Wishmaster
12 Aproximação
Notas iniciais
Sentado sobre o gramado bem cuidado do campo de treinamento da tropa de exploração, Eren permanecia com os olhos fechados enquanto ouvia atentamente uma das muitas histórias que seu irmão Armin gostava de contar sobre o mundo fora das muralhas. Sempre se divertia ouvindo o loiro compartilhar eufórico suas experiências.
Daquela vez não estava sozinho. Ao seu redor estavam seus amigos que viviam consigo no orfanato. O rapaz, cujo fios loiros eram cortados em estilo militar, compartilhava em detalhes a maneira como o cabo da tropa de exploração salvara a vida do rapaz de orbes esmeraldinas, enquanto uma garota loira de olhos azuis ria vez ou outra dos insultos que eram trocados entre Eren e o outro loiro, que era amigavelmente apelidado de "cara de cavalo".
– Eren. — O garoto foi chamado pela conhecida voz da irmã asiática. — Quando irá partir?
– Hm. — O moreno suspirou, apoiando ambas as mãos sobre o gramado. — Daqui a pouco... O heichou deve me chamar em breve para irmos.
– Não acha que é uma decisão arriscada? — disse a loira, atraindo a atenção do jovem Jaeger. — Quer dizer... Eu confio no heichou, mas depois daquele incidente em Trost... É estranho ele querer realizar o treinamento fora das muralhas.
– Concordo com a Christa. — O rapaz apelidado de cara de cavalo se pronunciou, deitando-se sobre o gramado e apoiando ambas as mãos sobre a barriga. — Além da titã fêmea e do titã encouraçado, outros titãs também apareceram por lá. Tivemos muita sorte pelo titã colossal não ter aparecido.
– Isso é verdade. — concordou Eren, fechando os olhos por um momento. — Eu só queria ter falado com o resto do pessoal antes de ir. Não consegui nem mesmo falar com Marco... Não sabe onde ele está, Jean? Vocês eram tão próximos no orfanato, é estranho vocês dois não estarem juntos agora.
E então um silêncio perturbador era instalado no grupo de amigos, o que causou certa confusão no rapaz de pele bronzeada. Tanto Armin quanto Mikasa e Christa voltaram o olhar para Jean, que fechou ambas as mãos em punho. A garota asiática queria ter explicado as coisas ao irmão antes de entrarem nesse assunto na presença do outro, porém, mal conseguiram conversar decentemente desde que Eren ingressara na tropa de exploração.
Quanto à Jean, este tentava evitar a todo custo esse diálogo. Sabia que o donos das orbes esmeraldinas merecia saber o que havia acontecido, mas ainda era um desafio deveras complicado de se superar. O loiro fechou os olhos, levando uma das mãos à frente deles, tapando-os enquanto mordia o lábio inferior com força. Aquela maldita dor no peito e a sensação de vazio insuportáveis não o deixavam em paz um segundo sequer. No entanto, conseguia disfarçar o quanto estava sofrendo com conversas e trabalhos braçais.
– Pessoal? — Eren se pronunciou mais uma vez ao perceber o ar pesado que ali havia se instalado, suspirando pesadamente enquanto pensava o pior.
– Marco... Lutou bravamente em nome da humanidade. — começou Jean, atraindo os olhares surpresos dos demais para si. — E teve uma morte honrosa e digna enquanto a defendia.
O loiro trincou os dentes antes de se levantar em um impulso, fungando profundamente enquanto coçava os olhos com as costas da mão, provavelmente limpando o acúmulo de lágrimas que ali se formavam antes de começar a caminhar, afastando-se do pequeno grupo e deixando para trás um Eren surpreso que, com os lábios entreabertos e os olhos levemente arregalados, apenas ouvia os passos do amigo se afastando. O moreno se crucificou mentalmente por ter tocado naquele assunto, logo sentindo seus olhos marejarem ao se lembrar dos momentos que haviam passado juntos no orfanato. O jovem Jaeger engoliu em seco enquanto a memória do dia em que Marco deixara o orfanato lhe ocupava a mente, o rapaz de sardas estava tão feliz em saber que poderia acompanhar Jean...
