Who are you?
34 Problema Pouco é Bobagem.
Notas iniciais
Brittany mal conseguiu dormir à noite, a ansiedade a impediu, como resultado o seu humor naquela manhã estava péssimo. Mas ela não sabia dizer se podia culpar totalmente a sua falto de sono, ou o fato de que ficou imaginando Santana dormindo com outra mulher. Mesmo que elas não estivessem juntas como um casal, ou fizessem “o que todo casal faz” (tentava usar essa expressão pra não se frustrar mais), mas apenas o fato de Dani estar ao lado da latina e não ela, isso já a enfurecia tremendamente. Tudo isso ainda era somado ao fato de que, a cada dia, parecia que um problema novo batia a sua porta.
Porta. Ela ouviu baterem a porta de seu escritório e foi automaticamente retirada de seus pensamentos.
— Entre.
— Senhora Pierce, eu vim lhe entregar os convites de hoje à noite.
— Convites? – Perguntou confusa.
— Da apresentação de dança que a senhora pediu que comprasse para que fossemos juntas. – Disse meio sem jeito, se sentia desconfortável por sair com a sua chefe e ainda mais pelo fato de que, aparentemente, ela havia se esquecido.
— Ah, claro! Desculpe, a minha cabeça estava nas nuvens. Mas pode guardá-los com você, do jeito que eu estou é capaz que eu esqueça aonde os coloquei. Além do mais, você vai ir me buscar no seu carro novo, se esqueceu?
— Não senhora. Mas eu gostaria de falar sobre isso... E-eu não sei se é correto nós sairmos juntas, quero dizer, a senhora é minha chefe e...
— E daí? Eu posso ser sua amiga também. Já disse, Marley, você está tão presente na minha vida, não é como se fossemos duas estranhas. Então, não aceito não como resposta. Além do mais, eu estou precisando, você está vendo o meu estado? Se você se recusar ir comigo, eu também não vou. Vamos perder um belíssimo espetáculo e eu posso ficar muito, muito chateada com você.
— Tudo bem, senhora Pierce. – Riu de canto achando hilário aquele jeito de Brittany.
— Com licença. – Rachel bateu a porta e colocou sua cabeça pra dentro da porta. – Desculpe ir invadindo, mas não havia ninguém na recepção. – Logo Brittany pode ver Quinn ao lado da morena.
— Entrem, por favor. Eu estava conversando com a Marley, mas já terminamos. Ela já me entendeu, não é mesmo? – Olhou séria para a secretária.
— Sim, senhora. Com licença. – Retirou deixando as três amigas a sós.
— Um triplo? – Quinn pegou o enorme copo de café em cima da mesa de Brittany. – Alguém está inspirada.
— Eu julgaria “acabada”, apenas por essas olheiras. – Concluiu Rachel, logo se sentando de frente para a amiga.
— Eu não dormi nada. Eu estou agoniada, receosa, ansiosa e todas as palavras com “osa” que se encaixem. – Levantou-se e começou a começou a andar de um lado pro outro, deixando evidente a sua agitação.
— E o motivo disso é Santana Lopez? – Indagou Quinn.
— Ela está no centro. Não vou negar e nem poderia. Mas é muita coisa agregada. E a principal delas e o motivo pelo qual eu pedi que viessem até aqui é esse. – Ela pegou o envelope que tinha recebido na manhã anterior e jogou seu conteúdo sobre a mesa.
— Aí meu Deus! Quem te mandou isso?
Quinn foi a primeira a se pronunciar ao ver fotos intimas de Brittany e Santana juntas, sendo que apenas em uma delas aparecem de fato se beijando. Elas estavam dentro do carro parado, ousaram imaginar que estariam seguras, pois sempre foram discretas em público. Entretanto, pequenos gestos as entregavam, foi assim que Quinn havia notado o romance delas. Mas nada disso seria comprometedor, se não fosse à foto do beijo.
— Eu não sei. Marley disse que estava no meio das outras correspondências, eu fui pessoalmente perguntar pro porteiro e ele disse que foi um serviço de entrega particular. Mas veio com um bilhete. – Puxou o papel do bolso. – E eu fico lendo e relendo sem saber o que fazer.
— Deixe-me ver. – Rachel pegou o bilhete e começou a ler. – “Cara senhorita Pierce, depois de testemunhar seu incrível desabafo na festa de aniversário de seu filho, sabia que em algum momento eu teria a sorte de testemunhar mais um grande escândalo para a mídia. De fato, meu trabalho como paparazzi me rendeu essas maravilhosas fotos. Intrigado pelo comportamento da moça latina que te salvou do vexame daquela noite, não foi difícil perceber que eram inseparáveis, apenas não imaginava o quanto. Com certeza essa foto valeria muito se negociada para a empresa certa, mas resolvi dar uma chance para a presidente da maior delas. Duvido que o respeitado Rafael Pierce queira um escândalo envolvendo sua herdeira, muito menos que seu marido saiba que mantem sua amante de baixo de seu teto. Voltarei a me comunicar com você, darei um dia para que pense numa proposta generosa. Ou então, terei o prazer em vazar as imagens.”
