Wildfire
5 Capítulo V - SPENCER
Notas iniciais
Ela realmente estava ficando maluca naquela cidade. Prometeu que não ia socializar com ninguém, mas ficou amiga de Hazel. Beijou Leo Valdez e agora tinha dado oportunidade para ele entrar na sua vida. Mas seria apenas eles dois. Fim.
Já tinha gente demais para se preocupar e não queria se apegar a mais ninguém naquele inferno. Não queria ter que dizer adeus a quem amava, pois tudo que amamos sempre vai embora.
Os irmãos Mitchell chegaram em casa depois de um dia exaustivo de colégio. Genevieve foi a primeira a sair do carro, batendo a porta com força e entrando na casa correndo. Spencer suspirou.
–Você sabe o que ela tem? — perguntou ela, olhando para Kendall.
–Acho que ela ainda não se acostumou com a cidade nova, sabe? — respondeu ele, dando de ombros. — Mas relaxa, logo ela voltará a ser a Gen de antes, você vai ver. — ele sorriu levemente para a irmã. Spencer retribuiu o sorriso, tirou o cinto de segurança e abraçou o irmão, que beijou-lhe o topo da cabeça. Sua relação com Kendall sempre fora melhor do que a com Genevieve desde sempre, apesar dele ser um tanto fechado, era o melhor irmão do mundo.
–Te amo, Ken. — sussurrou a morena, apertando o irmão no abraço.
–Também te amo, Barbie. — riu ele. Spencer deu um tapinha no braço dele.
–Ei, eu não sou loira! — resmungou ela, rindo enquanto saia do carro.
–Mas sempre foi assim e você nunca reclamou! — falou Kendall, mostrando a língua para ela, permanecendo no veículo. — Bobona.
–Não vai entrar?
–Vou fazer um trabalho na casa de uma amiga da faculdade, o nome dela é Reyna. — disse ele, ligando o carro novamente. — Até mais tarde, cuidem-se vocês e cuidado com a bruxa velha! — Kendall riu, acenou.
–Até então, juízo! — Spencer viu o carro desaparecer no final da rua e entrou na casa. Subiu para o quarto, largou sua bolsa no chão e foi direto tomar um banho. Desde criança detestava acordar cedo e sempre chegava morta em casa depois da escola, mas não podia dormir, se não a noite não dormia. Após o banho, deitou-se na cama e voltou a ler seu exemplar de "You Get So Alone at Times That It Just Makes Sense".
A leitura era uma das paixões da morena desde que se entendia por gente. Começou a ler com cinco anos de idade e quando seus pais perceberam sua aptidão, compraram seu primeiro livro, que contava a história sobre uma menina que amava coelhos. Desse momento em diante, Spencer nunca mais largou ele. Com o passar dos anos fora comprando e ganhando livros de todos os tipos de gêneros.
No quarto de Spencer, uma estante branca enorme tomava uma das paredes e seus livros eram organizados por autor. Era sua única vaidade. Ela estava totalmente concentrada em sua leitura quando seu celular começou a tocar. Número desconhecido, mesmo assim a morena atendeu.
–Alô?
–Boa tarde, aqui quem fala é seu Garoto em Chamas favorito! — a voz grossa, rouca, com uma pitada de sarcasmo do outro lado da linha deixava claro quem era.
–Como você conseguiu meu número? — Spencer fechou o livro e tentou manter a voz série, evitando rir.
–Hazel, ué!
–Ela não teria te dado assim na boa, alguma coisa você fez, pode ir falando, Valdez. — disse ela, sentando-se. — Olha, rimou!
Leo riu ao telefone.
–Talvez eu tenha subornado ela com uma caixa de Kit Kat, talvez!
–Idiota. — Ela não conseguiu evitar dar um pequeno sorriso. Talvez aquele garoto que adorava pagar de gostoso para todo mundo não fosse tão irritante assim.
–Obrigado. Mas enfim, a dona do cabelo mais chamativo da cidade gostaria de ir tomar um milk shake comigo mais tarde? — ele disse, deixando sua voz o mais sedutora possível. Isso só fez Spencer rir.
–Meu cabelo não é tão chamativo assim. — reclamou ela. — Deixa eu ver se na minha agenda tem um tempo para piadistas idiotas. — ela ficou um minuto em silêncio, depois riu. — Pois é, considere-se sortudo.
–Eba! Mais tarde passo pra te pegar, ok? Spencer estava quase achando que Leo a perseguia, mas decidiu ignorar isso.
–Sabe até onde eu moro?!
–Claro, né, Dona. Moro na casa da frente. — falou ele em um tom de deboche. Ela ficou surpresa.
–Somos vizinhos e eu não sabia! Nossa, muito legal. — Spencer achou estranho, mas podia sentir que ele sorria do outro lado da linha. — Só que não.
–Aff, sua sem graça. — resmungou ele. — Até mais tarde, Mrs. Blue Hair.
–Mrs o quê? — perguntou ela, sem entender nada. — Até. — e ele desligou.
