Ichigo tinha aprendido algumas coisas desde que cruzara a porta daquele armazém caindo aos pedaços.

A primeira era que nenhum dos Visored era exatamente normal.

A segunda era que Sarugaki Hiyori provavelmente considerava “bom dia” uma declaração de guerra e uma oportunidade perfeita para acertar um chinelo na cara de alguém.

A terceira — e talvez a mais importante de todas — era que, quando Hirako Shinji dizia que tinha uma ideia para ajudá-lo, Ichigo deveria parar tudo o que estava fazendo e começar a procurar a rota de fuga mais próxima.

— Não.

— Você nem sabe o que eu ia dizer.

Shinji ajeitava a franja reta e amarela quase sobre os olhos enquanto inclinava a cabeça com ar de clara falsa inocência.

— Sei o suficiente.

Ichigo estava parado bem no centro do armazém.

O lugar parecia ter sido projetado por algum arquiteto sádico especificamente para testar até onde a paciência humana conseguia ser esticada antes de alguém cometer um homicídio. As paredes de concreto bruto exibiam rachaduras antigas que vertiam água e poeira. Várias lâmpadas fracas e amareladas pendiam do teto alto por fios desgastados, piscando num ritmo irregular que incomodava a vista.

Ao fundo, em um canto escuro perto de uma esteira ergométrica abandonada, uma pilha de chapas metálicas desabou com um estrondo ensurdecedor.

Ninguém na sala sequer piscou.

Kuna Mashiro continuava deitada de costas sobre uma mesa de madeira, balançando as pernas cobertas pelo colã branco no ar enquanto mascava chiclete e fazia bolas enormes.

Aikawa Love nem ergueu os olhos do mangá que folheava encostado na parede, ajustando os óculos escuros com um movimento calmo do polegar.

Provavelmente era melhor nem perguntar o que tinha caído lá trás.

Shinji abriu um sorriso largo. O exato tipo de sorriso torto que fazia Ichigo desconfiar de qualquer palavra que saísse daquela boca cheia de dentes.

— Você precisa aprender a dominar o Hollow dentro de você, Kurosaki. Se não fizer isso, o monstro devora a sua alma de dentro para fora e você vira um receptáculo vazio. Entendeu a gravidade da situação?

— Eu já sei disso.

— Ótimo! Então precisamos fazer ele sair. Na marra.

Ichigo estreitou os olhos, a mão descendo por reflexo até o cabo de Zangetsu, presa às suas costas.

— E como exatamente vocês pretendem fazer isso?

Hiyori deu três passos curtos à frente, o agasalho esportivo de alguma forma balançando sobre os ombros, e ergueu a mão pequena fechada em um punho.

— Eu bato em você, até a máscara nascer na sua cara — declarou ela, o tom de voz subindo duas oitavas com a agressividade habitual. — Depois, bato de novo até você aprender a calar a boca dele!

— Não!

— Funcionou com outros problemas!

Ela retirou a sandália de borracha do pé esquerdo, o que Ichigo já havia aprendido se tratar de uma ameaça direta.

— Eu não sou a droga de um problema!

— É discutível — murmurou Hiyori, estreitando os olhos selvagens.

Ichigo respirou fundo, fechando os olhos por um segundo.

Talvez fosse cedo demais para tentar encontrar uma saída. Ou talvez fosse tarde demais e ele estivesse prestes a ser espancado até a morte por uma garota que media um metro e meio.

— Relaxa, Kurosaki. Você não vai morrer.

Shinji deu um passo à frente e deu um tapa estalado nas costas de Ichigo que quase o fez perder o equilíbrio.

— Bem... provavelmente não.

Aquilo não ajudou em absolutamente nada.

Ichigo desviou o olhar para o resto do grupo espalhado pela penumbra da sala colossal.

Otoribashi Rojuro, vulgo “Rose”, estava encostado em um pilar de sustentação, ajustando as cordas de uma guitarra desligada com a expressão serena de quem escutava uma sinfonia distante.

Mais ao lado, Muguruma Kensei permanecia de braços cruzados, a camisa sem mangas destacando a tatuagem do número 69 no pescoço e os músculos tensos de quem parecia a ponto de explodir a qualquer momento.

A seu lado, Ushōda Hachigen — a figura maciça de cabelos rosados e traje formal — montava silenciosamente uma barreira retangular de Kidō para isolar a área.

Nenhum deles parecia minimamente preocupado com o destino de Ichigo.

Na verdade, Mashiro soltou uma risadinha estridente do seu canto:

— Vai lá, Shinji-rin! Esfrega a cara do novato no chão!

— Cale a boca, Mashiro! — gritou Kensei sem olhar para ela, a veia da têmpora saltando. — Deixe o garoto se concentrar.

— Você é um chato, Kensei! Um chato rabugento!

