What Comes After [HIATUS]
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Dias depois.
A menina de cabelos longos e louros corre animada pela Campina. Ela ri de tudo e parece achar graça das flores, dos pássaros e de qualquer coisas que esteja a sua volta.
Ela olha para trás, os olhos incrivelmente azuis em seu rosto infantil que converte-se em puro júbilo. Naquele instante, a menina poderia ser a personificação perfeita da felicidade. Em sua roupa, a blusa está levemente para fora, lembrando de maneira vaga a cauda de um pato. Um pequeno patinho.
Posso ver claramente o jeito como ela se move; dançando pela grama como se fosse a primeira vez após anos de cárcere. O sorriso de contentamento, as bochechas coradas pelos raios de sol, as mãos que não paravam quietas... e, de repente, tudo fica escuro.
Não há mais sol no céu, as nuvens o tamparam. As nuvens que significam tempestade.
Então um muro de vidro me separa da menina e uma redoma é imposta em torno dela. A loira se assusta ao ouvir rugidos por entre as esplendoras e avassaladoras árvores, sobressaltando, o que motiva ainda mais os ruídos que saem da garganta das mutações. O vento forte faz seus cabelos voarem e apressam os passos dos vários bestantes que cercam a menina, intimidando-a mais e mais.
Os terríveis animais estão prestes a atacar a menina; os olhos famintos e humanos. Os olhos que eu já tinha visto anteriormente em alguns rostos. Rue, Tresh, Marvel, Glimmer... estão todos, em formas mutantes, procurando ensandecidamente pela minha irmãzinha encurralada.
Eu tento a todo custo invadir a redoma e chegar até ela, mas quaisquer tentativas são falhas. A última coisa que vejo nos olhos de Prim antes dela partir é medo. O mesmo medo que ela sentiu no dia em que foi colhida; o mesmo medo que eu senti quando ouvi o nome "Primrose Everdeen".
Sinto braços me acolherem quando acordo berrando.
– PRIM! PRIM! CORRE! POR FAVOR!
– Ei, ei, ei! – paro de me debater sobre a cama, me dando conta de que tive mais um pesadelo. Me dando conta, mais uma vez, de que não pude salvar minha irmã. – Foi só um pesadelo, está tudo bem agora.
Abraço Peeta com vigor, de modo quase bruto. Preciso achar um jeito de acreditar em suas palavras que soam tão equivocadas em meus ouvidos tristes e dilacerados. Estou chorando quando começo a falar:
– Ela estava brincando, feliz como nunca esteve, lá na Campina. O dia estava bonito, parecia uma típica tarde de primavera. E então, de uma hora para outra, estava tudo nublado. Os bestantes que os Idealizadores criaram na nossa última noite na primeira arena... – não consigo mais dizer absolutamente nada a partir disso. Minha garganta trava e eu só sinto uma dor desmedida abarcar meu corpo quando algumas lágrimas escorrem pelos meus olhos.
Eu me sentia tão chorona.
– A vida foi tirada abruptamente dela, Katniss, mas isso não quer dizer que ela não tenha sido feliz. Não existem palavras que possam afugentar essa dor que você está sentindo, eu sei, porém o primeiro passo é aceitar que, enquanto ela esteve aqui, ela foi radiante. Pense que, de repente, ela só foi embora porque precisava esbanjar a beleza do sorriso dela em outro lugar – sussurra baixinho acariciando os meus cabelos.
Respiro fundo, ficando em silêncio por um segundos até que por fim eu me acalme. Não é como se eu fosse capaz de superar, contudo acho que existe a possibilidade de aceitar. Me sinto culpada, é claro, mas apenas nessa noite quero acreditar nas palavras otimistas de Peeta.
Fecho os olhos, colocando a cabeça em seu peito e aproximando meu corpo ao dele o máximo que posso. Suponho que desabarei no momento em desgrudar nossos troncos.
