What Comes After [HIATUS]
30 Capítulo 27, "Here With Me"
Notas iniciais
Eu tenho a sensação de estar em queda livre, caindo neste que pode ser o maior precipício da minha vida e que me transformará em pó, em caco; em nada.
A impotência se apossou de mim há um tempo, aproveitando a brecha que meu medo lhe deu. E eu sei que nunca me senti tão fraco como me sinto agora. Nem quando estive nos Jogos, nem quando fui torturado ininterruptamente, nem quando fui enviado para a guerra. Essa é só a mesma insuficiência ridícula e absurda que senti todas as vezes que estive nessa posição: lidando com a possibilidade de Katniss me deixar.
De repente, penso em ter que me acostumar a viver sem ela. O que há para mim num mundo no qual ela não está? Tudo sempre girou em torno dela. Não existiria vida sem ela. Não havia lugar para mim.
Preciso ser altruísta, me lembro.
Katniss me prometeu, afinal: para sempre e mais dois dias. Mas, ainda assim, é como se nada pudesse ficar bom novamente. Como se a dor da perda fosse incurável e não houvesse curativo para a ferida que pouco a pouco abre-se em meu peito. E por mais que eu queira me preparar para o pior, sou impedido. Lembro-me dos seus sorrisos ao longo dos anos, dos pesadelos que tive que apartar, da felicidade dela ao ver o Distrito 12 remanescer, da feição que assumiu quando foi minha pela primeira vez... E depois em todas as outras. O seu rosto perfeito, seu corpo marcado pelas cicatrizes, seus olhos tempestuosos.
Recordo das brigas, das declarações de amor, de todo o longo caminho que percorremos; de tudo que passamos para chegar até aqui. Para chegar até aqui e tudo desandar. Tudo ir por água abaixo. Já não tínhamos sofrido o bastante? Não tínhamos dado tudo, mesmo a nossa alma? Ou, de algum modo, abrir mão de tudo que era imprescindível para gente não era o suficiente?
As pessoas que passam pelo corredor começam a chamar a minha atenção. Algumas com os rostos contorcidos em preocupação, outras sorridentes como se estivessem no hospital à passeio. As divergências são tão notórias que chegam a assustar. Contudo nada é mais assustador que a ideia de perder alguém que se ama.
O medo é superável, o pavor que eu sentia não. A ideia de perdê-la sempre seria meu pior pesadelo e minha maior angústia.
— Peeta, querido – levanto a cabeça, saindo do meu estado de estupor instantaneamente –, você precisa comer algum coisa.
— Eu agradeço a sua preocupação, Effie, mas eu não estou com fome.
— Meu bem, você está aí há seis horas. Já está de madrugada e você não se alimenta nem dorme.
O rosto de Effie está inchado, ela andou chorando. Eu entendo, pois estou na mesma situação tem um tempo. Mexo-me na cadeira do corredor, procurando uma posição mais confortável. Só que é impossível; meus músculos estão mais rígidos que nunca.
— Logo, logo, Aster será liberada para que possa ter os primeiros contatos com você. Ela vai sentir o quão abatido você está, e isso não vai ser bom.
Respiro fundo e olho para o teto. Estou tendo o pior e o melhor dia da minha vida, e não consigo chegar a um consenso quanto a isso. Quero estar cem por cento para a minha filha que tanto amo, mas meus esforços são massacrados todas as vezes que lembro que Katniss ainda está no centro cirúrgico.
— Ela não merece isso. – É tudo que digo.
— Aster?
— Ela principalmente, mas Katniss também.
— Peeta, você precisa entender que coisas ruins acontecem e não há motivo para isso. Apenas acontecem. Nós, vocês – ela se corrige –, sabem disso melhor que ninguém. – Lembro-me da primeira vez que fui encaminhado aos Jogos Vorazes e de como tudo foi remodelado na minha vida a partir dali; parecendo descer ladeira abaixo constantemente. – E agora você tem uma filha, a filha que eu sei que sempre desejou, e você não pode ser levado pela desesperança. Elas precisam de você. Aster precisa de você.
Eu sei que ela está certa da cabeça aos pés. No entanto, por algum motivo ignoto para mim, eu agarro os meus joelhos e começo a chorar, porque isso é inadmissível. Está tudo errado.