– Eren? — ouviu a voz de Armin o chamar, mas mesmo assim não se afastou de seus devaneios. Sentia as grossas e quentes lágrimas despencarem de seus olhos e escorrerem por seu rosto jovial enquanto levava ambas as mãos até seus grossos fios castanhos, puxando-os com certa força enquanto o corpo ficava trêmulo pelo misto de sentimentos que rontavam sua mente. — Eren, calma, por favor...
– Eu não queria... Eu não sabia... A-Armin, eu não sabia... — disse com a voz já embargada pelo choro, logo sentindo um par de braços finos rodearem-lhe o pescoço em um forte abraço.
– Você não tem culpa por ter tocado nesse assunto Eren. Você não sabia. — Christa tentou acalmar o moreno, apertando ainda mais o abraço ao redor de seu pescoço.
– O Marco... Morto? — perguntou, descendo ambas as mãos da cabeça para retrubuir o abraço que a loira lhe oferecia, soluçando vez ou outra. — Não pode ser verdade... E... Jean?! — Perguntou, exaltando-se levemente.
– Ele não superou isso. Os dois eram muito próximos. — Mikasa se pronunciou, lançando um olhar preocupado ao irmão que fungava mais uma vez. — Foi Jean quem achou o corpo de Marco.
A respiração de Eren travava por um momento. Céus, por que não fora qualquer outro a encontrar o corpo dele? Por que justo Jean? Foi quando o moreno abriu a boca e então um sôfrego e trêmulo grito escapou de seus lábios. Quando aquele inferno iria terminar? Quantos mais precisavam morrer para que aquilo tivesse um fim definitivo?
[...]
Sorvendo outro gole do chá de camomila que lhe fora oferecido, Levi se lembrava das palavras que Irwin o havia dirigido há minutos atrás em relação ao seu treinamento sem prévia data de retorno. Nunca gostou da maneira infantil como o loiro o tratava em situações como essa, porém, não o conseguia imaginar de outra forma. Além disso, o que mais o instigara fora a menção de uma conversa com seu amigo Elaijia.
Lembrança
Estavam resolvendo os últimos preparativos para a saída das muralhas e suas estadias na cidade que estava sendo contruída não muito longe. O cabo, sentado com os pés apoiados em cima da mesa de Irwin, terminava de assinar alguns papéis que não julgava serem importantes enquanto observava o loiro de relance, que parecia insatisfeito com alguma coisa.
– Se tem algo para me dizer, vá em frente. Sabe que não gosto de rodeios. — disse direto, atraindo a atenção do capitão sentado do outro lado da mesa que o fitava levemente surpreso.
– Como sabe que tenho algo a falar? — perguntou, apoiando os cotovelos sobre a superfície de madeira enquanto permanecia a fitar o cabo, que voltara sua atenção para os papéis.
– Costume. — respondeu simplesmente. — Acho que o conheço há tempo o suficiente para saber quando quer dizer algo ou não.
Irwin riu nasalmente, endireitando-se sobre a poltrona e apoiando ambas as mãos sobre a barriga em uma posição visivelmente relaxada enquanto admirava a alta capacidade de percepção de seu subordinado.
– Queria entender o por que de querer levar o garoto para fora das muralhas. — começou, percebendo o outro assentir sem nem mesmo retirar os acinzentados dos papéis. — Por mais que a segurança esteja maior que alguns anos atrás, ainda temos aqueles três a solta.
Rivaille suspirou pesado, largando os papéis que ocupavam-lhe a mente sobre a mesa do capitão Smith.
– Justamente por isso. — respondeu, fitando uma das grossas e engraçadas sobrancelhas de seu superior se arquearem. — Digamos que queira testar as habilidades daquele pirralho, visto que iremos demorar um pouco até termos algum progresso em lutas corpo a corpo.
– Mesmo assim, não acha que seja um tanto arriscado demais? — insistiu, recebendo um rolar de olhos como resposta.
– Diga-me algo que nós façamos que não seja arriscado. — devolveu, cruzando os braços. — Sei que ele pode ser uma chance única de terminarmos com isso de uma vez por todas, mas não quero dar àquele pirralho de merda um tratamento especial apenas por isso. Já basta estar em um quarto próprio.
