Wishmaster

25 Angústia II


Notas iniciais
Finalmente, mais um capítulo para vocês. Escrevi durante a semana, visto que não estarei em casa amanhã, por isso a atualização está saindo mais cedo dessa vez. Capítulo dedicado à Lady Kozato. Obrigada pela recomendação. O capítulo de hoje foi escrito ao som da minha música favorita do Kaito, que, por sinal, é o meu vocaloid favorito também: Crescent Moon ( http://www.youtube.com/watch?v=eYMAjfq7UB0 ) que, por sinal, também e a música que me inspirou para escrever o meu primeiro livro, que já está em andamento. Espero que gostem do capítulo. Boa leitura.

Seus passos pareciam mecânicos e o barulho que as botas do uniforme faziam contra o chão de pedra parecia simplesmente não alcançar seus ouvidos. As imagens daquela lembrança perturbada continuavam nítidas em sua mente, o que cooperava para o aumento do desconforto que sentia na garganta sempre que tentava engolir. Não conseguia acreditar, mesmo tendo conhecimento de que aquilo já havia acontecido antes.

De repente a frase que tanto temia surgiu em sua mente: "Três famílias foram amaldiçoadas pela eternidade, e as três também irão se destruir". Sentiu um forte aperto ao lado esquerdo do peito, o que o obrigou a parar por breves momentos. Havia matado Eren outras vezes. Seria aquele o destino que os referidos deuses lhes reservaram? Viver no sofrimento eterno, reencarnando por vezes sem conta apenas para a história se repetir... Não queria que aquilo acontecesse. Não queria perder o garoto e, muito menos, ser outra vez o responsável pela sua morte. Mas como faria isso? Era apenas um humano, não conseguiria simplesmente ir contra uma vontade tão grande como aquela.

Suspirou pesadamente antes de se encostar sobre a parede daquele longo corredor e cruzar os braços. Os olhos estavam fixos em um ponto em específico da parede enquanto sua mente voltava outra vez para aquele quarto. Mais especificamente para a reação que Eren tivera para com aquela visão repentina, o que apenas serviu para que uma dor lancinante na garganta o fizesse forçar a respiração por breves momentos. A expressão completamente assustada acompanhada pelas lágrimas que começaram a descer quando o afastou de si. Em seguida, aquele pedido ríspido para que se retirasse... Teria ele lembrado de alguma coisa? Ou pior... Teria o associado àquelas imagens? A resposta seria, provavelmente, sim, levando-se em consideração que o moreno o chamara de Francis uma vez.

Pigarreando, o capitão voltou a caminhar enquanto milhões de perguntas de repente surgiam. Será que ele o odiaria? Será que se arrependeria de ter deixado tudo para trás para se tornar um soldado? Não queria pensar nessas coisas, mas era incrível como era inevitável. Por mais que conhecesse o garoto por pouco tempo, sentia um vínculo irracional para com ele.

Estava tão absorto em seus pensamentos que não percebeu a presença de outra pessoa naquele corredor. Apenas quando esta lhe dirigira a palavra que então moveu a cabeça na sua direção, semicerrando os olhos ao fitar a figura ruiva que lhe era familiar. Era um garoto poucos centímetros mais alto com o cabelo liso cortado em um estilo parecido com o seu, diferenciando-se apenas por conta da franja que cobria-lhe parte da testa. Os olhos castanhos o fitavam eufóricos enquanto o capitão buscava em sua memória onde havia visto algo parecido.

– Cabo Rivaille! — O garoto chamou animado, saudando-o como todo soldado. — O senhor está se sentindo melhor?

Levi deu de ombros, esperando que aquilo fosse o suficiente. Iria recomeçar sua caminhada, quando fora interrompido outra vez pelo ruivo.

– O senhor se lembra de mim? — perguntou, o que fez o capitão erguer uma das sobrancelhas. — Sammael! Ajudei o senhor e mais um outro soldado quando voltavam do treinamento fora das muralhas.

– Ah... — Finalmente havia se lembrado, no entanto, não via o porquê disso. — Você foi muito corajoso naquele momento, garoto.

Os olhos do jovem Sammael brilharam naquele momento enquanto era analisado pelos acinzentados do outro. Se sua memória não lhe falhava, o uniforme que o ruivo usava naquele dia era o da brigada de cadetes e não o da tropa de exploração.

– Parece que resolveu se juntar a nós. — disse por fim, dando as costas ao garoto antes de voltar a caminhar. — Fez bem garoto. É sempre bom termos soldados corajosos por perto.

