When the Strawberry meets the Sky
26 God and commoners
A fumaça acinzentada de sekkiseki mal havia tocado as primeiras folhas da copa quando Sawachika já não estava mais na clareira.
Ela não disparou em linha reta. Correr em desespero era a assinatura daqueles que morriam jovens no 80º Distrito.
Em vez disso, quebrou a linha de visão três vezes antes de alcançar o leito pedregoso de um riacho seco, usando a água rasa para mascarar o rastro de sangue que ainda insistia em escapar pelo ombro esquerdo.
A respiração, antes curta, foi forçada a um ritmo cadenciado: puxar o ar, segurar, soltar devagar, reduzindo a própria reiatsu até transformá-la em nada mais que o murmúrio habitual da mata.
Dois distritos abaixo, a vegetação fechada deu lugar às vielas estreitas e cheias de terra batida do 78º Distrito.
Em uma ruela silenciosa, Sawa desfez o nó do quimono escuro com gestos rápidos e automáticos. Por baixo, já trajava uma roupa mais simples em tom bege-claro, comum às moças que trabalhavam no comércio local. As braçadeiras de tecido grosso com as travas de lâminas ocultas foram retiradas e guardadas no fundo falso de uma cesta de bambu trançado, coberta rapidamente por rabanetes frescos e folhas de mostarda apanhadas em uma horta comunitária.
Quando emergiu na rua principal, seu passo já era o de qualquer habitante do Rukongai.
— Sawachika-chan!
Chamou uma senhora curvada, apoiada na soleira de uma barraca de farinha.
— Voltou cedo hoje!
Sawa parou, curvando o tronco em uma reverência leve e natural, o braço esquerdo escondido sob a dobra frouxa das vestes.
— Sim, obaachan.
— Está tudo bem mesmo? Parece um pouco desconfortável...
— Está tudo bem. Até mais tarde.
E ela continuou caminhando sem pressa.
Quem de fora olhasse para aquela jovem de feições delicadas e passos calmos jamais imaginaria que, minutos antes, ela segurava uma lâmina de aço a milímetros da jugular de um Shinigami.
A caminhada terminou diante de uma residência espaçosa, de madeira escura e telhas de barro bem conservadas. Não havia símbolos cravados nos portões, nem guardas armados vigiando a entrada. Era apenas uma boa casa de família em um distrito residencial calmo.
No pátio lateral sob a sombra de um caquizeiro, um homem estava sentado sobre um tablado baixo de madeira.
Alto, com traços firmes que lhe daria uma idade próxima da meia-idade, ele vestia um quimono azul-acinzentado folgado. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo-de-cavalo alto, curto na altura dos ombros e com as pontas cortadas retas — o mesmo penteado prático que Sawa havia adotado desde a infância, embora seu cabelo fosse mais comprido e sem nenhum corte nas pontas.
Ele passava uma pedra de amolar úmida pela lâmina de uma foice de colheita com movimentos ritmados e pacientes.
Quando ela cruzou o portão de madeira, os olhos azul-gélidos dele ergueram-se sob as sobrancelhas espessas. Havia uma serenidade felina naquele olhar, límpido e desprovido de qualquer agressividade vazia.
Morida Hyōsuke não perguntou se ela havia cumprido a missão.
— Você encontrou os Shinigami.
A voz dele era calma, profunda sem precisar de esforço.
Sawa parou a três passos do tablado, pousou a cesta no chão e prestou uma reverência respeitosa.
— Dois.
A pedra de amolar parou por um instante sobre o metal.
— Dois.
— Nenhum se apresentou formalmente. Mas um era careca, e o outro tinha trejeitos refinados... um tanto andrógino.
Hyōsuke arqueou discretamente uma das sobrancelhas grossas.
— A Décima Primeira Divisão, provavelmente.
— Aparentemente. Eles vieram investigar os destroços do acampamento que atacamos.
Ele observou a postura dela por alguns instantes, deixando o silêncio assentar a conversa antes de prosseguir:
— E?
Sawa hesitou. Os olhos castanhos grandes e naturalmente delineados baixaram levemente para o chão de terra batida.
— Eles eram fortes, sensei.
A resposta não trazia vergonha, mas respeito técnico. Hyōsuke esboçou um sorriso suave nos cantos dos lábios, aparentemente satisfeito em notar que ela não havia voltado da floresta intoxicada por arrogância.
— Qual deles?
— O careca, principalmente. Ele parecia ter pressa para medir forças.
— Entendi.
Ela encarou as próprias mãos.
— Ele queria lutar de frente.
Hyōsuke voltou a passar a pedra na lâmina, o som áspero ecoando pelo pátio.
— E você aceitou.
Sawa não respondeu e a ausência de justificativa bastou para ele.