Sinto os braços de Effie me envolverem e ela me puxa para o seu colo. As mãos que me afagam são diferentes das que eu desejo, mas deixo me levar pela necessidade de carinho nesse momento. Porque meu peito acaba de ser dilacerado e qualquer migalha de amor que tenham a me oferecer é o suficiente.
**
Dez minutos se passam para que eu consiga me recompor, e esse é o tempo que leva para que Haymitch e um médico apareçam.
Haymitch não desgruda dos médicos e enfermeiros atrás de notícias; ele é como um chiclete no sapato, pertinaz, buscando por qualquer mísera informação. Ele, diferente de mim, não se deixou abater nem por um segundo, e eu vejo a determinação nos olhos dele. Ele acredita em Katniss, ele acredita em mim para estar lá para Aster.
— Sr. Mellark? – Me levanto receoso. O médico averigua a prancheta e se volta para mim. – Sua esposa entrou em coma, após 20 transfusões de sangue. Ela teve um problema raro durante o parto, que não poderia ter sido previsto: é chamado de embolia de líquido amniótico. – Meu coração de repente vai para a minha boca. – Um minúsculo pedaço de unha da sua filha entrou no sangue dela, resultando em uma parada cardíaca e numa hemorragia interna. Ela se encontra na UTI. Teremos que esperar para ver se ela irá reagir aos medicamentos e então ela poderá receber visitas, mas sua condição é instável, ainda que os sinais vitais agora estejam estabilizados.
Ela está viva. Ela só não está bem. Está em coma, apagada, sem saber que conseguiu salvar a nossa filha, sem saber se voltará para mim.
Pergunto-me, então, qual o conceito disso no atual estágio das coisas? Eu não me sentia vivo, embora estivesse.
Preciso de um esforço imódico para me lembrar de que isso é bem melhor que qualquer coisa. Que todas as perdas que tivemos anteriormente nos mostraram que só acaba de verdade quando se para de respirar. E ela não parou.
Ainda assim, o sentimento de dúvida não me deixa opções além de questionar:
— Há grandes riscos dela...? – Eu sequer consigo dizer em voz alta. É a vida da mulher que eu amo que está por um fio. Como eu posso cogitar viver com isso?
— É uma possibilidade, ainda mais se tratando de um coração tão fragilizado quanto o dela. Precisamos deixá-la sob intensa observação nesse momento.
Estou chorando antes dele terminar. Estou chorando antes mesmo de conseguir me impedir ou pensar, porque essa situação só parece uma brincadeira de mau gosto.
— Eu sinto muito – ele põe uma das mãos no meu ombro. – Se o senhor quiser ver sua filha, é só me acompanhar.
Uma luz acende-se em mim. Eu finalmente recupero a minha lucidez e agora sou capaz de reavaliar toda a situação com, ao menos, um pingo de bom senso.
Posso ponderar. Aliás, posso fazer mais que isso. Posso rememorar o grande motivo de estarmos todos aqui.
Aster Everdeen Mellark, a razão da minha felicidade instantânea. A minha filha, aquela por quem Katniss se dispôs a ficar entre a vida e a morte agora. A nossa torradinha. E é por ela também que preciso continuar, como Effie disse e como Haymitch espera. É porque Katniss jamais me perdoaria se eu sucumbisse. Porque eu, de algum modo, mesmo que dentro de algum limite, me sinto revigorado.
Caminho atrás do médico, medindo meus passos até o berçário, gravando o caminho na minha cabeça.
Nossa filha. Nossa garotinha. Nossa torradinha. Eu a amo tanto. Aquele serzinho que nunca toquei, nunca vi, e que é responsável pela parte boa que ainda resta da minha vida. A fração de consciência que me impede de caminhar para além do limiar da loucura.
— É a segunda da primeira fileira, da esquerda para a direita – o homem diz dando dois tapinhas nos meus ombros, como se me parabenizando. Assinto, parando em frente a minha filha e vendo-a em seu descanso. Em contraste com seu rostinho rosado, os seus cabelos escuros se destacam e as pálpebras cobrem os olhos dos quais desconheço a coloração. A boca é pequenina, mais rubra que as suas bochechas. O nariz é minúsculo e eu me perco nele por alguns segundos. Sorrio ao notar que quero brincar com ela; com seu nariz, principalmente.
