Who are you?

33 Samara Lopez.


Notas iniciais
Bora conhecer a irmã querida da Santana? haha

Levantar da cama e enfrentar o mundo naquela manhã de segunda-feira foi algo totalmente dificultoso para Brittany. Ela sentiu como se sua vida tivesse regredido semanas atrás, quando não conhecia Santana e que seus dias eram muito mais vazios. Ela seguiu o ritual de tomar banho, cuidar do filho e depois se arrumar para o escritório. Ao entrar em seu carro foi logo recebida pelo perfume marcante da latina que ainda se fazia presente no automóvel. Por um lado era reconfortante, era como se a mantivesse por perto, mas por outro era uma tortura saber que era só mais uma lembrança.

Depois de uma noite mal dormida, Brittany passou a se perguntar se a decisão de deixar Santana “livre” era mesma a atitude mais correta, quem precisava de maturidade afinal? Ela não. Porém não tinha mais como voltar atrás. O que lhe restava era se concentrar em seus próprios problemas, que não eram poucos, e trabalhar exaustivamente para ocupar a sua mente o máximo possível. Entrou na empresa e caminhou pelo saguão esbanjando um sorriso simpático, enquanto que por dentro uma nuvem negra a carregava. Agradeceu aos céus quando o elevador se abriu e finalmente chegou ao seu andar.

“Vamos lá, Pierce. Você já passou por coisas piores, consegue sobreviver a mais um dia.” — Disse para si mesma.

— Bom dia, Marley! Alguma urgência pós-feriado? – Parou ao lado da mesa da secretária enquanto conferia em seu próprio celular a sua agenda.

— Bom dia, senhora Pierce! Nenhuma em especial, apenas o senhor Medina quer que a senhora se comunique com ele. – Respondeu sem olhar para a chefe, o que chamou a atenção dela.

— Empenhada com algo? – Perguntou curiosa, uma vez que sua secretária era sempre muito atenciosa quando falava com a mesma.

— Desculpe-me, senhora Pierce. É que vai haver uma apresentação de um grupo conceituado de dança no teatro municipal. Mas eu fiquei sabendo só hoje e os ingressos já estão com o preço absurdo! Eu me distraí, mas não vai se repetir.

— Calma, Marley. Está tudo bem! – Sorriu achando um pouco engraçado o nervosismo da mulher. – Eu te dei um aumento, eu tenho certeza que dá pra comprar o ingresso.

— Daria... Mas é que eu dei entrada no meu próprio carro. Como a senhora disse, é um investimento necessário. E também eu comprei um violoncelo novo para a minha irmãzinha, ela sempre precisava usar emprestado da escola e não podia praticar em casa. Não quero exagerar nos gatos esse mês, estamos perto das festas agora.

— Sempre consciente e generosa. Pois faça o seguinte, compre os ingressos. Um pra você e outro pra um acompanhante. Uma amiga, quem sabe um namorado. Precisa se divertir, Rose. Eu pago.

— Que isso, senhora Pierce? Não quero me aproveitar de sua bondade, de forma alguma eu posso aceitar.

— Quer que eu te diga que é uma ordem, Rose? – Colocou a mão na cintura e fingiu-se de brava.

— Não! Mas não posso aceitar... Ainda mais dar o ingresso pra uma outra pessoa.

— Então eu te convido. Adoro apresentações de dança, quando é?

— Amanhã... – Respondeu um pouco abobada, não acreditando naquela atitude de sua chefe. – Mas senhora Pierce...

— Não quero saber de desculpas. Amanhã vamos sair como amigas. Eu também estou precisando me distrair, vai ser um favor que me faz. E se recusar, eu vou ser obrigada a pedir suas contas. – Brincou.

— Sendo assim... – Empurrou seu óculos pra cima com a ponta dos dedos, demonstrando estar bem nervosa. – Uma última coisa.

— Espero que não sejam desculpas...

— Não, não, não. Prezo o meu trabalho. – Brittany não pode deixar de rir. – Suas correspondências. – Entregou alguns envelopes a loira.

— Obrigada. – Pegou as cartas e foi para seu escritório, sentou-se em sua mesa e enquanto o seu notebook ligava, começou a analisar os envelopes. – Propaganda, propaganda, lixo, propaganda, isso não é meu, conta e hum... O que temos aqui? Urgente? – Leu a palavra em destaque no envelope pardo. – Mas sem remetente? – Sua curiosidade se aflorou e rapidamente tratou de abrir.

