Wicked Game
1 Prólogo
Notas iniciais
Para o nyah, com algumas pequenas alterações, é claro. XD Espero que gostem e comentem ^^ Wicked Game é nosso bebê e o amamos muito u.u

[Tris]
"The world was on fire and no one could save me but you..."
O mundo girou. Tudo ficou escuro. Eu caí.
De repente minhas pernas eram fracas demais para o peso do meu corpo. Eu desabei sem aviso, não houve tempo sequer para pensar em me apoiar em algo ou alguém. Na verdade, não havia em quem me apoiar. Eu estava sozinha, vazia e desesperada porque de uma forma cruel e irreparável, eu sabia que não deveria estar ali. E agora, com meu estômago se revirando e o vômito enchendo minha garganta, eu tinha certeza do por que eu não deveria estar ali.
*** ***
— E... O Oscar de melhor atriz vai para... Beatrice Prior! — A voz chegou aos meus tímpanos e causou um eco nauseante dentro do meu crânio.
Eu fui envolta pelos braços conhecidos de Caleb, ele disse algo que eu não pude compreender e se afastou mais depressa do que desejava. Eu estava desmoronando e por um segundo ele foi um apoio bem vindo. Mas ele não estava mais aqui e novos braços me envolveram, desconhecidos ou irreconhecíveis diante da minha cegueira condicional.
Fui guiada até o palco pelas mãos e braços enérgicos e vozes festivas que me parabenizavam e incitavam uma energia vibrante em mim e eu ainda estava gelada, apesar de tudo. Fui apressada por algum produtor do evento e finalmente cheguei ao palco, mas antes que fosse até o centro das luzes, uma mão agarrou meu pulso e segurou com firmeza. Era Tobias, eu sabia antes de me virar. O toque dele estava gravado na minha memória sensível, e isso de nada tinha haver com a noite conturbada que tivemos, tinha a ver com dezenas de cenas repetidas à exaustão, até que toda a perfeição possível fosse alcançada. Tinha a ver com a cumplicidade de falar com os olhos, com as mãos e um decodificar o outro com maestria.
— Parabéns... — Ele disse num sussurro, havia uma melancolia latente em sua voz e seus olhos eram turbulentos e piedosos. Ele sabia... Ele sabia.
— Ajude-me. — foi minha prece e a resposta dele não veio. Nem da voz, nem dos olhos. Eu o havia perdido. Estava perdida.
Então eu caí e sobre mim caiu o mundo.
Como uma marionete que tem os fios cortados. Eu não estava completamente inconsciente, mas minha mente trabalhava de um modo estranho, lento e confuso. O mundo continuava girando e girando, até tudo à minha volta não ser menos que um borrão. Havia uma cacofonia de vozes e outras dezenas de sons que eu não conseguia distinguir com clareza, era tudo a mesma massa caótica.
Eu não devia estar aqui...
Lembro-me de dizer a Lucy, minha assessora, que eu não estava me sentindo muito bem, tinha enjoos insistentes e vertigens súbitas. Ela me ouviu e muito educada, me ofereceu um analgésico e um sorriso complacente que dizia tudo o que eu estava profundamente disposta a ignorar: Não é como se isso fosse interferir no fato de que eu ainda tinha de estar lá. "É o Oscar Tris, a maior premiação do cinema mundial e você é uma das favoritas desse ano." Eu queria dizer a ela que não me importava e queria ficar em casa, de pijama e bebendo chá, só que era mentira. É claro que eu me importava, é claro que eu queria ser, uma vez na vida, uma garota fútil. Vestir um vestido caro, subir naquele palco, receber minha estatueta e fazer um discurso comovido. Mas no fim, já não importava muito. Aquela nunca seria eu, não porque eu não poderia ser uma garota fútil, eu sou uma boa atriz afinal, mas porque o vestido caro não me serve mais e porque provavelmente esse será o último prêmio que receberei antes do sol explodir e a supernova engolir o mundo, meu mundo.
*** ***
Tudo estava desmoronando e as pontadas em minhas têmporas pareciam facas em brasa atravessando meu crânio. A inconsciência me engoliu e por um tempo "tudo" se resumia a uma escuridão tenra e o cheiro amadeirado de algum perfume bom.
Acordei horas depois, ou anos, não importa muito. O quarto extremamente branco me encheu de um pavor vibrante e eufórico, havia uma cânula em meu braço e o líquido cortejava devagar indo para minhas veias. Não havia mais aquela tontura e eu agradeci internamente por isso.
Olhei ao redor e vi a secretária da Lionsgate ali perto de mim, conversando com uma mulher mais velha que provavelmente era a enfermeira chefe do hospital, enquanto um pouco afastada das duas, minha assessora estava se descabelando ao telefone, caminhando angustiada de um lado para o outro.
E bem próxima de mim, pude ver uma enfermeira mais jovem, mantendo um celular com câmera visível no bolso da frente de seu jaleco enquanto mexia no soro.