Hyōsuke conhecia a natureza da garota que havia recolhido dos becos anos atrás. Ele a treinara para sobreviver, para ler o fluxo dos adversários e para priorizar a contenção sem derramamento desnecessário de sangue. Mas também havia lhe ensinado o Kiba-ryū* — “a arte de esconder os próprios dentes e utilizá-los de forma eficiente”, ou, na prática, a arte de lutar com a espada em posição invertida de forma a fazê-la funcionar como uma presa. Quando um guerreiro genuíno cruza o caminho de outro e oferece um embate limpo, o instinto de testar a própria capacidade fala mais alto.
— Você o derrotou?
— Não, sensei.
Ela fez uma pausa curta.
— Mas o rendi.
Hyōsuke ergueu os olhos azuis mais uma vez. Havia ali um orgulho contido, paternal mas firme.
— Por quanto tempo?
— O suficiente para que ele entendesse que teria morrido se eu quisesse.
Ele assentiu uma única vez e voltou o foco para a ferramenta em suas mãos.
— Então você fez o seu trabalho.
Sawa soltou o ar que parecia preso no peito desde a clareira.
A validação de Hyōsuke nunca vinha em aplausos ou condecorações militares; vinha na certeza de que ela havia retornado com a cabeça no lugar e a técnica preservada.
— O outro era muito estranho.
Acrescentou, cruzando os braços.
Hyōsuke parou o movimento da pedra de amolar.
— "Muito estranho"?
— Ele fez comentários sobre a minha beleza... Mas não parecia interessado como homem.
Desta vez, uma expressão de genuína surpresa cruzou as feições do General do Oeste.
— E o que você fez?
— Tentei acertar o rosto dele com a lâmina oculta.
Hyōsuke permaneceu em silêncio por dois segundos inteiros antes de soltar um suspiro bem-humorado pelo nariz.
— Sensato.
— Ele chegou a dizer que eu era linda antes de tentar travar a minha lâmina no chão — continuou ela, com uma ruga de estranheza na testa.
— No meio de uma troca de golpes?
— Sim.
Hyōsuke limpou os resíduos da pedra com um pedaço de pano úmido, ao que Sawa acrescentava:
— Se fossem dois galanteadores da periferia, teria sido menos desconcertante.
Ele pousou a foice no tablado e levantou-se, apoiando as mãos na cintura. A postura tranquila não escondia o porte de um espadachim consumado.
— Eles descobriram alguma coisa?
— Não — respondeu Sawa com firmeza. — Mas agora sabem que há combatentes treinados operando nos distritos baixos.
Hyōsuke olhou para o horizonte acima dos telhados do vilarejo. O céu começava a ganhar os tons alaranjados do fim de tarde.
— Eles irão nos caçar.
Sawa acompanhou o olhar do mestre.
Pela cerca baixa da casa, viam-se os vizinhos voltando do trabalho, uma mulher estendendo tecidos tingidos para secar e crianças correndo com varas de bambu. Não havia casernas, bandeiras com insígnias militares ou arsenais fortificados.
A força do Shitennō não repousava em fortalezas que pudessem ser identificadas pela Seireitei.
O ferreiro na curva da rua forjava enxadas pela manhã e lâminas ocultas à noite.
A dona da casa de chá ouvia os passos de patrulhas estranhas e repassava mensagens em dobras de papel.
O lenhador na entrada da mata sabia exatamente quantas árvores haviam sido derrubadas para dar passagem a estranhos.
O Shitennō não ocupava o Rukongai como um exército invasor. O Shitennō era o próprio tecido vivo daquelas ruas.
— Deixe que procurem.
A voz de Hyōsuke era mansa, mas inabalável, como as raízes das colinas do Oeste.
— Não encontrarão nada além de pessoas vivendo em suas casas. Ninguém jamais entregará qualquer pista.
Ele virou-se para Sawa e apontou com o queixo para a entrada da residência.
— Vá cuidar desse ombro. Quando a Seireitei decidir enviar outro esquadrão, eles não mandarão pesquisadores, e nós precisaremos estar prontos para lembrá-los de que este lado dos muros tem donos.
O incenso de sândalo queimava lento no queimador de bronze esculpido em forma de garça, mas o aroma refinado não conseguia disfarçar o cheiro de mofo e formalidade que impregnava a mansão principal da Família Shihōin.
Após horas ouvindo a ladainha indignada dos anciãos da casa — repreensões sem fim sobre a "dignidade da linhagem", o "perigo vergonhoso de caminhar desacompanhado pela lama dos plebeus" e o "escândalo diplomático com o Gotei 13" —, Yūshirō finalmente conseguira se isolar no pavilhão leste da residência.
Ele estava sentado sobre o tatame impecável, os joelhos recolhidos e os braços envolvendo as pernas.
