Wishmaster
14 Entendendo o Desconhecido
Notas iniciais
Lembrança
Seus olhos eram cruelmente maltratados pela claridade das vielas por onde passava. O garoto arfava afobado enquanto sorria eufórico, tropeçando vez ou outra sobre as pedras que se encontravam no caminho de terra batida que percorria. Ao seu lado corria uma garota morena de olhos rasgados, com um semblante indiferente que não se alterava por causa do esforço físico. Estavam para se encontrar com um amigo para brincarem em algum canto de Shinganshina ou para simplesmente conversarem sobre os planos do governo de expandirem os limites da humanidade para fora das muralhas. Era o sonho do trio descobrir as maravilhas que o mundo exterior poderia oferecer.
O garoto foi o primeiro a chegar em frente a casa de madeira e barro velho, onde um menino loiro dono de um enorme par de orbes azuladas o esperava com um grande sorriso no rosto. A garota chegou logo em seguida, sendo imediatamente puxada pelo pulso, cortesia do amigo loiro, que a abraçava fortemente.
– Mikasa! Eren! — exclamou, afastando-se da garota para cumprimentar o amigo, bagunçando levemente seus fios castanhos. — Que bom que vieram!
– Foi meio difícil, minha mãe estava muito chata hoje. — Eren reclamou, atraindo o olhar repreensivo da morena para si.
– Não fale assim da sra Jaeger, Eren. — disse Mikasa, fitando os esmeraldinos rolarem em escárnio para si.
[...]
O trio de crianças caminhava tranquilamente próximo ao rio que cortava a cidade de Shinganshina. Mikasa segurava firmemente o cachecol que rodeava-lhe o pescoço, enquanto Eren mantinha ambas as mãos atrás da cabeça, espreguiçando o corpo. Já Armin, permanecia abraçado a um grosso e velho livro, que aparentava estar pesado, visto o tamanho esforço que fazia para carregá-lo.
– O que vamos fazer hoje Armin? — O garoto moreno perguntou, bocejando enquanto parava ao lado de uma enorme ponte que cruzava o rio.
– Meu avô me deu um livro novo. — comentou animado, parando ao lado do amigo e sentando-se sobre o gramado. — Parece contar sobre o mundo fora das muralhas.
– Esses livros não são proibidos? — perguntou Mikasa, sentando-se ao lado de Eren.
– Sim, por isso quis vir até aqui. — explicou, colocando o livro sobre o colo de Eren, que estava entre os dois, abrindo-o. — Vejam isso, aqui conta tudo! Desde enormes lagos de água salgada, água de fogo e terras de gelo.
Eren fechou os olhos por alguns segundos, em seguida soltando uma grande gargalhada antes de se apoiar no chão com ambas as mãos.
– Água salgada? — perguntou desdenhoso. — Tem noção de como o sal é caro? Eles nunca desperdiçariam isso misturando-o com a água.
– Mas aqui diz que o sal era tirado desses lagos salgados. — tentou explicar, recebendo um olhar descrente como resposta.
– Além disso... Como seria uma água de fogo? — perguntou Mikasa, logo observando o amigo loiro passar rapidamente as páginas do livro sobre o colo de Eren.
– Aqui! — exclamou assim que encontrava, atraindo os olhares dos outros dois. — Dizem que ela saía de uma grande montanha e queimava tudo o que estava em seu caminho. A fumaça era tão densa que podia fazer o dia virar noite e era tão tóxica que poderia matar.
– Nossa. Ainda bem que não temos isso aqui. — comentou Eren, arrancando um sorriso do amigo loiro, que concordou.
– Imaginem como deve ser o mundo lá fora, tão extenso e misterioso. — Armin continuou, erguendo os azulados para os dois amigos. — Só de imaginar o que deve nos estar esperando me deixa tão eufórico! Eu quero muito conhecer o mundo... — Voltou o olhar para o rio, por onde corria a água cristalina que abastecia a cidade. — Não sentem o mesmo?
Mikasa não respondeu, apenas voltando o olhar para Eren, que parecia ponderar sobre o assunto. Fez um pequeno bico, olhando também para o rio. Estava satisfeito com a vida que levava em Shinganshina e não iria negar isso. Quando completasse os treze anos iria ingressar na tropa de cadetes para enfim realizar seu sonho de ser um membro da tropa de exploração, os heróis da humanidade. No entanto, não havia pensado no que poderia encontrar no mundo exterior.