Assim que puxou o conteúdo de dentro sentiu seu coração acelerar de tal forma que as palpitações poderiam fazer com que seu órgão pulasse pra fora do peito. Ao mesmo tempo, suas mãos começaram a tremer e a suar frio, ela tinha certeza de que se estivesse de pé, suas pernas já teriam vacilado. Aquilo não podia estar acontecendo, aquilo não era real. A única coisa que ela conseguiu fazer foi gritar por sua secretária, que no segundo seguinte já estava dentro de sua sala.

— Senhora Pierce, algum problema?

— Marley... – Sua voz saiu tremida. – Quem foi que trouxe essa carta? – Mostrou o envelope em sua mão.

— Não há identificação? É algo grave?

— Não, Marley! Não há identificação e é grave, muito grave pra mim, pra empresa, pra...

— Senhora Pierce, eu não sei quem pode ter mandado. Como sempre, eu apenas pego com o porteiro o que ele separa para a senhora, mas provavelmente deixaram na caixa ou veio pelo correio. Eu posso perguntar, ou chamá-lo até aqui se a senhora preferir. Se for algo ruim, podemos chamar a polícia, ou quem sabe rever as câmeras de segurança...

— Não! Sem alardes! – Disse preocupada. – Quem mandou isso deve ter sido esperto o suficiente pra não dar as caras.

— Eu estou preocupada. A senhora corre perigo? Tem certeza que não é melhor alertar a segurança?

— Não! Minha integridade física está segura. Pode deixar, eu resolvo sozinha, não se preocupe.

— Como à senhora quiser, mas qualquer coisa...

— Eu aviso.

Brittany deu mais uma boa olhada no conteúdo do envelope e sentiu seu coração apertar. Ela precisava de Santana, ela precisava falar com Santana. Seus dedos foram rápidos em discar o número da latina, mas as chamadas acabaram todas na caixa postal.

Santana estava em uma reunião particular com seu assessor e o ajudante que Brittany tinha lhe providenciado. Ela até sentiu quando seu celular começou a vibrar do seu lado e em sua tela surgiu o nome de Brittany, mas aquele não era o momento. Ela precisava demonstrar que estava focada nos negócios da família e em aprender a gerir a empresa, não poderia se distrair naquele momento, mesmo querendo muito ouvir a voz da loira por um segundo que fosse. Deixou apenas uma nota mental de se lembrar de retornar a ligação em seu horário de almoço.

Assim, quando passou da metade do dia e Santana finalmente recebeu uma folga, saiu da sala de reuniões o mais rápido que pode. Ela sabia que se ouvisse falar mais um pouco sobre números com a barriga vazia, ela iria surtar com alguém.

Ela já checava seu celular, pronta para retornar a ligação de Brittany, quando viu Dani sair de dentro do elevador e andar com um sorriso radiante em sua direção.

— Ocupada? – Dani perguntou depois de dar um beijo caloroso em Santana ali mesmo, no meio do saguão.

— Não! Eu ia mesmo te ligar, chamar pra almoçar. – Fingiu, lembrou-se do conselho de Kurt.

— Pois eu vim justamente para isso. Até me arrumei toda. – Deu um pequeno giro na ponta do pé e Santana pode concluir o que já sabia: Dani era pura beleza e charme, ela era linda e gostosa, sim, muito gostosa. – Eu vim te convidar para ir almoçar comigo em um dos restaurantes que é o seu preferido da cidade.

— Contanto que não seja longe, porque eu...

— Não! Confie em mim.

Se tinha uma coisa que rapidamente Santana passou a gostar em Dani era o seu humor. A mulher era leve e se demonstrava bastante inteligente e independente, coisas que a latina admirava. Ela era uma pessoa que gostava de movimento, de barulho, de pessoas. Demonstrava-se bem corajosa, aventureira e destemida. O oposto de Brittany? Talvez. Brittany era mais delicada, precisava de segurança para arriscar, gostava de calmaria e menos pessoas. Apesar de possuir audácia, ela precisava de uma mola propulsora, um estimulo. No entanto, era sempre muito carinhosa, companheira, altruísta e, principalmente, muito, muito envolvente. Santana não sabia olhar para aqueles olhos azuis sem sentir vontade de se entregar a ela. Enquanto Dani era um mistério ardente, Brittany era uma intensidade que se revelava aos poucos se bem tocada. E esses dois opostos intrigavam e complicavam a decisão de Santana.

