Notas iniciais
Heey gente! Capítulo novo, espero que gostem :3

I had a way then losing it all on my own
I had a heart then but the Queen has been overthrown
And I'm not sleeping now, the dark is too hard to beat
And I'm not keeping now, the strength I need to push me.

[Tris]

Abri os olhos devagar e tentei ver onde estava. Havia uma luz vibrante e insistente, em algum ponto inespecífico daquela sala, que me cegava e doíam as pupilas. Ergui os ombros do ninho de lençóis que me envolvia e ainda de olhos fechados, me estiquei e soltei um longo suspiro frustrado com a luminosidade que irritava meus olhos mesmo através das pálpebras.

— Alguém, por favor, pode apagar as luzes? — Questionei com a voz embargada de sono. Meu corpo estava pesado e uma cefaleia muito incômoda me atingia.

— Acho que seu pedido não será atendido, milady. Ainda não inventaram uma forma de apagar o sol. — A voz em resposta era grave e forte, carregada de um sutil sotaque britânico. Era Tobias, eu sabia pela risada anasalada ao completar a frase. Uma risada infantil e feia, mas que vinda de Tobias, ganhava um charme todo novo.

Abri os olhos devagar. Minha linha de pensamento estava lenta e confusa, a luz em meu rosto limitava meu raciocínio. Tobias? Era a voz de Tobias? O que Tobias faz aqui? Droga de luz! Não consigo pensar. — Tobias, o que faz no meu quarto? — demorou um minuto inteiro até haver uma resposta.

— Correção, Sweetheart... — Ele me chamava assim sempre que queria algo, era uma forma muito suja de persuasão.

— Este é o meu quarto. — Uma explosão dentro da minha cabeça, essa era, sem dúvida, a melhor definição para a minha reação àquela informação.

— O quê? — Tentei sorri. Deveria ser uma piada. Tinha de ser uma piada. Porque eu estaria no quarto do Tobias? Ah essa maldita luz que não me deixa vê. Desde quando tenho fotofobia? E essa maldita enxaqueca?

— Pare de brincadeiras Tobias. — Falei simplesmente, minha voz vacilando entre a incerteza e uma comicidade meio mórbida. Como rir de uma desgraça. — Mas que luz infernal! — Gritei e num esforço tremendo abri os olhos. Vi pontos pretos a minha frente e imaginei que iria desmaiar, mas não aconteceu. A luz diminuiu conforme eu me adaptava mais a ela. A imagem a minha frente era uma testemunha irrefutável de que: (1) eu realmente estava no quarto de Tobias. E (2) Eu queria voltar a dormir e só acordar em cem anos. — Meu Deus! — Tobias estava ali, a pouquíssimos passos de mim. Vestia uma regata branca e bermudas Jeans. Sorriu e me estendeu uma caneca de algo fumegante. A fumaça cheirava a hortelã e canela.

— Combinado especial cura-ressaca. Receita pessoal e infalível. — Ele disse e foi tudo que eu assimilei daquele cenário antes de embarcar no maior surto psicótico da minha vida.

— AH! — Eu gritei ao constatar que eu estava completamente nua sob os lençóis e que só parte do meu corpo estava coberta deixando meus seios expostos e para piorar Tobias parecia muito indiferente a minha nudez. Como se fosse algo corriqueiro. — VIRE-SE! — Gritei puxando os lençóis sobre meu dorso. — Vire-se AGORA!

Ele me encarou por um segundo. Um misto de indecisão e divertimento em seus olhos. Não se virou, apenas riu.

— Tris, não seja bobinha. Não há nada ai que eu ainda não tenha visto, tocado ou lambido. Seu corpo está gravado em minhas mãos. — A voz dele era com mel refinado, mas suas palavras amargaram no fundo da minha garganta, como ânsia de vômito e não, isso não é uma metáfora. Eu realmente estava prestes a vomitar. Enrolei-me no lençol e corri até o banheiro, me jogando no chão junto ao sanitário, esvaziei meu estômago. Aquilo queimou minha garganta como fogo líquido. — E essa é a cena mais broxante e nojenta do universo. — Tobias recostou-se à porta. Tinha um sorriso cínico. Eu lhe lancei um olhar cortante antes de voltar a vomitar. O cheiro asqueroso enchendo meu nariz só instigava mais meu estômago.