— Você já falou com Santana sobre isso?
— Eu não consegui. Quando finalmente conseguimos nos falar, ela estava tão enterrada com as suas coisas e aquele amigo dela ficou a acelerando, que eu achei inconveniente enche-la com isso. Além do mais, o que ela poderia fazer? Sair correndo de Albany com a noiva dela pra vim pra cá?
— E não é o certo? É algo que diz respeito a ela também.
— Quinn está certa. Vocês precisam resolver isso juntas.
— Não! Eu posso resolver isso sozinha. Além do mais, a única prejudicada seria eu. Sou eu quem tem marido, filho e um pai autoritário. Santana tem a sua sexualidade bem imposta e não tem problema com isso, não teria prejuízo nenhum. Agora se eu fosse exposta... Eu nem quero imaginar...
— Mas Brittany, se você está pensando em pagar essa chantagem, você sabe que é um buraco sem fim, né? Essa pessoa vai ficar te dominando pro resto da vida.
— E o que me resta, Quinn? Deixar que essas fotos vazem? Prestar queixa de um anônimo?
— Precisa pensar em uma garantia. Que ele te entregue os originais. Nem que seja pra ganhar tempo, podemos chamar o Noah de volta e pedir que ele fique de olho.
— Ainda é arriscado, amor.
— Mas gosto mais dessa ideia. Rachel está certa, nada vai me garantir que ele vai me entregar todas as fotos, mas posso dizer que só aceito entregar a quantia pessoalmente, pelo menos eu vou saber com quem estou lidando.
— E se a pessoa for perigosa?
— Perigoso são essas fotos circulando por aí. Eu não sei como eu fui dar tanto mole assim.
— Mas quem poderia imaginar que estavam sendo seguidas?
— Eu devia, Rach. Eu sou uma pessoa que faz a mídia acontecer e que causei um grande escândalo como ele disse. Nos primeiros dias foi mais evidente o assédio da mídia, mas eu devia saber que eles continuariam no meu pé.
— Não adianta chorar pelo leite derramado, vamos só esperar essa pessoa entrar em contato novamente. – Nesse exato momento o telefone tocou e as três se olharam com um ar de surpresa. – Essa foi rápida! – Quinn riu.
— Deve ser só a Marley. Alô? – Brittany atendeu.
“- Senhora Pierce, o senhor Medina está na linha e deseja falar urgentemente com a senhora.”
— Pode transferir, Marley. – As garotas em sua frente relaxaram. – Pois não, Medina? Como está tudo?
“- Senhora Pierce, eles chegaram!”
— Quem chegou?
“- Os Federais. Eles querem começar a auditoria, já pediram vários documentos e chamou todos os representantes de setores. Como devemos proceder?”
— Deixem que eles façam o trabalho deles. Procure o responsável e se apresente como meu delegado, chame também alguém do jurídico pra te acompanhar. Já era hora, mais cedo ou mais tarde eles chegariam.
“- Senhora Pierce, vai ser uma mega operação, a situação está mais crítica do que imaginamos, pois não previmos um ponto. Os carros deles quase fecharam a rua, está chamando a atenção até dos concorrentes. Vai sair em todos os lugares, nossas ações vão desvalorizar, não conseguiremos um bom preço nas negociações na hora de vender, pra conseguir o dinheiro pra sanar as nossas dividas.”— Brittany levou a mão ao rosto e suspirou preocupada.
— Então vamos sair na frente dos concorrentes. Eu quero que publiquem uma nota. Coloquem o nosso melhor repórter pra noticiar. Vamos vender a nossa própria tragédia. Nós temos vantagens sobre os nossos concorrentes, não é mesmo? Já está feito, senhor Medina. Eu quero um relatório completo de tudo o que acontecer aí. Eu vou notificar o meu pai, provavelmente ele vai querer acompanhar de perto. Eu não vou fazer mais nada além de tentar salvar o que der. No fundo, acho que os Evans e Pierce merecem esse golpe.
“- Como à senhora preferir.”
— O que foi? – Quinn perguntou preocupada assim que a amiga desligou o telefone.
