Who are you?
17 O Retorno.
Notas iniciais
O retorno pra casa foi muito mais calmo do que a ida, Santana se demonstrava calada e pensativa, as ultimas revelações não foram fáceis para ela. Deveria trabalhar sua memória para se recordar do que de fato havia acontecido com sua família. Sua avó seria a maligna? Ou suas lembranças falhas a levavam a esse pensamento? Será que seria ela a causadora de tudo? Ela seria realmente capaz de ter matado os próprios pais? E o que mais se perguntava: por quanto tempo teria o apoio de Brittany se não conseguisse provar sua inocência?
Brittany, por outro lado, se sentia dividida. Ela confiava e acreditava em Santana, achava que a mesma não era capaz de assassinato, ainda mais dos próprios pais. Entretanto, sabia que se, por acaso, estivesse enganada, poderia sofrer graves consequências. Não só por acobertá-la, não, isso não era o que mais lhe preocupava. Mas sim o fato de permitir que Santana continue em sua casa, pondo em risco a si e ao seu filho, ainda mais se entregando a uma paixão com a mesma. Seu coração poderia se partir mais uma vez.
Mas não, ela não devia pensar nisso e sim que estava voltando para casa com a sua carta de alforria nas mãos. Dentro de alguns dias a empresa estaria passando por uma forte investigação, Sam não teria outra escapatória além de entregar a presidência e o dinheiro desviado e ela estaria solteira para... Para Santana? Esse era um outro ponto que ela não havia pensado. Estar com Santana, namorar Santana, assumir Santana. Estava mesmo preparada para isso?
— Vamos por partes, Pierce! — Disse para si mesma, mas foi o suficiente para tirar a latina de seus pensamentos.
— O que disse?
— Que estamos chegando. — Disse com um sorriso de canto, indicando a casa logo a frente.
Assim que desceram do carro, Brittany praticamente voou para dentro da casa, tinha muito que esclarecer com Sam, mas também precisava matar a saudade de seu pequeno amor. Sua mãe a esperava na sala com Luca, que também logo que a viu indicou os braços para que fosse pego pela mãe.
— Meu amor! Que saudades eu estava de você. — Pegou seu bebê no colo e o abraçou com certa força, enchendo de beijos seu pequeno rosto.
— Hum, eu quero um desses também. — Santana disse tentando manter seu humor.
“Sa... Sa...” — O pequeno pronunciou com um pouco de dificuldade fazendo com que os olhos de Brittany se arregalassem.
— Não, nem pensar, eu não admito que ele aprenda te chamar primeiro do que a mim. — As duas riram.
— Desculpe. — Dou de ombros. — Mas eu acho que ele me viu pronunciar tantas vezes meu nome para mim mesma, além do mais a gente bate o maior papo o dia todo. — Estendeu os braços para o pequeno que logo aceitou ir com ela. — Mas vou ensiná-lo a dizer “a mamãe é chata”. — Brittany lançou um olhar repreendedor e a latina riu.
— Uhum. — A loira mais velha arranhou a própria garganta recordando as mulheres de sua presença. — Susan, minha querida, como foi a viagem? — Abraçou a filha com a casualidade de sempre.
— Estressante, mamãe. Mas ao mesmo tempo bem reveladora, acredito que minha vida vai tomar um rumo diferente daqui para frente.
— Seu pai me disse que deu boas notícias para ele.
— Sim, mas ainda há muito que esclarecer. Quando ele vem pra cá? Onde ele está?
— Numa partida com Evans, seu sogro o convidou para jogar golfe.
— Provavelmente o filhinho já foi correr para o papai. — Santana disse num tom irônico despertando a curiosidade da senhora.
— Do que você se refere?
— Nada mamãe. A Santana precisa descansar. — A latina que fez uma careta, tentando concordar.
— Sim, eu preciso. — Deu um sorriso amarelo e devolveu o bebê a mãe. — Vou tomar um banho. Com licença.
Santana se retirou da sala e assim que estava ao pé da escada encontrou-se com Berta.
