White Christmas - Especial Soho Dolls
3 Capítulo 3 - Noite
Notas iniciais
Com o consentimento de todos e para meu grande alívio, a ceia de Natal seria servida algumas horas antes do habitual. O clima pesado que se formava quando Annabelle estava por perto ou se manifestava era inevitável principalmente com as respostas tortas que ela recebia, parecia que todos percebiam que em mim havia sido instalado uma bomba relógio e que a qualquer momento eu poderia explodir. E realmente meu cronometro aproximava-se do zero em uma velocidade absurda.
Mesmo que não fossemos uma família muito religiosa, antes que todos se sentassem a mesa para ceia, Pearl fizera questão de fazer uma breve oração em agradecimento e em comemoração ao que a data significava, seguindo pelo menos um dos rituais. A janta passou sem muitos acontecimentos – entende-se; confusões –, a harmonia pareceu ter voltado absorvendo aquela atmosfera tensa e enquanto desfrutávamos da melhor comida preparada especialmente por Pearl, eu e Emily durante a tarde, risadas altas misturavam-se com o tilintar dos talheres em meus pratos de porcelana junto com uma conversa descontraída.
Após todos estarem satisfeitos, ou melhor, quando todos obrigaram-se a parar de comer, voltamos para perto da lareira e terminávamos com os vinhos selecionados para a noite enquanto do lado de fora formava-se o cenário típico de noite de natal em Nova Iorque. Toda a tensão havia sido guardada em uma gaveta isolada em mim e eu finalmente pude relaxar quando os braços fortes de meu marido me acolheram enquanto eu estava sentada ao chão com minha pequena princesa nos braços. Mas (in)felizmente a noite estava longe de acabar e algo me dizia que aquela tensão iria voltar.
– Mamãe, o Papai Noel não virá esse ano? – com a voz cheia de uma manha sonolenta, Ian veio vagarosamente até mim quase tropeçando em seus pés enquanto coçava os olhinhos.
– Hmm eu acho que ele só irá vir essa madrugada depois que vocês dormirem... – expliquei puxando o garotinho para mim junto com Lauren.
– Mas mãe, nós queremos abrir os presentes hoje...
– Eu acho que não tem problema nós adiantarmos os presentes esse ano, meu anjo, estão todos aqui essa noite e amanhã só estaremos nós, já estamos quebrando costumes mesmo... – Damon interviu.
– Papai, liga para o papai Noel para ele trazer os presentes hoje, por favor!
– Eu vou ligar, mas enquanto isso o que acham de vocês quatro irem procurar os presentes pela casa? Quando eu era pequeno às vezes o papai Noel não tinha tempo de deixar os presentes debaixo da árvore e escondia nos quartos...
– Isso, vamos lá! Vem Mila, vem Mariah! – em meio a seus pulinhos de excitação, Ian chamou com a mãozinha as duas garotinhas para os três saírem correndo pelo corredor de minha casa.
– Você não vai Claire? – perguntei à minha sobrinha que não havia se movido do lado da mãe.
– Tia, eu já não acredito em Papai Noel há muito tempo...
– Oh sim... – eu assenti um tanto envergonhada – Mas se você não acredita acho que não ganha presente!
– Isso é jogo baixo tia!
– Certo agora será que um dos marmanjos pode me ajudar a trazer aquela caixa que está transbordando presentes ali do hall de entrada? – Damon perguntou após levantar-se, olhando para Klaus, Stefan e Alaric que estavam sentados largados no sofá.
– Eu ajudo Damon, vamos lá! – Marquinhos fora o primeiro a se oferecer, fazendo meu marido encará-lo instigado.
– Eu disse marmanjos, Marcos!!
– Seu machista, homofóbico, preconceituoso! – meu amigo fuzilou Damon com o olhar o fazendo rir – Tenho mais força que você!
– Oh sim, eu acredito fortão mas agora vamos logo antes que eles voltem!
Meu amigo fora atrás de Damon ainda um tanto indignado, esbravejando e defendendo seus tão adorados bíceps e tríceps até voltar se gabando para meu marido com seus músculos flexionados devido a força que fazia, o que fora extremamente engraçado uma vez que Damon o provocava falando que não via absolutamente nada e deixava Marcos levar sozinho todos os presentes fazendo todo o trabalho duro.
– Confesse que você tem inveja do meu corpo de atleta Damon, confesse!
