White Christmas - Especial Soho Dolls
1 Capítulo 1 - Manhã
Notas iniciais
" Provavelmente, chegará um dia que sua vida tomará um rumo inesperado, que seu mundo terá sofrido um giro de trezentos e sessenta graus que tirará tudo dos eixos. Para melhor ou para pior. Ainda mais provável que tal mudança te faça se questionar o porquê diabos tudo aquilo acontecera e até mesmo o que fizera para merecer tal tristeza ou tal alegria, por quanto tempo tudo aquilo durará ou se de fato tudo é real...
Talvez não exista melhor pessoa no mundo para descrever tais sensações que eu; em sete anos vi minha vida afundar, em um estalar de dedos eu era a garota órfã de dezesseis anos que entrara para o mundo da prostituição, que sofria maus tratos do cafetão do bordel e de seus clientes, a menina que tivera sua inocência roubada para a mulher decidida e forte que nunca deixara de sonhar com seus dias de glória, para então conhecer o amor de sua vida, o homem que fizera tudo ter sentido novamente fazendo o adormecido coração bater mais forte e que dera os maiores presentes que uma mulher possa sonhar em ter.
Porém, tudo acontece por um motivo e tudo isso começará com uma viagem e um telefonema na madrugada..."
Aquela seria a terceira vez que eu relia os três primeiros parágrafos recém escritos totalmente insatisfeita com o resultado e sem fazer ideia de como continuar. As pontas de meus dedos deslizavam pelo teclado com a esperança de voltar a movê-los sobre elas mas a cada dez palavras escritas, sete eram deletadas sem que eu conseguisse desenvolver uma frase sequer. Era tão irônico pensar que eu não conseguia reproduzir no word o que era minha vida há mais ou menos nove anos e como tudo começara quando as quase trezentas páginas escritas lembravam-me em detalhes do que acontecera após aqueles intensos olhos azuis terem se cruzado aos meus. Claro que eu me lembrava com detalhes do início de tudo, eram lembranças que nem após vinte ou trinta anos iriam ser apagadas mas naquela circunstancia e o motivo pelo qual eu desejava relata-la me deixava com uma espécie de bloqueio.
“Órfã... quantas vezes eu ouvira essa palavra e em nenhuma delas imaginei que esse seria o meu fim, o meu futuro. É exatamente como dizem, as coisas ruins você pensa “não vai acontecer comigo” e como sempre, a vida lhe prega a maior das peças provando o quão errado você está, lhe dando de presente um rumo a sua vida que nunca imaginara ter. No meu caso, eu virei prostituta. Alguns chamam isso de carma, que você colhe o mal que plantou, outros chamam de resgate, algo que você tem que aprender para tentar se tornar uma pessoa melhor, eu prefiro chamar de aprovação, que seria mais ou menos uma mistura dos dois mas que no fim, você acaba encontrando seu lugar ao sol no meio da escuridão. ”
Mais uma vez suspirei fundo insatisfeita. Definitivamente eu não iria mostrar aquilo a Damon.
– Elena? Elena onde você está? – a voz furiosa de meu marido ecoava no largo corredor, aproximando-se gradualmente de meu escritório.
– Estou aqui, querido! – respondi tranquilamente utilizando certa inocência em minha voz. Ou seria sarcasmo?
Não era preciso pensar muito para adivinhar o motivo de ele estar tão furioso a minha procura... Era manha de véspera de Natal e como tradição no hospital onde Damon trabalhava, os funcionários reuniram-se para e revelação e troca de presentes do amigo secreto e devido ao fato de Damon ter pego Julianne (a mulher que eu mais detestava naquele hospital) e não saber o que comprar para ela, meu marido inocentemente acabara por pedir minha ajuda ao comprar seu presente.
– Eu juro que se eu não fosse estupidamente louco por você eu acabaria nosso casamento nesse momento! – ele rosnou adentrando pelo meu escritório em uma cena digna de desenho animado onde sai fumaça da cabeça do personagem principal.
– E então, Julianne gostou do seu presente? – perguntei inocentemente, virando-me de frente para ele junto com a cadeira giratória.
–Elena, sinceramente, o que diabos você tinha na cabeça para dar um presente daqueles para a mulher?