Ótimo. Ichigo estava prestes a descobrir a definição prática daquele bando de loucos para a palavra "treinamento".

E, considerando o histórico recente da sua vida, havia uma chance razoável de que essa definição envolvesse dor extrema, destruição de propriedade e um Hollow tentando rasgar sua garganta por dentro.

— Certo...

Ele sacou a lâmina preta e branca de Zangetsu, e fincou a ponta no chão de concreto com um baque seco.

— Vamos acabar logo com isso!

Shinji desfez o sorriso preguiçoso por uma fração de segundo, e por um instante rápido demais, Ichigo pôde ver nos olhos dele o peso de um Shinigami que viveu mais de um século carregando a mesma maldição.

— Lembre-se de uma coisa, Kurosaki... — avisou Shinji, a voz baixando para um tom frio e cortante. — Se você vacilar aí dentro por um único segundo... o monstro que você resolveu chamar de “Shirosaki” assume o controle. E se ele assumir o controle... nós não vamos hesitar em matar você.

Hiyori avançou com um salto limpo, a lâmina de sua Zanpakutō desnudada no ar com um zumbido agudo.

— Chega de conversa! Hora do show, moleque de cabelo mal tingido!

...

Algumas horas depois, Ichigo já não tinha certeza de quantas vezes havia morrido.

Tecnicamente, nenhuma, mas na prática ele considerava a distinção pouco importante. Seu corpo despencou de joelhos sobre o concreto e, por alguns segundos, a única coisa que conseguiu fazer foi respirar.

Uma vez.

Duas.

Três.

A quarta respiração veio acompanhada de uma dor aguda nas costelas.

— Acho que... — ele murmurou, apoiando uma das mãos no chão. — ...eu odeio vocês.

— Ótimo! — respondeu Hiyori do outro lado do armazém. — Isso significa que ainda está vivo!

Ichigo levantou lentamente a cabeça.

A máscara Hollow havia desaparecido alguns minutos antes, mas a sensação de ter alguma coisa tentando arrancar sua alma pelas entranhas continuava muito presente.

Shinji estava sentado sobre uma caixa de madeira, aparentemente satisfeito com o resultado.

Kensei permanecia de braços cruzados.

Hachigen desfazia as últimas barreiras de Kidō.

Mashiro havia adormecido em algum lugar.

Love continuava lendo.

Rose tocava sua guitarra desligada.

Ninguém parecia particularmente preocupado com o estado deplorável de Ichigo. Então a porta metálica do armazém se abriu.

Todos olharam.

Uma jovem mulher de óculos entrou carregando duas sacolas de supermercado em cada mão. Yadomaru Lisa fechou a porta com o pé, ajeitou os óculos sobre o nariz e observou a cena.

Seu olhar passou por Hiyori. Depois por Shinji. Depois por Kensei. E finalmente pousou sobre Ichigo. Ele estava deitado no chão, coberto de poeira, suor e pequenos cortes, com o cabelo laranja todo grudado na testa.

Lisa piscou.

— Ah.

Ichigo ergueu uma sobrancelha.

— “Ah”?

— Parece que perdi alguma coisa.

— Você perdeu três horas.

— Entendi.

Então ela caminhou tranquilamente até uma mesa, colocou as sacolas sobre ela e começou a retirar os produtos.

— Trouxe comida.

Ichigo ficou olhando para ela.

— Comida?

— Sim.

— Eu quase morri.

— Por isso trouxe comida.

Ela tirou um pacote de bolinhos, algumas bebidas, salgadinhos, um saco de pães e pacotes com presunto e queijo processado.

Ichigo começou a reconsiderar sua opinião sobre aquela mulher. Talvez ela fosse a única pessoa sensata naquele lugar.

Então Lisa retirou da última sacola um pequeno volume encadernado.

Ichigo olhou.

Piscou.

Olhou novamente.

— ...Isso é o que eu estou pensando?

Lisa examinou a capa.

— Provavelmente.

— É um mangá hentai?

— Sim.

Ichigo apontou para o próprio peito, indignado.

— E você trouxe isso... para mim?

— Você parecia estressado.

— E como isso deveria me ajudar?!

Lisa deu de ombros.

— Algumas pessoas relaxam lendo.

Ichigo ficou em silêncio.

Shinji começou a rir.

Kensei fechou os olhos com força.

— Lisa...

— O quê?

— Ele é um adolescente.

— E?

Não incentive esse tipo de coisa!

— Não estou incentivando. Estou oferecendo opções.

Ichigo sentiu uma veia pulsar na testa.

— EU NÃO PRECISO DE OPÇÕES ASSIM!

Hiyori apareceu atrás dele, como um demônio minúsculo.

— Precisa sim!

— Não preciso!

— Precisa aprender a relaxar!

