What changed your mind
7 Back home
Notas iniciais
O corpo de Daryl tremia devido ao repentino encontro. Ele estava em estado de choque; embora a tocasse, não conseguia acreditar que aquilo era verdade. Sentiu um alívio extremo ao vê-la ali, novamente ao seu lado. Não estivera tão perto dela desde que a carregou nas costas e nos braços; desde que ela o abraçou enquanto ele, do lado de fora daquela cabana, derramava lágrimas antes reprimidas.
Seu coração estava acelerado. Enquanto abraçava Beth, torcia para que ela não notasse os batimentos que ansiavam contra o seu peito. Largara o seu arco ali, no chão, e embora aquele fosse, talvez, seu bem mais precioso, não se importava com ele; só queria tocá-la. Queria ter certeza de que ela estava realmente ali.
Quando Rick aproximou-se, Beth soltou Daryl, lançando-o um olhar que o dizia muito, mas ele não sabia o quê. Ainda em estado de choque, a moça olhou para Rick, notando-o pela primeira vez ali. Derramando-se em lágrimas novamente, também o abraçou.
– Rick!
Ele tinha um grande sorriso no rosto e uma expressão de extrema surpresa. Enquanto abraçava Beth, trocou um olhar com Daryl, que ainda demonstrava grande incredulidade.
– Vocês se encontraram! E estão vivos! – Beth afastou-se de Rick, num meio termo entre lágrimas e sorrisos.
– Beth... – Vincent se aproximava.
Pela primeira vez, começaram a ouvir gritos vindos de dentro do hospital. Beth finalmente voltou à razão, percebendo a situação em que todos se encontravam.
– Temos que sair daqui – ela disse a todos que se uniram ao seu redor, limpando as lágrimas do rosto.
– O que está acontecendo lá dentro? – perguntou Rick.
– É uma longa história – falou Beth. – Melhor irmos rápido.
Vincent começou a correr em direção ao veículo parado do estacionamento.
– Venham!
Susan pegou seu filho no braço, correndo logo atrás de Vincent. Beth indicou o caminho para Daryl e Rick, que a seguiram sem hesitar.
Os seis passaram em frente à porta dos fundos do hospital, a única que dava acesso ao interior. Através do vidro, viram o que acontecia. Os errantes ocupavam uma pequena parte do lobby; de relance, foi possível ver um deles rasgando com os dentes o que parecia ser um braço humano.
O grupo entrou no veículo. Antes mesmo de Rick bater a porta, Vincent deu partida na van, indo em direção à estrada. No exato momento em que passaram na frente do portão do hospital, muitas pessoas começaram a sair, e Beth logo reparou que todas elas pareciam ilesas, sem aparentes mordidas. Algumas se chocaram contra o veículo, xingando e implorando para que as deixassem entrar. Vincent não cedeu; apenas acelerou ainda mais, com uma expressão aflita estampada no rosto.
A última pessoa que Beth viu foi a policial Collins, no exato momento em que foi derrubada, em frente ao portão, por uma daquelas criaturas. Sua perna foi mordida e logo estraçalhada; já tinha pedaços do braço faltando. A policial ergueu a vista, gritando, suplicando, e a última coisa que fez foi trocar um olhar com Beth, que, encarando-a através da janela do automóvel, engoliu em seco. Então, com um último suspiro, soltou sua cabeça contra o asfalto.
Foi a última imagem vista por Beth antes que o muro do hospital cobrisse a infeliz cena.
–------
Os primeiros minutos de viagem foram silenciosos, exceto pelo choro insistente do garoto de Susan. Beth sentiu-se desconfortável.
– Oi – disse ao menino. – Já passou, está bem? Estamos longe de lá.
Susan a olhou, parecendo agradecida. O menino parou de gemer e passou a fungar constantemente.
– Meu nome é Beth – disse a ele. – Qual é o seu?
Com um olhar desconfiado, respondeu:
– Kevin.
Beth sorriu, tentando transmitir confiança, embora suas pernas tremessem contra o banco da frente.
– Ok, Kevin. Estamos longe de lá. Vai ficar tudo bem, certo?
O garoto nada respondeu e também não reagiu, porém, as lágrimas cessaram.
Beth não vira, mas Daryl a olhava pelo espelho retrovisor. Era verdade. Ela estava ali, viva, mais impressionante do que nunca. Era uma bela imagem aos seus olhos.
Quando ele menos esperava, ela retribuiu o olhar pelo retrovisor. Ambos desviaram.
– Aonde estamos indo? – perguntou Vincent, ainda um tanto ofegante.
– A um acampamento – respondeu Rick, que sentava ao lado de Beth. – Temos pessoas esperando.
Beth o encarou, esperando que dissesse mais. Rick a lançou um sorriso.
– Tudo bem por você, Beth? – perguntou Vincent.
Esperançosa, a loira sentou-se ereta no banco traseiro.
– Como chegamos lá?
E Rick começou a demonstrar o caminho. Vincent teve de dar a volta na estrada e dirigir na contramão, o que não seria um problema, já que a estrada estava completamente vazia – exceto por poucos errantes que saíam da mata espessa ao ouvir o barulho do motor.
Daryl lançou novamente um olhar a Beth pelo retrovisor e perguntou:
– O que aconteceu com o seu rosto?