– Não sei Armin. — respondeu vago, suspirando levemente. — Nunca imaginei uma vida longe das muralhas. Acho que nunca imaginaria algo assim... O mundo lá fora não te assusta?
Voltou seus esmeraldinos para o amigo, que fora pego de surpresa por aquela pergunta.
– Hm... Um pouco sim. — respondeu sincero, encolhendo as pernas. — Mas todos nós tememos o desconhecido eu acho.
O moreno concordou, livrando-se do apoio das mãos e deitando-se sobre o gramado a fim de fitar o céu com mais conforto. Aquela era, realmente, uma questão que o havia intrigado mais do que havia imaginado. Como seria viver livre das muralhas? O espaço que ali havia já era demasiado grande, imagine a imensidão que seria viver em um lugar sem fronteiras?
Sua atenção fora fisgada por um bando de patos que cortava os céus da cidade, invejando por um momento a capacidade dos mesmos de voarem até além dos limites daquela pseudo prisão. Todavia, quando o mesmo bando finalmente atravessava a muralha Maria, algo naquela mesma direção chamava a sua atenção, fazendo-o se levantar de repente, atraindo assim a atenção dos amigos.
– O que foi Eren? — Mikasa foi a primeira a perguntar, preocupando-se com o olhar que o outro lançava em uma direção em específico na qual não identificara qual era.
– Estranho... — murmurou, mais para si mesmo do que para os outros dois, franzindo o cenho. — Por um momento eu...
O rapaz de pele bronzeada arregalava os olhos antes de levar ambas as mãos à cabeça, puxando com força seus fios castanhos, não conseguindo assim completar a frase. Tal reação assustara os amigos, que rapidamente procuraram dar-lhe algum apoio quando o mesmo fechou os olhos e deixou o corpo ir de encontro ao chão.
– O que... É... Isso? — perguntou em agonia, puxando com cada vez mais força os fios castanhos. Uma pressão insuportável em sua cabeça quase o fizera perder os sentidos e logo em seguida, uma forte dor de cabeça o impedia de ouvir o que quer que seus amigos estariam comentando ao seu redor. Apenas conseguia se concentrar na dor que sentia e em como queria que ela terminasse logo.
Entretanto, quando um barulho quase ensurdecedor se fez presente, tanto Armin quanto Mikasa voltaram os olhares para a muralha, ambos arregalando os olhos em pavor. As pessoas ao redor, que antes caminhavam tranquilas apenas seguindo a rotina de suas pacatas vidas, pareciam paralisadas ao fitar aquela cena no mínimo desesperadora. O que seria aquela colossal coisa vermelha que se erguia por trás da muralha Maria?
– N-Não pode ser... — murmurou Armin, completamente catatônico com aquela visão enquanto ouvia os resmungos de Eren acerca da dor que sentia, que não pareciam melhorar. — Um titã... Daquele tamanho?!
Mikasa rapidamente voltava sua atenção para o moreno, que permanecia de quatro em uma tentativa inútil de se levantar sozinho. A asiática rapidamente foi de encontro ao mesmo, segurando-lhe pelo braço e ajudando-o a se levantar. Já Eren, com uma das mãos sobre a testa, ergueu lentamente a cabeça na mesma direção que os irmãos, precisando forçar as vistas que, misteriosamente, pareciam estar embaçadas por conta daquela dor de cabeça repentina. No entanto, o que contemplara não o tranquilizava nem um pouco.
– Como... — quis perguntar, logo ouvindo os comentários das outras pessoas ao seu redor. Algumas incrívelmente assustadas e outras se questionando sobre o tamanho daquele titã. — As muralhas têm... Cinquenta metros... Isso não é possível...
Arregalou os esmeraldinos e, dessa vez, soltou um grito demasiadamente alto antes de fechar os olhos. A dor em sua cabeça se intensificara, como se fossem navalhas a cortarem-lhe a pele a todo o momento. A amiga asiática agarrou seu corpo com mais força, impedindo assim que fosse de encontro ao chão outra vez, ao mesmo tempo em que sentia o corpo do moreno perigosamente trêmulo. Queria perguntar o que estava acontecendo com o jovem Jaeger, mas aquele não era o melhor momento, visto que logo em seguida todo o chão começara a tremer devido a uma forte investida contra o portão principal da muralha Maria, que fez com que o trio fosse de encontro ao chão.
