que os cabos do equipamento do garoto haviam se desprendido por conta do choque e que, desajeitadamente, as mãos do moreno tentavam à todo custo encontrar algo onde se segurar para evitar ou retardar a iminente queda.
Levi iria se mover naquele momento, não fosse o fato de Eren ter levantado o rosto completamente ensanguentado para si, com os olhos arregalados. Havia conseguido se segurar sobre o batente externo de uma das janelas com uma das mãos, ficando completamente pendurado. O capitão, percebendo o quão trêmulo estava aquele braço, correu os acinzentados pelo local, procurando onde conseguiria prender o DMT para fazer uma volta e pegar o garoto.
– N-Não! – Eren murmurou, os olhos se estreitando por conta da dor lancinante em sua cabeça e a visão completamente embaçada que o permitia enxergar borrões em movimento. Ao perceber que não obteve resposta do outro, se forçou a falar mais alto, usando do braço livre para chamar a atenção. – Vá... Saia daqui!
Percebeu quando o capitão voltou a atenção para si. Provavelmente estaria achando aquilo um absurdo, no entanto, sabia que não deveria fazer com que ele se arriscasse por sua causa.
– Vá ajudá-los! – gritou dessa vez, fechando os olhos por conta do tremendo incômodo em seu nariz, que provavelmente havia se quebrado com o impacto. – Se tem tempo... Para mim... Faça algo útil e... Ajude-os!
Rivaille recuou alguns passos, sacando ambas as espadas e segurando-as com tamanha força que faziam-nas tremerem. O garoto continuava a tratá-lo daquela forma mesmo com o grande risco de vida que estariam correndo naquele momento, finalmente percebendo que não se tratava de uma defensiva por conta dos últimos acontecimentos. Mesmo assim, não conseguia entender o porquê de apenas o tratar dessa forma, e não os demais.
Estava dividido entre auxiliar seu esquadrão e ajudar o seu garoto. A escolha errada poderia lhe custar muito caro e temia que o desfecho fosse o mesmo que o da última vez em que havia se encontrado naquela situação. Levi então trincou os dentes, amaldiçoando todas as gerações de Irwin por colocá-lo naquela situação por simplesmente não querer encarar a fúria do Marechal. Naquele momento, não poderia fazer nada além de decidir o que seria melhor para a humanidade, decidindo então deixar o garoto para trás e seguir seu caminho até seu esquadrão.
Eren sorriu minimamente quando percebeu que o capitão continuou seu caminho, sentindo-se aliviado. Agora poderia se preocupar consigo próprio e com aquela maldita dor contínua em sua cabeça que, como das outras vezes, foi a responsável por fazer com que voltasse a enxergar. Poderia encarar isso como sendo um ponto positivo, levando-se em consideração a situação na qual se encontrava.
Mesmo com a visão embaçada, o moreno correu as esmeraldinas pela paisagem à sua volta. Conseguia enxergar a titã fêmea movimentando-se freneticamente por conta dos demais membros do esquadrão de operações especiais, além dos demais titãs que misteriosamente apareceram por ali. Se o que Armin lhe disse fosse a verdade, seria possível que aquele número excessivo de titãs também fossem humanos que se transformaram? Isso significaria que os próprios civis estariam se transformando, o que explicaria o fato de tantas aparições como aquela, visto que eles estavam praticamente extintos até pouco tempo atrás.
O rapaz respirou fundo quando sentiu sua mão fraquejar, logo erguendo a outra para servir de apoio, resultando em um grito contido ao sentir que seus dedos estariam quebrados. Estava em uma situação delicada e, com apenas uma mão disponível, não fazia ideia de como ativaria seu dispositivo.
–
Estava com um mau humor terrível e isso era perceptível até mesmo para Hanji e Irwin, que estavam mais distantes abatendo titãs menores para dar caminho aos demais soldados. Pelo o que pôde perceber, haviam sobrado apenas os pertencentes à tropa de exploração.
Seus acinzentados repousaram por breves momentos em um rosto familiar que, entre os demais novatos, estava abatendo um número razoável de titãs menores. Um garoto ruivo de olhos castanhos, o mesmo que o havia ajudado quando voltava do treinamento com Eren nos territórios fora das muralhas.
