Wicked Game
4 Explosions
Notas iniciais

You trembled like you'd seen a ghost
And I gave in.
I lack the things you need the most, you said
Where have you been?
You wasted all that sweetness
To run and hide.
[Tobias]
Os chefes vieram cedo. Dois representantes das produtoras e mais oito pessoas, um aglomerado assimétrico de cinza e preto, andando como cães farejando carne fresca, encheram os estúdios de uma tensão pungente. Todos ali, sem nenhuma exceção, entraram numa espiral de aflição e receio. Os chefes nunca aparecem, muito menos ambos de uma só vez. A sua pertinente presença só poderia significar uma coisa: "Problemas. Muitos e grandes problemas." Eu já esperava por isso, mas minhas pernas ainda tremeram quando os vi chegarem. Os grandes Lobos maus.
Eles invadiram a sala de reuniões e praticamente expulsaram toda a equipe de lá, excetuando a mim, Tori, Neil e Tris. Cada um se pôs em seus respectivos lugares, disfarçando o nervosismo a sua maneira: Tori sentou-se ereta e firme, torcendo os dedos e vez ou outra, mordendo a ponta das unhas, os olhos atentos a todo e qualquer movimento a sua volta, mas não parecia estar absorvendo o que via, apenas via. Neil coçava a barba rala e, desde que chegamos, havia abotoado e desabotoado os botões do punho da camisa umas cem vezes. Esses tiques me davam uma sensação agonizante e a cada minuto que se passava mais eu tinha vontade de pedir que parassem. De gritar na verdade. Mas eu não gritei e a única razão pela qual eu não o fiz, estava ali, na cadeira exatamente a minha frente. Tris parecia menor e mais pálida que o de costume, encolheu-se tanto na cadeira que faltava muito pouco para que desaparecesse sob o tampo da mesa.
— Fique calma... Por favor. — Minha voz foi menos que um sussurro, mas de alguma forma ela ouviu e me respondeu com um olhar vacilante e úmido. Meu Deus, eu não suportaria mais disso. Apertei os punhos junto às minhas coxas e tentei controlar minha respiração. Estava prestes a explodir, eu sentia isso em minhas veias, gasolina ao invés de sangue, me empurrando para o limite do controle.
— Nós convocamos essa reunião para que fosse decidido, o mais rápido possível, o que será feito em relação ao desastre iminente que nos ameaça. — Jeanine Matthews era a representante oficial da presidência da Paris Filmes. Tinha os olhos de uma predadora.
— O aborto é a única solução. — Ela não se dispôs a rodeios e foi direto ao ponto alto da discussão. — O melhor para todos nós. — Afirmou sem emoção e Tris parecia querer se fundir ao tecido da cadeira, estava tão pálida que imaginei que talvez conseguisse. Eu só conseguia pensar em como eu iria respirar com esse bolo em minha garganta.
— Ter esse bebê arruinará suas carreiras, a franquia, dezenas de empregos e, possivelmente, marcarão para sempre as carreiras de seus colegas... — Tris soltou um soluço estrangulado. E eu estava pronto para me levantar e estrangular a maldita mulher quando Tori levantou-se bruscamente.
— Isso é um absurdo! Vocês não têm o direito de obriga-los a fazer algo que não querem. Vocês não podem manipulá-los dessa forma covarde! — Tori afirma quase gritando, seu tom de voz áspero e frio não combina com sua natureza sempre gentil e eufórica. Na verdade, quase tudo naquela sala fora alterado e distorcido de uma maneira doente, os ânimos, os rostos, até mesmo o ar havia se tornado mais denso, pesado e sufocante.
— Covardes? Estamos tentando remediar o erro deles, poderíamos demiti-los... Processa-los, eles estariam acabados antes que a criança nasça. — Jeanine age e fala com uma impassibilidade nauseante. Como se estivesse falando do tempo ou algo assim.
— O que vocês estão tentando fazer é cruel! Estão falando de matar uma criança em nome do dinheiro... Um bebê. — Tori esbraveja, o rosto vermelho e os punhos batendo contra a mesa.
— Não me venha com seu discurso cristão. Isso é maior que qualquer sentimento de moral que esteja em cheque... Deus! Estamos falando de milhões de dólares... Você os protege, porque não é no seu pescoço que a corda está. — Eric é o chefe de imprensa e divulgação da Lionsgate, tinha voz de vendedor, macia e persuasiva, mas naquele momento eu apenas queria socar seu nariz até que ele calasse a maldita boca.
— Ahh... Discurso Cristão? Humanidade! Isso é humanidade. Quer dizer que valores agora são questionáveis? Isso vale pra tudo que vocês fazem ou só quando há dinheiro em questão? – Tori retruca, raiva e ironia marcando cada palavra.
— Tori, não me trate como se eu fosse um mercenário... — Eric afirma numa clara simulação de ofensa.
— Então não haja com se fosse um. — Tori estava inquebrável.
Imaginei então, a considerar a grande resistência de Eric, que aquilo se arrastaria por horas. E tudo que eu mais queria nesse momento, era atravessar aquela sala e abraçar Tris até que aquela ameaça de choro desaparecesse do seu rosto.
— Eles são jovens, poderão ter quantos filhos quiserem. Filhos desejados. Esperados. Bem-vindos... — Jeanine, que até então esteve quieta, voltou a se pronunciar.
Tori respirava pesado e apertava tanto os punhos que as juntas dos dedos estavam brancas. Ela estava furiosa e isso me atingiu de uma forma estranha, porque eu deveria estar furioso, aquela mulher falava de matar "meu filho" como se fala de podar uma árvore ou algo ainda mais insignificante.
Deus, eu deveria estar tremendo e esbravejando pragas aos ventos, mas eu não o fazia e nem o queria fazer. Tris, e apenas ela, me importava agora e não era por amor ou algo assim, era por culpa. Eu havia arruinado sua vida e agora nem tinha coragem o suficiente para defendê-la. Eu era mesmo um fraco desprezível. As palavras e vozes aos poucos perderam a forma e sentido para mim, eu estava indo cada vez mais fundo em minha mente, desligando-me de tudo e de todos. Até que um estrondo parte a minha bolha.
— Chega! — Tris grita. A voz trêmula e estridente, coberta de angústia e de algo desconhecido, mas poderoso. — Não importa o que vocês discutam e decidam... Esse é meu corpo. Meu bebê. Minhas regras. Eu farei o que EU acreditar ser o certo... Não mais lucrativo ou mais moral. O certo para mim. — Lágrimas enchem seus olhos, mas ela nunca me pareceu tão forte. — Agora me deem licença, tenho uma consulta médica marcada para agora. — Ela respira profundamente e sai. Firme e inabalável. Como eu não era capaz de ser.
Eric e Jeanine se encaram por um tempo e então toda a discussão retorna, mas eu já não posso ouvi-los, sigo Tris pelo corredor até o elevador, peço para que ela segure as portas, mas ela apenas me encara com frieza e um sentimento inédito. Desprezo. Era isso que havia antes em sua voz e agora em seus olhos. Puro e devastador. As portas se fecham e eu me pergunto se ainda vale a pena segui-la agora que sei o que ela sente por mim. A resposta é clara. Ligo para Myra e peço que me consiga uma passagem aérea para Londres, o mais rápido que puder.
(Explosions – Ellie Goulding)
Você tremia como se tivesse visto um fantasma,
E eu me rendi.
Não tenho as coisas de que você mais precisa. Você disse.
Onde você estava?
Você desperdiçou toda aquela doçura,
Para correr e se esconder.
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