Whirling Crescendo
20 My world is slowly dying
Notas iniciais
– Eu quero aquele doce.
– ...Como é?
Com um movimento irritado, as grandes asas púrpuras e negras se sacudiram, penas desgastadas caíram pela confeitaria como folhas no outono. Um pote de vidro próximo na bancada quase caiu com o movimento brusco, mas Morgana o segurou a tempo.
Draven observou tudo indiferente.
– O doce. O doce que eu comprei aquele dia, com a Sona. Qual era?
O Anjo Caído o olhava, um pouco confusa,com o pote ainda nas mãos.
– Eu não faço ideia qual foi. Você acha que eu me lembro de tudo o que os meus fregueses pedem?
– Falando assim até parece que você tem muitos. — Ele se sentou num banquinho alto, próximo da onde estava. Morgana não era muito próxima dele, mas Draven era conhecido pela energia e hiperatividade egocêntrica e irritante. Mas agora, ela poderia até arriscar dizer que ele parecia meio desanimado.
Repousando delicadamente o pote no balcão, ela perguntou:
– Por que isso do nada? Depois dessas semanas todas.
Draven deu de ombros.
– Fiquei com vontade, sei lá. — ele passou a mão no rosto, suspirando e apoiando o tórax no balcão, ficando meio jogado. — Eu não sei o que tá acontecendo comigo, Morgana-
– Ah, não, nem vem. Você não sabe, e nem eu quero saber. Pode vazando. — tentou inutilmente empurrar o homem para fora do balcão, mas mal conseguiu o mover. Bufando brava, ela o encarava, enquanto ele continuava falando, a ignorando completamente.
– ...e também tem aquele maldito cheiro de morango não saí do meu banheiro. É doce demais, e parece que cada dia fica pior.
– Por que o seu banheiro tem cheiro de morango? — Morgana não conseguiu conter a curiosidade.
– Sona colocou todo o sais de banho de morango na banheira, mas eu acho que aquilo foi feito em um dos planos do inferno, por que o cheiro não sai nunca.
A confeiteira virou-se para a cozinha, com as mãos para cima,em um gesto de “eu-desisto-fica-aí-falando-sozinho”, e foi continuar a fazer os biscoitos. Ele não poderia ficar ali para sempre, então ela iria apenas ignorá-lo.
Draven continuava jogado, com o rosto apoiado na madeira escura. Conseguia enxergar Morgana na cozinha, mas seu olhar parecia perdido.
– Ela também tinha um cheiro doce no cabelo. Mesmo quando tudo cheirava á morango, o cabelo dela continuava com o próprio cheiro doce. Como é que alguém consegue ser tão enjoativa?! — ele exclamou irritado.
– Não sei, me responda você. — a voz de Morgana veio abafada do outro cômodo.
– É claro que ela não foi embora. Por que ela iria embora? Ela não teria ido embora sem se despedir. E sabe por que? As roupas dela continuam lá em casa. Tudo.
E era muita roupa. 5 vestidos longos de gala, 8 vestidos longos mais simples, muitas blusas e saias casuais, 2 maletas de maquiagem, e ele não sabia bem por quê, 3 perucas. Isso sem falar nos sapatos.
Não que ele tivesse verificado todas as malas e contado tudo. Claro. Também não experimentou nenhuma peruca.
– Tenho certeza de que alguma coisa de ruim aconteceu com ela, mas eu não consigo sair do mesmo lugaaargh...- sua voz foi morrendo, enquanto rolava pela balcão, quase derrubando o pote de vidro novamente.
– Ok, por favor não me entenda errado. — A mulher e suas asas negras voltaram, com uma tigela grande e uma colher de pau. A massa na tigela parecia estranhamente doentia com tom de verde musgo.- Eu não estou tentando te ajudar. Mas isso que você tem, me parece aquela coisa que vocês humanos chamam de amor.
Um pouco de massa esverdeada voou quando Morgana apontou a colher na sua direção, mas ele ignorou. A olhava incrédulo, talvez até um pouco ofendido. Mas depois de alguns segundos, sentou-se direito na bancada, com uma cara pensativa, alisando o bigode enquanto pensava no assunto.
– Hm... Draven nunca amou ninguém além de Draven. Não, eu acho que não é possível, eu passo.
– Você é mais burro do que eu achava... — Morgana rolou os olhos, voltando a bater a massa, que agora tinha um tom puxado para o cinza. — Já que você vai ficar aqui o dia todo, poderia me ajudar né?
Porém Draven já havia saltado do banco e estava na saída.
– Ah, agora você foge né vagabundo.
– Desculpe senhorita, eu sei que implora pela minha presença – fez uma reverência dramática ao passar pela porta- mas tenho outros assuntos a resolver.
– Nunca mais apareça na minha frente!- ela gritou, mas ele já estava na rua. Ainda assim, gritou mais alto:
– SÓ APAREÇA AQUI DE NOVO PARA ME PAGAR OS CHOCOLATES QUE SEU IRMÃO ME DEVE!
