Wicked

9 Não é para mim


Notas iniciais
Oi gente, perdão a demora para postar, eu simplesmente me esqueci na semana passada, nunca foi a intenção passar quase duas semanas sem atualizar Wicked, mas espero que gostem do capítulo e boa leitura!

I'm not that girl

Rose esperava ansiosamente pelo professor Firenze, sentada em uma das primeiras cadeiras da fileira. O restante da sala estava vazio, como se todos os alunos tivessem se esquecido da aula do dia, mas a Granger-Weasley não parecia ter notado – também não se importava de ficar sozinha no ambiente. Até mesmo gostava do silêncio.

O quadro negro, diferentemente do usual, não estava rabiscado com as anotações que o centauro preparava antes das aulas, mas a ruiva também não havia se atentado a esse detalhe. Estava preocupada demais com o seu livro, que lia distraidamente enquanto enrolava uma mecha de cabelo no indicador.

Dominique havia lhe dito que ela era uma ótima discípula e estava aprendendo muito bem os seus ensinamentos. Já sabia arrumar os seus cabelos e se maquiar sozinha, e as duas haviam marcado de ir à Hogsmeade no próximo final de semana, onde poderiam ajustar suas roupas, que sempre pareciam desleixadas devido ao tamanho errado.

Naquele dia em particular, usava seus cachos presos em um rabo de cavalo alto e sofisticado, no melhor estilo Domi, com suas madeixas amarradas por uma fita branca que contrastava com o tom vibrante de seus fios.

Mal percebeu quando a porta foi aberta abruptamente por uma figura conhecida, que parou por alguns minutos, observando a sala e escolhendo o seu lugar. Rose somente reparou na presença de Scorpius quando ele se aproximou de sua mesa e chamou a sua atenção.

— Posso me sentar com você? – perguntou o rapaz, apontando para a cadeira que deveria estar vaga, não fosse pelos materiais da garota, ao seu lado.

Desajeitada, gaguejou uma resposta positiva e desocupou o lugar, retirando seus pertences apressadamente. Antes de retornar sua atenção ao livro, correu seus olhos pelo recinto, e notou que ainda estava vazio. Não entendeu o porquê de o Malfoy querer sentar-se justo ao seu lado, já que todas as outras cadeiras estavam desocupadas.

— Onde está todo mundo? – questionou Scorp, arrumando os seus próprios pertences sobre a mesa, agora que Rose havia desocupado o espaço.

As pessoas geralmente fugiam dela, então ela estava acostumada a ter as duas mesas somente para si, já que ninguém nunca queria fazer-lhe companhia durante as aulas.

— Não sei, o professor também não apareceu ainda. Por que quis se sentar comigo? Imagino que não seja difícil para você arranjar uma dupla, e todos os outros assentos estão disponíveis – Rose respondeu, já emendando a sua pergunta, curiosa com a atitude do garoto.

— Porque você é familiar. Lembro de você na festa de Victoire, também lembro de você no corredor me atropelando com seus livros. Por quê? Minha presença te incomoda? Poderia ter recusado quando perguntei se podia me sentar contigo.

— Não, não me incomoda de jeito algum. É só que... As pessoas geralmente não se sentam comigo, na verdade, elas até me evitam... – admitiu a ruiva, não parecendo se orgulhar de seu histórico.

Não sabia ao certo se as pessoas a temiam por seus poderes, ou se somente a evitavam por sua personalidade, como Dominique havia lhe dito. Preferia acreditar que era culpa dos dois: poderes descontrolados e personalidade explosiva.

— Você está diferente – comentou Scorpius enquanto tocava em um dos cachos da ruiva, analisando-o.

Rose ficou sem graça, mas não se afastou. Não era sempre que um garoto bonito e popular lhe dava atenção. Porém, sentiu-se mal logo em seguida. Era Malfoy, o namorado de sua primeira amiga. Não cogitaria furar o olho de Domi, não mesmo. Afastou-se, com as bochechas coradas.

— Obrigada – agradeceu timidamente, desviando o olhar do garoto.

— Não foi um elogio – retrucou ele, roubando a atenção de Rose novamente, que pareceu confusa e ainda mais envergonhada pela confissão – Está parecendo a Dominique, gostava mais de como você era antes. Era diferente, singular.

