Wishmaster
13 Descobrindo Sonhos
Notas iniciais
Arregalou os olhos de imediato, surpreso pelo misto de cores que estava a sua frente, que aos poucos voltavam a embaçarem cada vez mais até que seus olhos voltassem a total escuridão. O moreno prendia a respiração por longos segundos, ao mesmo tempo em que sentia o corpo levemente trêmulo, devido o misto de sentimentos que rondavam sua mente e seu coração. Primeiramente, gostaria de entender o por que daquela reação tão repentina vinda de seu superior, que, naquele momento, havia se afastado alguns segundos. Ainda conseguia sentir a calma respiração do outro chocar-se contra seu rosto, o que o fazia corar levemente. Não sabia o que fazer e a falta de ações do outro o deixava de mãos atadas.
No entanto, foi retirado de seus devaneios pelo homem à sua frente, que levantava-se em um impulso ao finalmente perceber o que acabara de fazer, amaldiçoando-o por isso. O cabo levou uma das mãos aos lábios, tocando-os e massageando-os levemente. Ainda conseguia sentir a textura dos lábios do rapaz de pele bronzeada, o que apenas fortalecia o sentimento de culpa que crescia cada vez mais dentro de seu peito. Céus, havia se aproveitado do momento de fraqueza de uma criança! Porém, o que fazia aquilo piorar era o fato de não se sentir arrependido pelo o que fizera.
Fechou os olhos, suspirando pesadamente, tentando organizar seus pensamentos. Havia percebido o olhar surpreso que lhe fora lançado assim que se afastou, mas mesmo assim não pôde deixar de achar aquilo adorável. O que estava acontecendo consigo? Ou melhor, como aquele garoto era capaz de fazê-lo perder a postura daquela forma?
Exibindo mais uma vez seus acinzentados, fitou o moreno se levantar por conta própria, reparando em seu rosto ainda completamente molhado pelas lágrimas de minutos atrás. Talvez fosse melhor não comentar sobre aquilo, seria bom refletir antes de se comprometer ainda mais. Suspirou outra vez, segurando firmemente sobre o pulso do rapaz antes de puxá-lo de ímpeto, começando assim a caminhar.
– Vamos pegar os cavalos. Já perdemos tempo demais aqui. — disse em seu tom de sempre, caminhando em passos rápidos e sendo acompanhado por um Eren cambaleante, que ainda tentava entender o que realmente havia se passado ali.
Porém, eram mais uma vez atrasados pelo chamado de uma mulher, que fez o cabo caminhar ainda mais rápido, resultando na queda do rapaz de pele bronzeada.
– Deus! Eren, você está bem? — A mulher perguntou, abaixando-se assim que estava ao lado do rapaz, ajudando-o a levantar.
– T-Tenente Hanji? — murmurou com os olhos fechados, sentando-se sobre o chão de terra batida, levando ambas as mãos à testa. — Estou bem, obrigado.
– A culpa disso é sua quatro olhos. — provocou Levi, cruzando os braços. — O que você quer?
A morena ajudou o jovem Jaeger a se levantar e, com um dos braços, retirava um envelope pardo que estaria provavelmente preso dentro de seu uniforme, entregando-o ao cabo, que erguia uma de suas sobrancelhas.
– O que é isso? — quis saber, segurando aquele grosso envelope.
– Lembra da nossa conversa de ontem? — perguntou, erguendo ambas as sobrancelhas quando não recebia a resposta que gostaria. — No seu quarto, com os livros.
– Não me diga que... — Levi iria palpitar que a mulher teria arrancado as páginas daquele livro, logo tendo um acenar positivo como resposta. — Você não existe Hanji.
– Vou encarar isso como um elogio. — comentou, voltando-se para o soldado ao seu lado, franzindo o cenho por um momento. — Que rosto inchado é esse Eren? Andou chorando?
– Ah... B-Bem... — gaguejou, sentindo seu rosto esquentar violentamente ao ouvir a risada da mulher, que retirou um pequeno lenço do bolso da jaqueta da tropa de exploração.
– Vamos limpar isso. — disse bem humorada, segurando o rosto jovial do rapaz com uma das mãos enquanto usava a outra para limpá-lo. Enquanto isso, Rivaille alternava o olhar entre o envelope em suas mãos e o garoto, ao mesmo tempo em que sua mente o levava a outra viagem perturbadora.