— O que você fez comigo? — Minha voz saiu rouca, mas áspera. Ele riu novamente. Alguém, por favor, pode quebrar todos os dentes deste homem, para que ele nunca mais possa rir?

— Ah, Sweetheart. Fizemos muitas coisas... Sobre qual delas exatamente você quer saber? — Tobias arqueou as sobrancelhas em uma clara afronta. Bebeu um longo gole da caneca e fez uma terrível careta, não sei se para mim ou para o chá.

— Porque estou nua e no seu quarto? Porque meu estômago dói e tenho aversão à luz? — As palavras saíram apressadas, meio confusas. Tentei me levantar, mas percebi que minhas pernas tremiam.

— Porque você é uma vampira, Tris. — Ele ficou sério por um segundo, deixando o ar tenso e então soltou uma tremenda gargalhada. Cheia de deboche.

— ESTÁ BRINCANDO COMIGO? SÉRIO? Olha o meu estado! Acha que tenho humor para seus joguinhos infantis? — Gritei e ele riu ainda mais. Queria estrangula-lo e eu iria, assim que encontrasse forças para levantar.

— Hei... Hei... Calma. Não é para tanto drama.

— Mas é claro que é para tanto drama. Não me lembro de como vim parar aqui e nem como fiquei nua! E porque minha cabeça parece que vai explodir? — Eu grito, minha voz guarda uma sensação de engasgo e choro. Ele tenta se aproximar, mas eu o afasto com um aceno brusco. — Não se aproxime!

— Ah. Por favor, Tris. Não é óbvio? Nós dormimos juntos. Okay? E o seu terrível mal estar é só uma ressaca! Pelo amor de Deus, vai me dizer que nuca teve uma!

Eu estava zonza, enjoada e meu estômago queimava. Em toda minha vida, eu nunca havia bebido mais que algumas taças de vinho ou doses de licor, coisas leves. Nunca houve sequer um resquício de ressaca, eu nem ao menos sabia como era isso, até hoje. Era terrível, a pior sensação do mundo. Sentia-me fraca como um gatinho, mas o sono que sentia não era natural, era uma sensação diferente, como se houvesse tomado um calmante muito forte, mas, apesar da sonolência, não conseguia dormir. Era confuso. Tobias se ajoelhou ao meu lado e só então eu pude assimilar completamente suas palavras “Nós dormimos juntos...”. Esse era um péssimo eufemismo para sexo. Dormir.

— Está tudo bem... Não foi nada demais. — Tobias não tinha mais o sorriso cínico, mas sua expressão era leve e solene. Isso deveria ter me deixado mais calma, mas o efeito foi exatamente o contrário. Eu senti a histeria crescer dentro de mim, potencialmente.

— NÃO ESTÁ TUDO BEM! Você não vê? Isso é terrível! — Esbravejei saindo do banheiro e cambaleando até a cama, sentando-me na beira e cobrindo o rosto com as mãos, queria chorar, mas estava apavorada demais para isso. Tobias permaneceu intacto em seu posto, não houve nenhum movimento por no mínimo uns dez minutos, ou talvez a minha percepção de tempo estivesse distorcida, não me admiraria se estivesse.

— Foi só sexo. Deus! O que de tão errado pode haver nisso. Somos adultos, donos de nossas vidas. Sério? Você está realmente fazendo um escândalo à toa.

— Eu estou no meu período fértil, seu imbecil! E não estou usando nada. Quer acabar com o escândalo, diga-me que você se protegeu! Diga e eu me calo agora! — Eu estava fora de mim. Não conseguia enxergar mais nada que não fosse a minha cabeça na mesa de reuniões das produtoras.

