What Comes After [HIATUS]
11 Capítulo 8, "Fall to Pieces" - Parte III
Notas iniciais
Eu penso em fugir. Dar a meia volta antes que ele me veja. Entretanto, em primeiro lugar, sei que essa atitude covarde vai de encontro ao meu caráter. Vai de encontro ao meu hábito de dar a cara a tapa. Assim como sei também que correr não vai me livrar do fato de iremos conversar. Goste eu ou não.
Caminho no mesmo ritmo que estava antes de saber de sua presença, até que um calafrio percorre a minha espinha. Peeta sabe que ele está ali? Como ele vai reagir se souber? Minhas mãos estão tremendo e eu meto elas nos bolsos da jaqueta para acalmar os nervos.
Sinto que cairei aos pedaços.
Quando estou em frente à casa de Haymitch, Gale me vê. Me analisa por certo período, para então lançar um sorriso que eu não retribuo. Paro a um seis passos seguros de distância de onde ele está.
– Hey, Catnip – cumprimenta em seu tom mais amigável. Ele ainda está sorrindo quando fala comigo. Eu, por outro lado, fico muda já que não há muito que eu possa dizer pois um tremendo déjà-vu me consome com suas poucas palavras.
Lá no meu âmago, estou feliz em vê-lo. Saudável. Forte. Vivo. Estou feliz em saber que ele parece o mesmo, ainda que umas características em sua feição pareçam ter sido substituídas por outras. Como uma pequena cicatriz que há em seu rosto tão conhecido por mim. Mas, bem lá no fundo, eu sei que existem modificações invisíveis a olho nu.
– Oi, Gale – digo, quando minha garganta deixa a secura de lado e falar já não é uma tarefa tão complicada. Estou tão rígida que meu tom de voz soa grosso e faz com que eu me sinta mal.
Ainda não aceitei o fato dele estar ligado à morte de Prim, isso é verdade. Mas eu consigo lembrar a mim mesma que ele está ligado à compra da cabra dela, à sobrevivência dela enquanto estive nos Jogos e ela não tinha nada. E são essas mesmas lembranças que internamente me chamam de hipócrita e clamam por um mínimo de simpatia.
A ambiguidade não me agrada nem um pouco.
– Como você está? – indaga. Não tenho mais forças para olhar nos seus olhos. A dor de ver minha irmã em sua íris é intensa, portanto não me arrisco a começar uma crise de choro na sua frente e abaixo os meus olhos para o seu casaco fino.
Gale também está rígido em relação à mim, é perceptível. Contudo, não tanto quando eu estou para com ele. Sei que ele também tem suas próprias mágoas e seus problemas comigo. No último ano nossas desavenças cresceram e agora tudo que elas fazem é formar um muro que nos separa mais e mais.
– Bem melhor. E você?
Num segundo isolado, eu chego a ficar sentida por não ter recebido uma única ligação dele durante todo esse tempo. Mas é aí que pergunto a mim mesma qual teria sido a minha reação. Talvez, se essa ligação acontecesse no momento errado, eu poderia dizer coisas que entrariam na minha lista de arrependimentos eternos.
– Bem melhor também – responde. – Não vai me convidar para entrar?
– Ahn, eu não estou certa sobre isso – digo, hesitando.
Há Peeta. Ele com certeza está lá dentro nesse momento e eu simplesmente não posso levar Gale para a minha sala de estar e fingir que Peeta não surtará ao ver isso. Quantas milhares de coisas absurdas passarão pela sua cabeça caso nos veja conversando? Eu não posso ter essa ousadia.
– Você ainda está com tanta raiva assim de mim? – questiona, na lata. E eu respondo sem vacilar dessa vez.
– Não. Pra falar a verdade não sei se em algum momento estive. A questão não é essa.
Num baque, ele abre um sorriso que eu reconheço como cínico.
– É por causa dele, não é? – sarcasmo. Puramente sarcasmo. O que me deixa sem entender. Porque Gale não tem direitos sobre a minha vida. Ele, como todo mundo, me deixou. E antes disso fez muito mais.