— A Polícia Federal chegou, eles vão começar a fazer a auditoria, mas Medina teme que com toda essa exposição faça com que nossas ações percam o valor. Que quando formos abrir capital pra poder pagar as nossas dividas, não consigamos uma boa quantia. Nós vamos perder milhões. Vai me restar vender as minhas propriedades, mas vai demorar mais e o prazo acaba na sexta.
— Britt, Quinn e eu temos uma boa reserva, nós...
— Não, não, não, Rachel. – A interrompeu antes de terminar. — Agora que você e Quinn estão se estabilizando e tem um bebê a caminho. Nem que a gente perca uma parte significativa da empresa, eu vou aceitar a proposta da Kitty e vender o que é dela. Depois, quando estivermos estabilizados, eu divido a minha parte com ela, ou compramos as ações de volta. Eu não sei... Mas eu vou achar uma saída com meus economistas. – Apoiou os cotovelos na mesa e fechou o rosto com as mãos. – Parece que eu sou a única a tentar salvar esse lugar.
— Cadê o seu pai nessas horas?
— Quinn, ele disse que não vai abrir mão de nada que é dele. Já que os Evans disseram que assumiriam a responsabilidade quando o ameaçaram, eles que cumprissem com a palavra. Mas nós já sabemos que eles estão falidos. Eu que não vou pagar pra ver.
— Não queria dizer, mas parece até castigo. Sempre se importaram demais com o dinheiro, status e tudo mais. Negociaram o destino de seus filhos, por mais que na época estivessem apaixonados, mas olha como facilmente essas coisas vão pro espaço. E então o que resta? Um casamento fáalido, magoas e caos. – Rachel refletiu e as outras duas mulheres não puderam deixar de concordar.
O dia foi complicado para Brittany, assim que a nota de sua empresa foi a público, muitos outros grupos de comunicação começaram a entrar em contato, querendo que ela ou Sam concedessem algum tipo de entrevista. Com isso, assim que ela notificou seu pai, não demorou para que ele surgisse na empresa. O prédio estava cercado de jornalistas, o tumulto na rua era evidente. Por meio de Lisa, Brittany ficou sabendo que em sua casa estava igual.
— Bando de abutres carniceiros! – Brittany pode ouvir a voz irritada de seu pai, que logo chegou a sua sala. – Como você autoriza a liberação dessa nota? – Jogou o jornal, edição especial, em cima da mesa e o seu celular com a página online aberta. – E ainda está em nossos canais e qualquer um da concorrência. – Pegou o controle da televisão e a ligou, mudando de canal em canal, que em sua maioria trazia o mesmo destaque. – Quer terminar de nos arruinar?
— O que eu poderia fazer? Dizer que os policiais da federal que fecharam o nosso prédio em Queens foram só tomar um café com nosso pessoal? Pelo amor de Deus, papai. Além do mais, eu estou dando o meu jeito. Isso aqui que o senhor está me exibindo está rendendo dinheiro. Dinheiro que pode ser bloqueado a qualquer momento se não pagarmos as nossas dívidas e não esclarecermos o grande golpe milionário junto a Receita. Então, no momento que o senhor tiver uma solução melhor, eu permito que venha criticar as minhas decisões. Eu sou a presidente dessa empresa, o que confere a mim e ao meu querido esposo as honras de decidir nosso futuro. Mas creio que ele não seja o mais indicado...
— Já chega! – Deu um forte murro na mesa, chegando a ferir a própria mão, o que fez também que Brittany pulasse com o susto e se retraísse. – Eu estou cansado de insolências! Desde o dia de Ação de Graças eu estou no meu limite com você e sua irmã. Eu fui conversar com os bancos, mas todos os outros já foram alertados pelos nossos credores que devemos a eles. Já sei que está negociando suas propriedades e que mais cedo abriu a venda do capital. Eu não estou fora disso. Só quero que entenda que não é tudo que você pode fazer. Tem um limite pra você aqui.
— Então assuma! Eu lavo as minhas mãos e não faço mais nada. Eu estou cansada de suas ameaças, cansada de sua ingratidão, porque se não fosse eu... Eu nem sei o que seria disso. Eu amo o meu trabalho, amo o que eu faço e essa empresa. Mas eu não vou me matar mais por isso e depois ser questionada pelos meus atos. Você pediu, ou melhor, me forçou a ficar no cargo porque faz parte do contrato idiota. Mas eu não vou mais tolerar que entre na minha sala e me trate assim. Por isso, o senhor escolhe, ou se retira e me deixa trabalhar, ou saiu eu e vou pra casa esperar pra ver o que vai dar na sexta-feira.
— Não sei o que te subiu a cabeça, mas eu espero que desça. E rápido!
— Eu não vou falar de novo. Se o senhor não sair, eu vou pra casa, pego o Luca e juro que eu sumo no mundo assim como a Kitty fez.
