What changed your mind
6 A relief
Notas iniciais
Rick e Daryl andavam pelo cemitério.
Entre os túmulos, seus pés pisavam em folhas secas. Um errante estava na área e logo percebeu a presença dos dois; lentamente, soltando grunhidos e erguendo os braços, começou a caminhar em direção a eles, porém, estava tão longe que nem os incomodou.
Daryl parou de repente. Estava ali, aquele túmulo: “pai amado”. As flores que deixara sobre a placa de concreto, sob o olhar de Beth, ainda estavam ali. Mas não estavam bonitas e alegres como estavam no outro dia. Haviam apodrecido.
– Tudo bem aí? – perguntou Rick a Daryl, andando à sua frente.
Daryl, antes distraído, confirmou com a cabeça.
– A casa está ali – apontou em uma direção. – É melhor irmos pela floresta. Quando fui embora, o lugar estava tomado.
Então ambos se dirigiram às sombras das árvores.
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Beth estava entrando em seu quarto, no fim de um dos corredores, quando, de relance, viu pela janela um veículo chegar ao estacionamento antes vazio do hospital. Fechou a porta e correu pelo corredor, até chegar ao portão de saída.
O portão do estacionamento era o único pelo qual as pessoas entravam e saíam, enquanto as outras três entradas permaneciam bloqueadas e seladas, assim como o acesso a elas. Desse modo, havia áreas isoladas no hospital, as quais não haviam sido visitadas por ninguém desde o começo de tudo.
Quando Beth destrancou o portão, andou em direção ao carro que havia chegado. Era o grupo da expedição, que voltara com mochilas cheias de suprimentos. O primeiro a descer foi Vincent, a quem Beth se dirigiu, caminhando pelo concreto.
– Vincent, preciso falar com você – disse ela, ao se aproximar, ainda tendo o cuidado de falar baixo o suficiente para que os outros não a escutassem.
– Nossa! Que recepção calorosa – respondeu o rapaz, tirando as mochilas do carro.
– Vincent, olha para mim.
Ele olhou. Seu sorriso tímido se desfez.
– O que aconteceu com seu rosto?
Beth suspirou.
– Pois é. Sabe quem fez isso? A Collins. Eu vou embora daqui e queria saber se você topa ir comigo.
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Estavam a poucos metros da casa funerária. A princípio, não havia muitos errantes. De longe, avistaram três caminhando sem rumo e, por isso, Daryl ficou tranquilizado. Caso houvesse tantos errantes quanto na noite em que Beth foi levada, ele teria aquelas cenas projetando-se em sua mente mais uma vez e achava que não conseguiria lidar com aquilo de novo.
De trás de uma árvore, saiu um errante. Ele agarrou Rick pelo pescoço em um momento que o xerife estava distraído, arreganhando a boca e mostrando dentes gastados, infestados de carne podre. Rick puxou rapidamente uma faca de seu cinto e cravou no pescoço da criatura, enfraquecendo-o o bastante para se soltar. Daryl derrubou o andante ao empurrá-lo bruscamente com as duas mãos, pisando em seu crânio assim que este chegou ao chão.
– Essa foi por pouco – disse Rick, depois de respirar por alguns segundos.
Daryl estava voltando-se para a casa quando notou uma coisa: as coisas de Beth não estavam ali. Olhou por trás de algumas árvores, afastou-se a aproximou-se da casa, e nada. Haviam sumido.
– O que há de errado? – Rick perguntou, juntando-se a Daryl enquanto ele olhava ao redor.
– Beth deixou cair suas coisas quando foi levada – Daryl respondeu. – Eu não as apanhei. E elas não estão mais aqui.
Os dois entreolharam-se.
Daryl não queria tirar conclusões precipitadas a respeito daquilo. Qualquer um que passasse podia levar os pertences de Beth, expostos ao chão, porém, ainda assim, um rastro de esperança o preencheu. Talvez inútil, ou talvez não. Não quis refletir muito.
– Vamos entrar – sugeriu Rick, e ambos andaram até a porta da frente.