– Sammael! – chamou, usando do gás para se aproximar quando o ruivo voltou os olhos para si.
– S-Senhor?! – exclamou, piscando algumas vezes pela surpresa.
Rivaille acabava de ter uma ideia naquele momento, mas precisava ser rápido. Aquele garoto poderia ser a chave para conseguir lutar com a consciência tranquila quanto à Eren.
– Está vendo aquelas construções? Que parecem dormitórios. – disse, logo recebendo um acenar positivo como resposta. – Preciso que vá até lá. Tenho um membro do meu esquadrão com problemas e não posso cuidar disso agora. Preciso que vá até lá e ajude-o.
– S-Sim senhor! – Prontamente assentiu, correndo um pouco antes de saltar e seguir na direção que lhe fora indicada.
O capitão observou o garoto por alguns segundos, logo em seguida franzindo profundamente o cenho, resmungando algo desconexo na medida em que o ruivo se movimentava por entre os obstáculos de uma forma peculiar.
– Esses movimentos... – comentou, tombando levemente a cabeça para o lado. – Parece que já os vi antes...
Entretanto, resolveu se focar mais uma vez no que deveria, voltando a se movimentar com rapidez por entre os edifícios ali existentes, quando em um salto conseguiu enxergar com perfeição a cabeleira loira da titã fêmea, que o fez franzir o cenho.
Em um movimento rápido, prendeu o cabo de seu DMT contra a pele exposta do braço da titã, onde se impulsionou em um movimento giratório incrivelmente veloz que o lançou diretamente para onde Petra estava presa, fatiando aquele pedaço de carne de forma a fazer com que a outra fosse libertada sem ferimentos graves.
Em seguida se soltou, impulsionando-se no ar até que estivesse sobre uma superfície sólida mais uma vez, o que foi o suficiente para que a titã voltasse sua atenção para si e desferisse um golpe contra aquela superfície. Levi saltou logo em seguida, acionando os cabos, que se prenderam sobre o ombro direito daquela anomalia e então, movimentando-se novamente em círculos e com o auxílio da força da gravidade, desferiu um forte golpe sobre sua nuca. No entanto, foi obrigado a se desprender quase que imediatamente por conta de um golpe que lhe seria desferido por uma de suas enormes mãos.
Apenas naquele momento percebeu que suas lâminas haviam se partido por conta da habilidade de endurecimento local que a mesma tinha, trincando levemente os dentes com isso antes de repousar sobre uma árvore ali perto, trocando as lâminas.
Nesse meio tempo, a titã voltava a se movimentar, correndo em sua direção com os enormes olhos azulados fixos em si. Rivaille franziu o cenho, preparando-se para investir mais uma vez quando foi surpreendido pela aparição repentina de Petra, que avançava mais abaixo para golpeá-la pelas pernas a fim de desequilibrá-la. No entanto, ambos não esperavam pelo movimentar repentino de uma de suas pernas que obrigou que o capitão se retirasse daquele lugar o mais rápido possível. Porém, com isso, não conseguiu ajudar a ruiva abaixo de si, que fora encurralada na árvore pela titã, que a esmagou com um de seus pés.
Os acinzentados permaneceram fixos naquela cena por breves segundos, o que foi o suficiente para confirmar, pela excessiva quantidade se sangue que saía do local, que Petra estava morta.
Naquele mesmo instante daria meia volta e investiria com tudo contra aquela titã, não fosse os outros membros de seu esquadrão, Gunther, Erd e Auruo aparecerem naquele momento, decididos no ataque.
– Desculpe pela demora, senhor! – exclamou Erd, empunhando melhor as espadas.
– Nos confundimos quando o senhor apareceu de repente, mas estamos prontos agora! – disse Auruo em seu jeito convencido de sempre.
– Petra! – gritou Gunther, naquele momento chamando a atenção dos demais, que aparentemente não perceberam o que de fato havia acontecido, o que serviu de impulso para os outros, que insistiram em avançar.
Rivaille, alterando sua rota e usando do gás para permanecer no ar por mais tempo, tentou avisar para que se afastassem o mais rápido que conseguissem, recebendo apenas respostas como "O senhor pode contar conosco!" e "Não nos subestime, senhor!", o que o fez trincar os dentes com força. Porém, nada pode fazer para ajudá-los, visto que a titã rapidamente segurou sobre os cabos de seus equipamentos, lançando-os contra o chão e esmagando-os em seguida.
