Wishmaster
24 Angústia I
Notas iniciais
Suspirou pesadamente antes de levantar a cabeça, umedecendo-a levemente antes de desligar o registro do chuveiro. Por mais que gostasse de se lembrar daquelas coisas, principalmente dos momentos em que passara com o moreno que estava agora deitado em sua cama, sabia que deveria questioná-lo a cerca daquela descoberta. Afinal, fora por isso que voltara tão afobadamente para Rose, mesmo sabendo que o retorno demoraria três dias. Ignorou completamente as pessoas que questionavam-no a cerca do que havia acontecido para que voltasse sozinho de Sina, procurando por Eren e imediatamente trazendo-o para o seu quarto quando o encontrara. No entanto, seu objetivo acabou caindo por terra ao se ver sozinho naquele cômodo com o garoto.
Puxando a toalha de um suporte ali perto, enxugou o corpo antes de sair daquele banheiro, caminhando descalço pelo quarto até chegar ao seu armário. Percebeu o mais novo se exaltar levemente sobre a cama ao ouvir o movimentar próximo dele outra vez, sorrindo levemente antes de pegar uma nova muda de roupas.
– Levante-se garoto. — disse enquanto vestia a calça. — É sua vez de se banhar. — Ouviu o moreno resmungar algumas coisas antes de se sentar sobre a cama, ainda com a cintura coberta pelo fino lençol de um tom pastel que, há momentos atrás, presenciara momentos nada castos. — Não sei se alguma vez usou um chuveiro...
– Chu... O que? — perguntou, franzindo levemente o cenho. Levi, ao terminar de se vestir, aproximou-se outra vez do jovem Jaeger, sentando ao seu lado.
– Foi o que pensei. — comentou, levando uma das mãos às costas nuas do garoto, apalpando levemente aquela região enquanto permitia que seus acinzentados se aventurassem pelo corpo parcialmente exposto de Eren, soltando um suspiro logo em seguida. — Não são populares, na verdade são bem desconfortáveis de se usar. Mas, pelo menos, podemos nos limpar com mais rapidez do que se estivéssemos em uma banheira.
O jovem de pele bronzeada parecia entender, mas na verdade não fazia ideia do que o outro estava falando. Suas sobrancelhas então se uniram ainda mais e, fechando os olhos, resolveu se concentrar na carícia que lhe era oferecida em suas costas. Não admitiria em voz alta, mas gostava de sentir a textura da mão de seu superior a vagar pela sua pele daquela forma carinhosa. No entanto, fora impedido de continuar a desfrutar daquele momento por leves tapinhas que substituíram aquela carícia gostosa, seguidas de outro aviso para que se banhasse finalmente.
Levi voltou a fitar as orbes esmeraldinas de seu subordinado que, para sua infelicidade, continuavam sem aquele brilho característico, o que o fez suspirar profundamente antes de decidir que procuraria o amigo Mike de uma vez por todas. No entanto, quando fora se levantar uma imagem em sua mente fez com que se exaltasse por breves momentos. Os esmeraldinos que antes fitavam o nada agora estavam arregalados, a pele bronzeada que o enfeitava, completamente banhada em sangue enquanto os lábios que tanto gostava de beijar, estavam separados em um grito mudo.
Aquilo fez o capitão saltar da cama, acabando por esbarrar em um móvel ali próximo. A imagem, que aparecera como um flash, logo desaparecia, dando lugar à paisagem anterior. Eren havia se levantado e tentava se cobrir com o lençol enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, a procura de seu superior.
– H-Heichou? — chamou, tirando-o de seus devaneios. — Está tudo bem?
Rivaille sentiu dificuldade em controlar a respiração naquele momento, engolindo certa quantidade de saliva e sentindo um leve incômodo na garganta com aquele ato. Sabia que devia uma resposta ao jovem Jaeger, no entanto, apenas caminhou com rapidez na sua direção, segurando sobre a mão mais próxima de Eren, erguendo-a antes de acariciá-la com cuidado. Por que aquela imagem perturbadora viera tão nítida em sua mente?
– Eren, eu... — Não conseguiu completar por conta da dor aguda na cabeça que o desnorteou por alguns segundos. Levou uma das mãos à cabeça, fechando os olhos com força enquanto outras imagens formavam-se em sua mente.
O que Levi não sabia era que o moreno, como no dia em que partiram para o treinamento, também estava partilhando daquelas imagens.
Lembrança
Seus passos ecoavam sobre aquela superfície de pedra empoeirada em uma lentidão anormal. A espada em sua bainha refletia os poucos raios de sol que conseguiam escapar pelas frestas dos pedregulhos mal posicionados, ao mesmo tempo em que iluminavam, mesmo que fracamente, seu caminho até o jovem acorrentado no fim daquele corredor. Conseguia enxergá-lo daquela distância. O corpo que há muito tempo adorava ter ao seu lado agora encontrava-se em um estado deplorável, pendurado pelos braços, o que o obrigava a ficar de pé.