– Oh sim, certamente eu tenho... Mas que corpo de atleta, Marcos? – Damon riu enquanto organizava os presentes abaixo da arvore rapidamente antes que fosse pego pelas três crianças que corriam atrás do Papai Noel – Ian, venha ver, olha só o que chegou! Venham rápido!
– Eu ouvi um sino, acho que ele está para cá! – Mariah disse animada, chamando os outros dois – Olhem só, olhem só! O papai Noel deixou os presentes!
– Mas cadê ele? – Camila perguntou chegando a sala.
– Onde ele está, Papai? Ele não ficou?! – fora a vez de Ian manifestar sua indignação.
– Oh vocês demoraram para chegar, filho, e o papai Noel nos disse que tinha muitas entregas para fazer, por isso teve que ir embora rápido...
– Entendo... Será que no próximo Natal ele poderá ficar? – meu filho perguntou com um misto de esperança e decepção que cortara meu coração.
– Quem sabe, não é meu anjo? – Damon sorriu para mim.
– Podemos deixar alguma coisa para ele debaixo da árvore, quem sabe ele não fica... – sugeri a ele.
– É, pode ser... – Ian assentiu pensativo – Podemos abrir os presentes agora?
– Claro, vai lá campeão!
– São todos nossos? – Camila perguntou esperançosa, olhando para os vários presentes debaixo da árvore.
– Não, filha, todos aqui vão ganhar presentes, papai Noel lembra de todos! – Caroline explicou a filha.
– Mãe mas o que você pediu para o papai Noel? – a garotinha dos olhos verdes insistiu.
– Eu não pedi nada, querida, vamos ver o que ele me dará de presente.
– Certo, eu vou auxiliar e fazer o trabalho do Papai Noel já que ele não pode ficar – Stefan tomou a iniciativa levantando-se do sofá para ir até a árvore – Esses aqui são do papai Noel do tio Damon e da Elena para uma mocinha muito comportada que é a Mariah, para a desenhista Claire, para a namorada do Ian, e para Ian e Lauren...
Com todos presentes das crianças entregues e enquanto eles abriam os pacotes e se divertiam com os novos brinquedos, fora nossa vez de distribuir o restante dos presentes entre nós. Já estava ficando tarde e seria questão de pouco tempo até alguma das crianças derem sinais de que o prazo de validade deles estava vencendo.
– Eu serei o primeiro, certo? Emily, querida, mesmo que você não tenha sido uma boa garota esse ano e me desobedecido com a ideia de ir para o convento, esse aqui é para você... – Damon disse alcançando uma grande caixa para a filha – Eu e Elena compramos juntos para você...
– Obrigada gente... – ela assentiu sorridente, pegando a caixa em suas mãos para em seguida começar a rasgar o pacote e abrir a caixa onde o presente estava, retirando o com cuidado – Eu não acredito! Oh céus, eu não acredito! – ela disse pausadamente incrédula.
Com cuidado ela retirou o que a caixa guardava, revelando um par de patins profissionais novos de bota branca e protetores rosa e com lágrimas nos olhos, minha enteada nos olhou nos fazendo sorrir com sua reação.
– Elena disse que você estava juntando dinheiro para comprar um par de patins novos porque os seus estão um pouco velhos então eu decidi lhe dar Natal, já que suas competições começam em abril você terá bastante tempo para amaciá-los...
– Vocês são os melhores que existem, como eu amo vocês! – Emily sorriu abertamente antes de nos abraçar forte – Obrigada, obrigada, obrigada!
As vezes era difícil acreditar que aquela menina que soltava gritinhos de excitação e dava seguidos pulinhos estava prestes a completar vinte e um anos. Emily continuava a mesma patricinha filhinha de papai que eu conheci há oito anos que surtava ao ver bolsas e sapatos de grifes, apenas com a diferença de que agora eu e ela podíamos babar juntas nas vitrines das lojas sem correr o rico de ser jogada em frente a um carro em movimento. Mas os beiços, as manhas, o jeito de revirar os olhos, a forma com que demonstrava estar feliz eram todos assustadoramente os mesmos. Ah, e claro que agora ela tinha um namorado.
– Certo, posso dar o meu agora? – Emily perguntou ansiosa, levantando-se do sofá porém Damon a impediu.
– Não terminei ainda mocinha, falta o da Elena e das outras pessoas...
– Dê logo o da Elena e deixe os outros para depois, quero dar logo o meu!
– Tudo bem apressadinha, dê logo o seu que eu dou o meu depois é assim ganho mais atenção dela... – Damon deu de ombros irritando a filha que se levantou do sofá para encontrar o pacote sob a árvore enquanto o fuzilava com o olhar.