Sentiu os pés finalmente tocarem uma superfície sólida, ainda segurando as espadas com firmeza. Estava extremamente irritado, no entanto, tentava se controlar a fim de evitar que aquela situação saísse de seu controle. Ao correr os olhos pela paisagem caótica ao seu redor, percebeu como o número de soldados estava reduzido, comparando-se com o inicial. À sua esquerda Hanji abatia os titãs à sua maneira, com um grande sorriso doentio estampado no rosto, enquanto que à sua direita Irwin gritava instruções para os soldados que haviam sobrado.
Aquilo apenas serviu para que seu humor piorasse. Sabia perfeitamente que a tropa não teria condições de enfrentar uma expedição como aquela naquele momento. O certo a fazer seria bater em retirada, mas nada poderia fazer enquanto o Smith não tomasse uma atitude como comandante.
– Merda. – pigarreou, voltando os acinzentados para a titã fêmea que, curiosamente, permanecia parada fitando-o. O que foi o suficiente para que Levi se motivasse outra vez, erguendo uma das lâminas em sua direção. – Vamos terminar logo com isso, Annie Leonhardt.
–
Não aguentando mais, sentiu a mão escorregar de onde segurava com firmeza, logo prendendo a respiração a fim de se preparar para o impacto. No entanto, foi surpreendido pelo som de um DMT trabalhando ali próximo, seguido por um braço que o segurava firmemente pela cintura, erguendo seu corpo e lançando-o contra uma superfície sólida.
Eren resmungou coisas desconexas antes de finalmente levar uma das mãos ao rosto, segurando o nariz com cuidado antes de se levantar, abrindo um dos olhos e tendo o vislumbre de um ruivo não muito alto, que fitava-o preocupado.
– Você está bem? – perguntou, logo recebendo um acenar positivo do moreno. – Ah, que bom! Fiquei com medo quando o vi caindo.
– S-Sinto muito. – disse, com a voz abafada pelas mãos que seguravam o nariz. Aquele detalhe chamou a atenção do jovem soldado, que logo se abaixou.
– Posso ver? – perguntou outra vez e Eren afastou as mãos do rosto, deixando que o outro analisasse melhor. Os orbes castanhos percorreram toda aquela extensão com cuidado, até que se arregalaram levemente ao perceber uma fraca fumaça esbranquiçada escapando por aquele ferimento, cujos tecidos começavam a se regenerar. Tal surpresa não passou despercebida pelo Jaeger, que preferiu ficar em silêncio quando os olhos do outro voltaram-se para si. – É você...
O moreno franziu levemente o cenho com aquilo, não tendo tempo para questioná-lo acerca daquela reação, visto que o ruivo rapidamente se levantou e empunhou a espada em posição de ataque.
Aquilo, de certa forma, assustou Eren, que fechou os olhos por puro reflexo, o que não o permitira ver como o ruivo se movimentara rapidamente e, com a parte cega da espada, golpeou verticalmente e com força um enorme escombro que fora lançado naquela direção, partindo-o em vários pedaços.
Quase que imediatamente o Jaeger reabriu os olhos, observando os pequenos pedaços do escombro dançando naquela superfície, em seguida voltando o corpo para trás, encarando o rapaz que permanecia segurando a espada pelo lado errado.
– Obrigado... – disse, chamando a atenção do ruivo mais uma vez, que lhe sorriu cordial antes de erguer uma das mãos.
– Não precisa agradecer, agora vamos! O capitão disse que precisava de ajuda. – explicou e então Eren segurou sobre a mão do outro, levantando-se. – Não sei se lembra de mim, eu me chamo Sammael.
– Ah... N-Não, desculpe... – respondeu, suspirando. – Eren Jaeger.
– Eu sei quem você é. – comentou, coçando a parte de trás da cabeça levemente ainda com um sorriso no rosto. – Desculpe perguntar... Mas você não era cego?
Crispando os lábios, Eren engoliu em seco enquanto corria os olhos mais nítidos por todo aquele cenário à procura de Rivaille. Estava odiando-se por isso, afinal, não conseguia deixar de se preocupar tanto mesmo tendo se afastado daquela forma.