– Você tá sentindo alguma coisa? – questiona, sentindo o quão trêmula estou.
– Não – respondo, com um leve balançar de ombros. – Eu supero – digo.
Peeta faz um carinho na minha cabeça e a levanta, deixando nossos rostos próximos quando abre novamente a boca para falar.
– Você ainda é uma péssima mentirosa – murmura baixinho, passando o polegar pela maçã do meu rosto. Sorrio, me afundando no meu humor autodepreciativo costumeiro.
– Não consigo dominar as palavras tão bem quanto você.
Ele sorri e eu sinto sua respiração falhada se misturar a minha à medida que vamos encurtando, instantaneamente, a distância que separa nossos rostos. Sua íris azul concentra toda a minha atenção.
– Mas você domina muito bem outras coisas – retruca e eu o olho sem entender.
– Como o quê, por exemplo?
Peeta aumenta seu sorriso ao responder, sem um pingo de hesitação.
– Eu.
E, subitamente, a brisa que entra pela janela do quarto já não é o bastante quando sinto o calor de seus lábios contra os meus. O que sinto nas minhas veias compara-se facilmente às chamas ardentes da lareira e me aquece por completo.
Por um momento, fico quietinha, sem forças para fazer algo. Mas assim que a surpresa passa, estou retribuindo com veemência o beijo. Não sei se o faço por notar que esse toque me faz esquecer as angústias ou por querer realmente, o que importa é que o faço. Sentindo essa chama que foi acesa em mim me libertar. E eu só consigo interromper nossa conexão repentina quando já não posso mais abrir mão do ar; quando já estou ofegante o suficiente para dizer que corri numa maratona.
Retiro minhas mãos do rosto de Peeta e passo a abraçar sua cintura, sem olhar para o seu rosto, já que estou me sentindo terrivelmente envergonhada com o que sinto dentro de mim.
Eu só quero dormir antes que eu me entregue por completo aos toques suaves e instigantes dele.
– Você definitivamente me domina – afirma tempo depois, correndo seus dedos pelo meu pescoço, clavícula e, por fim, descendo por toda extensão do meu braço e depositando um beijo quente na minha testa. Um gesto que faz todo o meu estômago revirar e minha bochecha, em meio à penumbra noturna, ficar ainda mais vermelha.
**
Quando acordo, devastada, nem mesmo a lembrança do beijo consegue levar algumas memórias para longe. O pesadelo que tive esta noite renasce em meu subconsciente, e é preciso muito esforço para que eu possa me esquivar dos braços de Peeta e arranjar forças para levantar da cama.
Se dependesse de mim, eu não sairia da cama hoje. Não sairia da cama nunca mais.
Olho rapidamente para a cabeceira, onde uma Prímula fora estrategicamente posicionada a fim de me dar algum motivação em dias como este. Só que a nefasta flor não adianta de nada.
Vou para o banheiro em passos lentos, brigando comigo mesma durante o percurso. A questão é que ainda dói. Mesmo que eu não queira e tente deixar para trás, é mais fácil pensar em teorias positivas do que as pôr em prática. Acaba que eu escorrego pelos azulejos e fico um longo tempo pensando em Prim.
Minha cabeça está apoiadas nos meus joelhos e eu tento com afinco acalmar meus sentimentos perturbadores. Porém, é difícil.
Minha irmãzinha não merecia nada daquilo. Ela era apenas uma criança que não tinha culpa alguma do mundo ao qual fora subjugada.
No minuto em que a porta se abre e eu o vejo adentrar ao banheiro e correr para o meu lado, eu percebo que as coisas estão fora dos eixos e que ele não merece esse meu estado.
– Você não tem que aturar isso, Peeta. Aliás, eu não quero que submeta às minhas crises – esbravejo ao senti-lo me puxar para o seu colo e começar a me consolar, exatamente como fez essa noite até que eu pudesse dormir em paz.