– O presente é bem simples mas é de coração, Lena, eu não sabia o que lhe dar porque queria que fosse algo especial e você bem dizer já tem tudo, pulseiras, brincos, acessórios... Tudo bem que essas coisas nunca são demais mas eu queria que fosse único... – Emily se explicou timidamente antes de me entregar um embrulho rosa pink bem feito e um tanto quanto grande e pegar Lauren de meus braços.
– Você sabe que não precisava se preocupar com isso não é?
– Eu sei mas eu quis... Você sempre me dá presentes e está sempre cuidando de mim então me sinto na obrigação de retribuir... Abra...
Com cuidado para não estragar tanto o papel de presente, eu desfaço o nó da fita e puxo com ainda mais cuidado o objeto pesado que estava enrolado em um plástico bolha. Mesmo sem ter desembrulhado era possível identificar que o plástico embalava dois porta-retratos grandes que encheram meus olhos de lágrimas ao ver as fotos que estavam ali.
O primeiro, e maior, tinha lugar para uma foto principal e mais quatro espaços médios nos cantos para fotos secundarias com uma moldura grossa que imitava madeira dando um ar elegante e sério para o porta-retrato que ficaria perfeito em minha mesa do escritório. A foto maior tratava-se de uma fotografia de nós cinco sentados a grama sorrindo abertamente um para o outro no aniversário de Ian, enquanto nos quatro outros espaços era uma montagem minha grávida de Ian e Lauren, outra minha com Damon, a terceira dava espaço para Emily e eu abraçadas em meu aniversário e a quarta que fora o principal motivo de ter enchido meus olhos de lágrimas; era eu com meus pais em um dos meus aniversários onde eles beijavam minhas bochechas, um de cada lado, me fazendo gargalhar. Era de longe a foto que eu mais gostava com eles deixando o presente de Emily o mais especial que eu já havia ganho dela.
– Emily, é maravilhoso... – disse abismada, sem desviar meus olhos do porta-retrato.
– Você gostou mesmo?
– Sim, demais! Eu nunca tinha visto essas fotos e a foto com meus pais, como conseguiu?
– Papai me disse que você guardava suas fotos antigas em uma caixa em seu closet então eu apenas procurei. Sei que não deveria ter mexido em suas coisas escondido mas juro que foi apenas no álbum e sequer toquei nas outras coisas, e também eu tirei a foto do álbum, a copiei e coloquei a original de volta para que o álbum não ficasse faltando fotos... – ela se explicou – Ah e olha só, tem mais um...
Deixando o porta-retrato sobre a poltrona mais próxima para que ele não caísse, eu desembalei o outro que era um pouco menor e mais descontraído, com uma moldura vermelha que dava espaço para apenas uma foto; eu, Caroline e Marquinhos abraçados rindo em harmonia como sempre acontecia quando estávamos juntos.
– Dei igual para os dois também – Emily adicionou.
– É maravilhoso Emms, obrigada! Os dois são lindos e pode ter certeza de que irei colocá-los na mesa de meu escritório para lembrar de você enquanto trabalhar!
– Fico feliz que tenha gostado! – ela sorriu timidamente, me fazendo abraça-la forte.
– E onde está o meu presente, hein? – Damon perguntou.
– Eu sou o seu presente pai!
– Vou lembrar disso, mocinha!
– Para sua informação, Senhor Salvatore, eu comprei seu presente junto com Elena, ainda não sou uma médica como você e minhas aulas particulares de patinação não são tão bem remuneradas assim! – Emily se defendeu, arrancando do pai uma gargalhada alta – Aliás, dê logo seu presente a ela, pai, estou curiosa!
– Como se você não soubesse o que é... –ele rolou os olhos – Certo, e esse aqui é para minha mulher... – ele sorriu docemente para mim entregando-me uma pequena caixa azul piscina com uma fita branca e escritos delicados do nome da loja que me assustava apenas com a possibilidade do quanto ele gastará com aquele presente.
– Damon... – o repreendi baixinho, balançando a cabeça negativamente pegando o presente de meu marido.
– Abra...
Com o mesmo cuidado, eu desfiz o laço da fita para abrir a tampa, e como eu já supunha, de longe meu marido havia gasto muito mais dinheiro em meu presente do que o que eu e Emily havíamos comprado a ele. A caixinha almofadada guardava delicadamente um colar de ouro branco com um pingente em forma de losango com brilhantes em suas arestas. Era delicado e singelo mas chamava atenção com a forma que brilhava, certamente durante a luz do dia e com a luz solar ficaria ainda mais bonito.