Mas será que nem para desmaiar eu teria paz? Teria sempre alguém querendo colocar fotos minhas nos tabloides porque ganhei um maldito Oscar! Oh não... O Oscar! Eu... Eu desmaiei no Oscar.
Suspirei pesadamente, afundando-me no travesseiro. Agora sim, eu não ia ter sossego em minha vida.
Fechei os olhos e tentei fingir que estava dormindo, apesar de que as imagens borradas da premiação vinham de maneira confusa. A estatueta em minhas mãos, a escuridão me engolindo logo em seguida, as pessoas falando... Os flashes... Tudo parecia uma confusão.
— Saia.
Ouvi uma voz masculina um tanto ríspida dizer à enfermeira que estava perto de mim.
— Ei! — A moça reclamou e apenas aí eu abri os olhos, vendo um médico jovem manuseando o celular da mulher, parecendo extremamente irritado ao apertar fortemente o touchscreen, devolvendo o celular a ela.
— Se eu pegar você aqui de novo, está demitida.
A mulher saiu resmungando de perto de mim e eu olhei para o médico, notando que ele parecia mais interessado em minha saúde do que em meu status, o que era francamente ótimo.
— Senhorita Prior. Desculpe-me por isso, os funcionários às vezes se esquecem de que pessoas famosas também são pessoas. — Ele comentou de maneira formal e eu esbocei um sorriso. — Como se sente?
— Enjoada. — Respondi com sinceridade.
— Bem... Seus enjoos tem uma razão.
Eu não sabia porque, mas já conseguia imaginar o que o jovem médico ia dizer, ao contrário da secretária da Paris Filmes e minha assessora.
— Qual razão? — Jeanine quis saber.
— Você está grávida, senhorita Prior. — Ele dissera olhando para mim. — Eu talvez não devesse dizer isso, mas... Parabéns. — O médico dera um meio sorriso.
— O QUÊ?! — Minha assessora gritou como se eu tivesse acabado de receber a notícia de que estava com um câncer terminal. O médico se virou.
— Senhoras... A senhorita Prior está grávida, não está para morrer. Podem por favor, se acalmarem?
— Mas... Tris! Q-quem é o pai? — Lucy perguntou tensa.
— O Tobias. — Respondi, dando de ombros. — Ele é o pai.
— Como diabos isso aconteceu? — Jeanine olhou de maneira acusadora para mim e depois para Lucy. O médico arqueou uma sobrancelha.
— A senhora realmente não sabe como se fazem os bebês?
Jeanine olhara feio para o médico. — Isto eu sei, doutor. Mas no ramo cinematográfico temos regras.
— Que logicamente não interferem na saúde da senhorita Prior, estou certo? Então as senhoras poderiam muito bem conversar no corredor e de preferência em voz baixa para não incomodarem os outros pacientes.
Fiz que sim brevemente com a cabeça quando Lucy olhara para mim, fazendo o mesmo com Jeanine antes de ambas saírem do quarto.
— Obrigada doutor...
— Lahey. Richard Lahey. — Ele dera um meio sorriso. — Me desculpe por não ter me apresentado.
— Está tudo bem... Eu... Poderia fazer uma ligação, doutor? — Me sentei devagar na cama, suspirando baixo.
— Claro. O telefone está aí a sua esquerda. — O doutor Lahey comentou, fazendo algumas anotações numa prancheta. — Senhorita Prior, volto mais tarde para vê-la, tudo bem? Mas acho que logo você pode ir pra casa.
Concordei com a cabeça, dando uma olhada mais atenta ao médico. Ele era alto, de ombros largos, com um rosto anguloso coberto por uma camada castanha de barba mal feita, combinando com seus cabelos curtos num estilo meio militar. Era um homem muito bonito, mas o que mais parecia intimidar as pessoas era seu olhar: um castanho escuro quase negro e penetrante. Para mim, aqueles olhos eram serenos, mas para a enfermeira provavelmente tinha sido um olhar mortalmente assustador.
Logo, o doutor Lahey deixara o quarto e eu suspirei em alívio por aqueles segundos de paz antes de pegar o controle remoto que estava no criado mudo junto com o telefone, ligando a televisão.
Parecia um circo nos canais de notícia. Eu lia as tarjas que passavam na parte inferior da tela que falavam desde a cotação do dólar, até o desmaio da atriz Beatrice Prior na entrega do Oscar. Fiz um bico, mudando de canal até encontrar um que me mostrasse o que acontecera.
Eu me vi subindo no palco, segurando firme a estatueta dourada do Oscar quando me desequilibrei por alguma razão e desmaiei, apesar de não ter chegado ao chão por causa de um par de braços que me seguraram com firmeza.
Eram os braços de Tobias.
(Wicked Game — Chris Isaak)
O mundo estava em chamas e ninguém podia me salvar além de você.
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