O capitão ponderou por breves momentos, sendo obrigado a concordar. Sabia que Eren poderia estar sofrendo algum tipo de preconceito, não apenas por sua deficiência, mas também pelo "tratamento relativamente especial" que recebia de seus superiores, além, claro, da vaga instantânea no Esquadrão Rivaille. O cabo estava certo, porém ainda não achava viável que fossem para fora das muralhas.
Além disso, outra coisa o estava incomodando. Ou melhor, outra pessoa. Ainda não entendia quais eram os verdadeiros objetivos de Elaijia em relação à Polícia Militar e a humanidade e sua desconfiança apenas aumentou com o encerramento de sua conversa em Sina. Talvez devesse seguir o conselho de Pixis e perguntar ao cabo à sua frente para assim sanar suas dúvidas de uma vez, porém, temia que o outro interpretasse mal suas intenções, visto que possuíam um vínculo fortíssimo de amizade.
– Tsc. Mais alguma coisa? — reclamou Levi, retirando o capitão de seus devaneios.
– Sim. — resolveu expor seus pensamentos, suspirando antes de continuar. — Naquele dia em que fui para Sina conversar com o Marechal, seu amigo, Elaijia, também estava lá. — O cabo assentiu, lembrando-se vagamente que o amigo havia comentado algo semelhante consigo. — Ele mostrou um interesse muito estranho no Jaeger.
Rivaille ergueu uma de suas delineadas sobrancelhas.
– Não foi o que deu a entender ontem. — comentou alto, percebendo o loiro se exaltar levemente com aquela afirmação. — Antes de ir para a reunião, Elaijia passou no meu quarto a pedido de Hanji e o Jaeger estava lá... Depois eu explico esse detalhe. — disse rapidamente ao fitar a expressão confusa de seu superior. — Ainda não o questionei sobre isso, vamos conversar depois que terminarmos aqui, mas ele demonstrou uma repulsa fora do normal.
– Isso não faz sentido. Não acha que devia começar a desconfiar? — disse Irwin, recebendo um olhar de reprovação do homem de baixa estatura.
– Elaijia sempre foi estranho. Não me surpreenderia se também fosse bipolar. — devolveu ríspido, fazendo o loiro suspirar outra vez. — Creio que esteja exagerando em toda essa desconfiança.
– Mas não é para menos! Ah, Rivaille, eu não consigo entender como vocês conseguem manter um vínculo de amizade como esse. — comentou, ocultando as íris azuladas por trás das pálpebras. O cabo sorriu mínimamente, inclinando a cabeça para o lado.
– Está com ciúmes? — perguntou irônico, recebendo um olhar repreensivo como resposta. Levi apenas desatou o nó em seus braços antes de se levantar. — Eu também não sou a pessoa mais normal desse mundo Irwin. Apenas entendemos um ao outro.
O capitão riu nasalmente com aquela afirmação, comentando em seguida:
– Do jeito que você fala, parece até que são namorados. — Precisou se esforçar para esconder o sorriso que queria se formar em sua face ao desviar de uma caneta que o cabo havia lançado em sua direção.
Fim da lembrança
Não conseguia entender de onde Irwin tirava tais conclusões, mas admitia que o fato do estranho interesse de Elaijia em Eren o havia deixado deveras curioso, se não frustrado, visto que não o havia contado desse detalhe. Porém, não teve tempo para pensar mais sobre aquilo pois acabara de avistar a longa cabeleira ruiva do amigo, que correu os olhos acinzentados pelas bancadas do refeitório até encontrar as íris de um cinza mais escuro do cabo, que terminava de bebericar do chá de camomila. O capitão então rapidamente se movimentava por entre as bancadas até chegar no lugar onde Levi estava sentado, este que pigarreou algumas vezes antes de se pronunciar:
– Está atrasado. — Observou o ruivo rolar os olhos em escárnio e sentar-se à sua frente. — Sabe que não gosto de atrasos.
– Oh, desculpe meu atraso vossa graça! — respondeu irônico, recebendo um olhar raivoso como resposta. — Mau humor?
– Coisas de sempre. — Deu de ombros, pousando a xícara sobre a bancada antes de se voltar para o amigo. — Por que não me contou que estava interessado no Jaeger?