– Eu acho que fui bem clara no bilhete que deixei junto ao presente... – respondi com descaso, voltando minha atenção a tela de meu notebook.
– Inacreditável, sério, inacreditável! – disse ele vagarosamente, abismado.
– Foi só uma brincadeirinha Damon, mas que exagero!
– Oh sim, dar um vibrador para minha amiga secreta com um bilhete; "Na falta de pênis, lhe dou de presente um que vibra extra grande para deixar meu marido em paz! Abraços, Elena!" A minha sorte foi que ninguém mais viu aquele presente porque senão a minha e a sua imagem estariam sujas nesse momento! – exclamou ele elevando o tom de voz.
– Não me importo com a imagem, queria mesmo passar minha mensagem. Já cansei dessa mulher colada em você! – defendi-me dando de ombros.
Sem responder, Damon soltou um suspiro fundo e passou as duas mãos em seu rosto em um sinal de que estava nervoso. Ao comprar o presente eu tinha claro em minha mente que meu marido ficaria furioso com a minha brincadeirinha de mau gosto e claro que para compensar a pequena sacanagem –e a fúria de meu marido, junto ao presente, viera um colar que certamente a vadia iria gostar que Emily me ajudara a comprar.
– Confesse que eu estou certa, você já falou uma vez que ela realmente não sai do seu pé então eu apenas facilitei...
– Elena mas esse não é o caso, aquilo foi exagero! – exclamou ele.
– Eu acho que foi uma ideia brilhante, tenho certeza de que aquilo será usado essa noite ainda e na noite seguinte e assim por diante... Eu vou adorar conviver com a ideia de que ela tem que usar um de brinquedo tamanha frustração por não ter o do meu marido enquanto eu tenho exclusividade nele!
– Inacreditável, sério, inacreditável! – ele riu sem conseguir se conter e com a deixa, levantei-me de minha cadeira aproximando-me dele – Não adianta você vir com essa carinha de cachorro sem dono porque eu ainda estou furioso, foi muito baixo o que você fez Elena!
– Eu disse que eu não me importo e foi só uma brincadeira Damon, uma brincadeira que eu espero que ela leve a sério mas ainda assim, e outra, a culpa não foi sua, fiz questão de deixar bem claro no bilhete que quem enviou o presente fora eu... – defendi-me calmamente e com descaso, em uma tentativa falha de aliviar minha situação.
– Independente se foi uma brincadeira ou não, como vou encara-la novamente no trabalho?
– Fácil, não encare! – ri com obviedade – Sabe que eu quase comprei um para mim também já que meu marido está em falta nas últimas semanas... – disse com um beicinho manhoso, rodeando seu pescoço com meus braços.
– Ah eu estou em falta? A culpa não é minha que quando eu estou em casa a minha esposa só fica nesse inferno de computado fazendo só Deus sabe o quê! – defendeu-se ainda um tanto quanto bravo pelo que eu havia feito.
– Ah sim, a culpa é minha? – expliquei-me, cruzando os braços.
– Realmente não faço ideia do que esteja fazendo mas espero que não esteja arrumando encontros online... – brincou Damon, abraçando-me mais forte.
– Hm isso é uma boa ideia para solucionar meus problemas com sua falta ou então quem sabe arranjar encontros para sua amiga secreta, o que seria ainda melhor já que metade dos meus problemas estariam solucionados...
– Para ser sincero, não acredito que minha amiga secreta precise que você arranje encontros online ou até mesmo daquele presente, de acordo com o que eu escuto de outros médicos e de meus colegas mais próximos ela é bem conhecida se é que me entende...
– Você acabou de me deixar ainda mais instigada com essa mulher, agora mesmo que eu quero ela cada vez mais longe de você! – insisti com certa revolta, cruzando meus braços entre nós o fazendo rir.
– Elena, não precisa se preocupar, você sabe...
– Estou apenas cuidando do que é meu! – dei de ombros o fazendo rir.
Era um tanto estranho e fora do normal eu e Damon discutirmos ou termos alguma conversa mais séria por ciúmes de alguém, uma vez que com o passar dos anos fomos criando uma confiança ainda maior no outro, obvio que ainda tínhamos ciúmes um do outro – bastante por assim dizer, mas era algo que conseguíamos controlar e muitas das vezes o assunto era brincadeira entre nós. Porém, com Julianne era completamente diferente e Damon sabia disso.