Armin observou catatônico quando os estilhaços do portão foram lançados para todas as direções, atingindo algumas das pessoas que ali se encontravam, ao mesmo tempo em que a população de Shinganshina também começava a correr. E foi quando avistara os primeiros titãs de quinze metros invadirem a cidade que tanto Mikasa quanto Armin puxaram Eren pelos braços, apoiando-os sobre os ombros e também começaram a correr.
O moreno tentava acompanhar os passos dos amigos, tropeçando na maioria das vezes. Voltou os esmeraldinos para trás a tempo de observar, mesmo que completamente embaçado, um titã de cerca de quinze metros correr em sua direção. Este em especial não se assemelhava com os outros que ali estavam, comendo os humanos mais próximos. Aquele corria, especificamente, em sua direção, o que o fez se apavorar e, ignorando totalmente a dor e lutando contra suas pernas trêmulas, ajudou os irmãos na árdua tarefa de saíram daquele local o mais rápido possível.
– Isso não pode estar acontecendo... — Ouviu Armin murmurar e voltou os olhos para ele, cujo rosto estava completamente úmido pelas lágrimas de pânico. Queria poder ser capaz de fazer algo para ajudá-lo naquele momento, mas não conseguia nem mesmo pronunciar palavra alguma, visto que também estava apavorado.
Foi quando sua mente se iluminou, permitindo-o lembrar-se de algo que, literalmente, o fez entrar em desespero.
– Minha mãe. — murmurou, atraindo a atenção dos outros dois. — Eu quero ver minha mãe.
– Eren, não temos tempo. Precisamos sair daqui agora. — repreendeu Mikasa, sendo completamente ignorada pelo dono das esmeraldinas, que em um impulso, conseguia se livrar dos braços dos amigos e começava a correr desajeitadamente para um corredor escuro qualquer. — Eren!
Iriam atrás do amigo, não fosse por um titã de cerca de quatro metros que avançara na direção dos dois, com a boca aberta, pronto para o ataque.
[...]
Enxergava ainda mais embaçado do que antes, precisando forçar cada vez mais o olhar para que conseguisse se guiar em meio aquele cenário caótico. Com uma das mãos, apoiava-se sobre as paredes das residências daquele corredor, visto que era o único jeito que encontrara para se guiar. A dor, ainda persistente, o fazia cambalear vez ou outra.
Estava preocupado com os amigos, porém, queria saber acima de tudo onde sua mãe se encontrava, se estava bem. Com certeza estaria bem.
Aproveitou um momento em que as dores pareciam aliviar para caminhar mais depressa. Correndo os olhos pelo local, pode concluir que não faltava muito para que chegasse em sua casa.
– Apenas alguns degraus... — disse para si mesmo, fechando os olhos por breves segundos e respirando fundo, finalmente saindo de seu "esconderijo", subindo o lance de escadas que levavam a sua casa, parando no meio do caminho pela visão nem um pouco agradável que tivera.
Quinze metros. Esse era o tamanho do titã ruivo que tinha sua amada mão por entre os dedos, lutando para sair daquela prisão. Naquele momento a imagem que se formara a sua frente era tão nítida que era como se suas vistas nunca tivessem se embaçado segundos atrás.
Infelizmente, o moreno nada pode fazer além de assistir o titã esmagar sua mãe com uma das mãos e lançar seu corpo ensanguentado em um canto qualquer. Com os olhos arregalados, Eren sentia suas pernas fraquejarem, ajoelhando-se sobre o chão enquanto aquele estranho titã parava e olhava ao redor, como se procurasse por alguém. Até que seus olhos acinzentados assustadores caíssem sobre o jovem Jaeger, que prendeu a respiração quando o mesmo se aproximou, abaixando-se até estar com o rosto perigosamente próximo. Eren soluçava, completamente estagnado enquanto seus orbes esmeraldinos fitavam os acinzentados daquele estranho titã, que não fazia nada além de observá-lo.
Foi quando aquela anomalia ergueu uma de suas gigantes mãos em punho que o moreno fechou os olhos. Sabia o que viria a seguir. No entanto, fora surpreendido quando braços musculosos envolveram sua cintura e o puxaram no exato momento em que o titã golpeava o local onde Eren se encontrava. Pela forma como seu corpo parecia flutuar, chegava a conclusão de que fora salvo por alguém da tropa estacionária.
– Q-Quem... — disse, com o corpo ainda trêmulo.
– Não me conhece mais Eren? — A voz masculina se fez presente, animada, enquanto o moreno erguia ambas as sobrancelhas, surpreso.