Elaijia se surpreendeu com a pergunta, rapidamente associando aquilo à Irwin. Franziu o cenho por um momento, pensando no que responder ao cabo que o aguardava.
– Não era algo importante. — respondeu por fim, apoiando um dos braços sobre a bancada, sem desviar os olhos de Rivaille.
– Eu sou o responsável por Eren Jaeger, então tudo o que é relacionado à ele é importante para mim. — disse ríspido, fazendo o ruivo franzir o cenho mais uma vez, nem um pouco contente por aquela iniciativa.
– Apenas achei que seria viável termos uma mente estrategista na Polícia Militar. — Resolveu dizer a verdade, cruzando os braços em seguida. — Satisfeito?
– Muito. — Levi respondeu sincero. — No entanto... Mente estrategista?
– Foi o que o Smith disse ao Marechal. — Os olhos de Elaijia se arregalaram minimamente ao entender o raciocínio de Levi. — Por um acaso Irwin Smith mentiu para o Marechal?
Foi a vez de Levi se surpreender com a pseudo acusação que era voltada ao seu superior, sendo obrigado a mentir.
– Não. — respondeu, suspirando. — Apenas pensei que Irwin usaria de outros métodos para convencê-lo a deixar o garoto conosco. Dessa forma ele acabou revelando parte do que estamos planejando.
– E o que seria? — Elaijia quis saber, os olhos cintilando em curiosidade.
– Não tenho permissão para dizer. — respondeu sincero, afinal, pelo menos aquilo não era mentira. — Desculpe.
O capitão Savage endireitou a coluna, deixando-a ereta enquanto o pensamento de que o amigo talvez estivesse mentindo para si passava pela sua cabeça. Não duvidava de tal, visto que era de conhecimento geral que as demais tropas não confiavam na Polícia Militar, fato que o irritava minimamente. Todavia, o que o irritava mais era saber que seus planos poderiam ser comprometidos por conta do rapaz de pele bronzeada. Se a tropa de exploração descobrisse do que o moreno era capaz, o desfecho que via se repetir durante milênios poderia se repetir mais uma vez.
Balançando a cabeça negativamente, resolveu não se preocupar com aquilo no momento, visto que teria coisas mais importantes acontecendo em Sina durante a tarde daquele mesmo dia. E para que tudo corresse como o planejado, Levi não podia demorar mais em sair de Rose.
– O seu garoto estava chorando quando estava vindo para cá. — comentou, atraindo o olhar do cabo para si. — O Jaeger. Fiquei me perguntando o que aconteceu.
– Ele estava sozinho? — perguntou, deixando transparecer uma preocupação que irritou o ruivo por breves momentos.
– Não. Acho que estava com os amigos. — Voltou os acinzentados para o amigo, que se levantava. — Já vai?
– Sim. — respondeu, voltando os olhos para a xícara sobre a bancada, ponderando se deveria ou não levá-la até a cozinha, decidindo por fim deixá-la ali mesmo. — Ainda preciso pegar os cavalos para ir.
– Boa sorte. — desejou e o cabo riu nasalmente, começando a caminhar para fora do refeitório.
[...]
A garota asiática terminou de enxugar o rosto do irmão que, para o alívio dos demais, finalmente havia se acalmado. Sabia o quanto deveria ser difícil para o moreno aceitar a morte do amigo e ainda precisar lidar com o humor matinal do cabo. Porém, sentia-se aliviada por ter conseguido arrancar um pequeno sorriso do mesmo ao comentar sobre a relação de Armin com seus superiores e que em breve poderia ser promovido de soldado para um cargo mais elevado. Eren suspirou, sorrindo cordial e parabenizando o irmão por sua conquista, este que apenas sentiu o rosto enrubescer levemente antes de murmurar um simples "obrigado".
O dono dos esmeraldinos voltou sua atenção para o misto de vozes que o cercavam. Alguns soldados começavam a se acomodar no campo de treinamento e isso o fazia se questionar sobre as horas. Suas coisas estavam arrumadas em uma mochila simples, levaria apenas roupas e o equipamento necessário para treinar ao lado do cabo, apenas esperaria ser chamado para finalmente partir. E foi exatamente isso que o retirou de seus devaneios. Exaltou-se levemente ao ouvir o chamado de seu superior, voltando a cabeça na direção da voz já tão conhecida, preparando-se para se levantar quando ouviu o comentário da irmã:
– Deveria ensinar bons modos àquele baixinho pela maneira como te tratou no treinamento. — Eren crispou os lábios.