Ela é perfeita.
Tenho vontade de abraça-la, proteger do mundo e não deixar que nada de mal a afete. Não permitir que nada do que passei, nada do que eu e Katniss passamos, pense em se aproximar dela.
É aí que me dou conta, num insight quase brincalhão: ela é uma miniatura da minha esposa. É de longe a coisa mais linda que já vi em toda a minha vida. A concretização — ao mesmo tempo em que é tão maior que isso — de um sonho. É a minha filha.
Então a imagem, a simples medíocre ideia plantada pelo meu subconsciente medroso, de Katniss indo sem nem segurar nossa filha no colo torna-se algo inaceitável. Ainda mais inaceitável. Katniss não pode nos deixar. Ela não pode ir embora sem ver, abraçar, mimar, limpar e cuidar da nossa filha. Isso sequer é algo que se deve ser pensado.
Continuo grudado ao vidro que me separa de Aster. Perco a noção da hora, esqueço a fadiga, esqueço toda a dor que vem se acumulando em meu peito, e recordo de como é bom sorrir outra vez depois desse inferno. Só me afasto, com dois pequenos passos, do vidro quando Haymitch se faz presente ao meu lado.
Não havia me dado conta, até então, de que nem ele nem Effie tinham me seguido até aqui.
— Ela é linda. É uma versão menor e, com certeza, menos barulhenta da docinho. – Eu sorrio, sem tirar os olhos da bebê dentro do manto cor-de-rosa. Sim, ela certamente é. Ele fica calado por um tempo, o que me dá a certeza de que sua atenção voltou-se para Aster. Mas não desprego os olhos dela para confirmar. – Katniss vai ficar bem.
— Ela tem que ficar bem. – Murmuro, em resposta, repelindo qualquer pensamento que siga por outro caminho.
— Ela é um touro, garoto. Não tenha dúvidas disso nem por um segundo. – Olho para Haymitch, vendo-o vacilar enquanto põe sua mão em meu ombro. E é aí que percebo: Ele está com tanto medo de perdê-la quanto eu, mas não se deixa levar pelo pânico. – Eu já vi a vida dela em jogo, de camarote, muitas vezes. E em nenhuma delas Katniss me decepcionou. Você, talvez saiba até melhor que eu, que ela pode fazer qualquer coisa e que, depois de tudo que vocês enfrentaram, ela não iria te deixar assim. Ela não te deixaria de forma alguma.
Não entendo a razão, mas fica mais fácil de acreditar quando é Haymitch quem está dizendo. Confio nele.
— Bem, venha tomar um café, comer qualquer um desses biscoitos sem gosto que a Claire trouxe, você está acabado.
— Me dê só mais cinco minutos. – Peço, voltando minha atenção para a torradinha, que aproveita cada instante de seu sono despreocupado, sem a menor ideia do caos que acontece bem aqui e agora. Desejo, então, poder mantê-la nesta redoma para sempre.
— Fique aí, eu trago para você. Mas só o café. Os biscoitos eu vou jogar no vaso. – Ele pragueja, caminhando para longe de novo.
Eu posso escutá-lo resmungando enquanto sai, amaldiçoando o fato de ter comido o tal do biscoito. "Ninguém devia ser submetido a essa tortura", bufou. Eu ignoro. Minha atenção é toda de Aster. Eu sou dela.
**
Não consegui sair de perto do berçário nem por um segundo depois que a enfermeira me trouxe até aqui. Bebi o máximo de café que podia, sem deixar de admirar minha filha por nenhum momento.
Claire comentou que havia tido uma conversa com o médico a respeito da condição de Katniss. Ela disse que eu deveria me acalmar, pois se minha esposa foi capaz de passar pelo primeiro estágio desta complicação, a probabilidade de sobrevivência era alta o suficiente para que eu sopitasse. Afinal, na maior parte dos casos, as grávidas morrem durante a parada cardíaca.
Ela, Effie e Haymitch estavam se revezando em ir a minha casa, preparar algo para comermos, dormir e ficar no hospital conosco. Eram turnos de três em três horas até onde eu sabia. Eles informaram ao pessoal da padaria, Delly, Hazelle e a todos os nossos conhecidos o estado de Aster e Katniss.