Trincou os dentes ao se lembrar disso, o que apenas intensificava sua raiva. Havia confiado naquele garoto como nunca confiara em alguém antes e, por mais que o amasse de todo o coração, nunca perdoaria uma traição. Não era de seu feitio e, além disso, não era algo que alguém de sua posição poderia considerar.
Parou de caminhar ao se encontrar a centímetros de distância dele, o que o possibilitou ouvir as fracas tosses do outro. Sem dizer uma palavra, empunhou a espada e, com o lado cego, levantou o rosto do outro pelo queixo a fim de olhar fixamente nas orbes esmeraldinas do moreno, que encontravam certa dificuldade em se focar em algum ponto em específico. A imagem do garoto naquele estado tão deplorável o machucava profundamente, mas ainda permanecia irredutível.
– Por que? — perguntou em um fio de voz, ainda fitando os esmeraldinos do outro, que estreitou os olhos antes de separar os lábios. Queria responder, mas a boca seca por conta do tempo sem ingerir líquidos dificultava a tarefa. — Por que fez isso tudo, David?
O moreno, percebendo que não conseguiria responder verbalmente, apenas sorriu cordial, o que lhe rendera uma forte bofetada no rosto, fazendo-o virar para o outro lado e cair outra vez.
– Poupe seus esforços, não cairei mais em seus joguinhos dissimulados. — tornou a dizer, trincando os dentes, enfurecido por não receber resposta alguma, levando a mão livre até o rosto fino do outro, erguendo-o violentamente para si. — Responda, Jaeger!
David sentiu as lágrimas se acumulando no canto de seus olhos. Sabia que aquele era seu fim e, mesmo sabendo que não conseguiria mudar muita coisa, precisava tentar aquilo. Não se importaria de morrer naquele momento se, pelo menos, o que lhe dissesse o ajudasse de alguma forma.
– Eu... V-Vejo... Bondade... No se-senhor... — respondeu em um esforço inimaginável, o que aparentemente surpreendera o homem a sua frente, não apenas pela sua voz miserável.
– A falta de líquidos está te enlouquecendo. — deduziu por fim, largando o rosto do moreno. Iria se retirar naquele momento, quando David voltou a se pronunciar.
– O que o senhor... Está fazendo... É... Errado... — O garoto moveu ambos os braços, segurando-se com o que restava se suas forças sobre as correntes que o prendiam, a fim de conseguir, pelo menos, erguer melhor o rosto. — Tudo... Isso... — Franziu o cenho ao encontrar os orbes acinzentados do homem que tanto amava fitando-o daquela forma. — F-Fran... cis... Por favor você sabe... No fundo... Sabe que... Está e-errado...
Sentiu outra vez as mãos do rei à sua frente sobre seu corpo, estas que empurraram-no violentamente contra a parede atrás de si antes de um de seus braços pressionarem com força o pescoço de David, que resmungou de dor.
– Desde quando matar um traidor é errado? — respondeu, aumentando ainda mais a pressão contra o pescoço do moreno, que fechava os olhos ao sentir a temperatura do corpo de Francis se elevar rapidamente.
O jovem Jaeger reabriu então os olhos, conseguindo enxergar, mesmo que com dificuldade, a característica fumaça esbranquiçada da transformação começar a escapar pelos poros de Rivaille, além das marcas ao lado de seu rosto, que começavam a se tornarem nítidas.
– N-Não é... Isso... — respondeu com dificuldade, sentindo o corpo trêmulo por conta da fraqueza. — Por fa-favor... Não... Co-confie nele... — Francis ergueu uma de suas sobrancelhas. — E-Ele... Fez o senhor me... M-Matar... Também vai matá-lo...
David então arregalou os olhos, sentindo um terrível gosto de ferro dominar seu paladar antes de um filete aquecido escorrer pelo canto de seus lábios. O moreno separou os lábios, trêmulos, fazendo com que a quantidade acumulada daquele líquido escarlate na sua boca começasse também a escorrer.
– Não diga asneiras. — disse Francis, movimentando a mão que segurava a espada, aumentando a profundidade na qual aquela lâmina perfurava o corpo do jovem Jaeger, que grunhia em um tom não muito alto. O rei então se esticou um pouco, a fim de se aproximar da orelha do garoto. — Ele não é como você.
