What Comes After [HIATUS]
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Depois de ligar para o Dr. Aurelius, tudo que faço é ficar sentada numa poltrona, na sala, próxima ao telefone. Ponho as pernas na mobília acolchoada e me abraço, da maneira que posso, com a incômoda sensação de ter algo faltando. Algo tão importante quanto um pulmão ou um braço. Finco os olhos na lareira, sem conseguir desviar. Pode ser que a primavera esteja dando o ar da graça, mas ela certamente não está elevando a temperatura o suficiente para que a casa não precise se aquecer. Ainda mais à noite.
Como só levantei da cama muitas horas depois da visita de Peeta, já estava no final da tarde quando eu concluí que seria uma brilhante ideia fazer uma ligação para o doutor. E agora a noite já caiu, e eu estou atada a esses sentimentos que não consigo desvendar; a essas dores que vêm e vão. E, cada vez que me perco no crepitar das chamas, a coisa vai ficando pior.
Procuro fiar-me no conselho do dr. Aurelius, muito embora eu saiba que é uma tarefa custosa, porque nada realmente tem significado e me causa algum entusiasmo. Passo mais algumas poucas horas na poltrona, ainda sem coragem de levantar, e quando Greasy Sae retorna pela segunda e última vez no dia, eu como.
Mais tarde, eu acabo me sufocando com a minha própria lentidão e vou até a cozinha. Depois à sala de jantar. E acaba que estou passeando pela casa, pensando nas minhas alternativas para esta noite. E eu rio, cheia de sarcasmo, ao me dar conta do total de opções a minha frente: zero. Caçar no meio da madrugada não parece convidativo, a menos que eu sinceramente esteja planejando me suicidar; caminhar pelo distrito será desastroso, considerando todas as obras e lembranças vívidas que ardem em mim; ir à casa de Haymitch não deveria sequer ser cogitado, já que eu não estou pulando de ansiedade para ter uma ressaca na manhã seguinte. E Peeta... Bem, seria exigir demais dele num dia só. Além do mais, conversar com alguém definitivamente não está nos meus planos. Eu já extrapolei todos os limites para um dia.
Ainda assim, ficar ociosa é problemático, sempre me faz lembrar de alguma coisa. E neste instante, me faz lembrar da minha família. Da minha mãe, que um dia esteve numa situação similar a minha, desmoronando após a morte do meu pai. Minha amada e dócil irmã, sempre alegre e tão velha mentalmente para sua pouca idade, que teve sua vida arrancada por uma guerra que não era sua. Meu pai que nos amava com tudo que tinha, que me ensinou a caçar e a cantar, e me tornou metade do que sou. Ou pelo do que fui.
Num ímpeto, recordo do livro de plantas do meu pai, no segundo andar. Saio com pressa da despensa, subindo os degraus das escadas de dois em dois. Quando chego ao meu quarto, pego o livro que está guardado em um dos armários desde que eu o retirei do escritório.
Folheio as páginas, me agarrando ao livro que é o mais próximo que eu tenho daquele que eu tanto amo. Reconheço cada uma das raízes, das flores, dos remédios... penso em como eles salvaram minha vida milhares de vezes. Acabo por adormecer com o livro em mãos e tenho uma noite extremamente conturbada por pesadelos, o que me rende gritos e euforia durante toda a madrugada. Mas não há alívio nenhum em acordar.
**
— Eu trouxe uma outra Prímula, só para o caso da outra ter murchado. – Vejo Peeta entrar em meu quarto, depois do aviso de sua chegada que partiu de Greasy Sae, parando não muito distante da porta. Talvez por medo de invadir meu espaço. Ou receio de que eu possa surtar.
Eu, que já estou acordada há umas boas horas e cheia de olheiras, apenas balanço a cabeça apontando para o criado-mudo ao meu lado. A flor do dia anterior descansa num jarro, já querendo dar adeus a sua beleza e vida. Peeta caminha até o criado-mudo, depositando a segunda Prímula Noturna no água juntamente à outra.
— Ajudou um pouco – digo, referindo-me à flor.
Ele sorri, um tanto desacreditado.
— Você não parece estar de acordo com isso – responde, me olhando brincalhão, apesar de eu notar a mesma preocupação costumeira em sua íris. – Noite difícil?
