What Comes After [HIATUS]
1 Prólogo
Notas iniciais
Com a cabeça em meio às pilhas de travesseiros e cobertas que é a minha cama, ouço murmúrios vindo do primeiro andar. Eu não sei o que é, não sei quem é, e não faço questão alguma de saber. Ainda que seja a minha casa, eu não posso dizer que me sinto em casa — não sou capaz de chamar essa construção da Capital de lar, nunca fui. Não antes da Rebelião nem muito menos depois -, e, portanto, sequer me importo com o que quer que esteja acontecendo no andar debaixo. Ou no de cima. Que caiam aos pedaços ambos, virem cinzas, já que este é o tipo de coisa que eu atraio.
Além do ódio, só o que me acomete, vez ou outra, é um peso constante e arrebatador nas costas. Um peso que eu quero aguentar sozinha, como eu mereço; sem fala alguma que possa mudar a direção dos meus pensamentos incriminadores. Embora, na maior parte do tempo, eu apenas me sinta vazia.
Às vezes, faço questão de pensar no Snow, em Coin, nos Jogos, só para ter o prazer de sentir alguma coisa. Mesmo que desprezo, repulsa e raiva. Parece melhor que sentir meu coração batendo neste vácuo. Noutros instantes, esse oco é bem vindo. É melhor que noites em claro, melhor que rememorar todos os horrores que vejo diariamente nos meus pesadelos.
Mas, neste momento, eu apenas desejo poder fechar os meus olhos e mergulhar nos meus pesadelos mais uma vez. É mais agradável que a luz que invade as cortinas do meu quarto e o desespero de saber que estou respirando quando outros deveriam. E, ao menos nos meus pesadelos, eu não tenho que ouvir ruídos que impedem minha autoflagelação.
— Katniss! – Consigo ouvir a voz de Greasy Sae, por mais que ela soe mais distante do que provavelmente está.
Eu quero fingir que meu nome não é Katniss, principalmente em um momento como este. Na verdade, eu venho sentindo essa vontade muitas vezes. Muitas vezes desde o dia que ouvi o nome Primrose Everdeen ser chamado na colheita. Desde o dia em que explodi a arena e fiquei me remoendo em culpa por causa da vida de Peeta e, mais tarde, por causa da vida do meu povo. Desde o começo da Rebelião. Desde o dia da morte de Coin e Snow. Desde a morte do meu pai eu desejo ter outro nome.
Porque se meu nome não fosse Katniss, se meu sobrenome não fosse Everdeen, tudo estaria à salvo. Ainda existiriam pessoas que me importam vivas. Eu ainda teria motivos para querer me manter viva e não sonharia todos os dias com centenas de pessoas me enterrando viva.
Viva. Palavra curiosa. Eu não me sinto viva.
— Katniss?! – Duas batidas leves e sutis na porta, logo em seguida esta se abre.
Eu tiro meu rosto do emaranhado de travesseiros e olho para a mulher parada na porta. Suas feições ainda são as mesmas, o seu sorriso — mais uma carranca — ainda é o mesmo; o mesmo que eu via diariamente no Prego.
Apesar da idade que chega dia após dia, ela continua a mesma guerreira de sempre. Em seu encalço, sua neta, que parece um tanto alheia ao mundo. Não que isso seja algum tipo de novidade.
— Querida, tem alguém lá embaixo que gostaria de vê-la.
Imagino quem é o louco a bater na minha porta. Talvez Haymitch, com seu terrível hálito de cachaça e humor negro. Ou quem sabe Hazelle e as crianças; suas visitas não são tão peculiares assim desde o dia em que ela resolvera voltar ao 12. De qualquer modo, eu estou num daqueles dias onde qualquer presença me causa náuseas e calafrios. Onde qualquer lembrança, qualquer palavra colocada no instante errado, qualquer pensamento — como as memórias do Prego há alguns segundos -, me dêem vontade de cortar os pulsos. Onde tudo que eu quero é me acolher na doce e sombria solidão.
Mesmo assim, eu tenho medo de, em algum momento, estatuir que, afinal, não sou sobrevivente nenhuma. Tenho medo de, eventualmente, desistir, como já fiz tantas vezes. Só que agora não vai ter ninguém para me impedir.
— Eu não estou lúcida. Sou mentalmente desorientada e acho realmente que visita alguma vai me ajudar. Para ser honesta, algo no fundo da minha mente instável diz que qualquer pessoa vai piorar essa situação – digo, na esperança de que minha resposta cause o efeito desejado e Greasy Sae mande o visitante alvo de minha hostilidade embora.