Entre a floresta e a porta frontal da casa, eliminaram dois errantes facilmente. Havia mais três a certa distância da casa, mas, com discrição, Rick e Daryl passaram despercebidos.
Entraram na casa. Daryl bateu fortemente num móvel de madeira e esperou para ver se havia ameaças na casa. Um errante surgiu no topo da escada, grunhindo e gemendo, ansiando por carne fresca. No momento em que ia descer, acabou pisando em falso, rolando degraus abaixo. Com seu arco, Daryl mirou em sua cabeça, logo o matando – aquilo que já era morto.
Bateu mais algumas vezes na madeira enquanto Rick espiava um dos cômodos ali perto. Não houve mais respostas, então Daryl foi direto à cozinha.
Estava tudo ali, quase intocado. Alguns potes de doce haviam rolado da mesa e uma garrafa de refrigerante de cola estava no chão, consequências prováveis e irrefutáveis de um lugar tomado por vários errantes. Fora isso, tudo estava no devido lugar. As velas acesas por Beth e Daryl naquela noite havia derretido, mas estavam nas mesmas posições, assim como a maioria dos alimentos postos sobre a mesa.
Aparentemente, ninguém invadira a casa no tempo em que ele esteve longe. E, aparentemente, o verdadeiro dono não havia retornado. Daryl percebeu que, caso nada daquilo houvesse acontecido, ele e Beth provavelmente ainda estariam ali.
– Encontrei cobertores e algumas roupas masculinas. Acho que servirão de algo – perguntou Rick, passando pela porta da cozinha. – E você, alguma coisa?
Daryl, encarando a mesa à qual havia se sentado com Beth, balançou a cabeça positivamente.
– Ainda há comida. Ninguém pegou nada desde... – deixou, no ar, suas palavras. – Acho que há alguma comida para a Judith nesses armários.
Rick encontrou catorze potes de comida triturada para bebês, equivalentes a uma refeição. Estavam em período de validade. Rick riu.
– Nunca diria que ainda encontraria um desses – disse enquanto colocava todos em uma bolsa extra, além de três latas de leite que também achara.
– Já achou tudo que precisava? – perguntou Daryl.
– Acho que sim – respondeu Rick. Olhou para Daryl com pesar nos olhos. – E você?
Daryl, pondo seu arco no ombro, apenas fez menção à saída com a cabeça.
– Vamos.
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– Ok, Beth. E como vamos fazer isso?
– Pegamos a saída norte. É a mais distante das áreas mais utilizadas do hospital.
Beth convencera Vincent a ir com ela. Horrorizado com o que Collins havia feito com o rosto da garota, pouco hesitou, aceitando acompanhá-la. No momento em que conversavam, já planejavam partir. Esperaram longas horas, já que, durante a madrugada e as primeiras horas do dia, a equipe de guarda fazia ronda pelo hospital. O fim da manhã era o melhor momento para fugir.
– Mas Beth, como vamos fazer isso sem que ninguém nos note? Além disso, a área que o Conselho mandou bloquear é distante da saída do hospital. E nem sabemos o que tem lá.
– Vincent – a garota olhou-o, impaciente, levantando-se de sua cama. – Eu vou sair daqui, não importa o que você diga. Está comigo ou não?
Vincent pôs as mãos no rosto, esfregando os olhos com força.
– Estou. Tudo bem.
– Ótimo – disse Beth. – Agora tenho de fazer algo.
Beth pretendia achar a moça que conhecera no corredor minutos antes de ser agredida por Collins. Ela era outra vítima da policial e Beth sentiu-se na obrigação de levá-la consigo.
Por sorte ou obra do destino, a primeira pessoa com quem esbarrou foi, justamente, a mulher do corredor.
– Oh, olá, querida – perguntou a mulher assim que pousou seus olhos em Beth. – Como vai? Está melhor?
– Estou. Na verdade, queria falar com você – respondeu Beth. – Desculpe-me, mas qual é mesmo seu nome?
A mulher sorriu.
– Susan. E o seu?
– Me chamo Beth.
– Tudo bem, Beth. E sobre o que você quer falar? – perguntou Susan, repousando a mão no braço da garota.