— Sempre são. – Dou de ombros, evitando o seu olhar, que parece enxergar mais do que eu quero que ele saiba. Me viro para janela.
— Eu trouxe pão de queijo?! – Ele diz, um pouco incerto. Eu acabo me surpreendendo por ele lembrar, tanto que arregalo os olhos. Mas percebo que, a essa altura, Peeta já tem muitas memórias coerentes sobre mim. Fico um pouco aliviada por isto e ainda mais pela mudança de assunto.
— São os meus favoritos. – Eu digo, me voltando para o seu rosto outra vez. Ele sorri, sua expressão se suavizando com a minha afirmação. Aparentemente, ele não tinha certeza sobre este meu gosto em particular.
— Eu supus que sim. – Responde, sem entrar em maiores detalhes. – Mas e então, você vem? – Peeta questiona, apontando para a porta.
Eu franzo as sobrancelhas, demorando alguns instantes para entender do que ele está falando. Faço uma nota mental de perguntar ao Dr. Aurelius se é normal ter essa falta de concentração
— Eu já desço. – Garanto, quase animada. Ele assente enquanto eu me levanto para ir ao banheiro pentear os cabelos e escovar os dentes. Pego meu robe e cubro meu corpo, apesar de vestir uma calça e uma blusa surrada.
Tento não pensar na bondade e preocupação de Peeta, a fim de que eu não me sinta ainda pior por não estar tratando-o como deveria. Mas acontece que eu já passei por muita coisa nos últimos meses, e eu já lidei com o suficiente, e eu não tenho mais espaço e nem emocional para aguentar mais essa carga de inquietação por causa de culpa. Já estive neste trem por tempo demais; embora, é claro, eu não consiga evitar me preocupar com os sentimentos dele, no final das contas.
Ugh.
Outra nota mental. Ser mais grata pelo que Peeta está fazendo.
Com uma tremenda força de vontade, tento ao máximo não voltar para as cobertas e consigo chegar à cozinha. No fundo, estou tentando seguir o conselho do dr. Aurelius. Simplesmente agir sem nenhum entusiasmo especial.
O cheiro de pão de queijo está no ar. Eu posso sentir o meu estômago roncar com o aroma salgado e a vontade de comer me consumir. Eu mal posso acreditar que estou com vontade de fazer qualquer coisa.
Estou tão farta de comer o mesmo pão com passas todos os dias e só noto agora. Não que eu esteja reclamando, longe disso, Peeta é um excelente padeiro e tem me feito um favor entregando pães frescos diariamente a Greasy Sae. Mas, honestamente, tudo que desejo é poder começar a voltar com alguns hábitos antigos. Os hábitos bons e gostosos. Como este. E, assim, talvez, eu consiga sair da cama com mais frequência.
Peeta conversa animadamente com Greasy Sae e ela sorri genuinamente depois de rir de algo que ele fala. Não lembrava de vê-la rindo. Percebo que, mesmo telessequestrado, ele ainda é a pessoa que todos amam e querem por perto. Enquanto eu, que nem mesmo cheguei a ser telessequestrada, sou o tipo pessoa que nem eu mesma desejaria por perto.
— E então, onde está o meu pão? – Pergunto, atraindo, por fim, a atenção dos dois.
A mesa está posta. Faz um bom tempo que eu não a vejo dessa maneira. Olho para o leite, os condimentos, e os diversos pães, bolinhos e biscoitos que nela descansam. Minha boca saliva e eu percebo o quanto venho me privando de uma refeição farta.
— Seu pão está no forno, Katniss. Achei que poderia ficar melhor se déssemos uma aquecida, já que o queijo... – Rosno para Peeta, lançando meu melhor olhar de poucos amigos, sem nem ao menos deixá-lo continuar. Ele ergue as mãos, aparentemente tentando se defender. – Beleza, aquecer pra quê, né? Já que você está pedindo com tanto carinho e parece tão apaziguada, imagina só se você seria capaz de pular no meu pescoço. Não, que isso...
Bufo. Sigo até uma das cadeiras, tentando me manter estável e não focar em nada especial. Primeiro não na mesa, esta em que minha mãe curou tantos feridos do 12 — principalmente nos últimos meses antecessores à rebelião -, salvou tantas vidas e cuidou de um Gale mutilado e inconsciente. Evito também olhar para a cozinha; qualquer detalhe, por mais mísero que seja, traz Prim à mente. E eu a vejo vagando para lá e para cá, tirando as seringas de remédio das mãos trêmulas da minha mãe, me dando instruções, totalmente séria, e preparada para ser a diferença entre a vida e a morte de alguém.