A Granger-Weasley não teve tempo de responder, uma vez que ambos foram surpreendidos pelo professor Firenze, que surgiu da porta ao fundo da sala, onde provavelmente ficavam seus aposentos. O professor pareceu igualmente surpreso com a presença dos dois.

— O que fazem aqui? – perguntou, e andou para perto de seus alunos, seus cascos ecoando pela sala vazia ao baterem no assoalho.

— Não teremos aula hoje? – Malfoy respondeu com outra pergunta, confuso pela situação.

— Foi avisado durante o jantar de sexta que não haveria aula de Adivinhação hoje – o professor explicou.

É claro que nenhum dos dois saberia, já que não estavam no Salão Principal durante o horário do jantar, mas sim no Três Vassouras, na festa de Victoire. E, como não era uma matéria obrigatória do quinto ano, Rose e Scorpius não tinham amigos que faziam a mesma disciplina.

Sem discussões, tanto a Granger-Weasley, quanto o Malfoy, começaram a recolher seus materiais, preparados para deixar a sala, quando uma dúvida surgiu na mente de Rose: não havia motivos para a aula ser cancelada. Ou havia?

Firenze parecia bem, a sala estava impecável e não havia nenhum feriado próximo.

Scorpius estava prestes a sair, atravessando a porta, quando ouviu a voz de Rose questionando o centauro.

— Professor, por que não teremos aula hoje?

Virou-se, desistindo de ir embora, para que pudesse ouvir a resposta de Firenze, curioso.

O professor abaixou seu olhar, parecendo triste e até levemente constrangido de contar aos seus alunos o que havia acontecido. Não foi ele que anunciara na sexta, então seria a primeira vez que daria a notícia diretamente aos estudantes.

— Eu fui demitido – admitiu, chateado – Aparentemente o Ministério não permite mais que criaturas como eu ocupem cargos de docência.

— O quê? Eles podem fazer isso? – Scorpius exclamou, nervoso.

Não concordava com aquilo, obviamente. Eram tantos anos convivendo com criaturas, e aprendendo com elas, até mesmo em casa, que não conseguia imaginar Hogwarts sem professores especiais como Firenze.

— Aparentemente, agora podem. Se estão assustados com minha situação, deveriam checar o que estão fazendo na Floresta Proibida – revelou o professor, e pareceu se arrepender logo em seguida.

— O que estão fazendo na Floresta? – perguntou Rose, com receio da resposta.

Aguardou por uma resposta, mas o silêncio que obteve em retorno fez com que chegasse à conclusão de que o seu professor – ou ex professor, como acabara de descobrir – não solucionaria seu questionamento. Com isso em mente, a Granger-Weasley partiu, saindo pela porta e descendo as escadas da Torre de Adivinhação em um passo apressado. Scorpius não perdeu tempo também, correndo logo atrás de Rose para fora do castelo, enquanto chamava a garota.

Ignorou os gritos do colega, sem se importar, e somente desacelerou o seu passo quando se aproximou da Floresta Proibida, muitos corredores e lances de escada depois.

Não achou nada suspeito dentro do perímetro aberto da escola, portanto resolveu adentrar a mata repleta de árvores que escureciam o ambiente e transformavam a atmosfera numa que parecia ser noite sempre. Malfoy, mesmo sem ter certeza do que a garota pretendia, seguiu-a.

Rose parou atrás de uma árvore, espiando um movimento suspeito que tinha ouvido, e Scorp esgueirou-se logo atrás.

— Por Merlin, Weasley, você corre pra caramba— disse ele, tentando recuperar o fôlego audivelmente.

De fato, não era fácil atravessar todo o castelo em tempo recorde como haviam feito, até mesmo para alguém em bom estado físico, como Scorpius, devido ao quadribol.

— É Granger-Weasley – corrigiu, como sempre fazia, porém num sussurro, evitando chamar atenção para eles – Agora cale a boca e observe – e apontou com o queixo para o lugar de onde vinha o barulho.

Dois homens conversavam, enquanto outros carregavam o que pareciam ser caixas cobertas por um tecido escuro que não deixava o seu interior visível. Era possível notar também alguns elfos domésticos acorrentados uns aos outros, formando uma fila. Uma caixa, menor do que as que eram carregadas, estava abandonada ao chão entre os dois que se mantinham entretidos num diálogo, o qual era difícil de se entender, devido à distância que se encontravam do casal.