— Sabia que eu tinha ouvido grunhidos, tive a certeza que a senhorita Lopez estava em casa e com isso senhora Pierce finalmente retornou.
— Também senti sua falta, Bertinha. — Apertou a bochecha da senhora e começou a rir. — Mas fica esperta, aqueles que grunhem naturalmente atacam aqueles que cacarejam. — Deu um sorriso sínico.
— Foi bom enquanto durou a paz.
— Realmente, não é fácil levar sustos com a senhora todo dia, mas eu estou quase me acostumando, me dê mais um tempinho. — Se aproximou e deu um beijo na testa da mulher, que tratou logo de limpar o local. — Já desço pra me servir aquele delicioso lanchinho, tá? — Subiu rindo.
— Devo ter atirado pedra na cruz.
Santana ouviu os resmungos da velha e isso a fez rir mais, mas ao chegar ao topo da escada, pronta para virar pro corredor, deu de cara com Sam, o que a fez dar um pequeno pulo pelo susto.
— Misericórdia! Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece.
— Santana, não imagina minha alegria em revê-la. Soube que tiveram problemas na estrada, qual foi o azar de você não se perder dessa vez?
— Sua macumba não foi tão boa.
— Quem sabe na próxima, não é?
— Se você tiver oportunidade para isso.
— O que te faz acreditar que não?
— Qual é, Sam? Eu participei das reuniões na empresa, eu soube que você enfiou cem milhões dentro da boca e sumiu com o dinheiro. Esperto, ninguém pensaria em procurar aí, além de ser um abismo profundo, quase como adentrar em um buraco negro.
— Eu não tenho nada para falar com você sobre isso.
— Nem eu espero que fale, não interessa a mim, mas sem sombra de duvidas vai interessar muito aos Federais, você não acha? Nesse momento deve estar se borrando de medo e a espera que seu querido papai resolva as coisas pra você.
— Você está muito abusada, só não se esqueça que está de favor na minha casa.
— Não porque eu goste de olhar pra sua cara, mas porque sua futura ex-esposa me atropelou, mas não se preocupe, você está a um passo de perder tudo e nós não teremos mais que nos aturar, já que você vai embora mesmo. — Deu de ombros.
— Eu não confiaria tanto e se eu ficar, eu juro, mas eu juro mesmo que não vou te dar sossego.
— Uau, Sam! Olha. — Mostrou o próprio braço. — Eu até me arrepiei. Pensei que fosse medo, mas deve ser fome, minha barriga já está roncando. Se me dá licença, eu vou tomar um banho e descer pra comer o lanchinho que minha doce Bertinha está fazendo para mim. — Deu um “tapinha” nos ombros dele e saiu rumo ao seu quarto.
Sam desceu as escadas e foi para sala atrás de Brittany.
— Podemos conversar?
— E aqui está o homem do ano.
— Por favor, Brittany.
— Nada como um pouco de cordialidade. Mamãe, pode ficar um pouco com o Luca, por favor?
— Mas é claro, meu bem. — Ela pegou o menino do colo da loira e o casal seguiu rumo ao escritório.
Brittany logo tomou conta da cadeira da mesa principal e Sam se sentou a sua frente. Ela dobrou suas pernas, arrumou seu cabelo e virou um olhar superior para ele que mais parecia um gatinho amedrontado.
— Estou ouvindo, Sam.
— O que você pretende fazer?
— Acho engraçado. Quando eu precisava de você, você batia a porta na minha cara e dizia que eu devia achar um jeito de me virar, não estava nem aí pro que eu iria fazer, agora está aqui na minha frente, quase que pedindo clemência.
— Eu ia devolver o dinheiro.
— Quando?
— Quando eu concluísse meus negócios, não foi um roubo, foi um empréstimo.
— Que negócios, Sam? Suas responsabilidades são com as nossas empresas e você a desfalcou. Seu “empréstimo” pode virar alvo de investigação da Receita, você pensou nisso? Aonde foi parar esse dinheiro? É uma fortuna.
