Whirling Crescendo
10 Instant Need
Notas iniciais
O edifício era pequeno, com 3 andares apenas, com uma arquitetura simples e antiquada. Um daqueles prédios comunitários, feitos para abrigarem muitas famílias, em poucos andares e apartamentos. Mas diferente de quase tudo o que Sona vira até então em Noxus, a construção não parecia estar precisando de reformas, estando bem conservada.
Quando chegaram no hall de entrada do prédio, já estavam encharcados até os ossos. A chuva aumentara drasticamente, e não dava sinal de que iria parar tão cedo. Sona fechou a porta atrás de si com força, lutando contra o vento que puxava de volta.
“Nossa, é muita chuva!” a garota comentou impressionada, torcendo os cabelos encharcados e molhando boa parte do chão de mármore no pequeno saguão. Ao não receber resposta virou-se, e achou Draven procurando algo com muita urgência.
“O que houve?”
—A chave... eu nunca sei onde ela tá.
Sona levou a mão ao rosto, respirando fundo, sem acreditar na situação.
“Você não tem a chave da própria casa?”
Em resposta, Draven fez apenas um gesto dramático, virando-se totalmente para ela, e afastando os braços, mostrando bem o seu estado e roupa.
—Você acha que eu tenho algum bolso por aqui? — E voltou sua atenção para debaixo do tapete.
Sona deslizou até a porta, analisando-a. Se havia alguma chave por ali, deve ter sido difícil de esconder, pois no pequeno cômodo não havia muitas possibilidades de esconderijo. Tirando o tapete e um porta guarda-chuva, não havia mais nenhum móvel ou decoração.
“Olha, não é mais fácil nós pedirmos para alguém de outro apartamento abrir...? Pelo menos ficaríamos la dentro...”
Por um momento Draven a olhou como se não entendesse o que ela havia dito, ou como se fosse a maior idiotice que ele já ouviu. Mas depois de um tempo ele pareceu compreender.
—Ah! Não rola, não tem ninguém morando ai além de mim e do Darius. E eu não sei onde ele está então...
“Só tem vocês, nesse prédio inteiro?”
—Aham.
“Por que?”
—Hm...- ele parou um instante, tirando o cabelo molhado da testa e os jogando para trás. Ele ainda parecia mal-humorado porque seu penteado se fora tão rapidamente na chuva. — Como posso dizer... Meu irmão resumidamente mandou todo mundo... embora.
“Mas...Por que?”
Sona cruzou os braços, sentindo a roupa molhada gelando o seu corpo. Curiosa com a historia, escorou-se na porta, esperando uma resposta. Mas antes mesmo de poder ouvir a explicação, sentiu seu apoio falhar, e ela quase caiu para trás.
Encontrou a porta entreaberta, e sorriu ao ver que ela estava desimpedida esse tempo todo, e ele nem pensara em tentar abri-la.
“Hm... Draven?A porta está aberta.”
Ele a olhou incrédulo. Bufando, passou reto e escancarou a porta, entrando com passos largos. Sona entrou logo em seguida, ainda sorrindo.
Assim que entrou, entendeu um pouco o que Draven quis dizer quando disse que ninguém mais morava lá além dos dois. Ela esperava achar algum corredor que levava para vários apartamentos, mas em vez disso encontrou-se numa sala ampla, mas com moveis simples. A sua esquerda uma passagem levava para outros cômodos da casa. No fundo da sala uma escada rustica levava ao andar superior, e Sona conseguiu ver ainda que além da escadaria havia outro portal que levava a outros corredores.
O prédio havia sido reformado e agora apenas a fachada do antigo condomínio permanecia a mesma, tendo o interior todo refeito.
Um barulho metálico interrompeu os olhares curiosos de Sona pelas estruturas. Draven retirava as peças de roupa e as jogava no chão, indo em direção à escada.
—É melhor tomar um banho logo e tirar essa roupa molhada. — Parando nos primeiros degraus, esperando que Sona o alcançasse, ele inteirou: — Se quiser posso te ajudar com isso.
Constrangida, ignorando o fato de que Draven já se encontrava nú da cintura para cima, logo na sua frente, ela virou o rosto e respondeu:
“Não, obrigada, eu dou conta disso sozinha. É só... que eu não tenho nenhuma roupa seca para trocar... ”
—Pode pegar algo meu.- Subiu as escadas de dois em dois degraus, deixando-a para trás. Ela ainda estava cansada da corrida que tiveram a pouco, então nem tentou acompanhá-lo e subiu normalmente, pensando em que tipo de roupa que ele teria que iria servir nela.