Um deles era atarracado, com uma enorme barriga e rosto redondos, seu nariz adunco quase sumindo na face rechonchuda e bochechas saltadas de gordura. Usava um terno verde esmeralda, e alguns poucos fios loiros estavam em sua cabeça. Até pareceria um senhorzinho simpático se não contássemos com a situação em que estava.

O outro era mais alto que o primeiro, e bem mais magro. Ostentava na cabeça lisa uma careca brilhante, e, no queixo,uma barba espessa e escura, que quase lhe alcançava o peito. Não trajava um terno, como o primeiro, mas sim um clássico robe roxo, como um bom bruxo ancião. Os óculos que usava eram sustentados pela ponta fina e desregular de seu nariz, e os seus lábios finos estavam crispados, dando-lhe um ar maligno. Parecia um vilão de contos bruxos.

— Eu conheço aquele cara – reconheceu Scorpius, apontando com seu dedo, longo como o de um pianista para o bruxo de óculos – Ele já foi lá em casa, vi meu pai conversando com ele vez ou outra. Acho que ele trabalha para o Ministro.

— Então, o outro provavelmente também é do Ministério. O que será que eles carregam? – indagou, referindo-se às caixas cobertas.

Quase em sincronia com a pergunta de Rose, surgindo como uma resposta, o bruxo de vestes verdes puxou o tecido da caixa no chão. Não era bem uma caixa, e sim uma gaiola. Em seu interior uma pequena criatura jogava-se contra as grades ruidosamente, debatendo-se. Também gritava, de modo bastante entendível, muitos xingamentos. Como uma criaturinha tão pequena sabia tantas ofensas?

— É uma doninha? – questionou o Malfoy, também focado no animalzinho engaiolado.

— Não vê que ele fala? É um furanzão – respondeu Rose, já indignada com o que estava presenciando.

Estavam retirando todas as criaturas da Floresta, era a única conclusão possível. Uma atitude que chegava a ser ofensiva de tão absurda. O mundo mágico sempre foi daquele jeito, com bruxos coexistindo com criaturas, então por que estariam retirando-as da Floresta Proibida agora?!

Scorpius notou, pelas mãos de Rose, que ela tremia de leve. Logo, percebeu uma movimentação acima de suas cabeças e, ao levantar o seu olhar para as copas das árvores, viu que os galhos começavam a se mexer com mais força, balançando-se agressivamente e derrubando uma maior quantidade de folhas.

Lembrou-se, assim, que a Granger-Weasley tinha uma fama de ainda não conseguir controlar sua magia, principalmente quando era exposta a fortes emoções.

Scorpius tentou pensar rápido. Não havia muito o que fazer, já que os outros homens já haviam sumido com o restante das caixas e dos elfos domésticos acorrentados, mas prometeu a si mesmo naquele momento que salvaria ao menos aquela criaturinha esquisita de boca suja.

— Não sei o que você está fazendo, mas dê um jeito de continuar – ele disse para Rose, enquanto se afastava abaixado, tentando não chamar atenção daqueles dois bruxos que ainda permaneciam ali, conversando, enquanto o furanzão gritava e xingava.

Rose nunca soube controlar muito bem a sua magia sem varinha, mas algo cresceu dentro de si naquele momento, e ela soube o que tinha que fazer, pela primeira vez.

Fechou os seus olhos para uma maior concentração e levantou suas mãos, como se sentisse algo no ar. Os galhos passaram a se mover com ainda mais agressividade, derrubando uma quantidade crescente de folhas, que já caiam aos montes. Raízes começaram a emergir do chão em um emaranhado de fios de madeira, que enrolavam-se nos tornozelos dos dois bruxos que prendiam o pequeno furanzão, assustando-os.

Scorpius, aproveitando que os dois agentes do Ministério estavam distraídos, esgueirou-se por trás deles e roubou-lhes a gaiola, correndo para longe logo em seguida. Assim que percebeu que o colega tinha conseguido escapar, Rose o seguiu correndo, deixando os dois homens ali, sem entenderem o que havia acontecido.

Rose encontrou Malfoy enfiado na floresta, muitos metros à frente, e a garota não parecia muito satisfeita com a situação.