— Olha só, assim como você eu não quero ficar preso nesse casamento. A única coisa que eu fiz foi uns investimentos para poder ter dinheiro suficiente para sobreviver e não precisar do meu pai assim que ele me tirasse tudo quando pedisse o divórcio a você.
— E você não pensou em um investimento mais modesto? Me diz, como pensou que eu ou o seu pai não ficaríamos sabendo desse desfalque?
— Era o plano perfeito.
— Era? — Arqueou a sobrancelha e disse meio temerosa.
— Investimento na bolsa.
— Não me diga que... — Balançou a cabeça preocupada imaginando a resposta.
— Eu estava ganhando bem, os negócios estavam em alta, mas eu fui ganancioso, Brittany, eu não soube quando parar e acabei perdendo boa parte do dinheiro, quero dizer, não tive nenhum lucro e agora me falta uma quantia do dinheiro emprestado.
— Quanto?
— Não vem ao caso agora.
— Quanto, Sam? — Ela foi com seu corpo pra frente e perguntou de forma dura.
— Trinta e cinco milhões. — Brittany lentamente recuou para a cadeira com os olhos fechados e respirou fundo.
— Não me importa como vai fazer, mas você vai repor esse dinheiro. Nosso contador está negociando com os bancos. Com os sessenta milhões que sobraram da pra pagar dois dos bancos e vai sobrar o do empréstimo exato de trinta e cinco milhões. Você vai dar sua cara a tapa e resolver isso.
— Brittany, eu não tenho da onde tirar.
— Não é problema meu, aliás, vai deixar de ser quando eu entregar o relatório pro meu pai e estiver assinando nosso divorcio.
— Você não pode fazer isso comigo...
— Não posso? Você cometeu uma fraude, Evans. — Quase gritou pela sua irritação. – Você roubou a sua própria empresa! Sabe, eu fiquei a viagem toda pensando em um belo discurso. Mas tudo o que eu tenho a dizer a você é obrigada. Obrigada por nos livrar desse inferno que é nosso casamento. Obrigada por ferrar tudo, porque dessa vez você acertou comigo.
— Meu pai vai me matar.
— Então é bom você começar a correr. Agora se me dá licença, eu acabei de chegar de viagem, preciso muito descansar. Tenho muito que pensar. – Levantou-se e saiu da sala, deixando para trás um Sam angustiado.
Enquanto isso, Rafael se encontrava com Fabio em um campo de golfe no clube.
— Desculpe o atraso, Fabio. Eu precisei resolver alguns problemas, fazer algumas consultorias. Negócios.
— Pierce, tudo o que for pra agregar ao nosso patrimônio, não tem que me pedir desculpas. Eu aproveitei pra ir dando uma esquentadinha.
— Precisa mesmo. Precisa estar preparado para me enfrentar.
— Pode ter certeza que eu estou, meu amigo. – Enfatizou o chamamento. – Mas antes de mais nada, antes de você começar a me dizer que vai pedir a execução de cláusula contratual, que vai protelar o controle total das empresas e o blá-blá-blá que já sabemos... Eu quero te entregar esse envelope. – Tirou do bolso um envelope pardo lacrado e o entregou a Rafael.
— Então você já sabe da presepada do seu filho? – Aceitou o envelope sem dar muita importância.
— Quando me disseram que sua filha foi requisitada com tanta urgência na nossa filial, eu tive que fazer algumas investigações e soube da aventura de Sam.
— E não está preocupado? Tem coragem de chamar de aventura? Brittany convocou uma auditoria. Não vai demorar para que a Polícia Federal bata na porta deles. Devido ao nosso contrato, vocês vão perder tudo. E ao invés de estar preparando seu filho, me chamou para uma partida de golfe?
— Preparar o Sam? Não, não me preocupo com isso. Agora com os meus negócios sim. Por isso insisto, abra o envelope, por favor.
Rafael olhou um pouco desconfiado para Fábio, mas fez o que lhe foi pedido e tirou de dentro do papel pardo algumas fotos e um relatório que fizeram com que sua aparência serena fosse substituída por uma de medo. Estava branco e um pouco tremulo, não havia como disfarçar o seu nervosismo.
