Wishmaster
34 Desalento
Notas iniciais
– Responda Armin! – insistiu Eren, inflando levemente as narinas equanto ouvia o outro suspirar pesadamente.
– Eren, preciso que tenha calma. – começou, olhando diretamente para as esmeraldinas do outro, que permanecia atônito. – Você ainda não tem conhecimento de muitas informações e seria arriscado que as recebesse de uma só vez assim.
– Mas desde quando Annie está relacionada com a titã fêmea? – continuou, balançando a cabeça negativamente antes de levar uma das mãos aos fios castanhos. – Ela não estava na Polícia Militar? A titã a matou?
– Eren, ouça! – O amigo loiro exclamou e então o Jaeger resolveu se calar. – Isso é mais complicado do que parece... Não sei por onde começar.
– Seja direto então! Não deve ser tão difícil, você sempre foi bom com as palavras.
O Arlert mordeu o lábio inferior com força, em seguida sentindo um gosto levemente ferroso em seu paladar que o fez entortar levemente o nariz. Sabia como o moreno iria agir caso dissesse a verdade e o certo seria ocultar algumas partes, no entanto, sabia também que não o conseguiria fazer.
– Eren... Quero que me prometa que, independente do que vá te dizer agora, você vai me ouvir até o final. – O rapaz de pele bronzeada franziu o cenho, estranhando aquele pedido.
– O que quer dizer?
– Prometa-Ah! – Armin se exaltou, saltando levemente da cama e sentindo o corpo reclamar pela dor e, apenas por isso, Eren resolveu assentir. Após se recompor, o loiro voltou a se pronunciar. – B-Bom... Você sabe que a humanidade está lutando contra os titãs há séculos e que nesse meio tempo foram feitas várias descobertas valiosas. – Pausou apenas para fitar a expressão do amigo, que permanecia com o cenho franzido. – Nos últimos oito anos a humanidade conseguiu o que parecia ser impossível, aniquilar tantos titãs ao ponto de termos segurança o suficiente para expandir nosso território para além das muralhas. Isso apenas foi possível porque descobrimos que os titãs... Os titãs na verdade são humanos.
– O que? – Eren perguntou incrédulo, sorrindo de canto levemente antes de rir audivelmente. – Isso é algum tipo de piada? Titãs são seres humanos que comem outros humanos, é isso o que está tentando me dizer?
– Sei que parece impossível. Depois que ingressei para a tropa de exploração e fiquei sabendo disso também demorei um tempo para aceitar essa questão. Sabe que não acredito em coisas que não vejo, mas, Eren, eu vi. – continuou, fechando os olhos na medida em que voltava a inspirar profundamente. – Vi com meus próprios olhos quando Annie se transformou na titã fêmea enquanto tentávamos defender a muralha Maria poucos meses depois de ter ingressado no exército.
Eren riu nasalmente mais uma vez, puxando os cabelos com uma das mãos enquanto tentava processar aquela informação. Aquilo não podia ser real. Definitivamente não acreditava que estavam falando da mesma Annie.
– Você tem certeza de que era ela Armin? – perguntou, abaixando a cabeça. – Não é possível estarmos falando da mesma Annie Leonhardt que você era apaixonado e que cresceu junto conosco naquele abrigo! Ela jamais faria isso!
– Mas ela fez! – Armin de repente se exaltou, trincando os dentes em seguida. – Ela fez e matou muitos dos nossos companheiros! E quando pensei que fosse a única decepção que teria nessa vida, vi quando Bertholdt e Reiner também se transformaram para nos atacar naquele dia!
As esmeraldinas de Eren então se arregalaram mais ainda quando levantou a cabeça, o queixo levemente caído. Aquilo não poderia ser real, não queria acreditar nas palavras que lhe eram ditas.
– Eles não Armin... – murmurou e então um palpite surgiu em sua mente. – Diga-me... Eles se transformaram nos titãs colossal e encouraçado, não foi? – A ausência de resposta do loiro apenas confirmou suas suspeitas. Eren então se levantou de repente, segurando sua bengala com firmeza. – Deveria ter estranhado a ausência dos três... Principalmente de Reiner e Bertholdt que deveriam estar na tropa de exploração! – O moreno trincou os dentes, batendo um dos pés contra o chão com força. – Também não vi Ymir desde que entrei para o exército... Não me diga que ela também...
– Com ela foi diferente. – Armin rapidamente respondeu ao perceber que o amigo começava a se alterar. – Ela se afastou de nós para proteger Christa. Você se lembra que as duas sempre estavam juntas. – Viu quando o moreno assentiu. – Ymir... Também era uma titã, mas de um porte muito inferior que os outros. Ela não era má, Eren, por isso ela se afastou para além das muralhas.