Sammael continuou observando seu superior até o mesmo desaparecer de sua vista enquanto um enorme sorriso enfeitava seu rosto jovial. Em seguida, resolveu continuar perambulando pela base da tropa de exploração a fim de conhecer melhor o local. Quanto à Levi, este passou a caminhar na direção de sua mais nova sala. Por mais que não pudesse se titular como capitão no momento, devido a ausência de Irwin, sabia que estaria com mais responsabilidades sobre os ombros e o encontro com o jovem Sammael o lembrara da ingressão de novos membros na tropa de exploração. Na ausência do comandante, o responsável por catalogar e analisar as novas fichas era do capitão.

Rivaille suspirou mais uma vez. Pelo menos o trabalho poderia o distrair do que o estava perturbando.

[...]

Sabia que não estava em um de seus melhores momentos. No entanto, após refletir sozinho por alguns minutos, concluiu que fora duro demais com o mais velho. Afinal, o mesmo não tinha culpa por aquilo ter acontecido, assim como antes, quando compartilharam aquela visão antes de sairem em treinamento. Era algo inevitável, mas simplesmente não conseguiu conter aquelas palavras, precisava realmente ficar um pouco sozinho a fim de digerir aquilo apropriadamente, o que o frustrou, visto que não chegara a nenhuma resposta coerente.

Afundou ainda mais o rosto sobre o travesseiro. Céus, como detestava aquela situação constrangedora. Deveria pedir desculpas, porém, não sabia como Levi reagiria àquilo. Aquele homem poderia simplesmente se afastar de si por conta daquela desventura e recusar o seu pedido. Além disso, mal sabia por onde procurá-lo para início de conversa. Levi poderia estar em qualquer lugar.

– Mais que droga! — resmungou para si mesmo, levando ambas as mãos aos fios castanhos, sem saber o que fazer. Nunca gostou da forma como sua boca agia por conta própria às vezes.

No fim das contas, resolveu se levantar, tomando coragem para por em prática o que estava prestes a fazer. Respirou fundo, acumulando grande quantidade de ar nos pulmões antes de saltar da cama. Iria se vestir, procurar pelo seu superior e implorar por um pedido de desculpas.

Eren sorriu de canto, jamais se imaginou fazendo aquilo.

Balançou os braços no ar com cuidado, tentando ao máximo não esbarrar nos móveis ao seu redor, não queria quebrar nada naquele quarto ainda tão desconhecido para si. Todavia, seu plano caiu por terra após um movimento brusco com seu braço direito, que esbarrou em uma superfície gélida. Ouviu o barulho do que parecia ser uma peça de barro rolar sobre o lugar onde estava, encontrando o chão próximo aos seus pés logo em seguida. Eren fechou os olhos ao ouvir o som dos cacos se espalhando seguido por uma ardência em seu pé direito. Provavelmente um daqueles estilhaços abrira um corte, visto que ainda estava nu.

Iria se abaixar para começar a recolher-los, parando no meio do caminho em uma posição engraçada. Talvez fosse melhor se vestir primeiro antes de tentar alguma coisa, o que o colocara em outro dilema. Estavam tão afobados quando começaram aquela troca de carícias que não se preocupou com a localização de suas roupas. Sentiu um pesar sobre a cabeça seguido, estava contando com a ajuda de Levi sem perceber.

Resolveu então caminhar em passos curtos, arrastando os pés no chão a fim de sentir alguma textura estranha. Sabia que, provavelmente, estaria agindo como uma criança, mas aquela situação exigia medidas drásticas. Poucos minutos depois sorriu em satisfação ao sentir algo parecido com tecido tocar seus pés. Ao se abaixar e explorar aquilo com as mãos, deduziu que seria a calça da tropa. Rapidamente a vestiu, sem se importar se estava ou não ao contrário, reiniciando sua busca pelas roupas.

Foi quando ouviu alguém bater na porta.

Eren endireitou a coluna com tamanha velocidade que a fez estalar, resmungando algumas coisas sem nexo em seguida. As batidas então se repetiram, dessa vez acompanhadas por uma voz.

– Ei Rivaille, está aí?

Era a voz de Hanji e, para a preocupação de Eren, Levi não havia trancado a porta quando saíra.

[...]

Estava na sala que anteriormente pertencia à Irwin, sentado sobre a espaçosa cadeira acolchoada do outro, com os pés sobre a mesa que não gostava e lendo as fichas que estavam ali dispostas. No entanto, não poderia dizer que estava verdadeiramente prestando a atenção no que estava ali escrito.

Vez ou outra o agora capitão desviava os acinzentados para a janela ao seu lado. Sempre a achou exageradamente grande e desnecessária e Irwin sempre o respondia com um sorriso cheio de significados. Todavia, naquele momento, finalmente parecia entender o porque do loiro gostar daquilo.