O rapaz de pele bronzeada então fechava a boca, entortando-a em um sorriso estranho antes de sentir as lágrimas antes acumuladas em seus olhos escorrerem pelo seu rosto. Como queria que aquela resposta fosse diferente... Sentiu a lâmina sendo retirada de seu corpo, seguido por outro golpe, dessa vez próximo às suas costelas. Gostaria de poder gritar, mas não o faria. Optou simplesmente por usar suas últimas forças em uma única frase:
– E-Eu... Ainda te amo... M-Mesmo depois... De tudo...
E então fechou os olhos, percebendo que, pelo menos por alguns segundos, aquela frase fez com que Francis relutasse antes de voltar a investir contra seu corpo.
Fim da Lembrança
Levi rapidamente empurrou o corpo de Eren para longe do seu, segurando-o nos ombros com ambos os braços enquanto o fitava com os acinzentados arregalados, estes que analisavam cada detalhe da anatomia do outro, desde o rosto jovial até ao corpo magro e franzino de um adolescente ainda em desenvolvimento. Por um momento, deslizou uma das mãos até o lado esquerdo do peito do rapaz, concentrando-se apenas em sentir as batidas do coração do mesmo. Céus... Aquela visão fora tão vívida que, por breves momentos, imaginara que talvez o garoto não mais estivesse consigo.
Já Eren, este permaneceu estagnado olhando para um ponto em específico enquanto estranhos arrepios insistiam em percorrer-lhe a espinha, afinal, aquela cena que aparecera tão vívida em sua mente naquele momento não era estranha. Na verdade, era mais do que familiar para si. Deixou os braços caírem ao lado de seu corpo, ao mesmo tempo em que suas pernas fraquejaram de repente, obrigando-o a voltar a se sentar sobre a cama. Lágrimas começavam a saltar involuntariamente de seus olhos enquanto ainda continuava sem reação.
Aquela atitude chamou a atenção de Rivaille, que imaginou que o outro provavelmente também tivera o azar de contemplar aquelas cenas, logo lembrando-se que o mesmo havia acontecido há alguns meses atrás.
Suspirou. Por mais que não entendesse como essas lembranças se formavam, o fato de Eren também conseguir "enxergá-las" apenas aumentava a certeza de que o moreno se lembrava de alguma coisa ou, pelo menos, vivenciava alguma coisa semelhante.
Com isso em mente, aproximou uma das mãos a fim de tocar-lhe o ombro. No entanto, fora surpreendido por Eren, que estapeava sua mão para longe de seu ombro. O capitão franziu o cenho com aquilo e hesitou antes de insistir em tocar-lhe novamente, sendo interrompido verbalmente.
– Deixe-me sozinho, heichou...
– Eren-
– Por favor. — cortou bruscamente, fechando os olhos antes de tombar novamente o corpo, voltando a deitar naquela cama. — Preciso ficar um pouco sozinho... Não vou sair daqui, prometo.
Levi fechou a mão em punho enquanto ainda estava erguida no ar, abaixando os olhos em seguida. Simplesmente detestava quando não sabia o que dizer, ainda mais quando levava em consideração o forte aperto em seu peito naquele momento. Nunca sentira nada parecido e aquilo o estristecia profundamente. Resolveu então atender o pedido do moreno, saindo daquele quarto cabisbaixo.
Eren encolheu o corpo ao ouvir o barulho da porta se fechando, mordendo com força o lábio inferior antes de voltar a se cobrir com o lençol, respirando profundamente e aspirando o cheiro que exalava daquele tecido e que o lembrava do que estavam a fazer há minutos atrás. Não queria ter soado tão rude com o outro, todavia, não queria argumentar quanto àquilo.
Sentiu aquele arrepio na espinha ao se lembrar daquelas imagens tão nítidas. Não queria mais ser assombrado por elas, por mais que se sentisse familiarizado com aquilo. Afinal, desde criança era amaldiçoado por constantes pesadelos que lhe renderam diversas noites em claro a conversar com as crianças e, principalmente com Thuomas, que sempre oferecia seus ouvidos caso precisasse desabafar. Eren sorriu ao se lembrar da criança que cuidou por tanto tempo, sentindo saudade do tempo em que passara no Abrigo Arlert que, apesar de todas as dificuldades, renderam-lhe lembranças maravilhosas. Gostaria de poder reencontrar as crianças outra vez.
A imagem daquele rei cruel voltou novamente, expulsando seus outros devaneios. Mesmo tendo enxergado seu superior por poucos segundos desde que ingressara na tropa de exploração, não conseguia deixar de associá-lo ao Francis que aparecia repetidas vezes em seus sonhos. Sentiu o rosto se esquentar ao se lembrar que dissera esse nome em voz alta quando tomava banho com Levi. No entanto, como o outro respondera com "David", resolveu relevar aquela situação.
Eren fechou os olhos, afundando a cabeça no travesseiro. Como queria que Armin estivesse consigo naquele momento e lhe enchesse de teorias a cerca do que estaria acontecendo.
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