– É complicado. – respondeu, logo em seguida arregalando as esmeraldinas ao perceber o que estava acontecendo próximo a titã fêmea. – Não...
Eren levou ambas as mãos aos lábios enquanto olhava fixamente para um ponto em específico que também chamou a atenção de Sammael. O capitão da tropa de exploração lutava sozinho contra a titã fêmea, usando uma quantidade absurda de gás para se desviar dos repetidos ataques que eram desferidos contra ele. Até que, por um descuido, a anomalia conseguiu agarrar um dos cabos de seu equipamento, interrompendo bruscamente um movimento de Levi, que tinha o corpo lançado para frente com força por conta do choque.
Ignorou por completo os chamados de Sammael, que passou a segui-lo para auxiliá-lo no que fosse preciso e, sem pensar duas vezes e sem verificar se o dispositivo funcionava como deveria, o Jaeger saiu em disparada, correndo o mais rápido que podia antes de saltar na direção de seu superior. Estava se sentindo um perfeito idiota por pensar que se afastando o estaria protegendo do perigo que eram os titãs.
Enquanto usava o gás para se movimentar mais rápido, percebeu a aproximação de outras duas pessoas que identificou como sendo Irwin e Hanji, que rapidamente começaram a auxiliá-lo, tentando pelo menos tirá-lo daquela situação.
Não conseguiria ficar simplesmente assistindo e movendo-se mais rápido, sacou as lâminas de seu equipamento e fechou os olhos. Não conseguiria usá-las caso estivesse enxergando – visto que havia aprendido dessa forma – e, em seguida, impulsionou seu corpo para girar assim como lhe foi ensinado. Seguiu o som dos guizos que permaneciam presos sobre o equipamento de Levi e golpeou um pouco abaixo, passando por Hanji e Irwin, cortando o cabo que deixava o capitão à mercê da titã.
O trio que ali estava e, posteriormente, Sammael que seguia logo atrás, se surpreendeu por esse movimento tão repentino do garoto, que logo voltou a abrir os olhos, movimentando-se na direção do rosto da titã, segurando-se em seus fios loiros.
– Olhe para mim, Annie! – gritou, atraindo os olhos azulados da outra para si enquanto tentava conter as lágrimas que se acumulavam no canto de seus olhos. – Por que está fazendo isso? Você quase matou o Armin aquele dia! Será que se esqueceu de tudo o que passamos naquele abrigo?! Pare com isso!
Não obtendo resposta, o moreno logo se alterou, deixando as lágrimas correrem pelo seu rosto enquanto continuava gritando palavras que contavam sobre o passado de ambos em Trost, quando ainda estavam sob os cuidados do sr Arlert, antes do mesmo morrer por conta de uma das patrulhas da Polícia Militar.
Rivaille, já recomposto sob o telhado de uma construção ali próxima ao lado de Hanji, Irwin e Sammael, apenas observava o nervosismo do garoto e a maneira como a titã havia parado de fazer qualquer movimento tão de repente. Ao mesmo tempo, Eren levava uma das mãos ao rosto, enxugando a torrente de lágrimas que insistia em escorrer sem qualquer controle enquanto continuava a gritar sem controle algum.
Foi quando os olhos esmeralda finalmente se focaram no cenário que ali estava se desenvolvendo, logo sendo arregalados ao fitar o primeiro corpo próximo, com seus fios ruivos medianos dançando ao ritmo do vento fraco daquele momento. Logo em seguida um silêncio perturbador se fez presente enquanto Eren corria os olhos por cada corpo desfalecido naquele campo que antes adorava.
– Não... Por que Annie? – murmurou, sentindo o corpo trêmulo enquanto soluçava. – Por que?
Naquele momento a titã parecia finalmente ter "acordado" de seu suposto "transe" imposto pelo moreno, logo se movimentando e segurando-o com uma das mãos.
Aquilo foi o suficiente para fazer Levi se movimentar, preparando-se para saltar quando algo perturbador o fez paralisar por breves momentos: Annie havia lançado o garoto dentro de sua boca, correndo em seguida para longe dali. Imediatamente em seguida Rivaille pôs seu equipamento para funcionar, mesmo com um cabo apenas. Tal ação repentina e irresponsável assustou tanto a tenente quanto o comandante, que passaram a segui-lo para evitar quaisquer tragédias.