– Para ser sincera, não sei se devo confiar em você, mas não tenho escolha. Seria errado se não viesse até você – Beth admitiu, sussurrando. – Eu vou embora daqui. Não é um lugar bom. Ninguém aqui é bom, e isso foi provado quando a líder desse lugar me agrediu enquanto eu tentava ajudar.
Susan assumiu uma expressão séria, porém interessada.
– Você disse que também foi tratada assim por ela. Vim perguntar se você quer sair deste lugar comigo. Não aguento ficar aqui, Susan. Nós não merecemos isso.
Com lábios trêmulos e olhos úmidos, Susan perguntou, um tanto quanto aflita:
– Quando você vai?
– Bem... Agora.
Susan refletiu por um instante, provavelmente pesando os prós e os contras daquilo.
– Preciso buscar meu filhinho – disse.
Beth não sabia que ela tinha um filho. Isso tornava a situação muito mais delicada e deixava ainda mais claro que Susan não deveria viver ali, sofrendo, enquanto deveria ter maiores preocupações, como manter o filho vivo.
– Tudo bem. Podemos nos encontrar no corredor F em dez minutos?
A mulher assentiu, logo parecendo mais segura.
– Sim.
– Tem alguma pergunta a fazer? Sei que isso foi muito repentino... – Beth segurou sua mão.
– Não. Eu confio em você.
E, dando um sorriso torto, andou rapidamente pelo corredor.
–-------
As mochilas de Rick e Daryl estavam pesadas e o sol de fim de manhã era forte. As gotículas de suor surgiam nas têmporas e escorriam pela pele; as camisas, ensopadas, grudavam no corpo. O caminho de volta era longo, mas teriam de fazê-lo; já haviam percorrido alguns quilômetros, portanto, conseguiriam lidar com os que restavam.
Andavam em silêncio, até que Rick o quebrou:
– Provavelmente não voltaremos por aqui. Deveríamos procurar por algum carro ou bateria antes de voltarmos ao acampamento.
Daryl concordou.
Pararam de vagar pela floresta e logo seguiram por uma estrada, onde, definitivamente, seria mais fácil de encontrar carros, funcionais ou não.
O primeiro que testaram era velho e não funcionava, porém, no banco traseiro, encontraram facões e uma espingarda. Já o segundo era novo, mas parecia estar naquela estrada há muito tempo, pois estava coberto de lama, poeira e folhas secas. No banco do motorista, sentava um homem morto, provavelmente há muito tempo livre de seus aspectos humanos. A tentativa também foi inútil.
Andaram mais alguns minutos e não viram mais carros, até que chegaram a um ponto alto da estrada. Olhando para baixo, Rick notou que deveriam estar em algum subúrbio distante de Atlanta devido ao estilo das poucas casas visíveis e da largura das ruas. Depois, logo notou algo mais importante.
– Daryl – chamou o amigo, que logo se aproximou. – Está vendo aquele prédio largo ali embaixo?
– Sim – Daryl respondeu. – O que deve ser?
– Uma escola grande. Ou um hospital.
– Ou um centro de reabilitação – Daryl supôs.
Rick o olhou.
– Não importa. Olhe ali atrás. Há uma van.
Daryl pôs a mão sobre os olhos para protegê-los do sol e estreitou a vista.
– É verdade. Parece boa.
– E não está longe – contribuiu Rick.
Já sabiam o que fazer.
Desceram a encosta cautelosamente até chegarem perto do enorme prédio, ainda afastados do estacionamento. Esconderam-se atrás de árvores por alguns minutos para confirmar que o lugar era seguro. Contudo, no exato instante em que começaram a se aproximar do prédio, uma pequena porta lateral foi aberta abruptamente.
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Beth e Vincent removiam as placas de madeira da porta que dava acesso à área da saída norte quando Susan chegou ao corredor com seu filho. O menino não parecia ter mais de sete anos; era magro, pequeno e, principalmente, inocente.
– Susan – chamou Beth. – Pode vir. Já estamos terminando.
Vincent tirou a última viga de madeira da porta, empurrando esta com força e conseguindo abri-la. Sorriu confiante para Beth, que fez o mesmo em direção a Susan e seu filho. Ela pôs o menino no braço e deu a mão livre a Beth. Os quatro seguiram pelo corredor pouco iluminado.