É então que me lembro novamente das minha opções. Eu mesma já devia estar descartando Haymitch das possibilidades. Ele não vinha à minha casa para me ver; no máximo, para arranjar um rango quentinho e manter seu estoque de bebidas cheio. Eu quase anseio que seja ele, assim eu terei alguém com berrar e mandar embora com o uso de impropérios e talvez uns pontapés, se eu estiver força o suficiente. Seria bom poder gritar com alguém. E, bem, Hazelle que me desculpasse, mas eu não estou em condições alguma de conversar ou manter um diálogo coeso, considerando o estado da minha cabeça.
Eu mal consigo manter meus próprios pensamentos coerentes. Eles vagam em várias direções opostas, num caleidoscópio onde tudo muda numa fração de segundos. Mas, nesse meu caleidoscópio, o elo que liga os vidros uns aos outros não são os espelhos típicos do instrumento, e sim as mortes que rodeiam os meus pensamentos. Elas nunca vão embora.
Meu pai nas minas. Rue pela lança do Marvel. Marvel pela minha flecha. Clove pelas mãos de Tresh. Tresh pelas mãos de Cato. O senhor do distrito 11. Cinna pelos Pacificadores. O bombardeio no 12. Madge. Darius. Lavinia. Milhares de vidas. Praticamente todo o meu Esquadrão. Boggs. Finnick. E, finalmente, Prim. Logo depois Coin e Snow; as únicas mortes pelas quais eu não me sinto culpada.
Respiro fundo, tentando minimizar a dor que, de repente, toma conta de mim. É melhor assim, digo a mim mesma.
Me surpreendo, a ponto de quase pular da cama, ao ver uma figura loira parada ao lado de Greasy Sae na porta, um pouco mais atrás dela. Ele acaba de se materializar ali, e eu devo estar tão afogada em mim mesma de forma que não sou capaz de supor sua presença através das suas passadas altas. Olho para ele, buscando algo em seus olhos. Algo que me diga o que esperar, pois eu venho ignorando estoicamente todos os meus pensamentos com relação a ele. Pelo menos até agora.
Peeta está bem melhor que no dia em que fugi dele; o dia sucessor ao qual ele tinha sido liberado pelo Dr. Aurelius e recebido permissão para voltar para casa. Parece mais saudável e um pouquinho menos magro.
Bem diferente de mim.
— Oi – é o que ele diz, semanas depois de nosso diálogo com pouco mais que cinco sentenças. A maior parte delas vindas dele, como sempre.
— Oi.
Algo no fundo da minha mente vaga pelo dia em que nos vimos no casamento de Finnick, no distrito 13. Nossos cumprimentos monossilábicos antes de Peeta destilar o veneno das teleguiadas em mim por meio de palavras. E eu, é claro, atirar o veneno que é meu por conta próprio. Não é preciso nenhuma teleguiada para saber da minha terrível antipatia e mau humor. E agora, ódio constante por tudo. Eu realmente devo ser uma companhia e tanto, penso.
Acho estranha a presença dele, mas não posso dizer que é de todo ruim. Me parece melhor que qualquer outra pessoa, independente da situação emocional dele; se é o garoto com o pão ou o bestante da Capital.
Peeta diariamente entrega pães frescos à Greasy Sae. Ela me faz comê-los juntamente a um ensopado ou o que quer que ela faça. Eu como. E isso é o mais próximo de uma relação que os antigos amantes desafortunados do Distrito 12 têm.
Mas agora, ele está ali. Provavelmente querendo mudar o quadro. Eu quase rio quando percebo que ele ainda está tentando me proteger; suponho que de mim mesma.
— Posso entrar? – Peeta pergunta, um tanto receoso. Não descarto sua parcela de dúvida em relação a mim. Na verdade, eu a entendo. Afinal, não sou confiável. Nunca fui. Ainda mais no estágio atual das coisas.
Eu assinto levemente, permitindo o nosso primeiro contato em semanas.
— Por sua conta e risco. – Alerto. E eu vejo um resquício de sorriso começar a nascer nos seus lábios.
Sento-me na cama, olhando para a porta que acaba de ser fechada, dando a nós privacidade para uma conversa que eu não sei do que se trata. Ao julgar pela feição solidária do garoto à minha frente, noto que ele só se sente preocupado. E eu quero dizer para ele que não preciso disso, que ele não me deve compaixão nenhuma, mas seus olhos me impedem, pois é como se ele estivesse de volta depois de um longo período fora. O que de fato aconteceu.