— Ela fez e voltou pra casa. Você devia começar a questioná-la porquê. – Começou a andar em direção a porta. – Cuidado que o tombo é grande, Brittany.
— Eu digo o mesmo.
— Senhora Pierce, a senhora está bem? Eu ouvi um estrondo. – Marley entrou na sala preocupada.
— Tudo perfeito! Arrume suas coisas e vamos embora, Marley. O expediente acaba mais cedo pra gente. Não quero receber notícias da empresa mais hoje. Não quero que anote mais recados até que o próprio Medina me ligue. – Ela juntou as suas coisas e se levantou. – Eu te aguardo às 19h em frente de casa, vou pedir pros seguranças te liberarem. Deve estar um inferno aquele lugar.
— Sim, senhora. – Foi a acompanhando até o lado de fora da sala.
— Bom trabalho! – Disse Sam indo de encontro pra mulher.
— Não estou pras suas gracinhas, Evans.
— Eu estou falando sério. Bom trabalho. Eu só quero avisar que quando isso tudo acabar, eu vou pedir o divórcio. Que se dane os meus pais, eu não tenho mais nada pra perder. Vai ser tudo da sua família. Eu estou farto!
— Talvez eu também esteja, Sam. – Continuo a caminhar.
O divórcio era tudo o que ela sempre quis de Sam, poder levar sua vida longe dele, longe daquele compromisso que a sufocava. No entanto, pela primeira vez, ela percebeu que sua liberdade ia muito além de seu casamento ou de seu pai. Começou a se questionar se sua falta de liberdade não era causada por ela mesma que se prendeu por tantos anos. Afinal, era revigorante poder alterar o tom de voz com seu pai, sair de sua empresa quando quisesse, tomar suas próprias decisões. Talvez ela precisasse de Santana há muito tempo para lhe mostrar que quando se tem controle da própria vida e de suas ações, a liberdade já existe.
Já Santana chegou em casa esgotada de seu dia de trabalho, naquela tarde havia visitado as fábricas que produziam seus produtos e se apresentado para seus funcionários. Seus pés estavam lhe matando por andar por várias repartições de salto durante o dia todo. Então, assim que entrou em sua casa, a primeira coisa que fez foi se livrar de seus calçados e caminhar o mais rápido que pode pro seu quarto, podendo em fim se jogar em sua cama. Estranhou o fato de que a casa estava silenciosa, nem Kurt e nem Dani se faziam presentes. Lembrou-se de como era bom chegar na casa de Brittany acompanhada dela e irem direto pro quarto de Luca, ele era uma criança incrivelmente graciosa, que enchia suas tardes de alegria, mesmo depois de tanto cansaço. Parecia loucura como uma criança tinha o poder de preencher vazios. E havia um vazio nela que parecia ser difícil de ser remendado. E o nome disso era saudade.
— Eu não sei se vou suportar. – Disse pra si mesma, enquanto tentava alcançar seu celular pra poder mandar uma mensagem para Brittany, mas a porta de seu quarto se abriu com rapidez e ela pode ver uma figura loira atravessar o quarto e chegar até a cama com certa animação. – Dani. – Formou um pequeno sorriso ao vê-la ir para cima de seu corpo esparramado na cama.
— Oi, baby. – Selou seus lábios. – Sabia que Kurt mal chegou na cidade e já tem um encontro? Eu tive que sair com ele pra comprar roupas novas. Ele está bastante empolgado!
— Blaine, da clínica da minha irmã. Eles se deram muito bem logo de cara. – Deu de ombros.
— É, vai ser bom pra ele, tem muito tempo que está sofrendo por um babaca. – Fez uma careta e depois voltou sua atenção para Santana. – E eu acho que a gente pode aproveitar para sair também, o que acha? Eu e você, um programa romântico...
— Eu estou tão cansada. A gente não poderia remarcar? – Assim que fez a pergunta pode perceber as expressões tristes de Dani.
— Claro. Vou deixar você descansar. – Suspirou desanimada enquanto tentava se levantar.
— Espera. – Sentiu-se mal por deixar a noiva daquela forma. – Eu preciso de um banho, ainda não comi. Que tal pedirmos algo, abrimos um vinho e ficamos aqui? Juntas, sabe... – Ela precisava tentar, ela precisava tirar aquela dúvida de sua cabeça e sabia que evitando Dani não conseguiria nada.
— Tudo bem! – Voltou a sua animação inicial. – Enquanto você toma banho eu vou pedir comida japonesa pra gente. Volto logo. – Deu um beijo rápido em Santana e saiu do quarto.