– Damon, é lindo!
– Calma que tem mais... – ele sorriu, aproximando-se de mim – Essa parte deu um tanto de trabalho, mas olhe atrás do pingente...
Assim que virei o pingente, em cada ponta do losango havia uma letra começando por D, I, L e E enquanto no centro havia o E que eu julgava ser o E de meu nome.
– Eu mandei gravar as iniciais da nossa família, começando por mim, Ian, Lauren e Emily enquanto você está no meio, no nosso centro, sendo a nossa base...
Era incrível como Damon conseguia transformar um simples presente como aquela joia – ok, não tão simples assim –, no melhor presente que uma mulher pudesse ganhar, dar um significado infinito a algo que aparentemente não passava de um colar. Fora assim com o eternity ring que não saia em hipótese alguma de meu dedo junto da aliança e sem dúvida alguma seria a mesma coisa com aquele colar, que lembrava-me não apenas de Damon como anel, mas sim de toda nossa família
– Eu sequer sei o que falar...
– Até eu estou ai! – Emily sorriu animada, me olhando alisar as letras com cuidado.
– É claro que você está, bobinha! – Damon disse brincalhão, apertando a ponta do nariz da filha para só então voltar a me encarar, passando os braços ao meu redor – Diga que gostou e que irá usá-lo para onde for...
– Eu simplesmente amei e sem dúvidas irei usá-lo sempre, obrigada!
– Agora você vai poder andar para todos os lados com a nossa família no peito e mostrar o quanto todos aqui amam você e o quanto é especial... – ele falou baixinho em meu ouvido o suficiente para que apenas eu escutasse e então depositou um beijo demorado em meu pescoço, me fazendo arrepiar.
– Como se vocês não passassem vinte e quatro horas em meu coração e em meus pensamentos... – respondi na mesma altura, virando-me de frente para ele, abraçando seu pescoço – Eu amei o presente, amor, e eu amo você mais do que você possa imaginar! Obrigada...
– Você merece, meu anjo!
Damon acariciou delicadamente meu rosto com o torso da mão, erguendo meu queixo com o indicador para então selar seus lábios aos meus demoradamente antes de iniciar um beijo calmo e demorado. Meus dedos acariciavam seu rosto enquanto retribuía o beijo, caminhando em direção aos seus cabelos para aprofundar nosso contado sem ao menos me importar com a plateia ao nosso redor.
– Eca que nojo, parem com esses beijos nojentos! – a vozinha enojada que bem conhecíamos soou ao nosso lado nos fazendo sorrir contra o beijo enquanto todos na sala riam.
– Você não alivia uma para o papai, ein carinha?
– É bom mesmo você continuar com esse pensamento enquanto estiver com minhas filhas, garotinho! – Klaus disse com um falso tom severo que fizera meu filho encara-lo um tanto quanto amedrontado.
– Tadinho do meu filho Klaus! – o repreendi fazendo meu “cunhado” encolher os ombros.
– Papai e mamãe estão parecendo Emily e Jesse nessa tarde, mas com eles era mais nojento e Emily estava no colo de Jesse na cama dela! – refletiu o garotinho, olhando para o pai.
Damon, por sua vez, apenas direcionou um olhar frio e extremamente repreensor para a filha, com uma seriedade e fúria que eu nunca havia visto. Desde o início do namoro Damon havia deixado claro suas imposições e ficar juntos no quarto era a primeira delas, claro que Emily sempre dava um jeito de burlar essa regra e eu também os ajudava a fugir mas meu marido sequer imaginava isso.
– Ian, você estava nos espiando seu atrevido? – Emily exclamou abismada e furiosa e em resposta recebeu apenas um sorriso malandro do irmão.
– E o que mais você viu, filho? – ele perguntou sem desviar o olhar de Emily.
– Eu vi também o Jesse...
– Ian, está bem, já entendemos o que você viu! – eu interferi, impedindo que Ian continuasse a falar.
– Mas mamãe, o... – ele prosseguiu mas mais uma vez eu o impedi.
– Não precisa contar, querido, papai estava brincando, ele não quer saber o que mais você viu! – expliquei com um olhar frio para Damon.
– Outra hora você conta para o papai, não é mesmo? E quanto a vocês dois, estou com os olhos ainda mais abertos, me ouviram? Ai de vocês... – Damon disse furioso, ainda encarando o jovem casal assustado.
– Sim Senhor... – Jesse assentiu de imediato, com os olhos arregalados e tão pálido quando a parede da sala.
