What changed your mind
5 R for rebel
Notas iniciais
A manhã dava os seus primeiros sinais. O sol nascia, cansado e lento, mas já iluminava alguma parte do céu.
Daryl, Rick, Tyreese, Michonne e Gareth reuniram-se entre as barracas, ao lado de uma fogueira apagada há minutos. Haviam combinado que, cedo da manhã, sairiam do acampamento para procurar alimentos, armas e outros utilitários em algumas casas dos arredores, além de veículos que funcionassem ou, pelo menos, novas baterias para eles.
– Tem certeza de que não quer ficar e descansar? – perguntou Rick a Daryl. – Você passou mais uma noite sem dormir.
– Tenho – respondeu Daryl. – Estou bem.
Tinha seus motivos para ir.
– Pai! – Carl correu em direção a Rick quando o grupo já se afastava do acampamento. – Você não quer que eu vá? Posso ajudar.
Rick sorriu rapidamente, pondo a mão na cabeça do menino.
– Hoje não, Carl. A caminhada será longa, voltaremos no fim do dia. Preciso de alguém no comando, aqui.
Carl assentiu, sorrindo. Voltou para o acampamento e pegou Judith, que ainda dormia, dos braços de Maggie, voltando com ela a sua barraca para tirarem mais algumas horas de sono.
O grupo continuou a caminhada.
Chegaram à primeira casa depois de trinta minutos. O exterior parecia intacto, mas, ao entrarem pela porta da frente, um odor impregnou suas narinas. Ali, na sala, deitada no sofá, estava uma mulher no início do seu estágio de decomposição. Tinha um orifício de bala na testa.
A casa estava uma bagunça. Havia roupas e comida no chão, principalmente perto de uma prateleira de bebidas importadas; quase todas as garrafas estavam vazias.
Não demoraram muito ali. A mulher tinha uma pistola comum na mão, logo recolhida por Tyreese. Além disso, havia potes de azeitonas e de frutas secas no armário da cozinha, os quais foram guardados na mochila de Rick.
Assim que saíram do jardim e seguiram na direção norte, Daryl hesitou, ação que fez Rick parar para olhá-lo.
– Está tudo bem? – perguntou, franzindo o cenho.
Daryl olhou-o.
– Existe um lugar aqui perto em que eu gostaria de dar uma olhada.
Ele havia insistido para ir nessa busca por um motivo especial. Percebera, dois dias antes, que o grupo passara perto de alguns lugares em que havia estado com Beth, como o clube de golfe e a velha cabana, levada por eles ao chão. No dia anterior, assim que se estabeleceram em acampamento, notara que estavam a apenas alguns quilômetros do necrotério onde passou algumas horas com a moça. Aquele era o lugar que não deixava Daryl dormir ultimamente. Lá, ouvira a melodia de um piano, uma voz reconfortante cantar. Lá, comera tanto que quase que chegava à fartura. Lá, trocara olhares que denunciaram o que se passava em seu interior. E lá, tudo desabou.
– Você acha que há algo útil lá? – Gareth, que ouviu o curto diálogo, aproximou-se, questionando.
Daryl o lançou um olhar duro.
– Sim.
Rick não pensou duas vezes.
– Tudo bem – disse, dirigindo-se a Daryl. – Vamos lá.
Gareth riu sarcasticamente.
– Vocês não acham melhor discutirmos sobre isso?
Michonne interviu, com uma expressão impaciente estampada no rosto.
– Enquanto estamos aqui discutindo, eles já poderiam estar no caminho de qualquer que seja esse lugar. – Pôs as mãos na cintura, estreitando os olhos. – Quanto mais você fala, mais nos atrasa.
Gareth a observou por um instante, porém, dando um suspiro alto, cedeu.
– Muito bem – disse Rick. – Se não nos encontrarmos no caminho, nos vemos no acampamento.
Pondo-se ao lado de Daryl, os dois começaram sua caminhada. No início, foi silencioso, exceto pelo som das botas de cada um atritando com o asfalto da estrada. Após certo tempo, Rick se manifestou.
– Então, que lugar é esse?
Daryl pensou um pouco antes de responder.
– É uma casa. Na verdade, uma casa funerária. – Tirou os olhos do chão e focou-os no último ponto da estrada que era visível. – Estive lá após a prisão. Era um lugar estranho, mas confortável, de alguma forma.
– Com Beth?
– Sim – respondeu de imediato, embora quisesse evitar mencionar ou ouvir o nome.