Dani levou Santana até um restaurante Mexicano e lhe explicou o motivo de estarem ali.

— Quando você me trouxe aqui, me disse que gostava desse lugar porque tinha o sabor de casa, lembrava da comida que sua abuela te fazia quando era criança. Quem sabe não possa despertar algo novo dentro de você?

— Obrigada, tudo isso é de grande ajuda pra mim.

— Não tem que me agradecer, vou ser recompensada quando suas lembranças comigo surgirem. Vem, essa cabine mais reservada era a que sempre escolhíamos. – Esperou que Santana se sentasse primeiro no sofá para poder se sentar em seguida.

— Não convidou o Kurt?

— Eu quis um momento só nosso. – Pegou a mão da morena. – Eu quero que se sinta conectada comigo. É doloroso perceber seu olhar sob mim e ver que não me reconhece. Que sou uma estranha, quando já dividimos tantas coisas em nossa intimidade.

— Eu sinto muito, eu...

— Não me peça desculpas. Eu não estou te dizendo isso para que se sinta mal, mas para poder ser honesta com você. — Fez uma pequena pausa. — Eu peço que passe uma noite comigo. Seja minha. Me deixe ser sua e vamos nos reencontrar.

— Acha que se transarmos eu vou me lembrar de você mais facilmente?

— Acho que enquanto tiver medo de me tocar, de me olhar nos olhos e desnudar minha alma... Não vai se lembrar de nada. Você apenas me olha com vergonha e com curiosidade. Mas não consegue me olhar como mulher. E eu sou a sua. – Disse sincera. – Olhe pra mim, Santana. Apenas olhe pra mim.

Santana a obedeceu e finalmente tomou coragem para encará-la. Era verdade que sentia vergonha, vergonha porque há poucos dias tinha outra mulher em seus braços e agora descobre que é comprometida. Mas principalmente, mais forte do que a vergonha, tinha medo de se lembrar totalmente daquela mulher e se sentir mais confusa. Mas foi inevitável. Quando seus olhares se cruzaram ela pode “sentir” a tal conexão que Dani se referia e uma lembrança feliz invadiu a sua mente.

FLASH BACK.

— Com licença, senhorita. Mas este lugar está vago? – Dani perguntou a Santana que levou um tempo até conseguir responder já que a namorada estava linda naquele vestido elegante branco, realçando cada curva de seu corpo, mas principalmente por não se lembrar qual fora a última vez que a vira usar aquela cor.

— Desculpe, mas eu estou esperando alguém especial. – Entrou na brincadeira.

— Assim que ela chegar eu me retiro. – Tomou o lugar à frente de Santana. – Sabe? Hoje é uma noite muito especial para mim. – Confessou.

— É mesmo? E por quê?

— Porque eu reservei essa cobertura, onde podemos ver o céu, pedi que preparassem um jantar maravilhoso e trouxe até músicos, para poder comemorar o meu namoro de dois anos.

— Uau! Deve amar muito essa pessoa.

— Eu amo! É por isso mesmo que não posso deixá-la fugir da minha vida. – Tirou uma pequena caixinha de dentro da bolsa de mão e instantaneamente Santana soube o que viria a seguir.

— Ah meu Deus! – Levou as mãos à boca e pode ver a linda e nada modesta joia dentro da caixinha.

— Não sei se tão lindas quanto às da coleção de seu pai, mas... Santana Lopez, quer se casar comigo?

FIM DE FLASH BACK.

Santana pode sentir a emoção daquele momento, ela estava feliz, muito feliz com o pedido. E ela amava Dani, tanto que a resposta veio em forma de “sim”. E agora? Como lidar com aquele sentimento?

— Você está bem? – Dani perguntou ao notar o olhar distante e o silêncio enigmático.

— Sim! Eu apenas me lembrei de como é bom ser amada por você e... E te amar também.

Santana tocou o rosto de Dani e cobriu os lábios dela com os seus iniciando um beijo curioso, mas totalmente entregue. Era como se ela buscasse reconhecer e ao mesmo tempo desfrutar de algo que há muito tempo foi seu. Ela não sabia decifrar direito o que sentia, mas era um beijo bom, era um beijo ousado e quente. Todo seu corpo reagia àquela troca de energia causada pelas suas bocas, línguas e mãos, que já não tinham mais endereço fixo. Por um breve momento Santana se lembrou de Brittany e aquilo a incomodou, no entanto, foi à própria que havia recomendado aquele tipo de atitude. A latina estava apenas cumprindo “ordens”, porém não podia negar que cumpria com muito prazer.