Quando assinamos um contrato, uma cláusula diz que devemos nos proteger quanto a isso. O contrato sugere que seja utilizado o DIU ou o adesivo subcutâneo, a maioria das atrizes aceita isso sem maiorias problemas. Mas eu não aceitei, esses métodos são invasivos, agressivos e eu não sou uma pessoa passível ao autoflagelo, seja o tipo que for. Então eu escolhi utilizar a pílula, um método menos agressivo e depois de muita conversa eu consegui convencê-los de que eu seria responsável e que não falharia e que se falhasse, então eu seguiria as instruções deles. Tudo funcionou bem no primeiro ano, mas depois de um ano ingerindo tantos hormônios, eu precisa de uma pausa, meu corpo precisava disso. Eu estava/estou solteira e não tinha uma relação há meses, não teria problemas... Não teria problemas...

— Diga! — Gritei. Ele não esboçou nenhuma reação, mas seus olhos me disseram tudo.

— Ah meu Deus... Ah meu Deus! Porque você não se protegeu? Por quê?

— Eu... Eu não pensei. — Ele vacilou nas palavras e aquilo foi o estopim. Meu corpo se encheu de uma energia explosiva. Num impulso desesperado eu me atirei sobre ele, por um segundo, me perguntei de onde tinha tirado forças para tal ato, mas não houve muito tempo para raciocínio, eu era fúria e medo.

— Seu desgraçado! MALDITO! MALDITO! — Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, só queria socá-lo. Machucá-lo de alguma forma, e a existência desse sentimento me deixou ainda mais desesperada. Eu o odiava e odiava a mim mesma, mas o ser humana é a mais egoísta das criaturas, eu o odiava mais.

— TRIS! Pare com isso! — Ele gritou e me empurrou para longe. Eu cambaleei e cai no chão, rente a cama. Eu me encolhi, tentando desaparecer daquele lugar, daquele mundo. Tapei minha boca com as mãos e soltei um grito forte, abafado. Como o grunhir agonizante de um bicho ferido. Estava histérica. Meu corpo tremia e as lágrimas vieram sem controle.

— E se... E se? — eu balbuciei sem voz. O encarei, sentindo a raiva ainda queimar em minhas entranhas. Ele tinha o lábio inferior partido e as bochechas arranhadas. Ele também tremia, ofegante e uma vislumbre de consciência me encheu de culpa.

“Eu fiz isso? Ah meu Deus!”

— Tobias... Desculpe-me. Eu... — Eu não tinha o que dizer, não sabia como dizer, seu olhar era duro e em nenhum momento pareceu vacilar. Ele também tinha raiva. Raiva de mim.

— Saia daqui. Agora! — Ele ordenou com a voz firme e áspera. Segurei minhas lágrimas e recolhi minha pouca dignidade restante e, ainda enrolada nos lençóis, Saí. Ainda no corredor pude ouvir o barulho de coisa quebrando e os gritos enfurecidos dele.

Cheguei ao meu quarto o mais depressa que minhas pernas bambas permitiram. Joguei-me na cama e chorei. Chorei até cansar e então dormi e quando acordei já era noite. Meu coração falhou uma batida, eu precisava tomar o “Emergencial” logo ou não daria mais tempo de funcionar. Liguei para Lucy e pedi que me trouxesse um remédio para enxaqueca e o contraceptivo, ela não questionou e disse que estaria aqui em minutos. Tomei um banho e aguardei.

Quando Lucy chegou eram exatamente 22: 30 h, não fez perguntas, mas seu olhar era preocupado. Receoso. Não daria tempo. Não funcionaria. Tem que funcionar.

(Ellie Goulding – Lights)

Eu tinha um caminho então fui perdendo tudo sozinha.
Eu tinha um coração antes, contudo a rainha foi derrubada.
E eu não vou dormir agora, a escuridão é muito difícil de enfrentar.
E eu não mantenho a força que eu preciso para me mover.