– Mamãe, me ajuda a abrir esse presente aqui? A fita deu um nó... – Ian pediu, mostrando para mim o presente embrulhado em um papel colorido com uma fita ao redor lembrando-me de que aquele presente era de Annabelle.
– Claro!
– De qual Papai Noel é esse presente, mãe? – ele perguntou enquanto eu trabalhava na fita.
– É de Annabelle... – expliquei. Ao que desfiz o nó da fita e que fiz o primeiro rasgo no papel e que Ian terminou de desembrulhar, a decepção fora evidente no rostinho de meu filho com o presente de encaixar e acertar as formas.
– Mãe, eu não gostei desse presente, ele é para bebês! – reclamou Ian.
– Como assim você não gostou? – a voz irritante que havia dado uma folga aos meus ouvidos, soou zangada atrás de nós. Annabelle encarava nós dois com um olhar raivoso enquanto segurava Lauren em seus braços.
Como minha filha tinha ido para nos braços dela?
– Eu não gostei, isso é para Lauren e não para mim!
– Filho, você não deve falar que não gostou do presente na frente das pessoas, não é educado fazer isso... – com a calma que eu sempre fazia, expliquei a Ian esforçando-me ao máximo para não rir. De fato o presente era para bebês ou crianças bem mais novas que ele, se o nome de Ian não estivesse escrito em uma pequena etiqueta certamente eu teria achado que aquele presente era para Lauren.
– Mas mamãe, você sempre me diz que não posso mentir então como vou dizer que gostei do presente? – ele refletiu devastado, abaixando os olhinhos para o brinquedo.
– Eu compreendo que você não tenha gostado, querido, mas nesse caso não é mentir e sim ser gentil. Mesmo que o presente nos desagrade nós devemos agradecer por ele e só depois, quando a pessoa não estiver que falamos se gostamos ou não... Agora peça desculpas para Annabelle e seja esse garotinho educado que eu sei que é.
– Desculpe Annabelle... – Ian sussurrou mesmo contragosto. Ele ainda não havia se familiarizado com ela, principalmente com o fato de que ela era sua tia.
– Se você não gostou, então... – ela disse tentando controlar a indignação mas antes que pudesse concluir, um resmungo seguido por palavrão a impedira de terminar e quando percebi Lauren havia vomitado quase que seu casaco inteiro. E eu me lembrava a todo instante de que não deveria rir em hipótese alguma – Alguém pega essa criança para eu me limpar?
– Oh mocinha, você sujou sua tia, foi? – Damon antecipou-se para ir pegar nossa filha enquanto eu encarava a cena atônita – Vamos lá se limpar, Lolo!
– Argh que nojo! Seus filhos não poderiam ser diferentes mesmo! – Annabelle disse com desdém, lançando um olhar gélido a Lauren antes de dar as costas e seguir a cozinha, dando assim, adeus a todo o controle que eu havia construído na noite, explodindo a bomba guardada em minha gaveta.
– O que foi que você disse? – perguntei entre dentes a seguindo até a cozinha, os meus saltos pareciam estar prestes a ser fincados no porcelanato de minha casa devido a força e a fúria que dava os passos.
Porém, pouco me importava com meus saltos, na verdade, minha vontade naquele momento era de acerta-los em cheio em Annabelle, eu estava tão furiosa que sequer me reconhecia. Ela havia acabado de cutucar os filhotes da onça com uma vara curtíssima.
– Foi exatamente o que ouviu, Elena, não me surpreendo que seus filhos sejam assim! – ela falava enquanto procurava algo na cozinha que pudesse limpar seu casaco sujo.
– Quem você pensa que é para falar de meus filhos dentro da minha casa? – disse exasperada – Se algum dia eu ouvir você falando mal de meus filhos de novo ou sequer sonhar que você fez isso eu não respondo pelos meus atos, você está me entendendo, Annabelle?
– Eu só falei a verdade, eles são duas crianças mal criadas e sem modos. Não posso fazer nada se você não sabe criá-los!
– Eu não sei criá-los? Você sequer convive comigo ou com eles para falar algo assim!
– E não é preciso muito para perceber! Seu filho sequer me cumprimentou e ainda por cima diz que odiou o presente que dei, é clara a má criação dele – Annabelle respondia tão nervosa quanto eu, gesticulando com o pano úmido na mão.
– E você quer que eu faça o que? Não posso obrigar ninguém, principalmente duas crianças, a gostar de um presente que os desagrada e muito menos a cumprimentá-la, você é uma completa estranha para os dois!