Santana não pode deixar de rir do jeito moleca que ela tinha.
— Isso que dá ser gostosa, Santana. Tem muitas mulheres te querendo. – Riu sozinha enquanto começava a atualizar suas redes sociais e as notícias em seu celular, até que uma em especifico lhe chamou a atenção, a nota da empresa dos Pierce e Evans. – Eu não posso acreditar nisso!
— Não pode acreditar no que, baby? – Perguntou distraída enquanto fazia seu pedido de comida pelo celular.
— Nada, problemas da empresa. Vou pro meu banho. – Correu em direção do banheiro e de lá começou a ligar para Brittany. – Atende, atende, atende.
Brittany até viu seu celular tocar, viu que era Santana quem chamava, mas resolveu ignorar. Ela não estava com cabeça para ser madura e fingir que tudo estava bem. Estava tudo desmoronando e ela apenas queria se desligar daquilo agora, mas não seria com Santana, a latina não podia lhe ajudar em nada, não enquanto tivesse uma noiva em sua vida e um amigo em sua cola para controlá-la. Então, apenas jogou o celular na bolsa e desceu para encontrar Marley que já a esperava na sala de sua casa. Ao encontrá-la Brittany teve uma surpresa. Marley estava com um vestido e meia calça, sapatos de saltos e cabelos soltos. Um sobretudo azul marinho que combinava com o tom de seus olhos. Era totalmente diferente da mulher que via todos os dias em seu escritório, pois lá era sempre uma calça social preta e uma blusa social de tons claros, maquiagem muito leve e cabelos presos num rabo de cavalo, além de que seus olhos ficavam escondidos pelas lentes dos óculos que usava. Com certeza a pessoa que estava ali era outra mulher.
— Me diga que não é uma irmã gêmea de Marley, porque de gêmeas eu estou cheia. – Brincou.
— Posso te garantir que ainda sou a mesma Marley Rose, senho... Brittany. – Se corrigiu antes que Brittany o fizesse.
— Muito bem, senhorita Marley Rose. Gostaria de dizer que está muito bonita!
— Você também está! – Retribuiu o elogio, um tanto envergonhada.
Ela já tinha visto a chefe em trajes menos formais, nas revistas, nas vezes que trouxe documentos para ela assinar em casa. Marley sabia que ela era uma mulher charmosa e atraente. E naquela noite não era diferente. Brittany estava com um vestido preto de mangas longas, mas com um generoso decote na frente, não tão curto se considerasse o frio, mas que logo foi coberto por um elegante casaco. Maquiagem bem feita, cabelos presos em um coque não tão rígido. Linda! Era o que melhor podia descrever.
— Teve muita dificuldade de chegar até aqui? – Perguntou enquanto recolhia sua bolsa.
— Um pouco, acho que eles não vão sair de seu portão tão cedo.
— É, eu só espero que não façam tumulto pra não assustar meu filho. Vamos?
— Claro! Por favor.
Brittany e Marley sofreram pra se livrar dos repórteres e Brittany insistiu para que ela dessem algumas voltas antes de ir para o teatro, queria ter a certeza de que não estava sendo seguida por ninguém e Marley a obedeceu.
Já Santana estava agoniada com a falta de resposta de Brittany. Enquanto Dani recebia a comida, ela voltou para o banheiro e ligou agora para Rachel e Quinn, não demorou para ouvir a voz da morena no outro lado da linha.
— Rachel? Desculpa te incomodar, mas eu gostaria de saber se você tem notícia da Brittany. Eu estou tentando falar com ela, mas não me atende. Eu vi as notícias e estou preocupada.
“- Santana!” — Ao ouvir aquele nome, Quinn que estava ao lado da mulher passou a prestar atenção na conversa. – “Eu não sei de Brittany desde tarde, ela disse que iria para casa um pouco mais cedo descansar, pois estava com a cabeça doendo de tantos problemas. Mas não se preocupe, ela está segurando firme.”
— Ela deve estar descansando então. Eu ligo amanhã pra conversar com ela. Mas eu posso pedir um favor? No que ela precisar, me mantenha informada?
“- Claro! Claro que eu te falo! E como vão as coisas por aí?”
— Cansativas. Mas bem, só que eu sinto saudades de vocês.
“- Nós também sentimos saudades.”
— Santana, se demorar muito você vai perder o filme.
— Eu já vou! – Suspirou. – Rachel, por favor. Não se esqueça do que eu pedi.
“- Não vou. Boa noite, San!” — Desligou o telefone.
— Rachel Barbra Berry Fabray, por que você mentiu pra Santana? Por que não contou pra ela que Brittany não está em casa? Que ela não está bem? E que as coisas podem desmoronar?