"A paisagem fúnebre do cemitério onde estava era substituída por um belo campo esverdeado, por onde um largo rio corria. Ao olhar ao redor, a figura do rapaz de orbes esmeraldinas trajando uma armadura simples de ferro e couro entrava em seu campo de visão, assim como a figura de um outro homem, que pelas vestes, julgara ser um cavalheiro. Este possuía as madeixas ruivas em um tamanho mediano e seus orbes acinzentados faziam com que rapidamente se apercebesse do próximo movimento do moreno, interceptando-o ao girar o braço onde empunhava a reluzente espada, cuja lâmina se chocava com a do rapaz, que rapidamente recuava alguns passos antes de contra-atacar.
O som do tinir daquelas espadas era como melodia para os seus ouvidos, assim como contemplar as habilidades de seu cavalheiro e amigo ruivo e de seu aprendiz, cujas habilidades eram tamanhas que com apenas um olhar conseguia aprender os golpes que seu cavalheiro utilizava contra si, devolvendo na mesma moeda. O que era um feito incrível, visto que o ruivo era o melhor de todos os seus soldados.
Encostou-se melhor sobre a árvore atrás de si, cruzando os braços enquanto os criados ao seu redor rapidamente se movimentavam, um deles reposicionando o guarda-sol sobre seu corpo a fim de proporcioná-lo uma melhor sombra, enquanto os outros dois balançavam com mais força os enormes leques em sua direção, visto que o calor naquela época do ano era infernal e que era inadmissível que o filho do Imperador e Rei de Sina transpirasse em demasia.
A luta amistosa que se desenrolava à sua frente terminava com seu aprendiz ao chão, desarmado, e com a afiada lâmina da espada de seu cavalheiro a centímetros de distância de sua epiglote. As íris esmeraldinas fitavam as acinzentadas do ruivo com fúria, enquanto este apenas sorria desdenhoso antes de se levantar, afastando a lâmina do corpo do jovem, que levantava-se arfando levemente. Desencostando-se da árvore, caminhou na direção de seus homens, sendo imediatamente seguido por seus criados. Aquilo o irritava de certa forma.
– Belo treinamento. — disse em seu tom indiferente ao se aproximar o suficiente, referindo-se aos dois homens à sua frente. — Sir Elaijia, Sir David.
– Vossa Majestade. — Os dois disseram em uníssono, fazendo uma rápida reverência em seguida. O homem revirou suas íris em um tom acinzentado escuro, nunca gostou de formalidades como aquelas.
– É gratificante assistir ao seu desempenho, Sir David. — comentou, arrancando um reluzente sorriso de seu aprendiz. — Suas habilidades também não ficam para trás, Sir Elaijia. É uma honra tê-lo em meu exército.
O ruivo fechou os olhos por um momento, fazendo uma leve reverência em agradecimento. Já o Rei voltou sua atenção ao seu aprendiz, mais especificamente para o rosto do mesmo, que sangrava por conta de um corte em sua bochecha. O Rei franziu o cenho, segurando firmemente sobre o pulso do rapaz, começando a caminhar para o interior de seu castelo, mas não sem antes de dispensar os criados e se despedir de seu amigo e cavalheiro, que franziu o cenho em aparente raiva, que passou por despercebido pelos outros dois."
O cabo fechou os olhos com força, sentindo certa vertigem que o obrigou a se apoiar mais firmemente com os pés. Levou uma das mãos até as têmporas, massageando-as levemente enquanto uma forte dor de cabeça o fazia perder os sentidos por alguns segundos. O que não passou por despercebido pela Tenente, que se aproximou do amigo, levando também Eren que, preocupado com aquela "bagunça", tocou o ombro de seu superior por acidente, logo arregalando os olhos mais uma vez.
"Assim como seu superior, uma paisagem desconhecida se formava ao seu redor. Paredes impecavelmente brancas o rodeavam, assim como os móveis de madeira em estilo vitoriano. Cortinas vermelhas detalhadas em dourado cobriam as enormes janelas daquele quarto, que era iluminado pela luz das incontáveis velas dispostas pelo luxuoso lustra pendurado no centro daquele teto decorado. Estava deitado sobre o colchão macio com ambas as mãos acima da cabeça, presas pelas fortes mãos do homem que se encontrava imediatamente sobre seu corpo.
Resolveu explorar melhor a face daquele que o mantinha imobilizado, deparando-se com as madeixas negras caídas sobre o rosto pálido daquele homem, o que contrastava com os olhos acinzentados do mesmo, que pareciam cintilar naquele momento.