Porém sinceramente não é isso o que me preocupa agora. Mas a exigência dele. Como se pudesse fazê-la depois de tudo.
– É, Gale. É por causa do Peeta. Estou com medo sim de vê-lo ceder ao telessequestro por sua causa.
Há uma dose quase mínima de culpabilidade venenosa que jogo em cima dele e que faz com que eu me lamente. Eu sei que ele não tem nada a ver com os fantasmas de Peeta. Pelo menos não no geral. É tudo culpa de Snow. E minha, devo admitir.
– Tudo bem, eu não estou aqui para arrumar problema algum. Eu só vim te dizer, Catnip, que eu sinto muito – ele agora fala baixo. E a mesma compunção que normalmente só vejo em mim, eu reparo em Gale agora. – Foi tudo duro para mim também. Eu sempre quis a Rebelião, mas ela me fez ser algo bem diferente do que sou e sempre fui. E não posso negar quando isso me afetou bastante. Mesmo assim, agora que tudo finalmente terminou... Eu não sei. É só que é mais fácil canalizar meu ódio em outros lugares que não sejam em mim mesmo. E é o que eu ando fazendo.
– Eu fico feliz, Gale. Eu realmente fico. Eu mesma estou aprendendo a fazer isso. Acho que algo bom finalmente aconteceu, não é?
Ele assente.
– Sei que você deve ter ficado com raiva de mim por não ter te procurado nenhum dia desses meses. Mas eu mesmo estava me culpando. Acabamos sendo manipulados, essa é a verdade, e você sabe que não gosto de ser enganado. O que eu tô tentando dizer é que eu só estou aqui para que você possa me perdoar pela bomba. Por tudo, aliás. A gente precisa ajeitar isso – ele aponta para ele e depois para mim, e eu solto um suspiro.
– Está tudo bem. A culpa não é sua e é claro que eu perdoo. Eu não poderia sentir raiva de você por tanto tempo. Mas... – paro por um segundo conferindo se direi ou não a frase. – A nossa amizade parece ter se findado ao longo da Revolução e a gente não pode negar isso. Embora eu possa te perdoar, isso não significa nada. Nossa bagagem é bem maior que parece.
– Não esperava que mudasse. Eu nunca vim aqui com essa esperança. Era mais para tirar esse peso das minhas costas, ainda que eu sinta falta da minha amiga – uma boba tristeza assola meu corpo pois eu também sinto. Ainda há momentos em que sinto a falta do meu companheiro de caçada, do meu melhor amigo, do garoto que vigiava as minhas costas na floresta perigosa que entrávamos todos os dias para tirar nosso sustento.
– Quem sabe com o tempo isso não melhore. Ou passe – dou de ombros. Conselhos ou um ponto de vista positivo nunca foram o meu forte. Também não posso fingir que essa conversa alterará algo, porque não vai. Trata-se apenas de contas para acertar.
– Eu vou indo, então. Meu trem sai amanhã de manhã.
– Já? Há quanto tempo está aqui?
Não lembro de Hazelle ter dito nada sobre o filho nessa semana. Por conta disso, imaginei que ele tivesse chegado hoje.
– Dois dias. Estava esperando a hora certa de vir aqui.
Assinto e olho para o nada. É um tremendo alívio, afinal.
– Tchau, Catnip – diz, e pela primeira vez sorrio verdadeiramente nessa nossa conversa.
– Eu nunca disse, mas eu gosto do apelido – ele retribui o meu sorriso e vem na minha direção, seguindo para a saída da Vila dos Vitoriosos. Quando passa por mim, eu seguro seu antebraço por instinto, chamando sua atenção. Se é um tipo de ponto final, então que seja colocado corretamente. – Obrigada.