– Ele só estava fazendo o seu trabalho. — defendeu, sentindo seu braço direito ser firmemente segurado, o que o assustou por breves segundos.
– Sou eu, pirralho. — A voz de Levi se fez presente mais uma vez, arrancando um suave sorriso de alívio do moreno. O cabo correu os olhos pelos outros três adolescentes ali presentes antes de começar a caminhar, puxando o rapaz consigo. — Suas coisas estão prontas?
– S-Sim senhor... — respondeu, acompanhando seu superior de forma desajeitada. — Apenas roupas e a DMT.
– Bom garoto. — comentou, apressando os passos quando finalmente chegava ao corredor. — Vamos aos estábulos pegar os cavalos e logo sairemos.
– S-Senhor... — chamou e foi respondido por um quase inaudível muxoxo. — Eu gostaria de ir em um lugar antes de partirmos.
– Tsc. Não temos tempo para isso. — Foi ríspido, fazendo o moreno tremer levemente. — Onde quer ir?
–
Eren tateou o ar por alguns segundos antes de sentir a superfície de pedra polida em suas mãos, em seguida tateando aquela superfície e abaixando-se gradativamente até se ajoelhar, não se importando se a terra fresca iria sujar seu uniforme. Suspirou profundamente antes de abrir um suave sorriso. Enquanto isso, Rivaille permanecia de pé logo atrás, com os braços cruzados apenas a fitar todo o cuidado que o mais novo tinha com aquela lápide, perguntando-se mentalmente se o falecido seria algum conhecido ou parente próximo. O cabo esticou levemente o pescoço e estreitou o olhar, permitindo-se finalmente enxergar o que estaria ali escrito.
Marco Bott
Soldado das forças da Tropa de Exploração
Nascimento: 834
Falecimento: 850
Ergueu então ambas as sobrancelhas, lembrando-se vagamente do rapaz com sardento que ingressara na tropa de exploração juntamente com os irmãos de Eren, concluindo imediatamente que deveriam ter sido amigos próximos. O cabo suspirou, aumentando a pressão sobre o nó em seus braços enquanto tentava expulsar as imagens de um passado que estavam insistindo em reaparecer. Aquela situação se assemelhava com o que havia passado em um passado distante, este que gostaria que permanecesse enterrado.
– Oi Marco. — Foi tirado de seus devaneios pela voz do moreno, que sorria melancólico enquanto fitava o nada. — Que forma estranha de voltarmos a nos falar... Mas é o único jeito. — Riu nasalmente antes de abaixar a cabeça. — Eu consegui entrar na tropa de exploração, queria que pudesse me ver agora. Apesar de tudo, parece que as coisas estão se acertando. Irei sair em treinamento com o heichou agora. — Ouviu o cabo rir nasalmente logo atrás de si e então continuou. — Eu... Irei ficar forte Marco. Eu irei matar aqueles titãs, eu... — Sentiu a voz fraquejar e então fechou os olhos, sentindo-os úmidos. — Eu vou te vingar Marco... — Eren apoiou ambas as mãos sobre a lápide, pressionando-a com força enquanto sentia o corpo trêmulo. — Eu prometo...
Rivaille observou atentamente quando o garoto começou a fungar, concluindo que estivesse chorando e finalmente entendendo o por que dos prantos anteriores. No entanto, aquilo não o incomodava, mas sim o fato de algo estranho o fazer sentir pena do moreno. O homem de baixa estatura franziu o cenho enquanto desatava o nó em seus braços e ponderava entre ampará-lo ou simplesmente mandá-lo engolir as lágrimas. Ah, caso soubesse o que viria a seguir, teria escolhido a primeira opção.