– Meu anjo, eu sei que você não gosta dela, sei que desconfia e detesta o fato de trabalharmos juntos mas eu juro para você que nunca acontecerá nada entre nós e que ela não tem a mínima chance, mas temos que concordar que aquele presente passou dos limites – com um tom compreensivo, Damon disse enquanto acariciava minha coxa e tentava me acalmar e acalmar-se ao mesmo tempo – Eu não queria discutir com você sobre isso de novo principalmente na véspera de Natal.
– Não precisamos discutir mas em todo caso vamos mudar de assunto – assenti balançando minha cabeça com um suspiro fundo e mesmo que o assunto ainda não estivesse acabado ele tinha razão.
– Certo... Tem algo que eu preciso lhe dizer – começou ele com aquele tom sério de quem tinha algo a dizer que provavelmente não me deixaria feliz, e que por sinal eu bem conhecia – Annabelle me ligou pela manhã e disse que chegará em Nova Iorque hoje...
– Anna está vindo para o Natal?
E de fato, a notícia passará longe de me deixar feliz.
– Sim, ela avisou hoje para mim e disse que chega por volta das cinco da tarde... Era uma surpresa, como ela mesma disse – Damon explicou com pêsames.
– Wow...
Era difícil explicar qual fora minha reação com a novidade do adendo a mesa da ceia de Natal naquela noite... Após os oito anos em que eu e Damon estávamos realmente juntos e que Annabelle se mudara para Europa, foram raríssimas as vezes em que ela entrava em contato ou que vinha visitar, normalmente suas visitas eram de poucos dias em uma época do ano aleatória e ficava na casa de minha sogra evitando ao máximo o contato comigo, então a notícia de sua vinda fora mais que inesperado principalmente porque ela iria para minha casa. Tinha que confessar que tal afastamento sequer afetara minha vida, para ser sincera não fazia menor diferença ter contato com minha cunhada e pouco me importava com a situação, nossa relação nunca seria saudável e infelizmente eu ainda guardava um grande e secreto rancor dela. Porém, pelo visto o grande reencontro estaria cada vez mais perto de acontecer e algo me dizia que minha visita surpresa não seria tão agradável quanto deveria.
– Tudo bem por você, meu anjo? – perguntou Damon hesitante ao perceber o meu silêncio.
– Sim, claro... – pigarreei.
– Não senti convicção...
– Está sim, eu só não esperava por isso, ela é sua irmã e independente do que tenha acontecido entre nós eu não posso intervir em sua relação com ela e muito menos impedi-la de vir nos visitar.
– Eu sei mas confesso que até eu fiquei surpreso quando vi seu nome no identificador de chamadas, ela era a última pessoa que eu esperava que me procurasse mesmo sendo véspera de Natal. Acho incrível a cara de pau dela... – ele refletiu revirando os olhos – Como se as coisas fossem fáceis e simples dessa forma, ela some, não quer saber da existência de seus sobrinhos ou de mim e do nada como se nada tivesse acontecido ela reaparece!
Por alguns segundos cogitei que o que tinha irritado meu marido daquela forma não fora apenas meu presente de mau gosto a Julianne mas principalmente a ligação de Annabelle, em nossa breve discussão ele não demonstrou tanta revolta como fizera com aquele assunto, em sua voz não havia tanta magoa como quando ele falava de sua irmã. Mesmo após tantos anos era perceptível a decepção de Damon com Annabelle, ainda que no fundo ele sentisse falta de sua caçula por perto, a relação dos dois esfriara de uma forma que nada mais os reaproximava como antes e sempre quando o assunto era ela meu marido mostrava-se indiferente.
– Espero que tudo dê certo, quando ela me disse que viria hoje de manhã não tive como dizer que achava melhor que ela não viesse... – prosseguiu ele.
– Não irá acontecer nada, só será estranho tê-la aqui novamente depois de tanto tempo – expliquei.
– Sim, principalmente no Natal mas... – ele começou mais uma vez um tanto hesitante.