— Bom, meu caro amigo, vejo que perdeu as palavras. Então, mais uma vez, eu vou me adiantar, se me permite, é claro. Você vai pra sua casa, vai ligar pra sua filha e vai marcar uma reunião com ela pra amanhã no primeiro horário e vai dizer as seguintes palavras: “Brittany, querida, entendo a complexidade dos fatos e que vai realizar as ações padrões. Contudo, Sam continuará ao seu lado no comando da empresa, nada mudou”. E eu acho bom convencê-la, ou todas essas fotos estarão nas primeiras páginas de jornais e revistas. Nem que seja a última coisa que eu faça como dono daquelas empresas.
— Isso é um absurdo!
— Eu também acho, também achei de muito mau gosto essas fotos. Mas fazer o quê? Todos temos escolhas. E a sua é dobrar a sua filha. Mas não se preocupe, eu vou me encarregar que o Sam devolva cada centavo. E assim seguiremos nossas vidas por mais, pelo menos, dois anos e meio juntos. Enfim... – Olhou o relógio em seu pulso. – Creio que você tem um compromisso muito sério, tem que fazer ligações importantes. Então, eu vou livrá-lo desse jogo e permitir que volte para casa. – Deu um pequeno tapinha nas costas de Rafael. – Mande lembranças minha a Gabriely.
Rafael foi deixado para trás com um certo ar de desespero. Seu pior pesadelo parecia ter o atingido em cheio.
Um pouco mais tarde, Brittany já se preparava para dormir, mas antes resolveu passar no quarto de Santana, precisava saber como é que ela estava, os últimos dias não haviam sido fáceis para ela.
— Te trouxe um copo de leite para poder dormir melhor. – Entrou no quarto e ofereceu o leite a morena, que segurou no copo e na mão da loira com carinho, sem soltar.
— Depois desses dias, vou sentir falta de você dormindo comigo.
— Eu também. – Brittany usou sua mão livre para acariciar o rosto de Santana. – Eu estou preocupada com você. Passou seu dia aqui, disse que estava com fome, mas não foi comer. – Sentou-se do lado da morena na cama.
— Eu não consigo parar de pensar. E quanto mais eu penso, mais eu acho que só há uma solução.
— Que solução?
— Eu preciso enfrentar tudo isso.
— Como assim?
— Eu preciso ir até Lima, ou pra Albany na empresa dos meus pais, ou pra onde for preciso. Eu preciso saber o que aconteceu.
— Santana, nós já conversamos sobre isso. Noah está investigando tudo. Nós precisamos ter cautela pra descobrir o que aconteceu para que não te condenem erroneamente.
— Não, Brittany, você não entende. Todas as lembranças que eu tive até agora, apenas aconteceram porque eu tive um estopim pra me lembrar delas. Ficar aqui trancada nesse quarto não vem me ajudando em nada. Eu tinha uma vida. Eu tinha pais e avó. Eu provavelmente tinha amigos e um cargo. Eu preciso enfrentar as coisas. Nós temos documentos que comprovam o estado que eu fui encontrada e o que me aconteceu. Será que isso não conta de nada? E se quem matou meus pais, tentou me machucar também? Eu não posso mais ficar de braços cruzados, fingindo não saber o que eu sei.
— E se estiver se jogando na cova dos leões? E se como você disse, tentarem te machucar de novo? Eu não me perdoaria.
— E eu não vou me perdoar se souber que os assassinos dos meus pais estão sentados na cadeira deles, usufruindo todo dinheiro enquanto tentam me incriminar.
— Tudo bem. Vamos fazer um acordo. Noah está seguindo mais uma pista, ele deve dar notícia no máximo em dois dias. Você pode esperar esse período? Dois dias é o que eu te peço. Vai que ele nos traz outras novidades que possam te ajudar. E aí então, se quiser, eu mesmo posso ir com você pra onde for e tentaremos resolver isso de uma vez por todas. Pode ser? Dois dias.
— Tudo bem. Dois dias e nada mais.
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