Wind Walker - O Mercenário Voador
24 L - Lembranças Sem Origem
Notas iniciais
Eu estava encostado confortavelmente naquela parede branca a fim de observar o ambiente silencioso e pouco movimentado a minha volta. A recepcionista era a única pessoa que compartilhava aquela vasta sala de entrada comigo, mas ela parecia estar muito ocupada com seus afazeres variados para conscientizar a minha presença. Isto é ótimo, adoro estar em um local sem ser detectado. Naquela hora, passar o tempo era o meu principal objetivo, tudo o que eu queria era que o teste físico começasse logo, ou que o teste de Alyss acabasse. Qualquer uma destas duas opções me deixaria feliz.
Suspirei por um momento. Minha cabeça estava totalmente desocupada, portanto, esta começou a perambular livremente, tocando em minhas lembranças mais antigas. Uma delas, em especial, chamava muito a minha atenção. Fazia algum tempo que tais imagens insistiam em aparecer e me causar momentos de confusão pelo simples fato de não saber o seu paradeiro: Eu estava numa sala excessivamente iluminada, os ladrilhos azul-claros revestiam tanto o piso como a parede e o teto e uma grade enferrujada trancada com um cadeado grande impedia a nossa passagem rumo à liberdade. Eu não estava sozinho. Três crianças, um pouco mais velhas que eu, estavam me abraçando carinhosamente no canto da sala. Eu estava chorando. Chorando de medo. Sentia medo tanto por mim, quanto por aquelas duas crianças que me acolhiam. E o que eu temia estava logo atrás da grade, preparando-se para entrar. Tudo o que me lembro é que aquela temida pessoa arrancava um de nós daquela precária moradia, levava para uma mesa retangular, similar a uma maca, e acorrentava o meu corpo junto a mesma, de forma a impedir a minha escapatória. Assim que terminava de fazer isto, ele abria uma maleta e apanhava dois instrumentos: Um era definitivamente um bisturi extremamente afiado, e o outro era desconhecido para mim. Ele posicionava o rosto sobre a minha cabeça e cortava sempre a mesma pequena parte do meu couro cabeludo sem o uso de anestesia, colocando o objeto desconhecido sobre a parte já aberta do meu crânio, e daí vinha a verdadeira dor. Tão forte e intensa que eu chegava a desmaiar no meio do processo.
Eu não acredito que tais lembranças poderiam ser verdadeiras, minha infância foi normal e chata até os oito anos. Não tenho nenhuma recordação firme daquela época, mas não acho que aquelas informações sem-paradeiro poderiam preencher este espaço vazio.
Apalpei a minha cabeça no local que eu lembrava ser perfurado frequentemente. Seria coincidência que aquele local era o mesmo em que agora brotava, curiosamente, uma pequena mecha de cabelos brancos/prateados? Ninguém nunca soube me explicar a razão pela qual cabelos de cor diferente dos meus brotavam em minha cabeça, somente neste ponto, desde que nasci. Eles não eram numerosos, acho que apenas uns trinta fios, mas eram perceptíveis. Geralmente os penteio para trás, tentando ocultá-los, mas não funciona muito bem...
Voltando ao assunto principal: O mais interessante de tudo, nesta lembrança passada, era que, enquanto ele realizava a tortura, eu parecia absorver algum conhecimento, mas não era um conhecimento acessível. Como se estivesse trancado dentro de minha cabeça.
Ok. Vou parar de pensar nisto. Tenho coisas mais úteis para tratar.
Onde estariam ou meus colegas de teste? Da última vez que os vi, estavam todos dentro daquela sala. Será possível que acharam mais confortável esperar naquele cômodo? Sinceramente pensei que todos iriam preferir aguardar na sala de recepção em que eu estava. Na verdade, estava contando com isso. Gostaria muito de saber um pouco mais a respeito daquela dupla que trajava a cor preta em demasia: O Heyke e a Kira. Tenho um mau pressentimento em relação a eles e eu tinha que descobrir o que o provocava.
Sinceramente, não acredito em sorte, mas, se acreditasse, eu diria que esta era a maior sorte que já tive: Assim que terminei de pronunciar os nomes dos dois integrantes da dupla, os mesmos saíram juntos, de onde supus que estavam, olharam em minha direção e sentaram no sofá mais próximo a mim. Outra pessoa diria que a postura deles soava um tanto convidativa, mas eu nunca vi graça em conversar com os outros. Para meu desgosto, eu precisaria dialogar com eles se eu quisesse investiga-los melhor e, investiga-los melhor, era o que eu necessitava no momento.
-Olá! – Comecei tentando parecer natural e igualmente convidativo. Não tenho prática nisto — Senhor Ánolum e senhorita Takameno, estou correto?