– Damon, fique tranquilo, se depender de mim nada irá acontecer ok? – antes que ele pudesse concluir seu pensamento, eu o interrompi segurando seu rosto com delicadeza fazendo-o me olhar.
– Obrigado, meu anjo! – suspirou ele aliviado.
–Não precisa me agradecer, sabe disso! – sorri gentilmente para ele, acariciando seu rosto com os polegares – Pelo visto teremos que colocar mais um lugar a mesa...
– Um não, dois... – Damon corrigiu – Ela trará o namorado...
–Hm... Certo... – assenti ainda mais surpresa, tentando decodificar aquelas novidades. Péssimas inclusive.
– Aliás, esqueci de avisar que minha mãe já chegou e está na sala junto com o Ian e a Emily.
– Ah sim, vou me juntar a eles daqui a pouco mas antes será que eu posso ter alguns minutos com meu Doutor? – ainda com um beicinho manhoso, eu sussurrei perto de seu rosto aproximando-me um pouco mais dele com certa malícia, certificando-me de que ele estava mais calmo.
– Quantos quiser, meu anjo! – ele assentiu com um sorriso um tanto aliviado, selando seus lábios aos meus – Contanto que você desligue essa porcaria de computador...
– Agora eu já terminei mesmo o que eu tanto fazia... – respondi com um sorriso malandro, acabando com a distância entre nossos lábios.
Lentamente eu acabo com a distância de meus lábios e Damon, selando carinhosamente os meus aos dele em um reencontro demorado que o fizera sorrir extasiado sob mim e contra meu beijo, repetindo o ato seguidas vezes apenas aproveitando da textura macia deles contra os meus. Com delicadeza minhas mãos seguraram seu rosto afagando sua face com a barba para fazer, como eu tanto gostava de fazer enquanto o beijava, a medida em que suas mãos firmes pressionavam minha cintura e arrastavam-se até minhas costas fazendo meu corpo inteiro esquentar principalmente com a proximidade que nossos corpos haviam assumido.
Sem mais delongas Damon toma iniciativa de algo mais intenso ainda pressionando-me contra ele, tomando meus lábios para si com urgência e ao mesmo tempo lentidão, daquela forma que me fazia estremecer a cada giro e encontro de nossas línguas. Daquela forma que me fazia ansiar por mais. Com a mesma urgência de meu marido eu correspondi ao beijo que tornava-se um convite irresistível de intensificar nosso contato, e até mesmo o ato, guiando minhas mãos aos cabelos bagunçados de Damon para emaranhar meus dedos nos longos fios que exalavam o cheiro delicioso de seu shampoo.
Será que sempre seria assim? Coração acelerado, corpo arrepiado e aquele sentimento incomparável? Mesmo depois de tantos anos juntos, depois de inúmeros beijos e noites de amor? Era sempre a mesma sensação deliciosa sentir o carinho, o beijo dele, ver seu sorriso e sentir seu cheiro, era como se eu nunca me cansasse ou me enjoasse daquele homem.
A combinação da maciez de seus lábios acariciando-se aos meus com o contato de seu corpo e o cheiro de seu perfume amadeirado entorpecera meus sentidos e meu lado racional, de forma que eu já estava montada no colo de meu marido no beijo mais intenso que havíamos trocado em semanas. Definitivamente estávamos sedentos um pelo outro. As mãos másculas percorriam minhas costas e pressionavam minha cintura prendendo meu quadril contra o seu no encaixe perfeito de nossos corpos enquanto meus dedos bagunçavam ainda mais os cabelos negros.
Mesmo que estivéssemos sedentos um pelo outro, não seria naquele momento que conseguiríamos acabar com nosso desejo; vindo da babá eletrônica ao lado de meu notebook o chorinho conhecido de minha caçula me fizera interromper o beijo que estava prestes a seguir ao próximo estágio.
– Algo me diz que não será hoje que vamos conseguir ficar sozinhos... – disse contra os lábios urgentes de meu marido, tentando me afastar.
– Ah não, fique aqui, por favor! – insistiu ele, prendendo-me mais contra si, impedindo que eu me afastasse e forçando meus quadris contra os seus.
– Lauren está chorando amor, não posso... – insisti com uma falsa convicção que se desmanchou com um gemido de excitação.
– Por favor, por favor!
– Não posso, nossa filha...