O rapaz continuava com os dentes trincados, ambas as mãos fechadas firmemente em punho. Tudo aquilo parecia tão irreal... Seus amigos de infância, as pessoas que sempre pensou que poderia contar para qualquer coisa, eram inimigos da humanidade. Era realmente difícil de acreditar naquelas palavras.
O Jaeger levou uma das mãos ao rosto, alisando-o com pressão enquanto fechava os olhos. Apenas em pensar que tudo estava acontecendo por sua culpa o causava náuseas e vertigens. Pensava que as consequências de seus atos passados atingissem apenas aos seus amigos de uma forma clara como a morte ou o sofrimento excessivo, mas jamais imaginara que a situação era tão pior.
– C-Como? – perguntou assim que se sentiu novamente seguro para tal, atraindo a atenção de Armin. – Como é possível humanos se transformarem em titãs?
O loiro demorou um pouco antes de responder:
– Ainda não descobrimos, mas os sinais são claros e... É agora que os planos de Irwin entram em ação, e eles incluem você, Eren. – Novamente observou a expressão confusa estampada no rosto do outro. Sabia perfeitamente que aquelas informações eram confidenciais, porém, não era justo que o amigo fosse usado sem saber o que estava acontecendo. – Depois daquele incidente em Trost... A tropa de exploração resolveu acolhê-lo como membro do exército por pensar que você poderia ser um titã.
E, novamente, a incredulidade desenhava o rosto de Eren.
– O que?! – exclamou, largando a bengala sem querer. – Eu não sou um titã Armin!
– Não foi o que pareceu em Trost! – O loiro exclamou, voltando o azulado para os esmeraldinos do outro. – Eren, como você explica o fato de seus membros terem se regenerado e a forma como controlou aqueles titãs ao seu redor?
O Jaeger então se encolheu levemente, engolindo aquela informação em seco. Armin tinha razão no que dizia, afinal, lembrava-se quando havia perdido um dos braços e uma das pernas naquele incidente e, de repente, os havia recuperado sem explicação alguma.
– Se... Isso realmente for verdade, então, por que eu não consigo me transformar? – perguntou, abaixando o corpo a fim de tatear o chão à procura da bengala.
– Ninguém sabe dizer... Mas Irwin apostou que talvez você se transformasse com o incentivo certo. – explicou, atraindo a atenção do amigo mais uma vez. – Irei explicar.
[...]
Foi o primeiro a chegar na sala onde o comandante estaria, entrando sem bater como costumava fazer às vezes, deparando-se com um ambiente pouco iluminado, contendo apenas uma janela e a secretária onde o Smith estava sentado com ambos os braços cruzados. Sua expressão não era uma das melhores e temia que más notícias lhe fossem dirigidas naquele momento. No entanto, era provável que o motivo daquela convocação era nada menos que a expedição de retomada que seu esquadrão futuramente faria.
Suspirou, não imaginou que a decisão fosse tomada tão cedo. Queria ter, pelo menos, feito um pedido formal para impedir que seu garoto fosse enviado para aquela missão tão precipitada.
Resolveu então se sentar sobre a cadeira livre à frente do loiro, que fechou os olhos antes de deixar os ombros caírem. Estava extremamente tenso com tudo aquilo e ver seu subordinado ali sozinho o deixou levemente relaxado.
– Pensei que viria com os outros. – comentou quando voltou a abrir os olhos, em tempo o suficiente de flagrar o outro abaixando o olhar, cabisbaixo. – Aconteceu algo, Rivaille?
O homem de baixa estatura não respondeu, erguendo o olhar para a mesa repleta de papéis à sua frente, tomando a iniciativa de tomar alguns para si a fim de diminuir o tamanho trabalho que Irwin estaria tendo com aquilo. Ao correr os olhos por apenas alguns segundos, percebeu que se tratavam das fichas de identificação dos soldados mortos no ataque em Rose.
– Parece que estamos com muitos problemas. – comentou, voltando a atenção para o amigo loiro, que em momento algum desviou o olhar de seu rosto. – Está convicto de que fará isso, comandante?
O Smith se encostou melhor sobre a cadeira, voltando o olhar para a pequena janela ao seu lado.
– Sei que essa ideia não lhe agrada, mas precisamos de uma posição o mais rápido possível. – respondeu, levando o polegar até próximo aos lábios, roendo a unha. – Sabe que não confio no Savage e que apenas pedi refúgio à ele por falta de opções.