Fecho os olhos. É muito difícil.
Céus, por que ainda há oxigênio em meus pulmões?
Abaixo a cabeça na mesa, deixando-a descansar sobre meus braços.
Meu nome é Katniss Everdeen. Tenho dezessete anos. O meu lar é o Distrito 12. Ele foi bombardeado depois que eu explodi o campo de força da arena do 75° Jogos Vorazes. O Distrito 12 está se reconstruindo após a Rebelião que eu e Peeta incitamos depois de vencermos a 74° edição dos Jogos. Nós, rebeldes, vencemos. Peeta foi telessequestrado. Ele está melhor. Eu perdi minha irmã. Coin matou minha irmã. Eu a matei. Snow morreu engasgado. Ele disse não ter sido culpado. Gale, meu melhor amigo, criou a bomba que explodiu minha irmã e então mudou-se para o Distrito 2. Eu estou destruída...
A técnica parece funcionar.
Levanto a cabeça e vejo Peeta e Greasy Sae olhando para mim com apreensão. Eu poderia ter um ataque só por causa daqueles olhares.
— Uhn... aqui está. – Peeta vem até mim com os pães numa bandeja, deixando de lado a tensão, e coloca esta sobre mesa. Ouço meus estômago roncar de maneira nada sutil, arrancando um risinho dele. – Alguns hábitos nunca mudam, não é mesmo?
Não respondo, falhando miseravelmente na minha tentativa anterior de ser mais gentil. Ataco o pão de queijo sem dó nem piedade. Me deleito ao sentir o gosto das especiarias, o sabor do queijo tomar o meu paladar; tudo é extremamente familiar e eu não lembrava que podia ser bom.
Peeta e Greasy Sae sentam e comem comigo, puxando assunto vez ou outra. Não que eu preste atenção em quaisquer palavras; os pães são bem mais interessantes.
É então que Peeta questiona:
— E aí, ligou para o doutor?
— É, liguei. – Respondo, com a boca cheia.
Minha resposta parece não ser o suficiente porque ele volta a interrogar.
— E adiantou de alguma coisa?
— Comparado à manhã de ontem, adiantou bastante – afirmo, comendo também um dos biscoitinhos que estão ali. Peeta me olha interrogativo. – Mas não pretendo sair de casa tão cedo. Da última vez que o fiz não foi uma experiência muito agradável.
Ele suspira, mordendo um bolinho.
— Você chegou a fazer alguma coisa diferente ontem?
— Não. – Só aí lembro que não fiquei deitada o dia, a tarde e a noite inteira. Tenho pressa em me corrigir. – Quer dizer, eu fiz sim e...
Tenho uma epifania. Levanto da mesa tropeçando em meus próprios pés, correndo tão rápido quanto um cão selvagem ou quanto eu mesma costumava correr pela floresta, sentindo uma corrente elétrica passar por todo o meu corpo. Chego à mesa onde está o telefone e disco o número do Dr. Aurelius, que atende três toques depois.
Converso com ele sobre a minha ideia do livro. Dr. Aurelius parece gostar e aprovar a ideia, tanto é que me assegura que folhas de papéis de pergaminhos chegarão no trem seguinte.
É quando estou prestes a voltar para a cozinha, um par de olhos me encara de maneira curiosa. Sem nenhuma animação especial, me dirijo a Peeta:
— Posso te pedir um favor?
— O que você quiser. – Seus infinitos azuis, doces agora, como já foram há muito, refletem o menino que me cedera pães quando eu passava fome. Vejo o menino que constantemente volta para mim, não importa a sua situação, muito menos a minha. Sorrio para ele, totalmente agradecida.
Sento no sofá da sala. Explico o que quero fazer.
Tive a ideia a partir do livro de plantas de nossa família. O lugar onde agora passaríamos a registrar aquelas coisas que não se pode confiar à memória. Peeta, num primeiro momento, está bem mais entusiasmado que eu. Mas à medida que vou contando e vendo suas ideias seguirem o mesmo rumo das minhas, a animação vem sem que eu nem ao menos perceba.
Fale com o autor