As roupas de corte nobre que mesclavam o roxo e o dourado com o negro das vestes dos Shinigami, trocadas às pressas por ordem de seus tutores, pareciam duras e desconfortáveis contra a pele se comparadas ao quimono leve que usava enquanto corria pelo pátio dos Shiba.
A brisa noturna entrava pelo shōji** semiaberto, trazendo o som discreto da água correndo nas fontes de pedra do jardim interno.
Uma paz artificial. Quase estéril.
Yūshirō tocou a própria têmpora, soltando um suspiro pesado.
Sua cabeça parecia um turbilhão desde o momento em que Soi Fong o arrastara para fora do distrito oeste. Havia peças demais espalhadas naquele tabuleiro, e nenhuma parecia caber nas regras rígidas que lhe ensinaram desde a infância.
A primeira delas era, inevitavelmente, o próprio Clã Shiba.
Nos registros do Kizokugai e nas conversas em tom de sussurro entre os nobres, a família caída era tratada ora como uma aberração esquecida, ora como um bando de falidos sem honra vivendo de caridade e pólvora no pó do Rukongai. Mas o que ele encontrara lá não tinha nada de decadente. Havia vida. Havia uma dignidade barulhenta e despretensiosa que o palácio Shihōin jamais conseguira produzir.
E havia... Shiba Sora.
Yūshirō ergueu os olhos para a escuridão do jardim, a imagem do garoto de olhos verdes teimando em voltar à sua mente. O jeito desajeitado, a fala sem qualquer filtro de reverência, a energia espiritual tão densa e barulhenta que parecia querer escapar pelo tecido das roupas a cada piscar de olhos.
Um Shiba sem registro oficial na Central 46. Oculto por aproximadamente oitenta a noventa anos. Capaz de conjurar um Bakudō de nível sessenta e um com a naturalidade de quem brinca de bola, e que não hesitou um único segundo em saltar na frente de uma Capitã das Treze Divisões para defender um amigo recém-conhecido.
"E ele é meu amigo!"
A frase de Sora ainda ecoava nos ouvidos de Yūshirō, deixando uma pontada incômoda de culpa em seu peito.
Yūshirō passara a vida inteira cercado por servos que curvavam a cabeça e bajuladores que mediam cada palavra por medo ou cálculo político. Talvez, nenhum deles jamais se colocaria entre ele e uma lâmina por pura lealdade. Sora o fizera sem pestanejar — e pagara o preço levando um golpe brutal de Soi Fong.
Mas havia algo ainda mais perturbador por trás de toda aquela bagunça: as peças que começavam a se encaixar sobre o tal Shitennō.
A memória daquela taberna simples no Rukongai voltou nítida e gelada.
Ele se lembrava com exatidão daquelas quatro figuras que se moviam sem uniformes oficiais, mas com uma disciplina consciente e perfeita.
Lembrava-se daquele homem de presença dominante e cabelos azul-escuros dizendo que "o Oeste estava mais instável" e que "alguém precisaria intervir".
Lembrava-se do dono do estabelecimento servindo comida sem medo, não por submissão a criminosos, mas por puro respeito a uma autoridade natural que não precisava dos brasões da Seireitei.
E, acima de tudo, lembrava-se dela.
A garota de rabo-de-cavalo alto, franja desalinhada e trajes roxos que notara sua presença no telhado mesmo quando a sua técnica de supressão espiritual — lapidada pelos mestres Shihōin — estava no ápice absoluto.
Quando Yūshirō mencionara aqueles guerreiros de passagem, Sora reagira com a familiaridade de quem convivia com eles. Ele sabia quem eram.
Quem era aquela gente? Por que o Rukongai estava se organizando sob uma rede silenciosa enquanto a nobreza e a Central 46 permaneciam cegas, acreditando que a periferia não passava de um depósito de almas indefesas?
O jovem príncipe encostou a cabeça na moldura de madeira do shōji, encarando a lua cheia recortada no céu límpido.
Os anciãos de sua casa queriam que ele esquecesse tudo. Pediam que voltasse a ser o herdeiro exemplar, decorando protocolos de chá, linhagens dinásticas e rituais sagrados no conforto das muralhas do Seireitei.
Mas a verdade é que, depois de ver o fogo nos olhos de Shiba Kūkaku, a coragem inconsequente de Sora e os olhos atentos daquela espadachim que o descobrira nas sombras, o Kizokugai parecia subitamente pequeno e vazio demais.
Algo monumental estava se erguendo nas margens da Sociedade das Almas e, pela primeira vez na vida, Shihōin Yūshirō sentia que a verdadeira tempestade não viria dos inimigos além das fronteiras, mas do próprio solo que a nobreza tanto insistia em pisar sem enxergar.
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