Enquanto eu tentava me afastar Damon selava beijos demorados pelo meu pescoço procurando incessantemente pela barra de minha blusa.
– Damon...
– O que acha de darmos a desculpa de que vamos nos arrumar e vamos para o nosso quarto tomar um banho juntos? – ele sugeriu sussurrando em meu ouvido.
– A casa está cheia... Damon...
– Lena, sinta como eu estou...
Com as duas mãos firmes em meus quadris, Damon forçou-me mais uma vez contra si, pressionando o ponto exato de meu corpo que já pulsava por atenção com sua ereção já formada, porém, com certo esforço juntei minhas forças para colocar meus braços entre nós de forma que o afastava levemente.
– De noite, meu amor! – sussurrei baixinho enquanto distribuía beijos pelo seu rosto e acalmava minha respiração – Não quero pressa e ainda tenho um presente para lhe dar.
– Agora você me deixou curioso e ainda mais excitado!
– Controle-se! – ri baixinho tentando consola-lo enquanto me afastava gradualmente.
Com um suspiro fundo Damon me observou ajeitar minhas roupas, mordendo o lábio inferior com um sorriso um tanto quanto malicioso até que eu depositasse um beijo demorado em seus lábios para ir até minha filha.
Eram momentos como esses que eu tanto senti falta há alguns meses... Após alguns meses do nascimento de Lauren fora perceptível a distância que se formará entre Damon e eu, como eu passava o dia inteiro em casa com Lauren devido a licença a maternidade Damon ia trabalhar e normalmente ao voltar do hospital não tinha a mesma disposição para ficar comigo ou dar a atenção que nossos filhos mereciam e infelizmente as brigas e discussões começaram. Em minha mente fantasiosa Damon já não gostava tanto de mim como antes ou que até mesmo havia encontrado outra mulher, afinal, oito anos haviam se passado e nossa relação em algum momento iria esfriar mas nunca pensara que fosse após o nascimento de nosso segundo filho.
Nossas conversas se tornaram vagas, os carinhos extremamente raros e devido ao nosso cansaço (o meu de cuidar de Lauren e Ian e o dele de trabalhar) quase não nos víamos acordados, Damon sempre que conseguia cuidava e brincava com nossos filhos mas comigo continuava distante tanto fisicamente quanto emocionalmente. Ainda com meus hormônios a flor da pele e extremamente carente, o desespero bateu em minha porta me fazendo ter certeza de que meu casamento estava arruinado, Caroline me consolava falando que era apenas uma fase ruim e que iríamos superar e falava também que acontecera a mesma coisa com ela e Klaus após o nascimento de Camila mas em uma de nossas pequenas discussões fora inevitável controlar o choro que enchia minha garganta.
Sem entender o motivo de meu desespero Damon concordou em conversarmos e concordou também sobre nosso afastamento e com isso descobri, que assim como eu, ele também sentia-se só como se eu não me importasse mais com ele e após longas horas de conversa, colocando os pingos em nossos “is”, reconhecemos que ambos estavam distantes e que a culpa do esfriamento de nosso casamento não era somente de Damon. Claro que apenas uma conversa não fora suficiente para que voltássemos a ser o que erámos mas a passos de bebê nossas discussões por futilidade diminuíram e Damon voltou a me compreender, assim eu com ele.
Era inevitável as crises em uma relação como a nossa, meu marido continuava a ser a mesma caixinha de surpresas de quando o conheci e eu não conseguia mudar o fato de ser cabeça dura, porém, com o tempo conseguimos aprender com nossas diferenças e a lidar com elas até porque duas pequenas pessoas dependiam de nós e de nossa harmonia. E uma delas, naquele momento em questão, implorava por minha atenção.
– Olá querida! – disse em um tom suave, entrando pelo quarto de minha pequena que já me esperava em pé no berço a minha espera.
– Mamãe... – manhou Lauren, me chamando com as duas mãozinhas para que eu a pegasse no colo.
– Você dormiu bastante? – perguntei para a garotinha sonolenta e de olhos inchados que se aninhava em meu colo, e em resposta ela assentiu com um leve acenar com a cabeça coçando os olhinhos.