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Cercada por paredes e paredes de livros, grossos e finos; velhos e novos; Layla se sentia como que em outra dimensão. Se permitia viajar, e ignorar completamente que fora daquelas estantes, estava em um quartel militar, e o principal, podia sonhar que todos aqueles livros não eram sobre táticas e armas de guerras inúteis. Porém, ela sabia que em algum lugar ali teria algo de seu interesse, então continuou seu caminho pelo labirinto de livros.
Ao virar uma esquina, avistou Draven no final do corredor, sentado em uma das poltronas de leitura, com um livro aberto no colo. Seus olhos verdes demoraram para se encontrar com o rubi de Layla, mas quando o fez, a maga conseguiu sentir uma tensão quase que física entre eles.
– Eu nem fazia ideia que você sabia ler, Draven. — Layla quebrou o silêncio, se aproximando,os saltos silenciosos no carpete.
– Sei uma ou duas palavras – ele fechou o livro pesado de capa dura com força, e o jogou na mesinha no lado. — Mas as figuras desse eram legais.
De costas para o janela , estava de pé , bloqueando a luz na frente de Layla. Os dois tinham praticamente a mesma altura, e Draven se perguntava como a mulher conseguia sequer ficar de pé naqueles saltos.
– Sobre o que era? -olhou de canto para o livro, mas a capa estava virada para baixo. Passou as mãos pelo manto de pelos brancos que lhe caia no ombro direito, enrolando os dedos nos fios.
– Métodos de tortura. Achei um realmente interessante , que estou pensando em experimentar. Se chama Pêndulo. — Layla sorriu, e ele retribuiu , mostrando os dentes um pouco mais pontudos que o comum.- Você tem bastante experiência com pêndulos, não?
– Ah, tenho sim.- A maga jogou todo seu peso contra ele, e Draven deu um passo para trás, para recuperar o equilíbrio. Layla se mostrava estupidamente vulnerável, vulnerabilidade essa que Draven sabia que era inexistente. Ela apoiou as mãos no seu tórax, e mantinha o olhar fixo, olhos rubi brilhando por de trás das lentes dos óculos. — Posso te ajudar com isso.
– Você vai me ajudar sim, mas não da maneira que você está pensando.
Layla riu, gargalhou. Uma risada cínica e irritante, jogando a cabeça para trás. Deixando bem claro o quão sério ela estava levando as palavras do carrasco.
Draven agarrou os pulsos dela, com força – mais do que a necessária para afastá-la, mas ainda assim foi a força desejada – a empurrou, fazendo a gargalhada parar imediatamente. Apesar de tentar manter a neutralidade, ele conseguiu captar um lampejo de medo na sua feição.
– Onde está a Sona?
– Quem? — Layla conseguiu soltar um dos braços, mas continuava presa pelo outro pulso. Entretanto, não mostrava sinais de querer fugir ou lutar contra.
O que estava deixando Draven muito, muito irritado. Nessas ultimas semanas estava procurando alguma coisa, qualquer um que pudesse explodir, espancar até a morte, esquartejar, algo que o fizesse sentir vivo e satisfeito. Layla o menosprezando e o subestimando só piorava o humor dele.
– Como você entrou aqui? — a mulher mudou de assunto,e se estava incomodada com a mão apertando o seu braço, não demonstrava. — Essa ala são os aposentos privados dos Grão-General. Não é qualquer um que--
Draven focou sua força em um dos dedos de Layla, o torcendo deliberadamente. A maga olhou curiosa para o dedo, como se nunca tivesse notado que ele estava ali.
– Onde está--
– Queeeeeem? — Layla rolou os olhos, e sorriu diabolicamente. Draven a amaldiçoou. Maldita bruxa sem alma, ela não gritaria, não imploraria que parasse, não sangraria. Não iria conseguir nada daquela vaca.
Como se sua mão virasse névoa, ela se libertou da prisão, e esgueirou para fora do alcance dele.
– Estou realmente muito ocupada querido, podemos brincar outra hora. E infelizmente, acho que o que eu procuro não está aqui... Mas quem sabe, você tem melhor sorte na sua busca, não é? — piscando, ela deu meia-volta e seguiu pelo corredor de onde veio.
Ao perder de vista a mulher, Draven sentiu como se um balde de água fria caísse sobre si, livre de uma letargia que ele não havia notado.
Sentiu um lampejo de dor, e olhou para suas mãos: a mão direita estava segurando fortemente a esquerda, o dedo anelar retorcido em um ângulo dolorido.
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Sentado na enfermaria, Draven observava o mesmo soldado que vira no dia anterior, no campo de treinamento. Além dos ferimentos de ontem, ele agora estava enfaixando a perna. Que merda de vida,Draven pensou.
Havia colocado o dedo de volta no lugar, mas ele achava que tinha fraturado um osso, então precisaria de qualquer jeito de uma tala. A dor só não era maior que o orgulho ferido. Ainda não aceitava que havia se deixando enfeitiçar e manipular tão facilmente por uma bruxa. Bufava e resmungava só de lembrar, sentindo a fúria como fogo na garganta.
Estava tão perdido em seus pensamentos que não notou a mesma garota de ontem, o encarando. Talvez ela estivesse ali já alguns minutos, ou só chegara agora, não sabia.