Quanto a mim, só deixei de velar o sono da minha filha quando uma pediatra veio até mim.
— Senhor Mellark, eu sou a doutora Eileen Lightwood, pediatra da sua filha, e vim informá-lo que os testes de Aster estão prontos, se puder me acompanhar.
Sentindo uma desolação absurda tomar conta de mim, por ter que me afastar da janela, caminho pelo corredor do berçário até chegar à sala da médica, três portas de distância. Ela pega uma pasta fina em sua mesa e me garante que minha filha está completamente saudável, fala sobre a nota de Aster no teste de Apgar, me conta sobre todos os procedimentos que foram feitos após o parto — deixando, cautelosamente, Katniss fora de tudo -, e diz que ela tem 3kg e 49 centímetros.
Ela pede para que eu mostre o que aprendi sobre cuidados básicos, troca de fraldas, como dar banho, como fazer arrotar, como amamentar, me dando todas as instruções que eu poderia ter perdido ao longo dos meses.
Ao acabarmos, ela me conduz até o banheiro, onde nós dois lavamos nossas mãos, e informa que iremos ao berçário, posto que Aster possivelmente esteja prestes a acordar para a segunda amamentação desde o nascimento.
— É de suma importância que você esteja presente para ela agora, já que sua esposa se encontra impossibilitada. Você quem será o referencial intrauterino dela.
— Ela vai me reconhecer? – Pergunto. Imagino que meus olhos estejam brilhando em esperança.
— O quão presente você foi enquanto ela ainda estava no útero?
— Gosto de pensar que eu estive com ela tanto quanto pude. Eu conversava, brincava, mimava... Tentava fazer tudo o que estava ao meu alcance.
Doutora Lightwood sorriu, como se aprovasse o meu comportamento.
— Ela vai reconhecer.
Eu, é claro, quase corro até o local. Ao adentrar, a primeira coisa que noto é o cheiro adocicado somado a talco. Dentro do berçário, há uma enfermeira sentada numa poltrona, fazendo a vigília dos recém-nascidos que ali descansam. Eu a cumprimento com um aceno. Em seguida, procuro por Aster no quartinho.
— Vou pegá-la. Nessa primeira semana, é bom acordá-la de 3 em 3 horas para mamar. Ela precisa ser alimentada de seis a oito vezes no dia, até que vocês consigam criar um próprio ritmo de amamentação.
Eu assinto e observo cada passo da doutora. Quando, com muito cuidado, ela ergue minha filha, é como se meu coração tivesse explodido em um milhão de pedacinhos que se espalham por mim. E o fato é que cada pedaço a ama e a quer perto.
Eu a encaro. Ela está despertando e não está nem um pouco satisfeita por ter sido acordada. Seu choro agudo começa, mas ela não parece ter forças para pôr mais intensidade a ele, por mais que eu tenha a impressão queira. Me preocupo por um segundo quanto a isso.
— O choro dela não parece muito energético. – Reclamo, hesitante com relação a minha observação.
A mulher de cabelos castanhos apenas sorri, passando a balançar minha filha em seu colo.
— Ela é muito calminha, mesmo em comparação aos outros bebês. E, uma vez que ela seja acolhida nos braços de alguém e seja dado o que ela quer, o choro vai logo embora. – Eu concordo, digerindo a informação.
Doutora Lightwood passa a niná-la em seu colo, cantarolando baixinho enquanto a traz na minha direção, fazendo-a se acalmar. Ela murmura, ao me entregar:
— Lembre-se do procedimento.
Mas, no instante em que Aster é colocada em meus braços, eu já não lembro nem quem sou. Não sei sequer o meu nome. Tudo que eu assimilo é que ela precisa de mim e eu vou estar ali para ela. Não há mais ninguém no berçário, no hospital, no mundo. Só a minha filha.
Ela já está um pouco mais apaziguada, chora bem menos agora, mas ainda soluça. Ela olha nos meus olhos, a boquinha aberta para começar a chorar de novo — porque eu não estou a ninando como a pediatra -, e aí eu vejo o azul escuro que ali brilha. Os meus olhos.