— Eu acabei de ser espancado!

Lisa, completamente indiferente ao caos, colocou o mangá sobre a mesa ao lado dos salgadinhos.

— De qualquer forma, se mudar de ideia, está aqui.

Ichigo encarou o volume, depois encarou Lisa, depois encarou Shinji, que já estava praticamente dobrado de tanto rir, e concluiu: Talvez ser morto pelo próprio Hollow não fosse a pior coisa que poderia acontecer naquele lugar.

...

Ichigo já tinha conseguido se convencer de que o armazém não poderia ficar mais estranho. Até que ele viu a parede.

— O que é isso?

A pergunta fez Shinji olhar para trás enquanto comia um sanduíche de presunto e queijo.

Ichigo apontava para uma das paredes laterais, parcialmente escondida atrás de algumas caixas.

Havia uma marca profunda no concreto.

Não parecia uma rachadura comum. Era um círculo irregular, quase perfeito, cercado por pequenas fissuras que se espalhavam pela parede como uma teia. No centro, o concreto estava escurecido e ligeiramente afundado, como se alguma coisa tivesse explodido ali, talvez de dentro para fora.

Ichigo se aproximou com um bolinho que comia na mão.

— Isso aconteceu durante o meu treinamento?

— Não.

A resposta veio de Love.

Ichigo olhou para ele.

— Então, o que aconteceu?

Love virou uma página do mangá.

— Um problema mais antigo.

— Que tipo de “problema”?

Hiyori passou por ele carregando uma caixa.

— Um de cabelo preto.

Ichigo franziu a testa.

— Quê?

— Cabelo preto. Cara irritante. Reiatsu irritante. Fazia perguntas demais. Igualzinho a você.

Shinji levantou uma mão.

— E tinha a desagradável tendência de mexer em coisas que claramente não deveriam ser mexidas.

— Tipo...?

Kensei apontou para a parede.

— Aquilo.

Ichigo voltou a olhar para a marca.

— Esse tal cara fez isso?

— Fez.

— Como?

Silêncio.

Os Visored trocaram olhares.

Aquilo chamou ainda mais a atenção de Ichigo.

— O quê?!

Shinji soltou um suspiro.

— Digamos que ele teve uma discussão com o lugar.

Ichigo piscou.

— Com... “o lugar”?

— É.

— E o lugar perdeu?

— Tecnicamente, sim.

Ichigo olhou novamente para a parede.

A marca era grande. Muito grande.

— Quem era esse cara, afinal?? Ele não está aqui, entre vocês, certo??

Hiyori fez uma careta.

— Não. Não está.

Ichigo suspirou.

— Tem nome?

— Sora.

O nome lhe pareceu familiar, até que ele lembrou:

— Inoue...?

— Que?

— O tal “problema de cabelo preto” se chamava Inoue Sora?

— Que “Inoue Sora” o quê, seu moleque laranjão! Eu nem sabia que a Orihime tinha algum parente chamado “Sora”!

— Oh...

É verdade. Não devia existir apenas um “Sora” no mundo.

— Shiba Sora — esclareceu Shinji. — Um cara que passou um período conosco.

Ichigo ficou olhando para a parede, de repente se sentindo estranho.

— “Shiba”...

— É.

— Ele fez isso sozinho?

— Não exatamente.

Kensei bufou.

— Primeiro, ele tentou fazer sozinho.

— E depois...?

— Depois, nós descobrimos que era uma péssima ideia.

Hachigen, que terminava de desmontar uma barreira próxima, acrescentou tranquilamente:

— Ele tinha uma relação bastante... criativa com as próprias limitações.

Ichigo olhou para ele.

— Isso quer dizer o quê?

Hachigen pensou por alguns segundos.

— Que ele frequentemente descobria as limitações depois de ultrapassá-las.

Ichigo voltou a encarar a parede.

Por algum motivo, aquilo soava familiar. Não o tal Sora. A lógica. A sensação de alguém tentando fazer alguma coisa sem saber exatamente onde estava pisando.

Ele coçou a nuca.

— E vocês deixaram esse cara ficar aqui... quando?

— Nós não deixamos... — disse Hiyori.

Ela apontou o polegar para Shinji.

— Foi ideia dele com o idiota do Kisuke.

— Ei!

— Você disse que não tinha problema!

— E não tinha, oras!

— Fala isso para a parede que ele quase derrubou!

— Uma parede só...!

Kensei virou lentamente a cabeça.

— Três.

Shinji fez uma pausa.

— Três paredes...!

— Quatro — corrigiu Hachigen.

— Hachi...

— Estou apenas sendo preciso.

Ichigo ficou em silêncio por alguns instantes. Então olhou para Shinji.

— Tá... mas quando foi isso?