– Rivaille... — Sua voz saía manhosa por conta das carícias que lhe eram oferecidas por aquele homem, que sorriu crápula.
– Por que não me chama pelo nome, David? — quis saber, interrompendo os beijos que distribuía sobre o pescoço nú do outro para fitar as orbes esmeraldinas do rapaz, que engoliu em seco.
– Francis. — disse, recebendo outro sorriso como resposta. — Tem certeza que não é perigoso? Quer dizer... O senhor é um Rei e eu sou apenas um simples aprendiz. E somos dois homens.
O homem suspirou pesado, erguendo o corpo e sentando-se sobre a cintura do moreno antes de afrouxar seu cravat.
– Fique tranquilo. — respondeu, terminando de se desfazer daquele tecido incômodo. — A minha palavra é lei em Sina, David. Na pior das hipóteses, caso não me obedecerem, eu mato todos eles.
O aprendiz franziu o cenho, preocupado pelo cintilar perigoso que contemplara sob os orbes acinzentados do homem acima de si, que o fitava curioso antes de levar uma das mãos à face do moreno, acariciando-a.
– O que foi? — quis saber, fazendo David desviar o olhar para o lado.
– Isso é... Cruel. — comentou e Francis ergueu uma de suas delineadas sobrancelhas. — O que quero dizer é... Bom... As coisas estão difíceis. A construção das muralhas está sendo comprometida por causa dos constantes ataques e o drama da extinção da humanidade é real.
– O que é um ponto positivo para mim. — acrescentou, descendo do corpo do rapaz e deitando-se ao lado do mesmo, que voltava-se para si. — A situação já estaria completamente resolvida se não fosse pelas constantes intervenções dos Jaeger's... — Mencionou aquele nome com aparente repulsa e ódio, fazendo o dono das esmeraldinas engolir em seco, nervoso. — Aquele clã desgraçado pode acabar com tudo o que a família Rivaille construiu durante todos esses séculos.
David engoliu a saliva mais uma vez, nervoso. Não gostava daquele pensamento de seu amante e isso o deixava perdido, literalmente, sem saber o que fazer.
– Não acha que deveria tentar entender o lado deles também? — tentou, recebendo o olhar surpreso de Francis.
– Está defendendo aqueles desgraçados? — perguntou exaltado, fazendo David prender a respiração por um ou dois segundos.
– Não! — rapidamente se corrigiu. — Apenas queria entender o motivo por eles fazerem tudo isso.
– Não é óbvio? Eles querem extinguir os titãs. — respondeu, deitando a cabeça sobre o travesseiro, suspirando. — Eles querem nos dizimar e eu não vou deixar isso acontecer. — Franziu o cenho outra vez. — Elaijia tem razão quando diz que não devemos ter piedade com aqueles hereges. Não importa o que for preciso fazer, irei acabar com aqueles desgraçados."
Eren rapidamente afastou a mão do ombro de seu superior, catatônico. O que foi aquilo? Jamais havia presenciado aquelas cenas e muito menos conhecia as pessoas que ali foram retratadas. Com exceção, claro, de um nome em particular que fazia questão de lhe proporcionar arrepios involuntários na espinha. Sacudiu negativamente a cabeça a fim de expulsar aqueles pensamentos de sua mente, não adiantaria pensar naquilo agora, visto que ainda sairia em treinamento com seu superior.
O que o moreno não esperava era que Levi também tivesse partilhado da mesma visão, o que lhe rendia olhares incrédulos. Afinal, como aquilo poderia acontecer com um simples toque? E por que não aconteceu antes, quando se beijaram?
[...]
O céu noturno estava maravilhosamente estrelado, sendo possível de se enxergar as nebulosas que proporcionavam ao cabo um incrível show de cores. Nunca havia visto nada parecido dentro das muralhas ou quando saía em missões com a tropa e seu esquadrão. Talvez fosse pelo local, visto que a cidade onde estavam se encontrava no topo de uma grande colina.
Voltou os olhos para o interior do quarto que compartilhava com o rapaz de pele bronzeada, onde o mesmo estava deitado de qualquer jeito sobre uma das camas que ali se encontravam, crispando os lábios por breves momentos ao se lembrar do quão frustrante fora todo o processo para que permanecessem naquela pensão. Afinal, as pessoas que ali residiam foram avisadas sobre a estadia de dois membros da tropa de exploração, o que gerou certo alvoroço entre as crianças e os jovens que admiravam aquele trabalho. Aquilo irritava o cabo, visto que não havia nada de admirável em perder companheiros para titãs.