Levi engoliu em seco, apoiando o cotovelo sobre o braço da cadeira antes de fitar o chão. Não gostava de ouvir comentários daquele gênero quando direcionados ao ruivo, mesmo tendo conhecimento de sua índole e personalidade duvidosa que faziam com que ponderasse às vezes sobre. No entanto, era sua culpa por não compartilhar uma parte importante do seu passado com aquelas pessoas.
Além disso, também estava preocupado com o andamento dos planos de Irwin com relação à retomada de Rose. Achava tudo aquilo arriscado demais para o pequeno número de soldados que havia sobrado.
– Se ficar à mercê de Elaijia o incomoda tanto, por que não nos mudamos para o castelo desativado da tropa? – sugeriu, umedecendo levemente os lábios em seguida. – Está abandonado há muito tempo, mas provavelmente ainda deverá ser útil para nós.
– Pensei em fazer isso, mas fica muito perto de Rose e não podemos nos arriscar em levar toda a tropa para um local tão vulnerável. – rebateu, alisando os fios loiros com uma das mãos.
– Pelo menos deixe o Jaeger aqui, é arriscado demais levá-lo para uma missão com tão pouca probabilidade de sucesso, principalmente por não dominar com perfeição o DMT. – Resolveu ser direto, percebendo quando Irwin ergueu uma das sobrancelhas com aquele pedido.
– Eu entendo sua preocupação para com o garoto, mas não posso fazer isso. Ele é um membro oficial do esquadrão de operações especiais, o seu esquadrão. Não seria profissional favorecê-lo dessa forma. – negou e então se surpreendeu quando Levi, perdendo levemente a postura, espalmou uma das mãos sobre sua mesa.
– Irwin, isso é loucura.
– Tenho consciência disso Rivaille, mas estou de mãos atadas! O Marechal espera um movimento meu desde o momento em que lhe enviei o relatório explicando os motivos da ingressão de Eren para a tropa, se não pensar em algo rápido para provar aquela teoria, sua guarda será imediatamente transferida para a Polícia Militar! – explicou também levemente alterado, observando quando o capitão à sua frente voltou a se sentar apropriadamente sobre a cadeira. – Gostaria de poder evitar isso, também gosto muito do garoto e tenho por ele uma grande estima. No entanto não posso mais adiar isso.
Os acinzentados então foram ocultos pelas pálpebras e um suspiro pesado foi solto. Levi temia, mais do que tudo na vida, que o incidente de quinze anos atrás se repetisse e, assim como antes, não pudesse fazer nada para evitá-lo. Mesmo sabendo das grandes diferenças entre as duas situações, sabia que as baixas seriam inevitáveis.
Apenas queria livrar-se daquela preocupação deixando o garoto em um lugar seguro. Não queria ser obrigado a passar pela mesma coisa duas vezes, principalmente por saber que, dessa vez, sabia que não aguentaria perder alguém tão importante.
Levi então se levantou, apoiando ambas as mãos sobre a cintura enquanto caminhava de um lado para o outro naquela pequena sala. Uma infinidade de pensamentos e táticas de batalha se passavam em sua mente naquele momento, ponderando sobre como poderia contornar determinadas situações caso elas viessem a acontecer. Sabia que deveria ser rápido e ter o máximo de atenção para que Eren pudesse voltar, com sorte, sem muitos ferimentos.
Enquanto isso, Irwin observava seu subordinado surpreso. Jamais o vira tão nítidamente preocupado em todos os anos em que trabalhavam juntos. Rapidamente associando aquela reação com algum provável envolvimento, o que não era de se estranhar em um todo. Apenas não estava acostumado a vê-lo daquela forma.
– Você mudou, Rivaille. – comentou, atraindo a atenção do outro para si outra vez. – Não parece aquela pessoa que há alguns meses não se preocupava tanto com as probabilidades.
O homem de baixa estatura franziu ainda mais o cenho.
– Não diga asneiras, comandante de merda. – rebateu e então o outro riu. – Parece que você se esqueceu do que aconteceu da última vez em que se arriscou em um plano como esse sem o meu conhecimento.
– Não me esqueci, e é exatamente por isso que você é o responsável por Eren.
– O que isso tem a ver com essa missão? – perguntou e então o sorriso de Irwin desapareceu.
– Você, mais do que ninguém, saberá fazer a escolha certa quando necessário. – explicou e então Levi estagnou, os olhos levemente arregalados e ambas as mãos fechadas em punho. – Sabe do que estou falando, certo?
O capitão trincou os dentes, alisando com força os fios negros com uma das mãos.
– Você é a pessoa mais cruel que conheço e acredite, conheço muitas. – comentou entre os dentes.
– Sabe que não tive outra opção naquele momento, Rivaille. Apenas decidi o que seria melhor para a humanidade.
– À que preço? – retrucou, voltando-se para o loiro que o fitava firmemente. – Eles ainda poderiam estar aqui se não fosse por isso.