Peeta parece ter voltado ao garoto que era antes do telessequestro, apesar de eu conseguir ver lembranças "pós telessequestro" pelo seu corpo. A Rebelião, por um lado, parece ter conseguido deixar todos com marcas. Visíveis ou não.
Ele se senta na ponta da cama, onde Buttercup tem o costume de descansar. Eu me apoio nos travesseiros ainda sentada, tentando achar algum conforto. Algo que eu sei que é impossível, já que não importa o dia ou a estação, todos os dias têm a mesma característica monótona de sempre. Me forço a aceitar que conforto ou sossego não são mais parte da minha vida. São luxos que eu não tenho o privilégio de usufruir.
— Como tem passado?
Olho para as minhas mãos ainda com manchas de queimadura, e me refaço a pergunta que acabei de escutar. "Como tenho passado?". A resposta é simples, então a dou sem nenhum um pingo de autopiedade:
— Nada bem – suspiro baixinho, ouvindo minha voz. De algum modo, sinto que ainda posso confiar nele, por isso continuo, me vendo sair da defensiva, sem nem mesmo querer isso. – Não é como se eu esperasse que pudesse ficar bem. Sempre soube que não ficaria, embora eu tivesse essa esperança tola de que ao menos as pessoas que me importavam pudessem ficar. Mas veja só, elas estão mortas e eu viva. Qual foi o sentido de tudo, então? Talvez provar o quão estúpida eu sou de achar que algo bom poderia sair daquela guerra.
Breve silêncio.
Um suspiro pesado, não sei de quem.
— Katniss – ele fala baixinho e eu sei que seu próximo passo será tentar me persuadir –, entendo perfeitamente sua frustração e dor, até porque eu também perdi pessoas que amava. Mas só quero te pedir que tente viver um dia de cada vez, como eu estou fazendo. Não deixá-los correr pelos seus dedos enquanto você está aí, sentada nessa morosidade. Isso tá acabando com você. Eu não garanto que será fácil nem asseguro que você conseguirá, mas acho que você deveria tentar, pelas pessoas que te amavam, que confiavam em você e te escolheram para liderar, para mudar as coisas. Você não vê isso agora, mas, no futuro, ninguém terá que se preocupar com inanição, e colheitas, e Jogos. Nossas crianças estarão à salvo. Você nos deu isso. – Peeta levanta. Acho que é isso que ele veio fazer aqui, então. Convencer-me a tentar a viver de novo.
Quando ele estende a mão, eu a vejo.
Uma solitária Prímula. A mesma Prímula que ele queria plantar na lateral da casa há algumas semanas. Talvez a tenha plantado.
Lembro de Prim e de como ela era parecida com aquela flor. Tão doce, tão suave, tão delicada, tão jovem... a minha Prim. A minha irmãzinha, que cresceu tão rápido sem que eu sequer visse.
Sinto uma lágrima escorregar pela minha bochecha e vejo uma preocupação exorbitante nos olhos de Peeta, mostrando o quão as intenções dele com aquela Prímula eram genuínas e sem nenhuma dose de maldade. Por isso ergo a mão, aceitando-a. Por Prim, por Peeta. Não por mim. Eu só fiz estragos.
Quando a aceito, vejo sua expressão relaxar.
— Obrigada. – Eu murmuro.
— Não tem de quê – fala, e eu o vejo sorrir bem fraquinho. – E, Katniss, ligue para o Dr. Aurelius. Ele disse estar esperando ansiosamente o seu telefonema – acena com a cabeça e deixa o quarto.
Mesmo indo embora, a presença dele parece pairar no quarto.
Uma pequena visita e uma tremenda mudança em minha rotinha habitual. Isso é típico dele.
Na minha mão é como se eu visse uma promessa de um novo dia, por mais que eu não saiba ao certo como ele será e nem se eu o quero. Mas eu sou capaz de sorrir com ironia ao olhar para fora e me dar conta de que possivelmente é abril. Se não abril, é março. De qualquer forma, é primavera.
Por mais que eu não seja digna de um novo dia, tendo, além do mais, a certeza de que não quero viver depois de tudo, num mundo onde as pessoas que eu amo não mais existem, me permito conjecturar sobre o amanhã. Sobre o dia de hoje.
Meus olhos recaem na flor novamente. Ouço as palavras de Peeta.
Bem, pode ser que eu ligue para o Dr. Aurelius. Levante da cama e, talvez, dê uma passada na campina e na floresta. Talvez eu consiga fazer algo além de continuar deitada, mas, se não conseguir, ao menos terei tentado como prometi ao aceitar a Prímula. Ao aceitar a pequena dose de esperança e energia que vem com a primavera. E as flores. E Peeta.
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