-Olá, senhor “meu-nome-não-interessa” – Respondeu a garota, com um tom simpático e sarcasticamente brincalhão – Não há a necessidade de nos chamar pelo segundo nome, não estamos em nenhuma situação formal.
-Lúcio, Lúcio Erugan Landon é o meu nome – Falei em um tom discreto – O que acharam do nosso primeiro teste?
-Bem, me pareceu um tanto agradável – Falou o Heyke, desta vez – Com exceção da parte em que você abateu o meu Guardião em pleno ar. Afinal, porque fez aquilo?
Desviei o olhar por um momento. Eu havia abatido caças aliados? Isto poderia me custar alguns pontos futuramente. Por tais motivos não gosto de ceder àquela tentadora vontade de matar, geralmente, quando sob efeito daquela tentação, acabo destruindo mais do que o necessário. Assim que voltei a olhar para os dois, percebi que eles pareciam muito unidos. Sentavam quase da mesma forma e seguravam firmemente a mão livre mais próxima.
-Desculpe-me, devo tê-los confundido com inimigos – Pedi tentando parecer arrependido.
-Não faz mal, eu já estava dentro da mira de três unidades hostis – Confortou-me o Heyke – E minha irmã já havia sido abatida por um caça qualquer.
-Que ótimo, achei que tivesse atrapalhado consideravelmente – Afirmei, tentando não deixar transparecer o sarcasmo que eu exibiria naturalmente – Mudando um pouco de assunto: Sem querer ser mal educado, mas, esta roupa chama um pouco a atenção, não acha?
-O que, Isto? – Perguntou Kira, com um ar de brincadeira – Acho que vai ser melhor para camuflagem nas sombras das árvores do próximo teste, não concorda?
Nisto ela estava certa. Quando mais escuro é sua vestimenta, melhores são as chances de não ser percebido em uma área com pouca iluminação, mas, já que estamos de manhã, acho um pouco inapropriado. De qualquer forma, os amigos de-preto me pareciam menos suspeitos agora. No entanto eu precisava tocar em um pequeno assunto antes de concluir a minha primeira impressão
-Vocês têm traços parecidos com os nascidos na resistência... – Comentei vagamente, como se não ligasse para o assunto — São parentes?
-Somos amigos – Afirmou Heyke, respondendo a minha segunda pergunta.
-Está falando dos nossos dentes? – Indagou Kira, indo direto ao ponto que eu queria chegar: Geralmente as pessoas da resistência oriental têm os dentes caninos um pouco avantajados. Nada grande, mas ligeiramente perceptível. Além dos dentes, pode-se identificar um se este possui olhos escuros...
-Não se preocupe, amigo. Não somos pertencentes àquele lugar. Lembre-se de que é muito comum encontrar traços de diferentes culturas em pessoas que não tem nada a ver com esta última – Informou-me ela inutilmente – Até você tem os dentes e os olhos de um...
Ela pisou num grande calo meu. Não gosto de falar sobre isso, mas digamos que pareço demais com os meus inimigos, entendido?
Neste oportuno momento, o meu instrutor abriu a porta e guiou a equipe de concorrentes em direção à outra entrada, desta vez, um pouco maior. Notei que ele tinha enfaixado a mão inchada e evitava olhar para mim.
Levantei e os segui diretamente para a nova porta que nos guiava para o exterior. Antes de passar por ela, consegui ouvir um dos colegas exclamar: “Paintball? O que é isso?”
Notas finais
"Alyss, primeiramente: eu vou lhe chamar de Alyss e eu não tô nem aí se é assim que o Luke te chama (e eu vou chama-lo de Luke sim.) Segundo: Acho a relação de vocês fofa (você e o Luke, claro)! Terceiro: não precisa ficar com ciúmes só porque eu chamei seu namorado de bacana. Pior se eu tivesse chamado ele de gostoso, não? Eu sou atrevida e não (me desculpe a palavra) puta. Quarto: foi só uma mentirinha, não precisa se recriminar tanto! Ah, e eu tenho uma pergunta: Quando vocês vão se casar, hein?"
A - Primeiro: Ok. Pode me chamar assim, se quiser.
Segundo: Muito obrigada!
Terceiro: Desculpe-me por minha falta de educação, eu deveria me sentir bem quando chamarem meu namorado de "Bacana". Mas, Gostoso não, ok?
Respondendo a sua última pergunta: Não tenho ideia da data de casamento. Sinceramente, não acho que o Luke vá descansar
antes de terminar a sua vingança. Mas eu posso estar enganada, não é?
2ª - Pergunta de Luana Nascimento
"Douglas, você é solteiro, não é?"
D - Sou sim, Luana. Por que?
3ª - Pergunta de Snarki
"Douglas, se Alyssia não fosse sua irmã, você comeria ela?"
D - Que tipo de pergunta é esta? Preciso responder? Bem... Se ela não fosse minha irmã, eu sentiria uma atração por ela, sim.
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