E pela profundidade dessa única palavra e do meu olhar, sei que Gale entende perfeitamente o que quero dizer. O que essa palavra engloba. Porque ela engloba tudo. Os anos de caçada, de cumplicidade, de amizade. Os anos nos quais a felicidade era impossível de ser avistada e mesmo assim ele me proporcionou um pouco dela.
Gale então abre os braços e, pela última vez, eu me enterro neles, sentindo seu cheiro que não se alterou com o tempo. Sentindo ainda o cheiro dos sabonetes de Hazelle e a textura de sua camisa acinzentada. Porém, tão rápido quando o abraço começa, ele termina.
Ele se vira novamente na direção da saída da Vila, todavia, para de súbito. E aí minha visão alcança uma figura loira que eu esperava que não soubesse de Gale. Que não tivesse nem a remota ideia do que acaba de acontecer. Porém, é muito pior. Ele não só sabe, como também viu.
Lá na entrada da Vila dos Vitoriosos está Peeta.
Como eu vou apartar o que vem a seguir?
Observo Peeta andar rapidamente no que parece ser a nossa direção e logo depois entrar como um raio em sua casa. Olho para Gale e saio correndo para a casa que faz um tremendo barulho com a porta que acaba de bater. Eu só sei que não posso deixá-lo sozinho agora.
Ouço os sons quando estou na porta. Vidro contra o chão. Madeira também. Objetos se chocando contra o concreto da parede, suponho depois de escutar um ruído mais intenso e mais perto de onde estou. Entro de supetão sem receio algum em acabar desacordada por ser atingida por um objeto voador.
Olho para Peeta que tem seus olhos azuis escuros no momento. Basta um segundo até que ele me veja e grite em alto e bom som:
– Sua bestante! – e acerte um vaso a quatro centímetros de onde estou. O barulho invade meus ouvidos e machuca meus tímpanos.
A crise é séria para acarretar um comportamento desses em tão poucos segundos. Agora eu imagino como as imagens devem estar fazendo efeito. O que Snow deve ter mostrado para ele? Suponho que nada muito sensato. Suponho que haja algo de promíscuo entre eu e Gale. E deve ser exatamente isso que a imagem de nosso abraço significou.
Eu tomo consciência de que todo o tratamento ao qual Peeta foi submetido serviu para nada. Se ele visse algo no momento errado, como aconteceu, tudo voltaria com força brutal, pois o lado telessequestrado sempre vai estar com ele, sem intenção alguma de partir.
Levo a mão ao rosto, já temendo. Não sei o que fazer.
– Saia daqui! – berra.
Seguro as lágrimas que se formam. Ele não pode me abandonar. Ele não pode exigir que eu o deixe. Eu preciso dar um jeito de ajudá-lo.
– Peeta! – grito também, chamando sua atenção e ele se agarra ao sofá. Grito no intuito de fazê-lo me reconhecer pela voz, porém não funciona. Ele aperta tanto o móvel que eu posso ver seus dedos brancos pela falta de circulação sanguínea. – Sou eu, Peeta. Sou eu – ando até ele cautelosa e isso o afasta mais. O faz sair correndo pelo corredor até o fim dele. Eu o sigo até que ele impõe uma porta entre nós ao se trancar num quarto.
– Saia! – grita outra vez. Eu tento novamente:
– Não! Porque você sabe, a gente cuida um do outro – digo com a voz embargada. – Sou eu, Katniss. Não sou um bestante. Peeta – suspiro –, você sabe que não – me apoio na porta e aí sou capaz de escutar as passadas graves de Peeta no quarto onde ele se trancou. Só consigo pensar no estrago que ele pode fazer lá dentro e consigo mesmo.
Me apoio na porta, batendo a minha cabeça. Maldito seja Snow.
– Vamos jogar. Real ou não real? – pergunto contra a porta. Não obtenho uma resposta.
Um. Dois. Três segundos. Mais três e o barulho que vem a seguir se assemelha ao de um soco. Sim, um soco na parede. E depois mais vários o sucedem. Falar com ele não está adiantando. A insanidade toma conta de seu corpo e está quase abrangendo o meu.