E esperou que dissessem algo do tipo “Ah, isso foi em meados dos anos 70”.

— Mais ou menos há 3 meses.

E de repente todos ficaram calados. E sérios.

Ichigo sentiu algo afundar dentro de si.

3 meses...? Havia um Shiba atualmente vivo e perambulando pelo mundo humano?!

Hiyori cruzou os braços e abriu um sorriso sacana.

— Surpreso?

Ichigo apontou para a parede.

Tem um cara com sobrenome “Shiba” em Karakura?!

A garota levou alguns instantes para responder.

— Não. Ele já foi embora.

— Embora?!

— Você é burro???

Ichigo abriu a boca.

— O quê?!

— Dissemos que ele esteve aqui há três meses, seu idiota!

Hiyori apontou para a parede.

— Você realmente achou que ele ficaria aqui, sentado, esperando você aparecer??

— Eu não quis dizer isso!!

— Então o que quis dizer?!

Ichigo ignorou a pergunta.

— Para onde ele foi?

Hiyori abriu um sorriso ainda maior.

— Isso já não é problema nosso...

— Hiyori... — Shinji advertiu, mas sem muita convicção.

Ichigo estreitou os olhos.

— Vocês sabem!

Ninguém respondeu. Aquilo era resposta suficiente.

Ele olhou de Shinji para Kensei, depois para Hachi.

Todos pareciam subitamente interessados em qualquer coisa que não fosse continuar com aquele assunto.

— Vocês sabem onde ele está!

— Sabemos onde ele estava — corrigiu Hachigen.

— Isso não é a mesma coisa?

— Não necessariamente.

Ichigo sentiu uma pontada de irritação.

Claro.

Porque, aparentemente, naquela porcaria de lugar ninguém podia simplesmente responder uma pergunta!

— E ninguém achou importante me contar que existe... ou existiu, um Shiba por aí???

Shinji finalmente parou de comer. O sorriso havia desaparecido completamente de seu rosto.

— Apenas não consideramos necessário você saber.

Ichigo ficou encarando Shinji.

Por alguns segundos, ninguém disse nada, então ele estreitou os olhos.

— Isso é uma resposta muito suspeita...

— É uma resposta perfeitamente razoável.

— Não, não é!

— Ichigo...

Shinji terminou de mastigar o último pedaço do sanduíche e limpou os dedos na embalagem antes de se levantar.

— Você tinha problemas suficientes para resolver. Não precisava de mais um.

Ichigo apontou para si mesmo.

— Eu?

— Sim, você.

— Eu tenho um Hollow tentando tomar conta do meu corpo!

— Exatamente.

Shinji abriu os braços.

— E nós achamos que talvez fosse uma boa ideia não acrescentar Shiba Sora à sua lista de problemas.

Ichigo ficou em silêncio.

— E... por que, exatamente, ele seria um problema para mim??

Shinji congelou por uma fração de segundo.

Kensei fechou os olhos.

Hiyori cobriu a boca para esconder uma risada.

Ichigo apontou imediatamente para Shinji.

— O que isso significa?!

Shinji suspirou.

— Cara, você é cansativo às vezes...

— E vocês são péssimos mentirosos!

— Ei! — Hiyori protestou. — Eu sou uma ótima mentirosa, tá legal?

— Você acabou de admitir!

— Cala a boca!

Ichigo passou a mão pelos cabelos, cansado.

Não era apenas o fato de existir um cara chamado Sora, e que por acaso era um Shiba, mas o modo como todos reagiam ao nome. Eles sabiam alguma coisa que ele não sabia e, aparentemente, tinham decidido que era melhor continuar assim, até que alguma coisa mudou.

— Ninguém vai me explicar quem é ele, afinal...

Dessa vez, ninguém riu.

— Não.

— É um Shinigami?

Silêncio...

— É?!

Shinji soltou um suspiro.

— Digamos que algumas coisas são mais fáceis de compreender quando se possui todas as informações necessárias e que, por hora, você não precisa de mais informações sobre Shiba Sora.

Ichigo o encarou com raiva. A resposta era genérica e ridícula. Mas...

Ele olhou novamente para a marca na parede.

Sora.

Shiba Sora.

Cerca de três meses atrás.

Karakura.

E ninguém achara necessário ou conveniente mencionar a sua existência.

Ichigo soltou o ar pelo nariz.

— Tá bom.

Shinji arqueou uma sobrancelha.

— “Tá bom”?

— Tá.

Ele se virou.

— Se vocês não querem falar, não falem.

E Ichigo caminhou alguns passos, pegou a sacola de salgadinhos que Lisa havia deixado sobre a mesa e abriu outro pacote.

— Mas... eu vou descobrir.

Hiyori acenou.

— Boa sorte, laranjão!

Ele levantou o dedo médio, sem sequer olhar para trás.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.