– Hannes? — perguntou, mais aliviado em saber que estava com o antigo amigo da família.
Porém, logo aquele pequeno alívio também se esvaía quando finalmente resolvia abrir os olhos. Eren franziu o cenho, tateando com ambas as mãos o corpo de Hannes, agarrando-se ao que lhe parecia ser uma jaqueta. Aquilo não podia estar acontecendo, podia?
– Hannes... — chamou, atraindo a atenção do homem mais velho para si, que franzia o cenho ao ver as lágrimas rolando pelo rosto joviam de Eren. — Hannes eu não enxergo nada... Eu não estou enxergando!
Fim da Lembrança
O cabo franziu o cenho, descruzando os braços enquanto permanecia fitando o rosto de seu subordinado, cuja expressão cabisbaixa o incomodava. Conseguia entender o motivo de ter recebido aquela resposta quando perguntara do que o garoto era capaz de fazer caso fizesse parte da tropa.
Todavia, haviam coisas que não faziam sentido naquela história: por que aquele titã esmagou a mãe de Eren, ao invés de simplesmente devorá-la? E por que não esmagou o rapaz de uma vez, ao invés de analisá-lo primeiro? Apenas conseguia chegar em uma conclusão plausível e não estava nada satisfeito com isso.
– Quantos anos você tinha nessa época? — quis saber, atraindo a atenção do jovem Jaeger para si.
– Cinco, senhor. — respondeu rapidamente, surpreendendo-o. Esperava que fosse novo, mas não tão novo.
Voltou os acinzentados para o envelope que Hanji lhe havia dado. Precisava ler-los o quanto antes.
[...]
Fechou a porta do quarto com certo cuidado. Usava apenas uma calça de tecido leve e a toalha que lhe fora oferecida para se enxugar, que se encontrava sobre seus ombros. Detestava usar banheiros compartilhados, porém, não tinham muitas opções no momento.
Colocou a toalha esticada sobre uma cadeira simples de madeira que ali se encontrava e caminhou para sua cama, sentando-se sobre a mesma e respirando profundamente antes de guiar seu olhar para a cama de seu subordinado, crispando os lábios ao se lembrar do relato que ouvira há algumas horas atrás. Desejava acabar com aquele inferno de uma vez por todas para que mais crianças não precisassem passar pelo o que o moreno havia passado. Por mais que soubesse o quanto a humanidade poderia ser cruel, nada se comparava com o terror de se ver frente a frente com um titã e não saber o que fazer.
Além disso, tentava organizar melhor os pensamentos acerca do que acontecia consigo quando o assunto era Eren Jaeger. Estar preocupado com o moreno era mais do que normal, visto que era o responsável pelo mesmo. No entanto, as ações provenientes disso eram completamente antiéticas e exageradas. Tanto as alucinações quanto os desejos que começavam a se formar em seu interior. Por exemplo, estava a lutar contra um desejo insano de se aproximar do corpo adormecido do rapaz e roubar-lhe um outro beijo.
Ah, como repudiava sentir-se atraido daquela forma por uma criança. Não era de seu feitio e isso o estava deixando louco.
Passou as mãos pelos fios negros, jogando-os para trás enquanto fechava os olhos por breves segundos. Deveria deitar e dormir, entretanto, mesmo sabendo que iria martirizar-se por isso, resolveu levantar. Caminhou até estar próximo à cama de Eren, sentando-se cuidadosamente ao lado do mesmo para não acordá-lo.
Era uma bela visão, deveria admitir. O rosto sereno e relaxado do rapaz era iluminado pela única vela que permanecia acesa naquele quarto, dando-lhe uma coloração levemente dourada. Permitiu-se aproximar uma das mãos do rosto tranquilo do moreno, acariciando-lhe levemente a face enquanto suspirava pesado. A que ponto estava chegando por causa daquele garoto, afinal?
Abaixou o corpo, deixando o rosto à centímetros de distância do rosto de Eren. Sentia a respiração tranquila do rapaz se chocar contra seu rosto, fazendo-o fechar os olhos. O que seria aquela sensação tão familiar? Era boa, muito boa. Fazia com que sentisse certa coceira agradável no peito.
Seria isso o que as pessoas chamam de felicidade? Não sabia dizer.
Levi mordeu o lábio inferior com força, afastando-se e se levantando, voltando para a sua cama e se recolhendo debaixo de suas cobertas. Por que aquele garoto lhe provocava tantas sensações estranhas?
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