Wind Walker - O Mercenário Voador
13 L - Prazer
Notas iniciais
Já comentei as melhores partes dos caças de batalha modernos? Bom, uma era o fato de todos possuírem uma hélice no centro, permitindo-os decolar de qualquer lugar, pairar no ar e mirar com muito mais precisão. Outra, a que mais gosto, é a possibilidade de alternar entre céu e terra: Já assistiu aquele antigo filme, Transformers? É muito parecido, só que um pouco mais ameaçador.
Naquela hora eu só pensei em sair daquela grande estrutura quebradiça, não me importava com o paradeiro dos outros examinados, que provavelmente já estariam cheios de chumbo grosso, só quero passar com a melhor pontuação possível.
Assim dito, assim feito. Liguei a hélice principal e decolei através do teto que ameaçava cair enquanto observava a guerra na minha frente. Até o horizonte podia ser enxergado o grande exército inimigo, dotado de grandes máquinas, de numerosos soldados e, óbvio, fortes unidades aéreas. “Este teste parece muito difícil para um simples nivelamento” Pensei enquanto mirava no primeiro caça em meu campo de visão.
Selecionei a arma mais fraca do vasto arsenal e atirei, pretendendo fazer um pequeno teste. “Estamos na dificuldade mínima!” Concluí ao ver que meu pobre alvo agora se desfazia em chamas, “Vou me divertir muito”.
Qual é o maior prazer que você pode sentir? Felicidade? Sexo? Meu maior prazer está em matar, simplesmente matar. Qualquer pessoa inimiga viva é uma ameaça para meus planos de vingança, sendo assim mais proveitoso acabar com a miserável vida de todos, da maneira mais torturante possível.
Um sorriso doentio brotou em meu rosto assim que observei aquela legião inimiga com outro ponto de vista, todos ali compartilhavam um destino: perecer sob meus pés, servindo-me apenas de apoio para alcançar áreas mais altas. “Agora você vai me deixar no controle?” Aquela temida voz ecoou em meu pensamento, quebrando-me a concentração “Vamos... é só um jogo” sussurrou ela tentando-me novamente com aquele prazer físico, superior ao sexual. “O que eu ganho ao deixar você me coordenar?” Perguntei de forma grosseira, sendo imediatamente respondido: “Isto é tom de falar consigo mesmo? – Perguntou ele ironicamente – Primeiro eu gostaria de lembrar-te de que não sou nada menos do que sua vontade interior. Segundo, seu objetivo aqui é matar o máximo possível, deixe-me controlar suas ações e juro que vai matar muito mais do que consegue imaginar”
Ele estava certo, isto era apenas um jogo, quanto mais baixas o exército inimigo tiver, mais pontos eu ganho. Senti a vontade tomar, lentamente, conta do meu corpo, substituindo meu silêncio costumeiro por uma gargalhada assustadora. Experimentei o verdadeiro prazer que me aguardava enquanto, quase que inconscientemente, guiava a aeronave em direção a minha nova presa.
Tudo se passava como em câmera lenta, eu podia ver cada detalhe do mundo a minha volta, observando as aves que passavam eventualmente, as nuvens que assumiam formas diferentes e o sol que se deitava no horizonte de forma lenta e, porque não? Romântica. Meu corpo agia no “modo automático”, como se isso fosse possível. Tudo o que eu via eram alguns flashes de explosões e de sangue, tirando prazer de tais senas. Eu queria mais, queria que tudo fosse real, queria matar de verdade, queria...
O que eu estou dizendo? Eu falei... isto?
“Saia de meu corpo seu psicopata, liberte-me novamente” Exigi em minha mente com as forças que tinha. “Do que você está falando? – Perguntou com evidente malícia – Não posso sair do seu corpo, afinal, eu sou você!”.
No que eu estava me tornando? Porque eu sentia prazer em matar? Pensei enquanto formulava a minha exigência: “Não sou um viciado em matar, não desejo ser um serial killer. Deixe-me em paz” Pedi finalmente. Uma dor de cabeça que despreza comentários invadiu minha mente, como se lutasse arduamente contra minha força de vontade para me manter naquele maldito transe. Por que não fui mais cuidadoso? Por que eu havia cedido àquele pedido? Parei de pensar, tentando apenas pôr um fim naquela dor infernal que agora percorria cada centímetro de meu corpo, fazendo-me desejar a morte.
Agora tudo estava claro e eu tinha total controle novamente. O caça estava voando a uma altitude baixa, com metade da munição já usada, e, na minha frente, tudo o que poderia ser visto era um lago de sangue e partes amputadas de pessoas que cobriam toda a área que antes estavam meus inimigos. Vermelho até o horizonte.
Não me surpreendi com as mortes e com o sangue. Com isso eu já me acostumara. Apenas fiquei surpreso com o fato de tal destruição ter sido feita no que me pareciam alguns segundos. “deixe-me controlar suas ações e juro que vai matar muito mais do que consegue imaginar” Lembrei-me daquela afirmação, só agora compreendendo seu real significado. Afinal, quanto tempo havia se passado? Dez minutos. Eu precisava de apenas dez minutos para matar tal quantidade de pessoas? Não, eu não sou um assassino, não sou um psicopata... Não!
Antes que eu pudesse terminar de pensar, a simulação foi interrompida bruscamente com outra explosão, mas esta era mais real.
Retirei o capacete simulador, observando o local a minha volta, eu estava agora de volta à sala branca, onde o nosso ferido instrutor balbuciava desajeitadamente um alerta, enquanto buscava folego depois de sua aparente corrida:
-Saiam da simulação imediatamente – Gritou ele – Estamos sendo atacados
Um ataque? Como? Simplesmente não é possível ocorrer um ataque a uma base militar.
Ouvi passos pesados na sala anterior a que estávamos. Aparentemente uma equipe de criminosos estava saqueando o local, em plena luz do dia.
-Primeiro três, depois cinco... – Falou uma rouca voz na outra sala.
-Certo – Falou o oficial à nossa frente – Precisamos de um plano, Alguém tem alguma ideia?
Nada foi falado, nenhum dos presentes possuía alguma ideia acerca do nosso problema. Uns entreolhavam-se, procurando respostas, outros pensavam, mas eu não precisava ficar aturando mais toda aquela mentira. Olhei para a mesa onde estavam as provas, só por precaução, e afirmei com total certeza:
-Isto é uma farsa, ninguém está invadindo! – Afirmei com total convicção – A simulação ainda está em andamento.
Notas finais
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