Era uma visão incrível. O céu alaranjado do fim de tarde contrastava com algumas árvores que estavam espalhadas por ali, dando a elas uma coloração acobreada que lhe proporcionava um verdadeiro show na medida em que seus galhos oscilavam junto com o vento. Daquele ponto, seu campo de visão parecia ser privilegiado, pois conseguia enxergar a paisagem das demais torres da base de Rose, além de alguns soldados ocupados com suas trivialidades. Todo aquele cenário parecia harmônico demais aos seus olhos, mas ele não combinava com seu estado de espírito.

Voltou sua atenção para os papéis em mãos, sentindo certa dificuldade em ler-los por conta da escuridão que se formava por olhar tempo demais para a claridade. Aquilo, por um momento, o levou para as imagens que teve o desprazer de contemplar junto com Eren. Apenas a lembrança daquilo fez com que um gosto amargo surgisse em seu paladar, fazendo-o largar os papéis novamente sobre a mesa e levar uma das mãos às têmporas, marrageando-as por um tempo considerável. Desejava tanto que aquilo não mais o perturbasse...

Seus olhos então voltaram para paisagem ao lado de fora, contemplando-a por um tempo que não fez questão de cronometrar. Concentrou-se em um ponto em específico, onde dois pássaros que encarou como sendo pombos voavam livremente pelo céu alaranjado, na direção da muralha a sua frente. Por um momento rapidamente os associou ao brasão que carregavam nas costas e ao lado esquerdo do peito, as Asas da Liberdade, onde cada soldado da tropa de exploração era responsável por levar a humanidade para o mundo além daquelas muralhas. Orgulhava-se de saber que fez parte do movimento que finalmente descobriu uma maneira de lutar contra os titãs, abrindo as muralhas pela primeira vez para a população conhecer o mundo exterior.

Levi suspirou, tranquilo e relaxado, ao se lembrar dos sorrisos e olhares de satisfação das pessoas as quais escoltava para o universo que apenas eles conheciam. Naquela época não se importou tanto com aquilo, mas agora, anos depois, percebeu finalmente como aquilo era gratificante. Ver que seus esforços realmente valeram a pena e que seus companheiros não haviam morrido em vão, mas sim foram peças cruciais para finalmente libertarem a população.

De repente a imagem de Irwin surgiu nítida em sua mente, o que o fez sair de seus devaneios e desviar o olhar da janela, crispando os lábios em seguida. Talvez tenha entendido naquele momento o real significado daquela janela.

– Tsc... Aquele comandante fajuto estaria rindo de mim naquele momento. — comentou consigo mesmo, fechando os olhos enquanto ria nasalmente. — Também preciso parar de falar sozinho...

Ao reabrir os olhos, os acinzentados pousaram em uma ficha em específico. Os caracteres de "Eren Jaeger" foram gravados em maiúsculo, o que dava um certo destaque. O capitão não percebeu quando suas mãos vagaram pela mesa e seguraram firmemente aquele pedaço de papel, ao mesmo tempo em que suas orbes se concentravam firmemente naquele singelo nome. Por um momento, desejou se lembrar de suas vidas passadas e de como chegara àquela situação com o garoto.

Foi quando sua mente finalmente clareou. Seus dedos amassavam o canto daquele papel na medida em que se tensionavam. Céus, havia matado Eren antes... Como fora capaz de algo tão truculento com a pessoa que mais amava? Como pôde estar tão cego de ira?

Levi depositou a ficha do garoto com força sobre a mesa antes de fechar novamente os olhos e morder com força o lábio inferior. Estava inconformado com aquilo, o seu "eu" atual não conseguia compreender como pôde fazer isso. Mesmo que Eren o tivesse traído naquela época, simplesmente não era justo. Nada podia justificar aquilo e a sensação de ter algo que havia escapado daquela linha de pensamento o deixava furioso.

Por fim, levantou-se da cadeira num ímpeto. Não conseguiria mais trabalhar naquelas condições, precisava se distrair um pouco.

[...]

Hanji abriu a porta sorridente e com os olhos fechados. Sabia que o outro não gostava quando entrava sem bater, por isso resolveu se precaver, visto que da última vez havia pego o homem saindo do banho. Não que se importasse com isso, sabia que Rivaille também não se importava, mas gostava de manter o respeito mútuo.

– Ouvi um barulho vindo daqui e pensei que... — Rapidamente se interrompeu ao abrir os olhos e encontrar o quarto completamente vazio. — Estranho... Podia jurar que ouvi vozes vindas daqui.