Eu tento abrir a porta, contudo, ele a trancou. Ponho certa força, mas não há posso lutar contra uma porta. Combate corpo a corpo nunca foi uma das minhas habilidades, muito menos combate corpo a porta.
Incontáveis minutos se passam e eu tiro a bolsa de caça que está comigo. A ponho no chão, bem ao meu lado e me sento contra a porta.
– Peeta! – chamo, sentindo lágrimas umedecerem meu rosto. Eu o odeio por estar me fazendo chorar. – Peeta! Por favor, me escuta. Você está confuso. Me deixa te ajudar. Pergunta o que você quer saber, deixe essa raiva de lado.
Mais segundos, mais minutos, sem nada a não ser uma respiração entrecortada pelo meu choro, pelos passos pesados e por mais socos. Se eu me sinto devastada, como será que ele está se sentindo?
Em alguns momentos paro de chorar, apenas para recomeçar mais intensamente em outro.
Estimo que uma hora tenha passado. Pela janela que há no corredor posso ver o céu escuro e a iluminação de uma lua cheia. Finalmente, Peeta dirige a palavra à mim:
– Você não é uma mutação. Real ou não real? – sua voz está trêmula, porém eu estou aliviada agora. Se ele conversar comigo não irá mais se machucar.
– Real – respondo automaticamente, me apoiando mais na porta, ansiando pelo seu toque. Desesperada pelo consolo que quero dar a ele e que não seja de uma maneira tão seca.
– Você vai embora. Real ou não real? – os passos tornam-se menos frequentes, os barulhos dos socos destinados a parede não existem mais, e isso vai me acalmando e tornando meu choro fraco.
– Não real. Eu vou ficar aqui até você se sentir melhor – murmuro para a porta.
No fundo, eu sei que Peeta se trancou dentro do cômodo por minha causa também. Ali, por trás do cara telessequestrado está o garoto com o pão ainda lutando para voltar. O mesmo garoto que daria sua vida pela minha. Que cuida e zela por mim.
Ficamos calados por mais tempo. Meu choro extingui-se. Eu me acalmo finalmente. Peeta também visto que consigo ouvir quando se senta contra a porta e a partir dai sua respiração calma torna-se audível.
Me animo quase instantaneamente. Ele vai retornar. Ele já está o fazendo.
– Você ama Gale. Real ou não real?
A pergunta me acerta em cheio. Eu o amo ou não? Eu o amei um dia, isso eu sei. Mas após tanto comodismo, tantas brigas, tantos contratempos... eu sentia algo por ele além da amizade?
– Não real. Ele era o meu melhor amigo, sempre foi. E em momento algum passou disso – essa então é a verdade a respeito daquilo que sempre desconfiei. Durante tanto tempo estive em dúvida sobre o que senti por Gale que confundi tudo. Embaralhei meus sentimentos de modo que nem eu mesma pudesse entendê-los e distingui-los.
Acontece que depois de tudo que passei com Peeta, depois dele ter visto quem eu realmente sou e ainda ser capaz de me amar, eu afinal percebo a verdade. Percebo o que sempre esteve claro para todo mundo, mas não para mim. É durante essa nossa conversa, após o seu surto do telessequestro e o meu inevitável medo de perdê-lo que me dou conta.
Gosto de Peeta. Da devoção e do carinho que durante anos só existiu na minha vida porque ele estava ali. Diferente de todos os outros "gostar" que já liguei a ele, esse é totalmente diferente. É único. Algo que pouquíssimas vezes se alimentou dentro de mim.
Finnick estava certo, pois agora eu sei. Estou apaixonada pelo garoto com o pão.
Fico descrente por um segundos, até que posso admitir para mim mesma outra vez. E é a voz de Peeta que me tira das minhas constatações.
– Eu te devo um jantar. Real ou não real? – eu sorrio sozinha, sabendo que ele jamais saberá do sorriso que dei para o nada por sua causa.
– Real – sussurro.
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