— Eu sei que você é contra, mas quem tem que se entender é ela e Brittany, não vou me meter.
— Mas eu tenho medo que se a gente não fizer algo, elas acabem se perdendo... – Falou desanimada.
— Eu também. O que seria uma pena, porque elas estão realmente apaixonadas.
Horas mais tarde Brittany e Marley saiam encantadas do teatro, as duas falavam animadas e sem parar sobre a apresentação da companhia de dança. Elas tinham um fascínio tremendo por essa expressão artística e poder compartilhar isso com alguém era ainda melhor. Elas tinham uma boa conexão, quando estavam despidas do papel de chefe e empregada elas conseguiam se entender bem, o assunto fluía com facilidade.
— Foi tão maravilhoso! E você ainda queria perder esse espetáculo por uma vergonha boba. – Falava empolgada com um sorriso no rosto.
— Valeu mais a pena por poder ver a senhora mais descontraída e sorrindo, por algumas horas se desligou de seus problemas...
— Não! Não fale essa palavra. Ela está proibida essa noite! Eu quero esquecer dos problemas. Estou feliz demais pra isso. Tem tanto tempo que eu não faço um programa assim. E é bom, sabe? Poder se dedicar a algo que faz bem pra si.
— Eu concordo. – Destravou seu carro e ambas entraram no mesmo. – Quer que eu a leve pra casa ou está faminta como eu?
— Eu estou faminta! – Riu um pouco. – Me leva pra sua casa, podemos pedir algo lá. Não quero ficar exposta por aí, nem tão pouco ir pra minha casa agora.
— Tem certeza? Posso tentar achar um lugar mais discreto ou sei lá...
— Está com vergonha de me levar pro seu apartamento? Tá escondendo alguma coisa nele?
— Não! – Respondeu rapidamente e Brittany teve que rir. – É só que eu estive em sua casa. Ela é tão sofisticada e linda! Sinto que meu humilde apartamento não está a sua altura. – Brincou.
— Não seja boba. Eu vou adorar conhecê-lo. Tenho a sensação de que é um espaço bem agradável. – Sorriu e pode ver Marley sorrir de volta.
Em pouco tempo elas chegaram ao apartamento de Marley, que assim como Brittany tinha imaginado, era um lugar delicadamente organizado e que refletia bem a personalidade serena e carinhosa de Marley. As paredes com muitos porta-retratos, os pequenos objetos decorativos e até mesmo as cores alegres diziam que era um lugar tranquilo e minimamente pensando para o refúgio da dona.
— Eu não me enganei. Seu apartamento é lindo!
— Obrigada. Sinta-se a vontade. – Indicou o sofá para ela e recolheu o seu casaco. – O que a senhora vai querer comer?
— Marley, uma pizza já me faria tremendamente feliz.
— É viciada em pizza. Eu já percebi.
— O que você não percebe, Marley? – Brincou e pode ver as bochechas da mulher corarem, era fofo. – Mas eu tenho que diminuir essa minha mania, essas pizzas estão indo direto pra minha bunda.
— Ah, mas a senhora é linda, pode se dar a esse luxo. – Quando percebeu o que tinha acabado de dizer, sentiu que seu rosto queimava em brasa. – E-eu vou fazer o pedido. Quer beber algo? – Mudou de assunto.
— Vinho, se tiver. Meu corpo pediu por isso o dia todo.
— Não deve ser dos melhores, mas acho que devo ter algum.
— Obrigada, Marley. Você é muito gentil.
Viu a secretária se afastar e voltou a caminhar pelo apartamento observando cada detalhe. Era algo do tipo que queria pra ela, não a decoração ou o lugar, mas sim o seu próprio canto, seu próprio esconderijo, estava tão submersa em seus pensamentos que levou um susto quando percebeu que Marley estava de volta ao seu lado.
— Espero que goste. – Entregou a taça a ela.
— Acho que você deve me achar uma fresca pra me tratar assim.
— Eu apenas tenho noção de que somos de realidades diferentes. – Brittany teve que concordar.
— Você vai me deixar beber sozinha?
— Já vou me servir, apenas quero trocar de sapatos. Estes são lindos, mas estão me matando. – Voltou a se retirar.
Brittany tomou sua taça de vinho e voltou a se acomodar no sofá de Marley, que era extremamente confortável, ou ela que estava tão cansada que seu corpo agradecia por estar finalmente repousando. Ela não havia dormido nada na noite anterior, tinha se mantido firme durante o dia porque o estresse e a adrenalina dos últimos acontecimentos a obrigaram. Mas ali, naquele momento, estava totalmente relaxada, tão relaxada que não pode evitar que seus olhos se fechassem e nem tão pouco que caísse nos braços de Morfeu.