Aproximou-se de Eren e repousou uma das mãos sobre seu ombro direito, atraindo a atenção das orbes esmeraldinas para si. Levi arregalou levemente os olhos pela visão que estava a presenciar naquele instante. O rosto completamente úmido do rapaz e os enormes e exóticos olhos estavam mais brilhantes do que nunca. Não saberia dizer se seria o efeito das lágrimas, mas aquilo o pegou completamente desprevenido.
O moreno fungou mais uma vez ao sentir a mão de seu superior em seu ombro, não sabia se interpretava tal ato como um simples conforto ou como um pedido para que se levantasse. Porém, com a ausência de palavras do outro, acatou a primeira alternativa, o que o fez sorrir melancolicamente.
– Desculpe heichou... — disse com a voz ainda embargada pelo choro. — Desculpe por nos atrasar... Podemos ir agora e... — Interrompeu-se ao perceber que a mão que antes estava repousada em seu ombro, agora se encontrava em sua face direita. — Heichou?
Não sabia o que estava fazendo, talvez estivesse sendo levado por um instinto. Mas a sensação de nostalgia que aqueles olhos lhe traziam não poderia ser normal. Estava hipnotizado por aquela criança ao ponto de nem mesmo conseguir controlar os movimentos que vieram a seguir.
Os acinzentados analisaram todo o rosto de Eren ao mesmo tempo em que sua mão continuava a acariciar-lhe a face. Permitiu-se levar a mão livre até o rosto do rapaz também, afastando os fios castanhos do garoto de seu rosto e testa, deixando totalmente exposta para si a expressão de total confusão do menor, que franzia o cenho ao sentir as carícias do homem, que as realizava com um cuidado tamanho, como se qualquer movimento mais brusco pudesse se quebrar. Separou levemente os lábios para dizer alguma coisa, mas fora impedido pelos lábios do cabo, que se aproximavam firmes.
Eren arregalou os olhos enquanto Levi os fechou, ambos sentindo imediatamente fortes arrepios que percorriam seus corpos por inteiro, além de uma forte descarga elétrica que descia por suas colunas. Os lábios do cabo se moviam e sua língua pedia passagem, que fora imediatamente concedida pelo rapaz, que fechou os olhos e se permitiu envolver o pescoço do homem com os braços, aproximando assim o contado daqueles dois corpos. Rivaille desceu uma das mãos, repousando-a sobre a cintura do rapaz enquanto a outra se movia para a nuca do mesmo, puxando levemente os fios castanhos do jovem Jaeger, que grunhiu baixinho.
Naquele momento, ambos compartilhavam da mesma sensação: aquela nostalgia perturbadora que os faziam mergulhas cada vez mais naquele momento, como se estivesse sendo esperado durante séculos. Todavia, ao mesmo tempo em que o calor no peito de ambos os rapazes parecia se acender a cada segundo mais, um terrível sentimento também começava a ali brotar. O medo, o receio, a aflição, mas de quê?
Eren retribuiu tímido, apertando ainda mais os braços ao redor do pescoço de seu superior enquanto suas línguas se entrelaçavam em uma dança assustadoramente familiar. Conseguia sentir as batidas descompassadas do coração de Levi e isso o deixava incrivelmente feliz e surpreso, pois podia jurar que seu coração batia no mesmo ritmo.
Levi mordeu levemente o lábio inferior do outro, que estremeceu, em seguida voltando a explorar a cavidade úmida da boca de Eren antes de empurrá-lo lentamente até que pudesse se encostar sobre a lápide, não separando os lábios em momento algum. O cabo sentiu algo úmido escorrer pelo seu rosto e então abriu levemente os olhos, deixando suas íris acinzentadas expostas o suficiente para contemplar a visão do rosto completamente enbubescido do moreno, suspirando logo em seguida. O contraste de sua pele morena com aquela vermelhidão característica de sua timidez o fascinava. Deus, era tudo tão familiar, essa sensação de déjà-vu estava acabando consigo!
Resolveu então separar os lábios dos de Eren por um momento, sentindo a respiração levemente ofegante. Provavelmente estava com uma expressão levemente alterada e agradecia mentalmente pelo rapaz não enxergar, assim não presenciaria aquela cena. Entretanto, o cabo mal sabia que assim que os orbes esmeraldinos se abriram, os donos destas enxergaram, mesmo que completamente embaçado, as cores e silhuetas de seu superior.
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