– E aposto que me odeiam e que você fala mal de mim para eles e faz suas cabeças contra mim!
– Você é doente garota! – revirei os olhos em deboche – Como vou falar mal de você quando eles sequer te conhecem? Como eu disse, você é uma completa estranha para eles!
– Você faz ideia o quanto custou esse casaco que eu estou usando? Sua filha o arruinou! – ela rosnou entredentes, jogando com força o pano sujo na pia. Eu tinha de admitir que estava adorando ver o desespero de minha cunhada para limpar a sujeira que minha filha havia feito nela, com oito meses eu já estava adicionando alguns alimentos na alimentação de Lauren então no casaco de Annabelle não havia apenas leite.
– Pouco me importo com isso, o problema é seu que quis pegá-la no colo, deveria saber das consequências de pegar um bebê de oito meses – respondi revirando os olhos.
– Você deve estar adorando isso, não é? Seus filhos me odiarem, toda atenção que está recebendo da minha família, o dinheiro... Para uma prostituta você se deu muito bem!
– É claro que eu estou, eu amo cada segundo da minha vida e todas as pessoas naquela sala. Ao contrário de você, ninguém ali se importa com o que eu fui! Será que você não percebe que tudo isso está indo longe demais? Esse seu ódio, essa aversão, esse nojo! Isso não leva a nada, Annabelle, a não ser o seu próprio mal. O que eu fiz para você para me odiar tanto?
– Eu simplesmente não consigo olhar para sua cara e lembrar do tipo de mulher que você foi, aquele tipo de mulher que fez o meu namorado, o cara que eu era louca, me trair e gastar uma grana preta em sexo. Toda a vez que eu olho para você eu me lembro das vezes que meu irmão e minha sobrinha brigaram comigo por você, para te defender ou então de quando você contou para Damon sobre Bart.
“Eu poderia estar muito rica agora mas por sua culpa não ganho um terço do que deveria se você não tivesse arruinado tudo! É por sua culpa que minha família não me suporta mais, é por sua culpa que minha sobrinha preferida sequer olha para mim ou que meu irmão mais velho, o homem que que eu tinha como herói, como exemplo, me odeia. Você arruinou com a minha vida, eu odeio você Elena!”
– Meu Deus quanto absurdo! Quem fez isso foi você mesma, Annabelle, sua família só te detesta porque você os fez agir assim. Emily mal olha para sua cara porque você a fez acreditar em algo totalmente errado, a fez infeliz por minha causa, e ao invés de correr atrás do tempo perdido você simplesmente foi embora e esqueceu dela. Nem um telefonema, um e-mail, uma mensagem, nada...
“Você não se importa com sua família, Annabelle, como quer que eles se importem com você? Ninguém aqui está feliz com essa situação ou confortável com sua presença mas isso foi você quem plantou! O dinheiro não significa nada para mim, eu lutei demais para ter minha profissão e pode ter certeza de que lutei mais ainda para ter seu irmão ou para conquistar sua família, se você tivesse sido diferente nada disso estaria acontecendo!”
– Sempre se fazendo de vítima, não é mesmo? – Annabelle respondeu cheia de desprezo, com um olhar de nojo para mim –“Oh Annabelle você é a vilã da história enquanto eu sofri, dei para milhares de homens por dinheiro, batalhei e consegui um homem ricaço para me bancar. Dei o golpe do baú, engravidei de dois filhos mas o dinheiro não me importa, posso transar para conseguir. Ninguém gosta de você porque é a única que não gosta de mim e vê a real história".
“Eu não sei porque meu irmão é tão louco por você! Será que ele não percebe no que se meteu? Se casar com uma ex-prostituta, ter dois filhos com ela e ainda por cima ter que aguentar os amigos dela; um viado destrambelhado e outra vadia que deu o golpe do baú! E ainda ter que aguentar a mulher levando a filha para um sex shop? Você sempre foi baixa Elena e sempre será, não me surpreenderá se seus filhos puxarem a você.”
Annabelle exclamou, cheia de raiva e rancor, e a última coisa que me dei conta fora os dois tapas extremamente fortes e altos que acertei em seu rosto antes de embolar meus dedos em seus cabelos e puxá-los com tanta força que a fizera cambalear e arquejar para trás.
– Retire o que disse, sua vadia! – disse cheia de ira, a obrigando a me encarar enquanto puxava seus cabelos.
– Sua louca, me solte, alguém me ajuda! – Annabelle pedia em desespero, levando as mãos ao meu pulso em uma tentativa de se livrar.