— O que pensa em fazer agora? Soltá-lo novamente na floresta? É perigoso! – exasperou-se, enquanto tomava a gaiola das mãos de Scorpius com cautela.

Teve dó daquela pequena criatura, uma vez que o Malfoy provavelmente o tinha balançado bastante durante sua fuga. O pobre bichinho já nem xingava mais, devia estar tonto demais para isso.

— Eu sei! – o Malfoy exclamou em resposta – Você deve achar que eu sou muito burro, não é mesmo?

— Um pouco, sim. Mas, no geral, não.

— Diz isso de mim, mas toda vez que ouço algo sobre você, é algum problema em que está envolvida.

Rose não respondeu prontamente, em vez disso, abaixou-se e sentou-se no chão, sobre um monte de folhas secas.

Abriu a gaiola do furanzão cautelosamente. O animal escalou o seu braço e se acomodou em seu ombro, como um papagaio pirata com o seu dono. Manteve-se calado, talvez até estivesse agradecido pelo resgate, porém eles nunca saberiam. Aparentemente, o pequeno animal só sabia xingamentos e ofensas.

— Não vê, Malfoy? Eu não estou sempre envolvida em problemas, eu sou o problema – Rose falou, dessa vez com um tom mais baixo e mais ameno, diferentemente de alguns minutos atrás.

É claro que não se orgulhava de sua má fama. Quem se orgulharia afinal? Inclusive, era por isso que ela estava tentando mudar, aprendendo a se comportar melhor com Dominique, e até mesmo mudando o seu modo de se arrumar. Estava se esforçando para não ser mais a garota-problema, e sim alguém que se destacava e valia a pena ter por perto. Não somente para Hugo e seu pai, mas para todos.

— Pode voltar para o castelo se quiser, Malfoy. Eu consigo ajudar o furanzão sozinha agora – assegurou, liberando o loiro de sua missão particular.

— Não vim porque você pediu, Rose, vim porque queria ajudar – retrucou.

— Eu sei, inclusive, agradeço muito por sua ajuda. Não precisava, sabe? Mas isso prova que nem sempre você é um babaca que derruba pobres garotas inocentes e seus materiais pelo caminho – brincou, arrancando uma risada anasalada do Malfoy.

— Bem, já que você afirma com tanta certeza que não precisa mais de minha ajuda, acho que já vou indo – ele disse, virando-se de costas para Rose e seguindo em direção ao castelo.

— Scorpius – chamou, uma última vez, e completou assim que ele a olhou novamente, atendendo ao seu chamado – Obrigada.

O Malfoy pareceu envergonhado pelo agradecimento da Granger-Weasley. Talvez nunca tivesse ouvido algo que parecesse tão sincero. Rose não era o tipo de garota que geralmente chamava sua atenção, mas a sua vontade de lutar por simples criaturas e a maneira como ela valorizava algo tão bobo como sua ajuda havia sem dúvidas lhe cativado e talvez até a tornado um pouco mais gostável.

E, aquilo, ele sabia que não havia sido algo que Dominique havia a ensinado ou a orientado a fazer. Não tinha como prever que algo assim aconteceria.

Desistiu, então, de voltar ao castelo e pegou o pequeno furanzão dos braços da ruiva.

— Não vou lhe deixar fazer isso sozinha. Eu o peguei, eu vou arranjar um lugar bom para soltá-lo – disse e partiu, com a criatura em mãos, deixando Rose só com a gaiola vazia no chão.

A Granger-Weasley não teve dúvidas naquele momento. Uma sensação engraçada lhe surgia, na região da barriga, junto a um aperto morno no coração. Será que aquelas eram as tão famosas borboletas no estômago? Não tinha certeza. Somente sabia que aquele sentimento era errado. Scorpius era muito melhor do que ela imaginava, e aquela atitude de ajudá-la, sem nada em troca, fez com que Rose tivesse certeza de que ele era uma boa pessoa. No entanto, não podia esquecer-se de que ele era o garoto de quem Dominique gostava – e ela era bela como ninguém. Alguém como Scorp nunca olharia para Rose da mesma maneira que ela o via agora. Não se permitiria gostar dele, já que isso somente a machucaria, e competir era bobeira.

Scorpius nunca seria para ela.