Quando Marley voltou para sala já era tarde, Brittany havia pegado em um sono profundo. Ela não pode deixar de achar graça, mas mais do que isso, era engraçado como até mesmo dormindo a sua chefe não perdia a “elegância”, ou melhor dizendo, não deixava de ser linda.
— Pobre senhora Pierce. O dia foi realmente esgotante, precisava mesmo descansar.
Marley foi até seu quarto e pegou uma coberta para cobri-la. Para deixá-la mais confortável tirou seus sapatos e abaixou a luz da sala. Depois foi para um banho, também precisava relaxar.
Distante de lá, Santana e Dani tinham uma noite agradável. Elas tentaram assistir ao filme, mas a conversa sobre o passado em comum dominou a noite. Santana tinha muitas perguntas e Dani todas as respostas que ela precisava. Além de que era uma forma de se reconectarem. Santana sentia uma atração forte pela mulher que Dani era, forte e decidida. Mas sentia que precisava sentir bem mais do que aquilo.
— Eu não acredito que você me fez pagar o mico de cantar na festa de fim de ano da empresa.
— Você, Kurt e eu, querida. Estávamos todos encorajados pela vodka. Mas você canta divinamente. Sua voz é a coisa mais gostosa do mundo. Senti falta dela. Sinto falta dela.
— Não está me ouvindo agora? – Perguntou Santana com um sorriso.
— Sinto falta dela gemendo pra mim, sabe... Ela rouca, dizendo coisas excitantes em meu ouvido. – Provocou.
— Eu...
— Eu sei. Está confusa e não está pronta, não precisa me dizer nada.
— Eu acho que deveria tentar.
— O quê?
— Eu acho que eu deveria tentar. Sexo é uma das coisas mais intensas que um casal pode fazer juntos. Seus corpos se conectarem e te levarem além... Quem sabe muito mais lembranças não se formem.
Dani não esperou que ela dissesse mais nada, não esperaria que ela mudasse de ideia, então segurou delicadamente em seu rosto, mas a puxou com firmeza para que seus lábios se encontrassem em um beijo. Quando as mãos de Santana chegaram em seus cabelos e em suas costas, ela tinha certeza que aquilo podia ser real e a envolveu, tomou seu corpo, deitando por cima dela e tornando o beijo cada vez mais intenso.
Santana não tinha certeza se isso estava correto, mas uma parte de si dizia que havia algo errado. Mas Dani era a sua noiva e aquilo precisava ser feito. Estava sendo feito.
No apartamento de Marley, Brittany acordou com a insistência do interfone. Marley estava no banho e havia se esquecido que momentos antes tinha pedido comida, quando a loira se deu conta de que tinha adormecido e que Marley havia deixado, e mais, a acomodado em seu sofá, sentiu vergonha de si mesma e de seu desgaste. Ela foi receber a pizza e a pagou, quando a Marley voltou a sala envolvida em um roupão e toalha na cabeça, pois tinha saído assustada do banheiro depois de ouvir o interfone, deparou-se com Brittany acabando de fechar a porta.
— Desculpa, eu me esqueci e eles acabaram te acordando, não foi?
— Não se preocupe, ainda bem que aconteceu. Eu não acredito que me deixou dormir.
— A senhora estava precisando, não ousaria acordá-la.
— Senhora. – Balançou a cabeça negativamente. – Nós já atravessamos quase todos os níveis de intimidade em uma noite. Eu babei no seu sofá, eu estou te vendo de roupão e ainda continua me chamando de senhora. O que mais precisa acontecer pra que ele desapareça?
— É à força do hábito, não pode me culpar por isso. Sem contar que eu sempre fico nervosa com a senhora tão perto.
— Nervosa? Como? – Levantou sua sobrancelha, não acreditava que estava literalmente colocando Marley contra parede, que estava cada vez mais acanhada, enquanto brincavam de flertar? Estavam flertando?
— Ah... É que é minha chefe, mas é intimidadoramente linda e agora está invadindo o meu espaço pessoal, isso me confunde. – Foi falando sem pensar.
— E você fica encantadoramente linda assim.
— Minha vergonha te diverte? – Tentou aliviar aquela tensão, que embora fosse boa, também era perigosa.
— Isso eu acho uma graça, outras coisas me divertem. – Céus, Santana havia encarnado nela? Ela estava falando como a latina.
— E o que te divertiria agora? – Usou de toda sua coragem insana para provocá-la.
Brittany deixou a caixa de pizza numa mesinha próxima e voltou-se para Marley, segurou no roupão e a puxou pra perto de si. Suas respirações quentes começaram a se confundir, seus lábios se tocaram com curiosidade e experimentaram um gosto novo quando se envolveram em um beijo que apesar de intenso, era calmo.