— Oi, torradinha. Seja bem vinda. – Eu digo, sentindo lágrimas rolarem pelo meu rosto, enquanto começo a balançá-la, com todo o cuidado que posso, para fazê-la parar de chorar. Aster me encara e, dessa vez eu tenho total propriedade em dizer, ela me reconhece. Ela conhece a minha voz, pois seu choro se finda em alguns segundos e eu tenho a impressão de que ela está mais aconchegada em mim. – Eu te amo e estou muito feliz que você esteja aqui. Você não sabe quanto tempo te esperei. Você é o meu pequeno milagre, sabia?
Ela se aninha mais e mais em meus braços, tão calma que eu diria que ela está dormindo se não estivesse com seus redondinhos olhos abertos me observando. Eu acaricio sua cabeça, já com fios de cabelo, e cheio de pesar, por ter que dar fim a este momento, me preparo para olhar sua fralda. Sorrio quando ela boceja, deixando sua boquinha aberta num perfeito O.
E isso me para no meio do caminho para fazer a verificação, pois estou cada vez mais ciente do quando eu não quero arruinar isto. O exato instante em que sinto como se um elo tivesse sido ligado entre nós dois; o clique de um cadeado que acaba de ser fechado. Como se ela fosse feita para se encaixar no meu coração e ali ficar.
— Está na hora de cuidar de você, torradinha.
Eu a ponho nos meus ombros, delicadamente, e me inclino para olhar a sua fralda. Como esperado, está suja. A doutora aponta para uma salinha adjacente ao berçário, que vejo ser um fraldário. Caminho até lá com Aster agarrada a mim, e a enfermeira está com um paninho em mãos, próxima a uma pia.
Faço tudo com muito calma, querendo que tudo seja perfeito, como ela merece. Minha filha não reclama de nada, ela aguarda, pacientemente, os meus cuidados, e eu tenho esperanças de que, mesmo sem saber, ela esteja feliz por estar comigo.
Ao colocá-la deitada, já seca, no trocador, observo seus escassos movimentos. Ainda que mais animada agora, ela não faz muito. Tenta mexer os pezinhos, com suas perninhas arqueadas por conta do costume com o útero, sem muita convicção, e põe a mão na boca. Eu acabo rindo, pois ela é tão frágil, pequena e não possui um pingo de coordenação motora. Com delicadeza, tiro sua mão da boca e ela então agarra meu dedo.
— Você quer brincar com o dedo do papai, torradinha?
Ela continua a segurá-lo, e eu me perco admirando-a. Aster me encara também, sem saber o que está havendo; por que, subitamente, parei de mexer com ela. Mas depois ela já não liga; meu dedo é interessante demais e chupá-lo é mais divertido. E aí eu me esforço para focar na troca de fraldas, ainda que eu me perca nela o tempo todo. Com muita serenidade, recupero o controle do meu dedo.
Mesmo tendo acabado de lhe dar banho, pego um lenço umedecido e limpo o bumbum dela outra vez. Alcanço uma fralda limpa, e ponho sob ela, quem se mexe. Acredito que ela esteja começando a achar que estou brincando todas as vezes que levanto suas perninhas.
Passo o creme antiassaduras, limpo meus dedos dentro da própria fralda e a fecho. Ainda com ela deitada, pego um dos macaquinhos que eu e Katniss pusemos na bolsa da maternidade, e visto Aster, sempre com extremo cuidado, pois tenho a sensação de que qualquer reação abrupta pode parti-la ao meio.
— Muito bom, senhor Mellark. Agora só falta a mamadeira.
Me enche de angústia saber que Aster não está tomando o leite de Katniss nem conheceu o seio dela. O hospital se prontificou a oferecer leite materno a Aster enquanto minha esposa continuasse em coma, mas é difícil para mim, porque isso não deveria estar acontecendo assim.
Ao aceitar a mamadeira morna da enfermeira, sento-me numa das duas poltronas do berçário e ponho minha filha o mais ereta possível para lhe alimentar. Ela não toma muito. A ponho para arrotar e, depois, volto a colocá-la deitada em meus braços, onde ela me encara até que suas pálpebras comecem a ficar pesadas demais para ela mantê-las abertas.
Consigo ficar um bom tempo com Aster, o que me faz transbordar de felicidade e emoção. Demora algumas horas para que me tirem do quarto, e isso porque disseram que é necessário que eu coma e durma. Mas, por mim, eu ficaria ali pelo resto da minha vida. Ainda mais depois de ter visto o primeiro resquício de sorriso de Aster enquanto ela dormia.