– E então você teria voltado para a cidade subterrânea, sem chances de conseguir a tão sonhada cidadania da superfície e continuado a viver como um ladrão. – rebateu e então Levi se calou por breves segundos, dando a oportunidade para que o comandante continuasse. – A tropa de exploração precisa de você, Rivaille. A humanidade precisa da sua força para conseguir triunfar contra os titãs e estamos tão perto de conseguir conquistar os territórios além das muralhas porque você foi o impulso necessário para que conseguíssemos isso.
O capitão resmungou com aquela declaração, cruzando os braços logo em seguida. Não gostava daquela imagem que os outros insistiam em fazer de si. Não era a "força da humanidade" como todos diziam, não queria ser.
Levi teria retrucado com algumas de suas famosas respostas sem educação, quando o barulho de uma porta se abrindo se fez presente, atraindo a atenção de ambos, que se surpreenderam quando a imagem de um rapaz de cabelos castanhos e orbes esmeraldinas se fez presente.
O capitão rapidamente se voltou para o moreno, lutando contra a vontade de perguntar como estava se sentindo. Sabia que deveria respeitar seu espaço depois de tudo o que havia acontecido, principalmente depois do encontro desagradável que tiveram há momentos atrás, cujas palavras que lhe foram dirigidas tentava esquecer ou relacionar ao estado fragilizado do mesmo.
No entanto, algo completamente diferente se passava pela mente de Eren naquele momento, que mantinha a cabeça abaixada desde que chegara àquele local com a ajuda de uns poucos soldados da Polícia Militar. Não queria, mas infelizmente ouviu a conversa que havia se desenrolado até aquele momento entre aqueles dois homens, o que apenas contribuiu para que o aperto que antes sentia ao lado esquerdo do peito aumentasse. Afinal, mesmo depois das duras palavras que havia dirigido à Levi, o mesmo ainda estava se preocupando com sua segurança, colocando-o em primeiro lugar em suas prioridades.
Estava frustrado quando ali chegou por conta do que Armin havia lhe dito quanto à um possível relatório que fora entregue ao Marechal quando ingressou na tropa de exploração, que continha todos os planos e estratégias de batalhas que poderiam ser arquitetadas caso a teoria de que era um titã fosse confirmada. Em partes, entendia o quão vantajoso seria para a humanidade ter uma arma como essa, no entanto não podia continuar com isso, estava colocando em risco a vida da pessoa que amava e que era de suma importância para o triunfo da humanidade. Não poderia mais permanecer tão próximo daquela forma, precisava fazer alguma coisa que o afastasse definitivamente de si.
Nunca imaginou que a música que ouvia quando criança, Desejo Noturno, pudesse fazer tanto sentido quanto naquele momento.
E foi com esse pensamento que ergueu o rosto, tentando ao máximo transparecer confiança e determinação na frase que diria a seguir:
– Eu vou. É meu dever como soldado e membro do esquadrão de operações especiais fazer o que estiver ao meu alcance para que a humanidade consiga vencer de alguma forma.
Irwin endireitou a coluna enquanto Rivaille, inconformado e ignorando todos os conselhos de Petra, decidiu intervir:
– Não, não vai. Você ainda não possui o domínio do DMT, que será uma ferramenta essencial para isso. Não irei deixar que faça algo tão imprudente assim.
– Desculpe senhor... Mas creio que esta decisão cabe ao comandante Irwin. – comentou Eren, para o descontentamento do capitão, visto que sabia que o moreno estava certo. O rapaz então decidiu continuar. – Portanto, deixo a escolha de meu destino em suas mãos, comandante.
O Jaeger tateou o batente da porta com uma das mãos antes de se encostar levemente sobre o mesmo enquanto aguardava a resposta de seu superior. Nesse meio tempo, ouviu alguns passos aproximando-se da porta onde estava, identificando-os por conta da conversa que desenrolavam entre si como sendo Petra e Erd, que pararam logo atrás de si ao perceberem a presença do comandante e do capitão.
Ainda recalcitrante, Levi voltou os acinzentados para Irwin. O cenho profundamente franzido e o movimentar negativo com a cabeça pediam em silêncio para que o loiro mudasse de ideia. No entanto, apenas pôde observar quando o Smith apoiou os braços sobre a mesa e suspirou pesadamente antes de voltar os azulados para Eren.
– Todo o esquadrão de operações especiais estará presente no plano de retomada da base de Rose e do distrito de Klorva. – disse por fim, ignorando o olhar furioso que seu capitão lhe dirigia. – Por favor, entrem. Quando o resto do esquadrão estiver presente, iniciaremos a reunião.
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