Encontrou-se num longo e largo corredor, com o pé-direito alto. Olhou a sua direita, e no final do corredor avistou uma porta fechada, no lado oposto de outra porta igual, mas essa aberta. Só haviam essas duas portas no corredor, e Sona ficou ainda mais curiosa com a arquitetura desse lugar.
—Aqui! — Ela ouviu o chamado abafado, vindo da sua esquerda. Seguiu o caminho pelo corredor,até à porta que estava aberta.
O quarto era grande. Poderia considerar ele como um quarto “enorme”. Sona conseguia ver agora que para o ultimo andar da casa, o chão que separava o segundo e terceiro nível foi destruído,tornando-se um único andar.
O cômodo em si era uma bagunça. Sona não havia parado para pensar como que seria o quarto de Draven, mas olhando para aquilo agora, ela sentia que tudo deveria ser como estava.
— Pode pegar alguma coisa pra vestir ai, já venho. — Draven passou correndo por ela,saindo de uma porta que Sona não havia percebido, próximo a porta do quarto.
Ele estava estranho. Não no jeito natural de estranho dele, mas ele estava inquieto desde que chegaram. A garota se perguntava se seria por conta do irmão dele? Ele mencionou o irmão algumas vezes naquele dia, e Sona podia ter certeza que não era uma pessoa que ela estava ansiosa para conhecer.
Analisando melhor o quarto, ele era não era exatamente bagunçado, mas sim lotado de coisas. Mais afastado da entrada, haviam alguns equipamentos de musculação, muitos posters colados na parede de bandas , vários recortes de jornal lotavam uma parede especifica. Pela janela Sona conseguia ver a grossa chuva ainda caindo, com alguns relâmpagos cortando os céus quando bem entendiam.
Quando deu por si, Draven já estava de volta. Ela fez menção de virar seu corpo, mas foi impedida quando ele o abraçou por trás, a segurando forte.
—Agora, vamos tirar essa roupa molhada antes que fique doente e morra. Vem, vamos tomar um banho quente.
“Eu não acho que vá morrer por causa de uma gripe, Draven, mas-- Vamos tomar um banho?”
—Claro que vamos.
“Quero dizer, nós dois? Juntos?” — Sona desprendeu-se do enlace, e o encarou sorrindo nervosa. Sabia que deveria estar com o resto absurdamente vermelho, mas tentou ignorar isso — “Desculpe, mas eu prefiro tomar um banho sozinha... se não se importa.”
—Se eu me importo? É claro que me importo. Já vi tudo o que tinha pra ver aí, vem logo. — Ele a puxou pela mão,levando-a para a porta de onde havia saído apressado agora a pouco.
“Não,você não viu não! Estava escuro, não dava pra enxergar nada.”
—Mas você bem que tentou né. — Draven rebateu com um olhar malicioso.
Ela achava que não havia como ficar mais corada. Havia se enganado feio.
“Isso não tem nada a ver! Tomar banho é uma coisa totalmente diferente, é tudo tão claro, e limpo e...” Mas ele já estava enchendo a banheira e a ignorando completamente.
—Vem aqui, vou te ajudar a tirar isso.
“Draven, por favor...”—Sona se afastou, cruzando os braços sobre os peitos de forma defensiva. Ele bufou, e pegou um potinho de vidro em cima da pia, e jogou para a garota. Por pouco ela não consegue pegar, evitando que se quebrasse no chão .
—Faça o que quiser. Mas eu peguei essa... “coisa” pra você, achei que gostaria.
Sona examinou o pote, enquanto Draven terminava de se despir. Admitia que estava prestando mais atenção do que o necessário no objeto em suas mãos, evitando contato visual com o homem a sua frente. Logo de cara ela havia visto do que aquilo se tratava.
“...Sais de banho. Quanto tempo que eu não tomo um banho com um desses...” Levou o pote até o nariz, experimentando o aroma. Sorriu ao sentir o cheiro de morango. “Que gostoso, onde conseguiu um desses?”
Só então ela teve coragem de levantar os olhos. Draven já estava imerso na banheira, com a cabeça jogada para trás e os olhos fechados.
—Sei lá, por aí.
“Você saiu procurando especificamente por isso aqui, não foi?” — O carrasco estava tentando agradá-la, e isso era um pouco inesperado. Ela sorriu quando recebeu a resposta:
—Não foi isso que eu disse. Encontrei isso sem querer, e achei que fosse gostar.
Aquilo era fofo, e Sona nunca esperaria essa atitude vindo dele. Parando pra pensar, o que exatamente ela poderia esperar ou não? Se conheciam a cerca de 24 horas apenas, e ela mal sabia nada sobre ele.