Beth já havia se esquecido do enorme hematoma que se formara em seu rosto. Porém, assim que foi mencionando, sentiu novamente o formigamento, a dor latejante. Contraiu os lábios, tentando esquecer a cena em que foi espancada pela mulher que, há poucos minutos, havia morrido diante de seus olhos.
– Desentendimentos. Aquele hospital... Não era bom. As pessoas não eram boas.
Reparou que, naquele mesmo momento, Daryl desviou rapidamente o olhar para Vincent e Susan.
– Mas estes são. As coisas ali dentro estavam ficando feias, então íamos sair de lá. – Beth sorriu discretamente, relembrando do momento em que aquela porta foi aberta, permitindo o reflexo do brilho solar em seus olhos; o momento em que viu Daryl parado, tão incrédulo quanto ela, a apenas poucos metros. – Ainda bem que nos encontramos.
Rick assentiu, retribuindo o sorriso da menina. Daryl permaneceu calado.
Beth, ansiosa, estralava os dedos das mãos.
– Vocês dois se encontraram... Há muito tempo?
Rick, sentado ao lado de Beth, encarou a nuca de Daryl. Esperava que ele respondesse, contudo, o amigo não se manifestou.
– Há algumas semanas – respondeu Rick.
Beth assentiu. Tinha tantas perguntas, mas hesitava. Não queria obter respostas dolorosas, mas queria saber o que acontecera desde que todos haviam se separado. Desde que ela havia sido separada de Daryl, principalmente. Apesar disso, já se sentia feliz e bastante completa. Quando chegou ao hospital, ainda tinha fé de que encontraria alguém, mas com o passar dos dias, ficou cada vez mais perto do ponto em que desistiria de acreditar. O fato de estar ali, com dois membros do que considerava sua família, e, além disso, com um rumo, a deixava feliz.
Mas tinha de perguntar.
– E... Vocês estão com mais alguém? – Tomou o cuidado de não erguer a vista, que se focava em seus próprios pés.
– Sim. Você verá. Na verdade, pode parar aqui, cara – disse Rick. – Andaremos até lá.
E Vincent o fez. Ali, na beira da estrada, estacionou a van. A vegetação ali era espessa, o que tornava impossível entrar na floresta dirigindo um carro.
Beth suava frio. Não sabia o que esperar e não tinha ideia do que – ou melhor, de quem – encontraria ali, por entre as árvores. Acompanhando os outros, começou a caminhar ao lado de Daryl.
– Como você está? – ela perguntou, dirigindo-se a ele. – Acho que seu cabelo cresceu.
Daryl limitou seu humor a uma fungada.
– Acho que sim.
Tinham muito para dizer, mas estavam sem jeito, de modo que continuaram caminhando lado a lado, em silêncio. Mais do que nunca, ela sentiu vontade de sentar-se ao lado dele em um lugar qualquer; acompanhados de garrafas de bebida alcoólica e algum tipo de conversa boba, estariam bem.
Viu a primeira barraca do acampamento. Os primeiros movimentos ao redor dela. Viu pessoas. Viu faces estranhas, mas várias familiares. Sentiu seu coração parar por um segundo. Ali, no meio da clareira, não conseguiu manter-se em pé: jogou-se de joelhos sobre a terra seca e começou a chorar, atraindo a atenção dos que ali estavam. Ela viu Carl, que retornou seu olhar, adotando uma expressão de extrema surpresa. Viu Judith em seus braços. Beth sorriu entre lágrimas.
Glenn a viu poucos segundos depois. Correndo em direção a ela, gritou freneticamente o nome de sua irmã. Maggie logo correu por entre as árvores, parecendo preocupada.
– Glenn! O que houve?
E viu Beth. Pôs as mãos no rosto, em estado de choque, e então correu em sua direção.
– Beth! – Jogou-se no chão e abraçou-a fortemente, as lágrimas rolando no rosto. – Você está aqui! Está viva...
E ali permaneceram, por incontáveis minutos, enquanto todo o acampamento se reunia à sua volta. Para qualquer um, aquele era um momento difícil de acreditar. Poucos ainda imaginavam que ela estaria viva, mas estava, e assim Beth provou a todos que havia mudado. Não era indefesa, fraca, estúpida como ela mesma julgava ser. Estava viva e estava ali, nos braços de sua irmã mais velha, imersa numa confusão de sentimentos. Estava feliz, dolorida, confusa, mas, principalmente, feliz.
Principalmente, viva.
Não viu, mas Daryl a observava de longe. Quando teve certeza de que ninguém o olhava, sorriu. Encostou a cabeça numa árvore enquanto o alívio e a gratidão preenchiam os seu ser. Olhou para a moça, ajoelhada entre todos, sendo recebida com sorrisos e abraços, do modo que merecia.
O mundo era tão mais bonito quando ela estava nele.
Daryl agradeceu. Não sabia a quem, mas agradeceu por ter a oportunidade de vê-la viva. Morreria feliz, pensou, e não se importou, naquele momento, com o fato de que o mundo havia sido tomado por criaturas devoradoras de carne humana. Ela estava ali. Essa era a parte importante.
“Você vai sentir tanto a minha falta quando eu me for, Daryl Dixon.”
Ela nem fazia ideia.
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