A encarou tão furiosamente, simplesmente bravo por ela existir, com ódio daquele cachecol marrom que ela usava no pescoço – era verão, por que ela usava um cachecol?- que a menina deu um passo para trás, talvez pensando em fugir. Porém em seguida Draven mudou de semblante, desviando o olhar, se contentando apenas em perguntar o que ela queria.
– Você não quer ajuda? — ela ergueu um kit de primeiro socorros, uma caixinha que talvez um dia tivesse sido branca, mas agora era de um tom verde claro. Draven mal conseguiu entender o que ela falou, sua voz era rouca e muito baixa.
Ela se aproximou, sentando ao seu lado no banco largo, olhando concentrada para a mão que Draven lhe estendeu.
– Talvez fosse melhor deixar isso para uma enfermeira. — ele disse, sem levar muita fé na experiência da morena.
Novamente, por um milésimo de segundo, ela levantou o rosto e encontrou seus olhos , mas logo os escondeu, como se seu rosto queimasse ou tivesse levado um choque.
– Eu sou uma enferme-me-meira.
Draven a avaliou: não usava o uniforme branco das enfermeiras, e além disso parecia muito jovem. E o principal, nunca a vira por alí.
Como que lendo os pensamentos dele, ela completou:
– Ainda estou aplendendo. Aprendendo. Droga.
O carrasco riu, o que fez o rosto da menina ficar vermelho de vergonha. Ela puxou o cachecol para o pescoço, arrumando melhor. Os fios de cabelos negros lhe caiam sobre a face, o impedindo de ver o rosto melhor.
– Qual é o problema com a fala?
– D-Draven, não é educado ficar perguntando qual é o problema das pessoas...
Ficando menos relaxado, Draven se curvou um pouco em sua direção, e a estranha pareceu mais tensa enquanto terminava de enrolar a tala no seu dedo.
– Você obviamente não é daqui. Eu nunca te vi, e uma pessoa me ensinou que, infelizmente porque o mundo é um lugar de merda, nem todos conhecem Draven. E mesmo que soubesse...
Sua mão foi em direção a cortina de cabelos, e os tiraram do caminho. Dessa vez ela estava petrificada demais para fugir, e os olhos azuis como o céu e uma chuva de ouro encararam os verdes elétricos de Draven.
Olhou em tudo, toda a feição, os olhos assustados, a boca entreaberta. A menina não tinha aquele tipo de beleza que encantava a todos. Era comum, até comum demais. Tudo estava normal, mas ainda assim, ele sentia algo que não estava certo.
O cheiro. O cheiro doce e enjoativo do cabelo dela. Não era azul e dourado, era marrom e sem graça, mas ainda assim... Draven nunca esqueceria daquele cheiro.
Como se enxergasse uma onda de refração, algo tão sútil e discreto, que mal se conseguia ver, essa névoa se foi.
Era uma sensação estranha de descrever. Como explicar algo que nunca esteve ali, indo embora? Num piscar, seus olhos foram inundados por azul, dourado, e um sorriso tão lindo que ele achou que iria chorar.
– Sona...?
A Mestra das Cordas levou o indicador ao lábio, pedindo segredo. Ela estava ali, onde a segundos era uma estranha qualquer. Sona, usando uma roupa militar, um odioso cachecol marrom, e olhar cansado. Passado o choque de a ver ali, Draven notou que o seu rosto estava bem mais magro, com olheiras e a pele bem mais pálida. Ainda assim, o sorriso era o mesmo.
Ele não sabia o que fazer. Não sabia se a beijava, sabendo que ainda estava ali, ou se a esquartejava por não o ter procurado.
–Como...? — ele falou baixinho. Olhou para os lados: ninguém achou estranho uma mulher se transformar totalmente do nada?
– Eles ainda me veem com a outra ap-parência.
– Você fala agora?! — Dessa vez Draven teve que se controlar para não gritar.
Sona repetiu o gesto, pedindo silêncio.
– Não posso falar com você agora, não aqui. Eu nem deveria ter vindo aqui. — Sua voz já rouca começou a falhar, e ela se pôs a tossir violentamente no cachecol. Uma enfermeira que passava a olhou preocupada, mas com um gesto Sona fez que estava tudo bem.
– Me encontre amanhã, no mesmo lugar em que encontrou Layla hoje.
– Como você sabe disso...? — Draven ficava cada vez mais confuso, e a olhava exigindo uma explicação, enquanto Sona se levantava, pronta para partir.
– Por favor, por favor, não conte para ninguém. Amanhã. Eu prometo.
Ela soltou sua mão, que Draven não notara que estava segurando, e foi embora, correndo. Talvez achou que Draven a seguiria, mas ele ficou parado, a observando. Os cabelos soltos, não tinham mais a vida e fluxo harmonioso de antes. Estavam caidos, pesados, quase na altura da canela da menina. E o cachecol com uma mancha de sangue.
Draven achou que ficaria mais feliz quando a encontrasse. Porém ele sentiu como se aquele vazio no peito fosse capaz de lhe engolir.
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