Como se estivessem em câmera lenta, tanto Irwin quanto Hanji voltaram o olhar para o capitão, arregalando os olhos por conta da expressão que era ali estampada. Há exatos quinze anos que não a viam sobre o rosto daquele homem, que usava uma quantidade absurda de gás para chegar o quanto antes naquela titã. Os acinzentados arregalados, a sobrancelha extremamente franzida e os dentes tão trincados ao ponto de ouví-los ranger.
– Devolva! – gritou Levi, soltando o cabo de uma árvore para lançar em outra. – Eu o quero de volta, sua desgraçada!
Annie então virou o corpo na direção do capitão, lançando um golpe com o punho erguido. Aquela fora a oportunidade que o outro precisava para finalmente atacar, impulsionando-se circularmente no ar e posicionando as espadas, atacando aquele braço com um movimento giratório do corpo à uma velocidade incrível, retalhando-o tão rapidamente que a titã mal teve tempo para se desviar quando as lâminas de Rivaille atingiram seus olhos.
Os acinzentados estavam fixos em um único ponto: a boca daquela anomalia. Não se importava mais em derrotá-la, apenas queria o garoto de volta em seus braços. Céus, havia sido um erro levá-lo para aquela expedição com tão poucas chances de sucesso!
– Irei te retalhar até que não possa mais andar. – murmurou e, sem pensar duas vezes, movimentou o corpo da mesma forma, usando as lâminas para, além de cortar, também se movimentar com rapidez sobre aquele corpo grande demais.
Tanto Hanji quanto Irwin observavam, parados sob uma árvore não muito distante, a maneira como o outro usava de todas as suas habilidades naquele momento, fazendo com que os braços daquela titã despencassem em um momento enquanto em outro seu corpo ia de encontro ao chão por não encontrar mais firmeza sobre as pernas. Em seguida, focou-se sobre o rosto daquela anomalia, criando vários cortes sobre o maxilar da Leonhardt até que o mesmo fosse aberto sozinho, revelando ali o corpo de Eren, deitado de qualquer jeito sobre sua língua.
Rivaille não perdeu tempo em observar aquilo e, ignorando todos os seus princípios básicos de higiene, segurou o moreno pela cintura e rapidamente se retirou do local, afastando-se o máximo que pôde com o auxílio do gás. Entretanto, não conseguiu ir muito longe, visto que a gravidade logo fez o seu trabalho assim que o gás terminara.
Para evitar que o moreno sofresse outra queda com muitos ferimentos, Levi moveu o corpo, deixando Eren deitado sobre si e abraçando-o com força, logo sentindo as costas se chocarem violentamente contra o chão gramado daquele campo, arrastando-se ainda por alguns metros que foram suficientes para rasgar o colete de seu uniforme e parte da camisa que comumente usava, abrindo um grande ferimento no local.
O choque foi o suficiente para fazer com que Eren, que até o momento estava desacordado, despertasse, arregalando os olhos ao perceber que seu superior estava ferido.
– S-Senhor! Você está bem?! – perguntou preocupado, olhando diretamente nos olhos acinzentados do outro enquanto se levantava. Tal reação fez o homem de baixa estatura rir nasalmente antes de se levantar, sentindo as costas arderem miseravelmente.
– Sim... Mas não é hora para isso. – comentou, tendo a atenção chamada por Sammael, que logo se aproximava com alguns cavalos que havia pego no caminho. O capitão sorriu com isso, segurando firmemente sobre o pulso de Eren antes de puxá-lo na direção dos equinos. – Precisamos sair daqui, a expedição falhou.
– O comandante deu a ordem de retirada? – quis saber e logo os acinzentados foram voltados para a árvore ali próxima, onde o loiro tentava descer com o auxílio da tenente. Levi estreitou os olhos, logo voltando a seguir seu caminho.
– Não, mas iremos mesmo assim. Não irei permitir que Irwin continue com essa loucura. – disse, segurando o pulso do Jaeger com mais pressão antes de voltar os olhos para o ruivo. – Obrigado garoto, agora vamos antes que a titã se recupere.
Fale com o autor