Os olhos da morena, adornados pelo óculos, percorreram todo o local, sendo semicerrados no momento em que encontrava peças de roupas que não deveriam estar daquele jeito, jogadas no chão e completamente amassadas. Além, claro, da janela completamente escancarada e do vaso de barro que havia lhe dado de aniversário estar, agora, em pedaços ao lado da cama.

A mulher adentrou aquele lugar em passos lentos, aproximando-se das roupas ali jogadas e analisando-as, sorrindo abertamente em seguida ao reconhecer a camisa esverdeada que Eren costumava usar. Provavelmente o garoto estaria escondido em algum lugar daquele quarto, mas, de momento, optou por não perturbá-lo.

– É... Acho melhor voltar outra hora... — disse, voltando-se para a porta. — Ou então procurar em outro lugar. Hm... Onde você está Rivaille?

Ainda esperou por alguns segundos próxima a porta, na expectativa de conseguir ver o moreno saltando de seu esconderijo. No entanto, não fora correspondida, simplesmente dando de ombros e saindo daquele quarto, seguindo pela posição oposta na qual chegara, o que a impossibilitou de ver o homem que procurava se aproximar do quarto.

Logo após deixar sua sala, Levi relutou em voltar para o quarto, afinal, Eren ainda poderia estar chateado consigo. No entanto, não poderia deixá-lo daquela forma. Sabia que, por mais que negasse, precisava de ajuda até nos mais simples afazeres. Por isso, ao ver a amiga e companheira de trabalho deixar seu quarto, imaginou se a mesma não o ajudara ou simplesmente o enchera de perguntas fúteis. Não se preocupava com o fato da morena descobrir sobre seu pseudo relacionamento, visto que a mesma não estava muito atrás quando se tratava de Moblit.

Espantando aqueles pensamentos, apressou os passos para apoiar a porta com uma das mãos para que a mesma não se fechasse e, reabrindo-a de imediato, percebeu que o quarto estava silencioso demais. Imediatamente o pensamento de que Eren deixara o quarto veio em sua mente, o que o deixava um tanto cabisbaixo.

Os acinzentados se voltaram para as peças de roupas do garoto ainda no chão, sentindo a falta de um em especial. Claro, se o moreno saira do quarto, provavelmente estaria parcialmente vestido. Gostava de saber que o mesmo conseguia encontrar soluções para seus problemas, no entanto, naquele momento, Levi via aquilo como uma desvantagem. Queria tê-lo visto quando adentrou o quarto.

Levantou levemente a cabeça a fim de desfazer o nó de seu cravat quando a falta de uma coisa chamou sua atenção: o vaso horrível que havia ganhado de Hanji de aniversário no ano anterior não estava onde costumava. O homem de baixa estatura então ergueu uma de suas sobrancelhas, esticando o pescoço para o lado de sua cama onde o mesmo se encontrava completamente estilhaçado. Aquilo o irritou brevemente, não por que gostava do vaso, mas por causa da sujeira feita.

– Tsc, aquele pirralho... — pigarreou, aproximando-se da cama e sentando-se sobre a mesma, sem se importar em deixar todo o peso de seu corpo fazer o trabalho de balançá-la um pouco para baixo. No entanto, ouviu um barulho estranho após aquele movimentar, seguido de um choramingo infantil.

– Ai!

Rivaille sentiu sua sobrancelha e sua pálpebra esquerda se movimentarem involuntariamente ao perceber o que estava acontecendo e, como se para confirmar suas suspeitas, observou quando a cabeleira castanha do moreno aparecia por baixo da cama, surgindo por entre suas pernas.

– O que pensa que está fazendo? — perguntou direto, vendo como o corpo do outro tremia pelo tom de voz que havia usado.

Eren se arrastou desajeitadamente pelo chão até se ver livre da armadilha de madeira que era a cama de seu superior, sentando-se sobre o mesmo e em seguida levando ambas as mãos ao cabelo a fim de tirar dali qualquer sujeira que fosse.

– Não precisa de preocupar com isso. — disse Levi, terminando de desamarrar seu cravat. — Meu quarto é limpo, não é igual aquele abrigo imundo de onde você veio, Eren.

– S-Sim senhor, desculpe. — rapidamente se desculpou, descendo as mãos e espalmando-as sobre o chão. As esmeraldinas olhavam para cima e daquele ângulo, o capitão imediatamente associou o moreno à sua frente à um filhote de cachorro.

Rivaille balançou negativamente a cabeça, deveria parar de fazer associações daquele tipo.

Notas finais
Sim, Sammael é um outro personagem original que começará a aparecer com mais frequência. Comentários?