Coçando a garganta, voltou os olhos para o envelope que Hanji o havia entregado antes que saíssem, lembrando-se das explicações que a morena lhe havia dado e justificando o por que de ter arrancado aquelas páginas antes de entregar os livros à Elaijia. Foi obrigado a concordar com a amiga quando esta ressaltou que aquele seria o único jeito para que conseguisse entender toda a história acerca daqueles três seres antes mencionados. Não que acreditasse nessas coisas, mas estava curioso.
Voltou os olhos mais uma vez para o moreno, franzindo o cenho ao se recordar daquela imagens perturbadoras. Aquilo foi realmente estranho, afinal, não aconteceu como das outras vezes. Parecia ser uma espécie de lembrança, tamanha era a descrição e nitidez dos detalhes. Além, claro, das sensações intensas demais para simples devaneios momentâneos. E como se isso não fosse suficiente, ainda teria que processar o que realmente aconteceu na manhã daquele mesmo dia, onde se deixou levar pelos impulsos pela primeira vez. Era um fato que não estava agindo normalmente desde que conhecera o garoto naquele beco em Trost, no entanto, era totalmente ridículo se deixar levar por sentimentos como aqueles. Suspirou pesado, trincando os dentes antes de massagear as têmporas com ambas as mãos. O fato de não se arrepender daquele beijo o estava definhando por dentro.
O que aquele garoto tinha de especial? A sensação de nostalgia e familiaridade se tornava cada vez mais forte quando estava perto do moreno. As únicas vezes em que sentia algo semelhante era quando estava perto de seu amigo capitão.
– Elaijia... Savage... — Os olhos de Levi se arregalaram quando sua mente clareou. — Será possível?
Voltou sua atenção para o envelope, ponderando seriamente entre abri-lo ou não. Caso sua teoria estivesse correta, poderia ele ter conhecido os dois em vidas passadas?
O cabo riu nasalmente. Aquilo era ridículo demais até mesmo para ele. Todavia, lembrava-se das imagens que presenciara há algumas horas atrás. Os fios ruivos eram mais curtos, mas a aparência era a mesma. A cicatriz sobre a ponte do nariz também caracterizava o ruivo de seus delírios, além do nome, é claro. Apenas o que não se encaixava era o nome de Eren e o seu próprio. Entretanto, tendo em vista que se tratavam de épocas diferentes, aquele era apenas um pequeno detalhe a parte.
Outra coisa que o estava intrigando era o fato do referido David não ter mencionado o seu sobrenome, e seu desconforto foi aparente quando a questão do clã dos Jaeger's foi questionada.
– Tsc, estou ficando louco. — resmungou, fechando os olhos e afrouxando o seu cravat, lembrando-se que também o usava naqueles devaneios. — A convivência com aquela quatro olhos não está me fazendo bem.
– Hei... Chou? — Ouviu a voz do moreno ecoar por aquele quarto e então voltou sua atenção para o mesmo, que estava sentado sobre o colchão, provavelmente teria acordado devido aos seus murmúrios.
– Descanse garoto, teremos um dia puxado amanhã. — disse, sem desviar os olhos do rapaz. Mais especificamente do físico não desenvolvido do mesmo, visto que estava sem a camisa.
– Mas e o senhor? — quis saber e Rivaille sorriu perante a preocupação do outro para consigo.
– Já irei me deitar, apenas preciso de um banho. — dito isso, entortou o nariz. Detestava ficar tanto tempo sem se banhar. No entanto, ao se lembrar de uma questão que o estava intrigando há um bom tempo, resolveu deixar isso para mais tarde. — Jaeger, você nasceu cego?
Fitou a surpresa na expressão do outro, aproximando-se da cama do mesmo e se sentando sobre o colchão, sem desviar os acinzentados dos esmeraldinos. O cabo cruzou os braços, esperando uma resposta que não tardou em vir.
– Não senhor. — respondeu, fechando ambas as mãos em punhos, amassando levemente os lençóis que cobriam parcialmente seu corpo. — Na verdade, nem eu mesmo sei direito como isso aconteceu.
– Eu quero saber. — insistiu, suspirando pesadamente ao vê-lo relutar. — É uma ordem pirralho.
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