– E o que você pretende encontrar lá? – Rick questionou.
– Tinha comida quando nós estávamos lá – disse Daryl, friamente.
Daryl queria manter-se imparcial, mas os lábios trêmulos o entregavam. Ele havia corrido naquela estrada em que andava com Rick durante uma noite inteira, procurando por Beth, beirando a insanidade, e tudo só fez piorar.
– Quer encontrar pistas? Saber se ela está viva? – Rick interrompeu suas lembranças infelizes.
O xerife foi ignorado pelo arqueiro.
–-------
– Doutor Hillman? – perguntou Beth, atrás da porta entreaberta do escritório. – Posso falar com você por um instante?
– Claro, garota. Entre.
Após ter sua ideia negada pela policial Collins, Beth sentiu-se ainda mais motivada a fazer seu plano dar certo. Tinha certeza de que sua ideia era boa, mas, por algum motivo, a mulher não concordava. Por isso, foi imediatamente falar com outro membro do Conselho, o Dr. Hillman, ex-médico daquele hospital. Pretendia fazer com que ele aceitasse sua proposta.
Quando entrou na sala, deparou não só com o Dr. Hillman, mas também com outro membro do Conselho, Henry Dickens, policial.
– Ah, olá – a menina cumprimentou ao entrar. – Que bom que os dois estão aqui.
Ambos estavam sentados frente a frente e a encararam. O Dr. Hillman foi cordial.
– Olá, Beth. Como está hoje? Pode sentar.
– Estou bem, muito obrigada – ela sorriu, puxando uma cadeira e sentando.
– Como podemos ajudá-la? – A garota recebeu um olhar frio do policial Dickens.
– Bem, não tardarei. Falei há pouco com a policial Collins sobre uma ideia que tive para o funcionamento do hospital.
Beth repetiu tudo que havia dito à policial Collins, porém, um pouco menos doce e simpática; mais exigente, destemida. Teria de sair dali com resultados positivos, ou perderia toda sua fé naquele lugar.
Quando terminou de explicar, o Dr. Hillman perguntou:
– Qual foi a resposta da policial Collins para isso?
Beth pôs-se ereta na cadeira.
– Ela discordou.
Dickens e Hillman entreolharam-se, receosos. Beth já previa o que estava para acontecer, mas não desistiria tão facilmente.
– Garota. – Dickens se referiu a Beth, deixando-a irritada. – Se Collins discordou, então não sei o que você está fazendo aqui. A resposta foi não, certo?! Então é não.
Beth respirou fundo.
– Bem, ela é apenas um quinto do Conselho. Esperava que vocês analisassem meu pedido mais racionalmente. Ele faz sentido, não faz?
Dr. Hillman a lançou um olhar de pena.
– Não precisamos disso agora. Talvez no futuro...
– Aí está o problema, doutor! – Beth contraiu o maxilar. – Sempre adiam meus pedidos. Nunca levam a sério o que eu digo! É algum problema pessoal? Ou simplesmente vocês gostam de alguns aspectos de regimes ditatoriais?
Na hora, percebeu que foi um tanto dura, mas tinha que ser. O que falava era verdade. Ela sabia e, aparentemente, os outros dois também.
– Cuidado com o que fala, garota. – O policial fechou o punho, olhando-a com os olhos cerrados, ameaçadores.
– Beth, isso que você diz é absurdo – contestou o Dr. Hillman. – Se a Collins disse que não, sinto muito, mas não será possível.
Beth viu-se rindo sarcasticamente. A doce garota que era realmente havia mudado. Só não sabia que era tanto.
– Vocês têm medo? Medo daquela mulher? – Levantou-se da cadeira com as veias inchando no pescoço. – Se vocês agissem com um pouco de noção, saberiam...
– Cala a boca, sua inútil! – gritou Dickens, dando um murro na mesa. – Não está ouvindo que não vai acontecer? Acabou!
Beth perdeu as ações. Apenas olhou para o Dr. Hillman, esperando uma reação, mas ele apenas balbuciou:
– É melhor você sair, Beth. É melhor você sair.
Deu meia volta em um pé, batendo com força a porta ao sair. Não esperava que isso acontecesse. No máximo, achava que discordariam, adiariam novamente a discussão, mas nunca imaginou que seria chamada de inútil e faria alguém socar uma mesa.
Após alguns passos pelo corredor, cruzou com a policial Collins. Pelo olhar que a mulher a lançou, presumiu que ela a havia visto sair do escritório do Dr. Hillman. Seu queixo parecia tremer de raiva e Beth jurou ter a visto pôr a mão, abruptamente, na arma que repousava em seu cinto. Beth engoliu em seco e continuou seu caminho.