Depois do almoço com Dani, Santana teve que voltar a se enterrar em trabalho. Ela começava a entender as dores de cabeça frequentes de Brittany e porque ela usava a cafeína como uma porta de escape pro seu estresse. Ser presidente requeria muitas responsabilidades para si e ainda assumir os riscos por seus delegados. A latina ao menos esperava que com o passar dos dias se sentisse mais integrada aquele novo universo.

Quando o seu expediente terminou, sentiu que seu corpo precisava de um banho e cama para relaxar. Entretanto, sabia que ainda teria que ir até o Padre Vita, ainda tinha muito o que enfrentar. Finalmente se encontraria com sua irmã e isso a deixava ainda mais tensa. Ao sair de seu escritório, pode ver Kurt sentado em um sofá, folheando uma revista.

— Kurt? Não sabia que ia com a gente até à clinica. – O rapaz se levantou e ela pode abraçá-lo. -Cadê a Dani?

— Ela disse que se sentiu um pouco indisposta depois do almoço, acho que ela exagerou na pimenta e pediu para que eu viesse em seu lugar, para não te deixar sozinha.

— Entendo. Depois eu ligo pra ela, estamos um pouco atrasados já. – Caminhou com o amigo em direção ao elevador.

— Ela me contou que vocês estão bem melhores. Ela estava radiante de alegria.

— É complicado... Quero dizer, foi um grande avanço. Porém ainda é complicado.

— Não se preocupe, é só o primeiro dia. – Tentou animá-la.

Em pouco tempo o casal de amigos se encontravam na clínica psiquiátrica. Um estagiário do médico de Samara indicou a sala para que os dois o aguardassem.

— O doutor Schuster em breve irá atendê-los, se eu puder ajudar em mais alguma coisa.

— Fico agradecida, Blaine. – Sorriu simpática e Kurt despediu-se com um breve aceno.

— Interessante esse estagiário, branco lhe cai bem. – Analisou o rapaz enquanto ele se distanciava.

— Devia ter pedido o número dele. Ele estava te secando.

— Quando você for conversar com a sua irmã, eu vou lá puxar assunto, como quem não quer nada...

— Você é um safado. – Brincou com o amigo, mas ficou séria assim que viu o médico se aproximar.

— Senhorita Lopez, é um prazer revê-la. – Estendeu a mão para que ela apertasse.

— Doutor, embora não me lembre do senhor, é um prazer ser recebida. Esse é meu amigo, Kurt. – Ele também apertou a mão do médico.

— É um prazer. Mas sentem-se, por favor. – O médico fez o mesmo e se sentou em sua cadeira. – Eu fui informado sobre o que aconteceu com você e também tratei de conversar com sua irmã que estava impaciente sem notícias.

— Doutor, muitas dúvidas surgiram em minha cabeça. Minhas lembranças com a minha irmã não foram das mais felizes. E o que aconteceu com meus pais... Me deixa muito receosa.

— Eu entendo as suas dúvidas, senhorita Lopez. Entretanto, o que eu posso te dizer é que Samara progrediu ao longo dos anos, sendo liberada por mim a começar uma ressocialização. Termo aceito pelos seus pais que se responsabilizavam por ela sempre que colocava os pés pra fora dessa clínica. Não digo a você que Samara não seria capaz, mas eu só não sei se ela teria os meios, se é que você me entende.

— Sim, eu já pensei nisso. Mas acho que a essa altura o senhor já deve saber que o meu advogado pediu as fichas de acompanhamento, bem como quem vinha visitar a Samara e quem a levava pra casa. Eu estou sendo acusada por um crime horrível e não posso deixar que nada escape.

— E está com todo direito. No entanto, se quer manter um bom relacionamento com sua irmã, não acho conveniente que conte a ela que a tem como uma suspeita.

— Não! De forma alguma. Como ela está? Como ela reagiu à morte dos meus pais?

— Ela não é capaz de revelar emoções, Santana. Mas ela esteve bem agitada depois do funeral. No entanto, tem voltado a desenvolver melhoras.

— Santana poderia vê-la, doutor?

— Mas é claro! Ela deve estar te esperando inclusive. Eu vou pedir que Blaine te acompanhe.