– Retira o que disse e eu te solto! – resisti, puxando com mais força seus fios, provavelmente a causando certa dor no couro cabeludo.
Soltá-la era a última coisa que eu faria até vê-la se redimindo.
– Eu não vou retirar, você é uma vadia Elena e vai se arrepender por isso – ela debatia-se contra meu aperto, mas eu estava tomada por uma raiva descomunal que era transformada em força bruta.
– Você é a única vadia aqui, Annabelle, aceite isso! Vadia e invejosa!
– E você é louca, me solte! Está me machucando!
– Eu não me importo! Você não sabe com quem mexeu, Annabelle, não me importo que fale de mim ou me xingue, mas não admito que fale de minha família e meus amigos. Você é uma mal amada e nunca vai saber o que é ter o amor verdadeiro de um homem, o carinho de seus amigos e alegria de ter seus filhos.
– Elena, querida, você... Oh meu Deus o que está acontecendo aqui! – em meio aos meus xingamentos furiosos, a voz delicada de minha sogra anunciou sua presença na cozinha seguido por um grito de horror.
– Mãe, ela é louca, me ajuda! – Annabelle implorou em desespero, com a voz cheia de manha.
– Elena, pare, Elena! – Pearl implorou em desespero – Alguém me ajuda aqui? Marcos, Stefan, alguém?!
Annabelle debatia-se incansavelmente e quando ela finalmente conseguiu livrar-se de mim, sua mão acertou o meu rosto em defesa mas a fúria que eu sentia parecia me entorpecer. Me entorpecer e deixar com ainda mais raiva. Minha face ardia levemente, porém, aquele incomodo não me impediu de acerta-la mais uma vez e voltar a puxar seus cabelos. Com o desespero de minha sogra, logo o alarde estava formado e pela cozinha os dois homens que ela havia requerido entraram em desespero, tratando de tentar nos separar.
– Elena, acalme-se! – Stefan alertou, passando os braços ao redor da cintura da irmã enquanto dois braços fortes faziam a mesma coisa comigo.
– Leninha, pare, solte ela! – a voz de Marquinhos soará perto de meu ouvido e enquanto me segurava com uma mão, a outra estavam em meu braço tentando me fazer soltá-la – Acalme-se!
– Me acalmar o caralho, me largue Marcos, me deixe dar uma lição nessa vadia!
– Elena não é assim, solte ela, você está de cabeça quente, gata, não vale a pena e você vai se arrepender depois – sua voz era calma mas seus braços ao meu redor eram firmes, me fazendo duvidar de que era ele de fato que quase me levantava do chão.
– Não vou nada, vou me arrepender se não fizer.
– Lena, acredite, se eu não lhe conhecesse tão bem estaria diante da porta assistindo essa briga mas a solte. Você não é assim! Lauren está lhe chamando, Lena, sua filha precisa de você e não deixe que Ian veja a mãe nessa situação, acalme-se...
Assim que ouvi o nome de meus filhos toda aquela adrenalina abaixou como se eu tivesse sofrido um choque de realidade, um balde de água fria e gradativamente fui relaxando e permitindo que Marcos me afastasse de Annabelle. Apenas a ideia de Ian me ver daquela forma tinha sido o suficiente para me desarmar, afinal, não saberia como explicar a meu pequeno garotinho que eu estava agredindo sua tia.
– Isso... Acalme-se Leninha... – Marcos continuou a me orientar, soltando um suspiro de alívio ao sentir meu corpo amolecendo.
Eu estava ofegante e meus batimentos cardíacos soavam como batidas altas em meus ouvidos, do outro lado da cozinha Annabelle me fuzilava com os olhos cheio de lágrimas e seu irmão me encarava assustado. Nenhum dos familiares de Damon havia me visto perder a cabeça daquela forma, mas minha paciência tinha limite e digamos que com a irmã de meu marido ela era ainda mais curta que o normal.
– Alguma das duas podem me explicar o que está acontecendo aqui? – Pearl perguntou incompreensiva, pairando entre nós com os braços cruzados.
– Essa louca me atacou mãe, eu estava gritando por ajuda há tempos mas ninguém me escutou – Annabelle respondeu chorosa, tentando fazer-se de vítima.
– Eu te ataquei? Você que fala mal dos meus filhos e meus amigos, eu não admito isso Annabelle!
– O que foi que você disse sobre meus netos, Annabel?!