“Ok... você venceu.”- Ao ver o olhar e sorriso vitorioso do homem, ela logo completou “Mas você vai ter que olhar para lá! Nem pense que vai ter um strip ou algo assim.”
—Ahm,vai se fuder, como você é sem graça. — Mas mesmo assim ele ainda sorria, e virou o rosto de leve,evitando olhar para ela. — Sabe, eu vou te ver pelada aqui de qualquer jeito, isso não tem propósito nenhum.
“Eu sei... mas é estranho tirar a roupa com alguém me encarando... não acha?”
— Não vejo problema nenhum.
“Quando no caso é você que está tirando a roupa, Draven.”
— Continua de boas.
Só quando sua pele entrou em contato com a água quente, que Sona percebeu o quanto estava com frio. Suspirou quando finalmente submergiu na banheira, fechando os olhos e curtindo o calor tomando conta de seu corpo. Quando os abriu novamente, encontrou os verdes de Draven a encarando de volta. Para tentar fugir deles, procurou o pequeno pote de vidro que deixara no chão, ao lado da banheira.
“Não é suposto que se coloque os sais antes de começar o banho?” Ela perguntou, olhando em volta da embalagem, procurando algum rótulo ou instruções. Não achou nada.
—Hm... sei lá. Coloca tudo ai.
Sona deu de ombros, e abriu o recipiente, jogando todo o sal na banheira. Mal havia colocado o frasco de volta no chão, sentiu seu braço sendo puxado. Draven a trouxera para junto de si, segurando-a de costas, contra seu peito. A garota tentou manter a respiração normal, mas estava sendo uma tarefa muito árdua, que se tornou impossível quando sentiu o rosto de Draven roçar no seu pescoço, lhe dando beijinhos, até chegar na altura da orelha, e lhe dizendo baixinho:
—Melhor assim, hm?
Ela sorriu boba, confirmando com a cabeça e se alinhando melhor nos seus braços. Fechou os olhos novamente, e se deixou aproveitar cada segundo daquele momento tranquilo. Sabe-se quando ela terá tanta calma para ser aproveitada assim.
“Draven...”
Ele respondeu com uma especie de grunhido baixinho, que a fez rir.
“Antes você estava me explicando... o por quê de só você e seu irmão morarem aqui.”
—Ah,isso...- Sem parecer muito animado para continuar a história, ele disse:
—Bem, nós morávamos aqui, quando pequenos. Quando ainda tinha apartamentos e coisa e tal. Mas nós dois acabamos sendo expulsos daqui. Meu irmão nunca superou isso muito bem, eu acho.
“Expulsos?E seus pais,onde estavam?” Ela brincava distraidamente com a espuma que começava a se formar na banheira, e aliás tinha muita espuma já.
—Naquela época eles já estavam mortos.
Sona se virou abruptamente,e o encarou por alguns instantes. Ele nem sequer mudou o semblante, continuava com a cabeça relaxada, olhos semicerrados observando o teto, totalmente tranquilo.
“Eu sinto muito, Draven.”
Draven sorriu de canto, tirando um pouco de espuma que já estava na altura do rosto. Da onde tanta espuma ,pelos deuses,isso estava passando dos limites já.
—Nah, eu não sinto. Não me lembro de nada deles, de qualquer forma.
Sona ainda o olhava desolada. Como se realmente sentisse as suas dores e o sofrimento que ele. Mas Draven sabia que ela com certeza nunca entenderia nem metade do que ele passou, e achava que também seria desnecessário contar tudo.
—Enfim, como eu disse, Darius nunca superou muito bem isso. Assim que ele pode, tomou conta do prédio, expulsou os antigos moradores, e reformou todo ele. Na época, eu não falava nem via ele a um bom tempo... mas ele me chamou para morar aqui. Talvez esse lugar despertou algumas memórias antigas de quando eramos menores, não sei... Mas Darius resolveu tentar manter toda essa imagem de “somos irmãos, somos a nossa única família, bla bla bla”.
A garota parecia fascinada.
“Que lindo isso da parte dele, mesmo. Ele tem razão sabe, você tem sorte de ter ainda seu irmão contigo,eu... espera. Você disse que os moradores daqui foram despejados.”
—Isso.
“Draven... o que aconteceu com eles?”—Ela perguntou receosa. Sabia qual seria a resposta, mas ainda assim perguntou. E só ficou mais claro ainda quando recebeu aquele sorriso que ela tanto odiava.
—Quer mesmo saber?
“Não, não quero! Não acredito Draven, justo quando eu tava começando a achar que--”
—“Que” o que? De que somos pessoas civilizadas e que amamos nossas famílias, vivemos felizes e todo domingo fazemos um churrasco para comemorar a nossa felicidade? Não Sona, não está mais no seu mundinho mágico perfeito.