— Ah, o senhor não pode me acompanhar? Gostaria de ir fazendo mais algumas perguntas. – Santana piscou para Kurt.

— Mas é claro! Me acompanhe, por favor.

— Já volto, Kurt. Cuidado pra não se perder por aí... – Deu uma pequena risada marota.

Santana tentava transmitir calma, mas a verdade é que por dentro estava quase tendo um ataque. Sua irmã lhe causava calafrios, seu peito carregava uma angustia enorme e não sabia explicar o porquê. Mas tinha que encará-la. Então, antes de entrar no quarto respirou fundo e fechou os olhos, enquanto repassava mentalmente a frase de “não há o que temer”. Assim que girou a maçaneta e a porta se abriu, um pequeno choque percorreu seu corpo. Era estranho demais ver uma pessoa idêntica a você. Era como se olhar no espelho, só que com pequenas diferenças. Samara tinha os cabelos pelos ombros, enquanto Santana usava eles compridos. Além do que, Samara tinha profundas olheiras e pele menos bronzeada. E só. No resto eram idênticas, o que era um ato maravilhoso e assustador da natureza. Nada poderia distingui-las em situações normais.

— Ora, ora, quem temos aqui. A minha irmã querida. – Aquele tom de voz agressivo “domesticado”, causou um arrepio em Santana. – Aproxime-se, irmã, até parece que viu um fantasma. Qual o problema? Não é esse rosto que vê todas as manhãs?

— Sim. Mas não deixa de ser impressionante. É como me ver fora do meu próprio corpo. Eu... Eu sei que você que eu sofri um acidente de carro e perdi a minha memória. Tem pouco tempo que eu soube de você e é por isso que eu não tenho vindo te visitar. – Aproximou-se bem lentamente.

— Sim, eu soube. Will me contou. Mas não é como se você viesse sempre me ver. Nem deu pra sentir saudades.

— Como você está?

— Maravilhosa! Esse hotel de luxo que eu vivo nem se compara a sua vida mediucre.

— Desculpa... — Era difícil conversar com ela, Samara era bastante inteligente. — Eu devo explicar uma coisa, para começarmos direito. Não é uma boa hora de você voltar pra casa. Eu queria, mas...

— Por que não? Você não me quer? Qual é? Não tem mais nossos pais pra disputar a atenção. Vovó te acha uma perdida e a mim ela nem olha... Sou só eu e você, irmãzinha.

— Eu sei! E esse é o problema. Minha situação é instável, eu posso ser presa pelo assassinato dos nossos pais e... – Samara começou a rir. – Do que está rindo?

— É irônico. Ver a filha perfeita e preferida ser levada a julgamento pelo assassinato dos pais e não a filha louca que eles sempre desprezaram.

— Não é verdade!

— Eu estou aqui há 18 anos. E agora nem você quer que eu volte pra casa que também é minha, caso tenha se esquecido. Mas cuidado, Santana, porque eu vou voltar. Eu tenho melhorado, eles não podem me manter aqui pra sempre, eu posso pedir uma nova avaliação da comissão médica e aí então... – Foi dizendo a medida em que ficava cara a cara com Santana.

— Aí então o que? Está me ameaçando? É assim que quer sair daqui?

— Quem disse? Nem me deixou terminar. E aí então vai ter que conviver comigo. As gêmeas Lopez juntinhas de novo. Claro, se você não for pra cadeia responder um crime que não cometeu.

— Como sabe que eu não cometi?

— Porque você é sonsa, é burra, é fraca e amava demais os nossos papaizinhos pra fazer isso.

— E quem seria capaz de fazer uma coisa dessas com eles?

— Eu não sei! Mas espero que você consiga provar que não foi você, porque seria triste demais voltar pra casa sem ter a minha irmã querida pra brincar como antigamente.

Santana pode sentir um grande aperto no peito.

— Samara... Eu quero um recomeço. Eu quero que você volte pra casa, mas principalmente que a gente se dê bem dessa vez.

— Eu nunca vou me dar bem com você, Santana. Olhar pra você me dá raiva, me desestabiliza.

— Esse é seu rosto também.

— Exatamente! Está vendo algum espelho aqui? Ainda bem que temos os milhões de nossos pais pra dar um jeito no rosto, porque uma de nós vai entrar na faca. – Sorriu friamente.

— Espero que se recupere o suficiente pra isso e faça a cirurgia que quiser. – Deu as costas e foi em direção a porta.