– Eu vou ficar do seu lado e só sairei no momento que você realmente quiser isso – a dureza em seu tom de voz me faz confirmar o que eu já sabia: ele não irá embora. Nunca. Não enquanto eu dependesse tão desesperadamente dele.
Mordo o lábio, impaciente e dilacerada. Inesperadamente, minha cabeça não tem mais só a Prim. Agora me sinto culpada por ele também. Por alguns minutos, esqueço até do pesadelo que tive à noite.
– Eu nunca vou ser boa pra você, será que não entende? – grito, renegando o conforto do seu corpo. – Eu vou te manter preso aqui para nada porque eu nunca serei capaz de aguentar e deixar essas coisas para trás.
A única teimosia de Peeta é em relação à mim. Com absolutamente todo o resto, ele sempre estará aberto a uma outra ideia ou opção. Ele pode mudar seu pensamento no tocante a qualquer coisa, exceto a mim. E eu odeio isso.
Quando diz respeito à Katniss Everdeen, Peeta é uma mula empacada.
– Você pode ficar assim para sempre e ainda assim eu tentarei, em todos os dias da minha vida, fazer você sair dessa situação – respondeu com certa devoção na sua voz, olhando para mim como se eu fosse uma criança que não entendia o que o pai e a mãe explicavam.
Eu rolo os olhos. Não posso esconder a minha raiva; ela borbulha no meu sangue. Ele merece tão mais.
– Eu vou acabar com vo... – eu poderia ter continuado, prosseguir a minha argumentação com os meus milhares de argumentos válidos e que consistem numa tese a qual eu sei que Peeta não está de acordo, todavia eu não pude continuar. Fui impedida pelos seus lábios que atacaram os meus; como eu tinha feito há um tempo atrás quando ele estava tendo flashes do telessequestro, ou como quando eu fazia todas as vezes que precisava fazer com que ele calasse a boca. Aparentemente, ele tinha aprendido comigo.
Porque eu acabo de calar a boca, inabilitada o bastante para não dizer uma única palavra. Estou ocupada demais retribuindo a efusividade que a boca de Peeta tem quando junto à minha.
Passo uma das minha mãos, trêmulas e incertas, delicadamente pelo seu cabelo, sentindo no meu próprio corpo o mesmo fervor que conheci nos beijos que trocamos na praia e na caverna. Tendo uma sensação estranha no meu estômago, à medida que noto todo o meu corpo ceder ao menor dos toques dele. Seu beijo é desconcertante o suficiente a ponto de me fazer esquecer tudo que está a minha volta.
E então a verdade parece bater na minha cara quando finalmente percebo que não quero que ele vá embora. Eu realmente não quero o garoto do pão longe de mim.
Suspiro ainda com nossos lábios unidos, sentindo sua boca mover-se junto à minha causando alguns calafrios. Aperto seus fios por entre meus dedos, intensificando o contato de nossas línguas. Eu o quero e não estou nem um pouco a fim de largá-lo, porém Peeta, por algum motivo desconhecido, desfaz o nossa ligação, me fazendo bufar quando ele une nossas testas, roçando seu nariz no meu.
Repilo a vontade que tenho de perguntar: "por que parou?".
– Minha ida para longe de você não é um ponto aberto à discussão – alega, inclinando seus lábios na minha direção uma última vez antes de se levantar e sair pela porta.
Ao sair, ele me deixa para trás com um incômodo pulsante no centro do meu corpo; num lugar onde, de algum modo, preciso ser tocada. A única coisa que sei é que nunca, em nenhuma ocasião anterior, tive a satisfação de experimentar isso antes.
Não quero mais fazer Peeta entender o motivo de eu o querer longe. Nem sei mais se o quero longe. Agora que ele está voltando por completo para mim, será um tremendo desperdício deixá-lo escapar. E eu sei que sou egoísta para mante-lo aqui.
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