– Não falei nada demais, apenas a verdade, que eles são duas crianças mau criadas e sem modos como a mãe! – ela respondeu com descaso. Eu simplesmente não conseguia ouvir aquilo sem que uma onda de fúria percorresse meu corpo e me fizesse debater nos braços de Marcos.
– Acalme-se Lena! – Marquinhos me repreendeu com mais seriedade, apertando seu braço ao meu redor.
Era simplesmente impossível me acalmar quando ouvia tantos absurdos sobre duas pessoas extremamente inocentes e que nada havia feito contra ela mas antes que pudesse responder, um choro desesperado fora o suficiente para acalmar meus nervos.
– Mas o que está acontecendo aqui? – a voz de meu marido quebrada o silêncio da cozinha nos me fazendo encará-lo em desespero.
E mais um choque de realidade me atingira. Naquele momento eu era extremamente grata por Pearl ter chego e impedido que mais alguém e principalmente que Damon me visse agredindo sua irmã. Marcos como sempre tinha razão e com meus indicies de fúria abaixando eu estava quase arrependida. Quase. Até porque eu não iria me acalmar enquanto Annabelle não pusesse os pés para fora de minha casa.
– Mamãe!! – o choro sofrido de minha filha nos braços do pai me fizera suspirar fundo obrigando-me a manter a calma e com delicadeza eu toquei o braço de Marcos ao meu redor.
– Eu estou bem, deixe-me atendê-la! – disse antes que ele me soltasse.
Lauren estava banhada de lágrimas e seu rostinho estava vermelho em um sinal de que ela chorava já há algum tempo, o que me fazia sentir a pior mãe do mundo que ao invés de atender a filha estava brigando aos tapas com a cunhada.
– Mamãe está aqui, princesa, mamãe está aqui! – disse calmamente aproximando-me dela e de Damon e ao me ver perto, a garotinha esticou os bracinhos e se debateu no colo do pai para que eu a pegasse.
– Ela está chamando por você há tempos porque quer dormir, o que está acontecendo Elena? – a voz preocupada e séria e a forma com que ele me chamará pelo nome me fizera arrepiar e suspirar fundo.
– Vou fazê-la dormir, podemos conversar depois? – respondi baixinho, pegando minha filha nos braços e a aninhando contra mim – Pronto, meu anjo, você está com a mamãe... Você leva uma mamadeira para o quarto?
– Claro! – ele assentiu antes de deixar um beijo na cabecinha da filha que chorava baixinho dessa vez e surpreendentemente na minha testa.
Apenas pela forma com que Stefan segurava Annabelle, o jeito desesperado que Pearl chamara por ajuda e minha situação assustada e abalada, Damon já havia percebido o que havia acontecido e eu tinha a forte sensação de que ele não havia gostado de saber que minha promessa tinha sido quebrada. Eu havia prometido de que a noite acabaria bem e o que acontecera era o oposto extremo de qualquer concepção do que era “bem”. Na sala todos olhavam para mim em silêncio, com a curiosidade estampada nos olhos mas sem dar nenhuma satisfação, eu passo com o olhar baixo carregando Lauren com firmeza, como se precisasse dela em meus braços para manter minha sanidade. Assim que cheguei ao quarto de minha filha, me sentei com ela na poltrona bem posicionada no canto do quarto próximo a cômoda antes de apanhar seu cobertor lilás e sua chupeta do berço.
– Desculpe sua mãe filha, eu deveria ter ficado com você pequena, não deveria ter te soltado nenhum segundo... – disse acariciando o rostinho da menininha que me encarava com atenção com aqueles olhinhos azuis lindos –Escute essa sua mãe descabeçada; nunca aja por impulso.
Lauren escutava o que eu dizia com os olhinhos atentos e eu apenas percebi que chorava quando as mãozinhas de minha filha se molharam ao acariciar meu rosto. Como era possível alguém falar daquela forma de um ser tão inocente e indefeso como aquele? Era impossível de entender e era incontrolável o enorme instinto de proteger e defender meus filhos de quem quer que fosse.
– E você, mocinha, sujou toda sua tia, eu até ficaria do seu lado se eu não tivesse que dar um casaco caro para Annabelle! – repreendi Lauren com um tom de brincadeira, que a fizera tirar a chupeta para abrir um enorme sorriso malandro para mim – Você não vai dormir não ou estava apenas enganando seu pai? – ainda com aquele sorriso que mostrava apenas seus dois dentinhos, Lauren balançou a cabeça negativamente e então se aconchegou em meu corpo – Hey, eu amo você meu anjinho.
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