— Mas já vai? Nem conversamos direito. Nem me contou como vai a vida, e a namorada?

— Vai bem! Vai tudo ótimo! — Virou-se de volta. — Por que me quer aqui?

— Eu não te quero aqui. Esse é o ponto. Você não me deu oportunidade pra falar. Se não pretende me ajudar, não tem nada do que fazer aqui, bancar a boa moça. Eu odeio você! Eu odeio! Guarde isso na sua cabeça. — Bateu com seu dedo indicador na testa dela. — Não tem recomeço pra gente. Eu não sou a sua família. Você não tem mais ninguém.

Santana saiu o mais rápido que pode do quarto e viu Kurt no fim do corredor com conversinhas e risadinhas com o estagiário.

— Kurt, podemos ir?

— Vai indo na frente, te encontro em um minuto. – Respondeu sem olhar pra amiga.

— Aff! – Revirou os olhos, mas logo depois acabou achando bom o fato dele dar um tempo pra ela, pois assim poderia finalmente fazer sua ligação para Brittany, que demorou até atendê-la. – Eu já estava quase desistindo.

“- Desculpe, estava no banho.”

— Tudo bem, eu que tenho que me desculpar, não pude falar com você mais cedo. Passei o dia ocupada, foi bem puxado por aqui. Tem muita coisa que eu tenho que aprender e dar conta, sem contar que acabei de vir visitar minha irmã.

“- E como foi? Ela te disse alguma coisa?”

— Nós conversamos. Mas foi uma conversa meio bizarra, eu tive a sensação de que ela me escondia algo, que dizia as coisas nas entrelinhas. Além dela ter me assustado, eu sinto que corro um sério risco se ela sair daqui. Ela continua me odiando, disse com todas as letras possíveis.

“- Você precisa notificar ao médico dela, ele não pode autorizar a saída dela se for um risco pra você.”

— Mas e se a avaliarem e ela estiver bem? E se o que eu estou sentindo for um medo reprimido do passado? Eu estarei privando a minha irmã de uma vida nova e mais anos presa nesse lugar.

“- Sei que quer o melhor pra ela, Santana. Ela é sua gêmea, mas não se coloque em risco por uma relação que talvez você nunca tenha.”

— Eu sei! Você é como um grilo falante que trás razão pros meus pensamentos. – Ela pode ouvir uma risada do outro lado da linha. – É bom ouvir esse som! – Confessou. – Como você está? Aconteceu alguma coisa aí? Fiquei um pouco preocupada ao ver um número considerável de ligações.

“- Na verdade, eu precisava falar com você porque eu...”

— Santana, você não vai acreditar. Consegui não só o número do estagiário, como ele me convidou pra dar um passei no dia da folga dele. – Kurt veio falando animado enquanto se aproximava. – Com quem está falando?

— Hã, pessoal da comissão, eles querem saber como foi meu primeiro dia. Negócios.

— Chato! Vê se não demora aí porque eu quero ir embora logo jantar. Preciso de detalhes da conversa com sua irmã também. – Entrou no carro e ficou a espera da latina.

— Desculpa. – Voltou a conversa com Brittany, agora falando um pouco mais baixo. – Você dizia...

“- Eu... Eu... Eu sonhei com você! Foi isso. Eu sonhei com você e não foi bom. Eu precisava saber se você estava bem.”

— Que fofa! – Sorriu. – Eu estou bem. Muito cansada e um pouco assustada com minha própria irmã, mas eu estou bem. Mas tenho que admitir que sinto sua falta e a de Luca.

“- Nós também sentimos...” — Brittany pode ouvir o barulho da buzina e Kurt gritar por Santana.

— Se acalma! Vai tirar a mãe da forca? – Ralhou com o amigo. – Eu já preciso ir. Mas qualquer coisa, me liga. Eu prometo me esforçar pra atender, ou manda mensagem.

“- Claro! Você também. Faça o mesmo. Boa noite!” — Desligou o mais rápido que pode.

Brittany sentou-se em sua cama e puxou o envelope que estava em cima de seu criado, abriu o mesmo e jogou o seu conteúdo pela cama. Observou tudo com atenção e mordeu seu lábio. Ela estava sozinha e aflita, não poderia contar com Santana. Ela obviamente tinha outras prioridades. A opção de Brittany foi ligar para suas amigas, elas sim poderiam orientá-la.

Notas finais
E aí? O que acharam? Gostaram? Até o próximo. Beijos.