Perdida em pensamentos, surpreendeu-se quando alguém tocou seu braço no corredor.
– Ei. – Era uma mulher na faixa de trinta e poucos anos. Beth já a havia visto andar pelos corredores com vassouras e panos molhados, então devia ser encarregada da limpeza do hospital, mas nunca havia falado com ela. – Desculpe lhe dizer, mas eu ouvi a conversa que você teve com o Dr. Hillman e o Dickens.
Beth franziu as sobrancelhas.
– Onde você estava? – perguntou.
– Vi quando você entrou. Perdoe-me, mas eu estava parada ao lado da porta. Acabei ouvindo tudo.
Beth não se sentiu brava. Pelo contrário: sentiu-se aliviada por ter tido uma testemunha da reação ameaçadora que havia tido o policial Dickens. Contudo, nada falou; apenas lançou um sorriso acanhado para a mulher.
– É uma boa ideia, sabia?! Espero que no futuro dê certo.
A moça sorriu por alguns segundos, até que, de repente, assumiu uma expressão assustada. Saiu de perto rapidamente.
Beth foi agarrada pelo braço e puxada para as escadas de emergência.
Era Collins.
– O que você pensa que está fazendo, garota estúpida? – A mulher tinha um olhar ameaçador, quase que psicopata, e a segurava pelo braço com toda a força que tinha.
– Você pode me soltar, por favor? – Beth tentou permanecer calma.
– Cale sua boca, idiota! – gritou a mulher, empurrando-a contra a parede e apontando o dedo em seu rosto. – Você não tinha que falar com ninguém. Quem manda aqui neste lugar sou eu. Não devo nada a ninguém, muito menos a você.
Beth engoliu em seco, nervosa.
– Então não quero ficar aqui.
– Você não tem escolha. Cale sua boca. – A mão da mulher repousou sobre a arma do cinto. – Acha que tem algum tipo de autoridade aqui? Não tem. Está perdendo seu tempo e quem vai ser prejudicada é você.
– Não quero ficar aqui – continuou Beth. – Vou embora. Não sou obrigada a ficar.
Collins respirou fundo e pareceu tentar recuperar a calma.
– Garota. Cada sacrifício que fazemos tem de ser por um bem maior. E aqui, você não é o bem maior. Você é parte de um sistema.
Beth estreitou seus olhos e encarou a mulher com um enorme sentimento de raiva. Quando menos esperava, Collins sacou a arma do cinto num gesto rápido e a lançou com força contra o rosto de Beth.
Por alguns segundos, o mundo pareceu girar. Beth sentiu-se fraca, zonza, e assim caiu no chão, com a cabeça encostada na parede. Quando recuperou seus sentidos, viu a porta que dava acesso ao corredor fechar. A policial tinha partido e deixado ela ali, com gosto de sangue na boca e o lado esquerdo do rosto latejando.
Enquanto tentava ficar em pé, Beth pensava em saídas para aquele sufoco. E chegou à conclusão de que ia embora daquele lugar, de uma forma ou de outra. Se aquilo estivesse acontecendo um ano antes, ela não hesitaria e cometeria suicídio ali mesmo, fosse jogando-se da escada ou quebrando o vidro da porta para se automutilar. Ela teria dado um jeito. Mas ela não era mais a mesma. Havia evoluído. Se comia esquilos, por que não poderia aguentar mais um tempinho até sair daquele lugar?
Após alguns minutos, com a boca ainda sangrando e o rosto dormente, voltou para o corredor. Do lado da porta estava a mulher de trinta anos que havia apoiado sua ideia minutos antes.
– Ela fez isso em você? – perguntou a moça, um tanto quanto chorosa, olhando espantada para o rosto de Beth.
Beth não tinha o que esconder. Era um fato.
– Sim.
A mulher tocou seu ombro. Lançou-a um sorriso reconfortante, embora parecesse muito frágil.
– Ela já fez isso comigo. Mas não se preocupe. Passa logo.
Enquanto Beth assistia àquela mulher doce, gentil e atenciosa seguir pelo corredor em passos curtos, sentiu uma onda de fúria subir pelo corpo. Ela não era a única a sofrer ali, aparentemente, e aquele lugar não era seguro para ninguém. Mais uma vez, ela teria de dar um jeito.
E começaria naquele mesmo instante.
Fale com o autor