**
— Ela está acordando. Informem aos familiares.
Dói ao abrir os olhos, é claro. Dói quando tento mexer minhas mãos ou me ajeitar sobre o leito. E, depois de sabe-se lá quanto tempo, quando eu consigo concentrar a minha visão em qualquer ponto fixo, não é Peeta quem está na minha frente. Eu sequer sei quem é esse homem.
Ah, esse inferno outra vez. Onde eu fui me meter agora? Estou internada novamente?! A sensação de dejávu é estressante e, para ser franca, nenhuma parte do meu corpo coopera para uma melhora.
— Água. – Eu murmuro, minha voz soando debilitada demais, rouca e incômoda, para uma pessoa que está borbulhando de raiva como eu estou.
Uma mulher, que eu não faço ideia de onde surgiu, mexe em um controle da cama, que me faz ficar um pouco mais ereta. E, sem mais nem menos, ela começa a pôr o copo na minha boca. Eu bebo, a contragosto, querendo protestar o tempo inteiro. Ao engolir o conteúdo todo, olho para os meus braços e eles estão entubados. Tem algo preso aos meus dedos.
Ótimo. Estou incapacitada. Como se eu precisasse disso.
Quero soltar um milhão de palavrões. Quando isso aconteceu? Será possível que eu não consigo ficar longe de camas de hospital?!
— Senhora Mellark – eu olho para o homem quem me dirige a palavra –, como está se sentindo?
Senhora Mellark...
Flashes do meu casamento surgem em minha cabeça, mas resquícios dos preparativos para o meu casamento falso aos 17 anos também. E aí o anel de galhos, a cerimônia do pão, Haymitch...
Olho para baixo, procurando meu dedo anelar esquerdo. O anel dourado brilha ali. Mas onde está meu marido?
— Senhora Mellark? – Pergunto, automaticamente.
Franzo a sobrancelha. Esse homem está falando comigo? Pois todas as memórias que me vêm à cabeça parecem ser de outra pessoa que não eu.
— Senhora Mellark, como está se sentindo? – Ele repete. Ora essa, ele é um médico. Eu estou confusa, não faço ideia do que acabou de acontecer. Ele quem deveria saber. Eu quem deveria estar fazendo as perguntas.
— Minha garganta dói. Meu corpo todo dói. Eu não sei o que está acontecendo, e não me lembro de muita coisa. – A porta de repente escancara e eu quase choro de alívio ao ver a cabeleira loira de Peeta ali.
Ah, finalmente.
Quero estender os braços, tocar seu rosto, sentir sua mão contra a minha. Na verdade, quero correr dessa maldita cama e me jogar em seu colo, mas estou presa aqui de tantas formas que não saberia por onde começar a me soltar. E isso só aumenta a minha ânsia de tocá-lo, a ponto dos meus dedos pinicarem tamanho meu estresse.
— Katniss! – Ele, num piscar de olhos, está ao meu lado, me abraçando, me beijando, dizendo o quanto sentiu a minha falta, o quanto me ama de modo que meu peito chega a inflar. Eu não tenho sequer uma pista do que está havendo, mas esse momento se parece, de inúmeras maneiras, com o reencontro que imaginei no distrito 13. E essa é a única coisa boa que posso dizer a respeito do que está havendo, pois em todos os outros âmbitos eu estou prestes a soltar fumaça pelo meu nariz por estar no escuro assim. – Meu Deus, Katniss. Você não pode continuar fazendo isso comigo!
O olho sem entender.
— O quê? Espere. O que houve?
E é ele quem me olha sem entender. E aí Peeta encara o homem-estátua próximo a cama.
Será possível que ninguém saiba o que está acontecendo também?
Todavia, isso é indiferente agora. Não havia notado o quão desesperada eu estou, ainda mais quando meus braços estão presos. Mas, droga, eu estou mesmo! Eu quero tocar Peeta. Eu preciso tocá-lo. Estou a meio caminho de pedir a ele para se ajoelhar ao meu lado para que eu consiga sentir seu rosto sob a minha palma, quando o inconveniente me interrompe:
— É uma das possíveis reações para este caso: perda de memória. Mas pode ser momentânea, vamos verificar isto.