Quando suas línguas se tocaram, tudo caminhou mais rápido. Marley indicou o caminho do quarto a Brittany sem que se separassem. Suas mãos não tinham parada fixa e supriam a necessidade que sentiam de contato de pele. Para Brittany foi fácil se livrar do roupão de Marley e colocá-la deitada na cama,tendo acesso a todo seu corpo.
Marley ainda sentia-se acanhada, mas tentou fazer com que isso não lhe impedisse de se aproveitar do corpo maravilhoso que a cobria. Enquanto uma de suas mãos descia o zíper do vestido da loira, a outra apertava e acariciava a bunda dela por de baixo do tecido. E era mágico sentir como Brittany respondia beijando e chupando seu corpo.
Brittany começava a traçar o caminho dos seios de Marley quando ouviu a música do filme infantil “A Pequena Sereia” começar a tocar. Instintivamente ela se levantou e começou a procurar de onde vinha o toque, reparando que era o celular de Marley que vibrava sobre o criado mudo.
— Aí meu Deus! É a minha irmã, que vergonha. – Colocou as mãos sobre seu rosto, estava extremamente envergonhada.
— Tudo bem, tudo bem. Não precisa ficar assim, acho fofo que tenha um toque especial pra sua irmãzinha.
— Sim, mas... Num momento assim. – Seu rosto estava completamente vermelho. – Estou envergonhada, que mico.
— Bom, digamos que estamos quites agora. Eu dormi no seu sofá, acho que é bem vergonhoso também. – Pegou o celular e o entregou a Marley. – Deve ser importante. – Levantou-se da cama e a deixou a vontade no quarto para poder atender, já arrumando seu vestido de volta, definitivamente aquilo não era pra acontecer.
— Brittany. – Quando voltou à sala, Britt pode perceber que já estava devidamente vestida. – Minha irmã pediu para que eu fosse buscá-la em casa. Meus pais estão em processo de separação, está sendo complicado pra ela.
— Eu entendo. Eu estava checando meu celular e parece que minha irmã está indo pra minha casa também, parece ser urgente. Eu vou pedir um táxi.
— De jeito nenhum, eu fui te buscar, eu vou entregar.
— Vai ficar muito tarde pra você pegar sua irmã. Dirigir por aí sozinha.
— Eu insisto. Qualquer coisa eu durmo com ela, já vai ajudar.
— Ok, então vamos.
Aquela horaa da noite as ruas se encontravam mais vazias, sendo difícil pra Marley chegar à casa de Brittany, a não ser na entrada, que ainda contava com alguns repórteres. Assim que Marley parou o carro em frente a casa, Brittany pode ver Kitty sair de dentro do imóvel e correr em direção do automóvel. Sua irmã estava com uma expressão chorosa, roupas de moletom e sem qualquer produção. Aquela não era sua irmã vaidosa, alguma coisa realmente grave havia acontecido. Brittany então desceu do carro e foi ao encontro dela.
— Kitty, o que aconteceu? Por que está assim? Te fizeram alguma coisa?
— Brittany, me ajuda, pelo amor de Deus me ajuda. Onde está o Sam? Onde eu posso encontrá-lo? Eu preciso encontrá-lo! É urgente!
— Eu não sei, eu não estava em casa. Eu acabei de chegar. Mas por quê? Por que precisa do Sam? O que aconteceu? Me conta e eu te ajudo.
— Você não pode, tem que ser o Sam, eu preciso achar o Sam. – Dizia completamente nervosa e aquilo estava agoniando Brittany.
— Olha pra mim, Kitty. Olha pra mim. – Segurou o rosto dela com as duas mãos. – É claro que eu posso te ajudar, eu sou sua irmã. E eu vou encontrar o Sam com você se for tão importante, mas primeiro tem que me dizer o que está acontecendo.
— Meu filho, Brittany. Ele está na UTI, ela está morrendo. Ele precisa de transplante de medula. Eu não sou compatível, a minha última esperança é o Sam.
— Filho? Que filho? E por que o Sam? – A cabeça de Brittany começou a girar.
— Me desculpa, Brittany. Me desculpa. – Começou a chorar ainda mais. – Eu não perdi o meu bebê, eu não perdi. Eu tive o meu filho e ele está morrendo. E ele precisa do pai. O Sam é o pai, me desculpa. Perdão.
Brittany sentiu a mesma sensação ruim de quando descobriu sobre Santana na delegacia. Mas aquilo doía mais, muito mais. Aquilo foi como uma facada em seu peito dada por uma das pessoas que ela mais amava no mundo.
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