Não fora uma conversa ruim e Leo conseguira ser agradável, isso o fez conseguir alguns pontos com Spencer, mas não muitos. Ele ainda era um piadista irritante para ela, mas isso não mudava o fato de que ele tinha o talento de botar uma pessoa para cima quando ela estivesse mal. Hazel deveria ter razão, talvez Leo não fosse uma má pessoa. A morena se sentiu um pouco culpada por te-lô julgado antes de conhece-lo.
Ela voltou a ler seu livro, mas logo começou a sentir fome e decidiu pedir uma pizza. Como ela não fazia ideia (e nem queria) de onde Aliona estava, então só estavam ela e Genevieve naquela casa, a morena foi até o quarto da irmã perguntando se ela iria querer pizza.
–Gen, eu vou pedir pizza, você vai querer? — perguntou Spencer, batendo na porta do quarto da irmã, que não respondeu. — Genevieve?
Ela ficou quieta para ver se conseguia ouvir algo, pois Genevieve não saira depois que chegara da escola e Spencer tinha certeza disso. A casa inteira estava silenciosa, exceto por um ruído muito baixo que vinha da porta onde ela se encontrava parada.
O coração de Spencer acelerou e com muito cuidado, tentando fazer o mínimo barulho possível, ela abriu a porta e entrou no quarto. Desde que tinham se mudado, ela nunca fora lá. Era a mesma decoração e as mesmas coisas que Genevieve tinha na casa da Califórnia, a única diferença era que ela havia trocado a roupa de cama de rosa para um roxo escuro. Seu coração apertou um pouco. Ela lembrava-se de quando costumava ser amiga de Genevieve antes que ela se transformasse numa criatura esnobe e cheia de si. Quando era pequena, Spencer sempre tivera medo de tempestades e quando elas aconteciam, ela corria para o quarto da irmã e elas dormiam juntas.
Ao entrar mais no quarto, o ruído ficou mais alto e logo ela destinguiu como um soluço. A porta do banheiro estava semi-aberta e Spencer aproximou-se mais, como estava descalça, caminhar em passos silenciosos não foi difícil. Quando entrou, ela sufocou um grito e seus olhos encheram-se de lágrimas. O piso branco do banheiro estava com várias manchas vermelhas espalhadas. Sangue. No canto, encontrava-se Genevieve, encolhida, chorando e soluçando, ao seu lado, uma lâmina de barbear ensanguentada. Seus braços estavam cheios de cortes recentes até o ombro, escorrendo sangue. Suas pernas não estavam diferentes. O rosto da irmã, antes belo e sem defeitos, agora estava acabado: olhos vermelhos e inchados, com olheiras roxas, a pele pálida, os lábios rachados. A situação de Genevieve era horrenda e deprimente.
Spencer não aguentou e começou a chorar junto com a irmã. Sentou-se ao lado dela no chão frio do banheiro e a abraçou, sem se importar se o sangue estavam manchando sua blusa branca. Só queria abraça-la. Acariciou os cabelos da irmã, beijou-lhe o topo da cabeça, chorando.
–Vai ficar tudo bem, tudo bem. — sussurrou Spencer, entre lágrimas. Genevieve chorava mais e apertava a mais nova no abraço.
–É minha culpa. Eu matei eles, é minha culpa! — soluçava Genevieve. Spencer afastou um pouco a irmã para poder olha-la nos olhos.
–Não foi sua culpa. Coisas assim acontecem. Eles não iam gostar de te ver assim, Gen. — disse Spencer, acariciando o rosto da irmã. — Você vai ficar bem! Eu tô aqui, eu vou ficar com você. — ela ergueu o braço de Genevieve e beijou uma das cicatrizes de cortes antigos no pulso. — Vai ficar tudo bem.
–Me perdoa, Spencer. Eu sou um monstro, não mereço a vida que tenho. — disse a irmã, com a voz rouca e cansada.
–Shhh, passou. Eu estou aqui agora e não vou te deixar. Prometo. Spencer voltou a abraçá-la com força e acariciar-lhe os cabelos. As duas ficaram ali, chorando em silêncio, uma perto da outra como nos velhos tempos. Agora a morena sabia o que a irmã tinha de errado. A culpa tinha consumido Genevieve e a deixado louca, fazendo com que ela descontasse em si própria tudo o que sentia. Spencer sentia-se um lixo.
O tempo foi passando e logo Kendall chegou em casa. Ele entrou no banheiro de Genevieve, ficando sem reação e chocado ao ver a cena. Spencer levantou um pouco o rosto coberto de lágrimas para olhar o irmão, que também não tinha aguentado a visão e começado a chorar. Kendall nunca chorava, e se chorava, ninguém via. O irmão sentou-se do outro lado de Genevieve e passou os braços ao redor das duas irmãs.
–Estamos com você, pequena Gen. Não precisa mais chorar. — disse ele, beijando-lhe a testa. — Não importa o que aconteça, sempre teremos uns aos outros. Tudo vai ficar bem, você vai ver.
Spencer desmarcou seu encontro com Leo. Não poderia vê-lo nessas circunstâncias. Sua irmã precisava dela agora.
Ela preparou um banho para Genevieve e cuidou de seus cortes. Após isso, ambas foram para o quarto do Kendall e deitaram-se na cama do irmão. Os três cairam no sono juntos, desfrutando de um momento que a tempos não tinham.
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