Apesar das palavras duras, seu tom não estava bravo ou alto, pelo contrário- disse como se estivesse cansado de lidar com isso. Cansado da ingenuidade de Sona.
Ela se virou de costas para ele novamente, suspirando fundo. Foi quando notou que praticamente todo o banheiro estava tomado por espuma.
“Da onde toda essa espuma surgiu...?”
Ela não obteve resposta,então continuou em silêncio.
Draven observava suas costas -tão pequenas- e percebeu pequenos machucados, que ficaram ainda mais aparentes contra sua pele pálida. Eram pequenos esfolados, nada demais, e ela não estava se queixando. Ele afastou o cabelo molhado para olhar melhor. Sentiu a resposta automática do corpo da garota ao seu toque, que se encolheu timidamente.
Quando ele a conheceu não conseguia entender como conseguia a desejar tanto, e ao mesmo tempo sentir algo que o impelia de chegar tão perto. Isso o estava deixando louco, não o deixando pensar direito. Mas agora, que a tinha toda para ele, ele começava a entender.
Sona era como uma criatura imaculada, angelical. Draven nunca vira algo que se igualasse a ela, naquele palco, ela estava mais do que linda. Quase etérea.
E naquele exato momento, Draven havia decidido que iria possuir aquele ser. Sentia uma necessidade doentia, sádica, de quebrá-la, despedaçá-la em mil pedaços. Ter o último suspiro de uma criatura que outrora fora tão pura.
Na hora ele não compreendera isso. Ficara confuso, mas estava entendendo agora. Sabia que no momento em que a tivesse, tudo estaria acabado. Ele conseguiu o que queria.
Porém, ele tinha esse gosto amargo na boca. Isso ele ainda não conseguia compreender.
—Quando parar a chuva eu te levo de volta. — Disse ele por fim.
“Eu não quero.”- Ela respondeu de prontidão, sem pensar muito. — “Quero ficar aqui essa noite.”
— E não vou ser eu que vou te impedir então.
Sona sorriu, brincando com a espuma em volta. Pegando um punhado, começou a formar algo no seu rosto.
“Oi, olhe para mim, eu sou o Draven, tão gostoso e perfeito, faço tudo com estilo. Você vai Draven quando Draven o Draven Draven”
Ele a olhou, e gargalhou a encontra-la com um monte de espuma no rosto, tentando simular o seu bigode.
— O meu bigode tem muito mais estilo que isso aí, se esforce mais e quem sabe você chega ao nível do Draven.
Ela mostrou a língua para ele, em seguida faz uma careta ao provar o gosto da espuma.
A garota ouviu o som da campainha, e se voltou prontamente para Draven. Mas ao ver que o som não provocara nenhuma reação no homem, perguntou:
“Não vai atender?”
—Não vou sair do meu banho de muita espuma para isso. — Disse colocando pequenas rodelas de pepino nos olhos. Sona nem notara que ele havia passado um creme no rosto, quando foi que isso aconteceu?
“Eu vou então!”
Sona tem esse pequeno problema. Além da ingenuidade, ela também sente a necessidade de ajudar e ser útil a todos. Quando aparece até mesmo a menor oportunidade de ajudar alguém, ela corre para fazê-la. Nesse caso, literalmente.
Quase escorregou ao sair correndo do banheiro, e foi até o quarto enrolada na toalha.
Olhou em volta, foi até o armário , procurando algo para vestir. Sabia que não adiantaria nada escolher muito algo dali, então pegou a primeira camiseta que viu. Era uma regata, vermelha que felizmente era bem grande, então ficava como um vestido.
Desceu as escadas o mais rápido possível, se perguntando se a pessoa ainda estaria ali.
Abriu a porta timidamente, ficando atrás dela, com medo de que fosse alguém ameaçador, mas ficou mais relaxada ao ver que era uma mulher. Usava calças militares e coturno, na parte de cima apenas uma blusa branca sem mangas. Segurava uma sacola e como era de se esperar estava encharcada, com os cabelos brancos grudados no rosto.
Riven olhou espantada para Sona, sem conseguir processar direito a informação. As duas ficaram um mero segundo se olhando, Sona esperando que ela se identifica-se ou perguntasse por alguém, Riven apenas tentando entender quem era essa mulher.
Sona foi um pouco mais pra frente, para tentar se mostrar mais amigável para com a mulher estranha.
Última coisa que Sona se lembrava de ter visto antes do soco, foi da expressão de ódio da estranha. Depois tudo que sentiu foi o impacto a baixo do olho direito, e no próximo instante se encontrava no chão, com a força da pancada.
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