Era incrível como até com os olhinhos inchados de sono Lauren continuava a cópia fiel do pai. Sua longa e espessa camada de cílios deixava seus olhos azuis claro uma versão em miniatura dos de Damon assim como a boca bem desenhada e as sobrancelhas arqueadas que eu conseguia identificar até mesmo em Emily. Enquanto Ian conseguia ser uma mistura minha e de Damon, com fortes traços meus, não me restavam dúvidas de que Lauren era inteiramente meu Doutor.
– Sabe quem está na sala que veio te ver? A vovó! – disse para Lauren que aninhava-se em meus braços temendo que ela voltasse a dormir novamente antes do almoço.
– Vovó! – exclamou ela, em suas palavrinhas ainda no tão claras, olhando para mim sorrindo com a chupeta na boca.
– Vamos lá com ela, vamos! – sorri abertamente em animação a fazendo bater palminhas.
Ainda com Lauren sonolenta em meus braços, atravessei o largo corredor chegando ao cômodo de onde vinha as vozes alegres e uma gargalhada alta que eu bem conhecia.
– Olha só quem acordou... – Pearl sorriu ao ver a neta acordada em meu colo.
– Olá vovó! – disse docemente enquanto minha filha esticava os bracinhos em direção a avó para que a pegasse no colo – Mas essa avó tem mel, é isso?
Enquanto Lauren pedia colo para avó, Ian estava sentado ao lado de minha sogra completamente encostado ao corpo dela, em uma cena extremamente comum dos dois. Tanto Ian quanto Lauren eram loucos pela avó desde que nasceram e Pearl não era diferente com os netos, para minha grande felicidade meus pequenos foram bem recebidos a família, levando alegria a vida deles como minha própria sogra dizia. Era um grande alivio para mim, não apenas meus filhos mas como eu mesma, ter uma relação extremamente saudável com a família de Damon, apesar de meu passado complicado eles sempre me apoiavam dizendo que o que importava a eles era meu presente e meu futuro, independente do que eu fizera. Definitivamente não havia uma coisa que eu pudesse reclamar de minha nova família... A não ser pela Salvatore mais nova.
– Não mamãe, a vovó me dá chocolate e não mel! – explicou Ian exasperado.
– Ah sim! É verdade querido, essa vovó é cheia de chocolate não é mesmo? – assenti rindo de meu pequeno, entregando minha filha que esticava-se toda para chegar aos braços da avó – Vocês podem olhá-la enquanto eu preparo a mamadeira?
– Mãe, eu quero! – Ian pediu manhosamente, aproximando-se de mim com os braços erguidos para que eu o pegasse no colo – Eu comi todas as frutas...
– Comeu mesmo? – perguntei desconfiada, semicerrando os olhos.
– Comi sim, comi sim! Lembra? Você que me deu! – ele se defendeu aflito, acreditando em minha brincadeira maldosa.
– Ah mas é verdade, eu tinha quase me esquecido! Viu só como é importante comer todas as frutas, você fica com uma memória boa e ainda pode ganhar mamadeira junto com sua irmã!
– Mamãe, sabe o que eu acho? Eu acho que você não está comendo todas as suas frutas por isso que não se lembrou que eu comi tudo hoje! – disse ele em acusação, apontando-me o dedo indicador em repreensão nos fazendo rir alto.
– Hmm que bonito o filho dando bronca na mãe – riu Emily.
– Ian agora pergunte para Emily se ela também come as frutas dela como você!
– Ish mamãe a Emily não come não, eu acho... – Ian disse com um sorriso malandro.
– Viu só ele te entregando?! – brinquei com Emily, que me respondeu com uma careta debochada.
– Eu acho que Emily está com fome porque meu papai disse que cara feia é fome... O que acha de prepararmos juntos uma mamadeira para ela? – prosseguiu Ian ainda com aquele sorriso.
– Eu acho uma ótima ideia, filho, e o que você acha de tirarmos uma foto para mandar para Jesse?
– Sim!! – respondeu Ian com uma gargalhada alta e estrondosa, que enchia nossos ouvidos.
– Eu vou mostrar para você quem não come as frutas, senhor Ian Salvatore, acho bom você correr e se esconder porque quando eu te pegar vou te encher de cócegas! – Emily ameaçou Ian.