Quando menos esperavam, uma voz os chamou do início do corredor:
– Onde pensam que estão indo?
Era a policial Collins. Ela apontava sua arma para eles, com uma expressão maníaca estampada na face.
Vincent logo se recuperou do choque de vê-la ali e tentou comunicar-se.
– Collins, por favor. Deixe-nos ir. Só iremos e não incomodaremos mais.
Ela se aproximou mais deles.
– Collins – Beth se pronunciou. – Nós tivemos nossos desentendimentos, mas não precisa continuar. Só nos deixe ir.
Collins continuava se aproximando. O filho de Susan chorava e ela, encolhida em um canto com ele, tentava acalmá-lo. Entre lágrimas, dirigiu-se à policial:
– Policial. Este lugar é horrível. O mundo lá fora é melhor que aqui. Temos que ir embora. Por favor, entenda.
E, de repente, um tiro. Collins havia mirado na maçaneta de uma porta que ficava na lateral do corredor, a qual não havia sido notada por ninguém. De lá, saíram errantes. Muitos errantes, incontáveis deles. Começaram a se aglomerar no corredor, desorientados. Collins tentava fechar a porta que havia sido aberta por Vincent e Beth, sem sucesso; começou a gritar e atira para todos os lados, aflita, chamando a atenção de muitas daquelas criaturas. O plano de usá-las para matar os “fugitivos” havia virado contra ela mesma.
Os quatro começaram a correr. Testaram portas, atiraram em maçanetas, mas os lugares eram inúteis, breus sem saída. Os errantes que se aproximavam eram derrubados com facadas e tiros, mas eram muitos que seguiam os passos de Beth, Vincent, Susan e seu filho, tornando-se impraticável esperar para matar todos eles e tentar o caminho de volta. Teria de ter algum jeito.
E teve. Conseguiram vantagem por correr bastante rápido dos errantes, e finalmente testaram uma porta que abriu ao girar da maçaneta. Entraram no pequeno quarto, ofegantes. O lugar era completamente escuro; demorou alguns segundos para que Beth, em sua mochila, encontrasse uma lanterna, o suficiente para que os grunhidos fossem ouvidos.
Havia uma chave pendurada na porta. Beth enfiou-a na fechadura e girou. Estavam trancados, mas seguros, ou, pelo menos, não virariam carne fresca para mortos vivos.
– Há uma porta aqui! – disse Vincent entre os choros do pequeno garoto, alarmado nos braços da mãe. – Está trancada.
– Atire! – disse Beth. E, com a contribuição da lanterna, o rapaz mirou, acertando de primeira.
A luz do dia entrou no quarto. Os quatro saíram calmamente, mas cautelosos, notando, de ínicio, que o lugar estava vazio. Porém, ali, na lateral do prédio, havia duas presenças a mais. Não eram errantes. Não mesmo.
Na mira de um arco, Beth deveria levantar os braços, assim como Vincent, Susan e o menino fizeram. Mas ela não o fez. Não era necessário. Aquele homem não a mataria. Por isso, ele deixou o braço recair, não acreditando no que seus olhos viam.
Ali estava ela. Seus cabelos dourados, iluminados pelo sol, caiam de forma bagunçada sobre o seu ombro esquerdo. Os olhos transmitiam paz. Daryl achava intenso demais, mas era isso: era a melhor imagem que já vira. A melhor.
E ali estava ele. Com uma expressão incrédula na face, deu passos incertos e caóticos para frente, em direção a ela. Beth sentiu-se fraca, derrubada, mas era como se o melhor remédio estivesse ali, à sua frente.
Com passos rápidos, andou em direção ao arqueiro e jogou os braços ao redor de seu pescoço. Ele não podia acreditar. Quando deu por si, estava retribuindo o abraço, com as mãos nas costas de Beth. Ela chorava. Ele sentia o acúmulo úmido em seu ombro. Vacilou quando ouviu, perto de seu ouvido, a moça sussurrar:
– Meu Deus, como senti sua falta.
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