– Ai mamãe, ai ai! – riu o pequeno mais uma vez, quase se engasgando com o riso enquanto erguia os bracinhos em minha direção e sapateava em minha frente como se pedisse socorro.
– Aliás, falando em Jesse, ele virá passar o Natal conosco... Pode? – Emily perguntou rapidamente com inocência e um sorriso derretido, daqueles que tentava nos convencer de algo.
– Hmm isso não é comigo, você sabe que eu não me importo mas seu pai pode não gostar da ideia... Você precisa falar com ele Emms e já vou lhe dizendo que ele está extremamente mal humorado e estressado hoje.
– Nãão... – ela choramingou igualzinho a como fazia quando era mais nova – Porque você não fala com ele como sempre faz? Principalmente agora que ele está azedo e só você consegue acalma-lo nesses momentos...
– Hmm sinto em lhe dizer mas está difícil de convencê-lo dessa forma nos últimos tempos... – disse com pesar.
– O que? Como assim?
– Vocês estão bem, querida? Aconteceu alguma coisa?
– Estamos mas nossos horários não estão batendo ultimamente e eu acabei fazendo algo que o deixou um tanto quanto bravo comigo hoje – expliquei suspirando fundo.
– Não me diga que foi por causa daquele presente que você comprou para Julianne?! – perguntou Emily.
– Por isso mesmo! – assenti com um sorriso envergonhado por estar tendo aquele assunto na frente de minha sogra.
– Que presente? Do que vocês estão falando? – perguntou minha sogra desentendida.
– Damon pegou Julianne no amigo secreto do hospital e pediu para Elena comprar o presente dela e Elena comprou um vibrador com um bilhete um tanto desaforado... – explicou Emily com descaso fazendo-me corar fortemente.
Obviamente eu não me orgulhava de ter dado tal presente a Julianne e em nenhum momento pensei em contar sobre ele para minha sogra, principalmente quando nem sobre sexo eu conseguia conversar com ela. Com toda sua elegância e seriedade eu quase me esquecia de que Pearl era mãe de três filhos e que quando seu marido era vivo os dois tinham uma vida mais intima, mas era impossível conseguir falar abertamente de minha vida sexual com meu marido para sua mãe. Ou então do vibrador e do sincero bilhete que Julianne havia recebido.
– Vibrador? Mamãe, o que é isso? – Ian perguntou inocentemente.
– Emily!! — repreendi minha enteada, segurando o riso pela forma com que Ian prestava atenção em tudo ao seu redor – Ela disse labrador, Ian, labrador de brinquedo!
– Oh sim, mas você trouxe um para mim?
– Hm o que acha da mamãe fazer a mamadeira com um leite quentinho? – perguntei pensativa tentando mudar seu foco.
– Sim sim! – assentiu o garotinho com um sorriso.
– Certo, o que acha de esperar a mamãe trazer a sua mamadeira e de Lauren assistindo esse desenho legal na televisão? –sugeri a Ian que balançou positivamente a cabeça para descer de meu colo e para que continuasse a conversar com minha sogra – Então Damon ficou bravo comigo por isso, mas em minha defesa, essa mulher grudou em meu marido parecendo sanguessuga, não consegui me controlar! Eu normalmente não sou tão ciumenta dessa forma mas ela me tira do sério!
– Fique tranquila querida, essa foi a primeira reação dele e logo ele esquecerá desse presente. Vocês dois se amam e não vai ser uma terceira que mudará isso!
– E então, você pode falar com ele, Lena? – Emily pediu mais uma vez.
– Pode deixar Emms...
– Céus, eu amo demais vocês! Estou lhe devendo uma noite com as crianças para você e meu pai tirarem o atraso!
– E eu vou cobrar! – sorri satisfeita fazendo mentalmente uma breve conta — Certo, já temos mais três lugares a mais nessa mesa hoje.
– Três?
– Vocês não estão sabendo ainda que Anna chega hoje as cinco da tarde? – perguntei desconfiada.
– Anna? Annabelle? – fora vez de Pearl questionar.
– A tia Anna está vindo? – Emily adicionou.
– Quem é a tia Anna, mamãe? – Ian finalizou, completando meu desespero e nervosismos que eu tanto evitei ao receber a notícia.
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