Minha atenção se volta para o médico, e eu sinto o quarto girar.
— Como é? Perda de memória? – Pergunto, achando um tanto inviável. Embora esta até seja uma explicação razoável, levando em conta as lacunas em branco das minhas memórias. – Alguém pode me dizer o que está acontecendo? O que eu estou fazendo aqui, em primeiro lugar, seria um bom começo.
— Senhora Mellark, pode me dizer seu nome completo e quantos anos tem?
Ah, ótimo. Algo que eu saiba!
— Katniss Everdeen Mellark. Trinta e três.
— O nome do seu marido.
Quase rolo os olhos tamanha baboseira.
— Peeta Branyt Mellark.
— Agora me diga como você chegou até aqui.
Desta vez, a questão não é tão óbvia, e eu quase me arrependo de ter pedido, silenciosamente, no fundo do meu subconsciente, para que este homem passasse a fazer perguntas mais difíceis.
— Peeta e Haymitch me trouxeram! – Digo, aliviada por lembrar.
— E por que eles te trouxeram aqui?
Eu quero gritar. Outra que eu não sei a resposta logo de cara!
Argh. Eu juro que vou matar esse homem se ele continuar com essas perguntas. Que parte do "eu não estou entendendo nada" ele não consegue compreender? Por que ele insiste com o interrogatório quando, na verdade, só deveria estar me enchendo de explicações?
Eu quero xingá-lo. Eu não o suporto.
Olho para Peeta, quem está ao meu lado, segurando a minha mão. Quase lhe peço ajuda, como se este fosse um jogo de perguntas e respostas e eu simplesmente quisesse ganhar. Mas os seus olhos azuis esperançosos parecem exigir um pouco mais de mim; um mínimo de esforço. De qualquer forma, não ligo. Eu só quero um beijinho dele.
Mesmo assim, tento me desligar desse tipo de pensamento, me dando conta aos poucos de que estou dopada, porque nunca consigo prestar atenção numa coisa só e minha cabeça está trabalhando a mil por hora. Busco clarear minha mente, pôr as coisas em perspectiva, esquecer o médico estúpido.
Faço-me a pergunta óbvia: O que eu estava fazendo antes de vir parar aqui?
Recordo de um pergolado bonito no meu quintal. Uma música de quatro notas. O cheiro da floresta. Meu casamento fica mais nítido. Um vestido amarelo perpassa em minha cabeça, quase sobrevoando sobre as memórias misturadas que vêm à tona em um verdadeiro caleidoscópio: Johanna e a morfina roubada. Minhas fraturas por causa do tiroteio no 2. Um princípio de infarto na Capital. Uma sala branca de hospital, o olhar assustado de Peeta. Tudo vem de uma vez só.
O sangramento no meio da madrugada, Peeta e Haymitch me levando ao hospital, as enfermeiras falando em um possível aborto. E aí eu olho para a minha barriga e eu sinto falta dele, independente do volume que ainda haja ali. Meu filho.
Torradinha.
É por isso que estou aqui.
— Meu filho... – Encaro Peeta. – Eu o perdi, não foi? Eu... O sangramento...
Peeta me olha sério, ele não parece ter muita ciência do que estou falando. Mais que isso, ele não tem o rosto dilacerado de quem acabou de perder um filho. Então... O que diabos aconteceu?
Minha cabeça lateja. São pontadas agudas, como se diferentes áreas do meu crânio estivessem sendo marteladas conforme minha memória vai voltando, tão rápido, tão intenso, jogadas para mim com mais força do que posso suportar.
— Meu amor, isso aconteceu há quase sete meses. – Peeta diz calmamente.
— Sete meses? Mas se foi há sete meses... – A matemática é simples. E basta eu terminar o cálculo bobo para lembrar.
Aster.
– Minha filha. Cadê a minha filha? – Digo um tanto desesperada. Eu estava na sala de parto, houve uma complicação. Eu não conseguia respirar.
Tão típico. Tão insuportavelmente típico de mim.
Eu sou uma maldita colcha de retalhos.
Mas não há tempo para isso; para o meu egoísmo. Pela primeira vez desde que despertei desse pesadelo, apenas uma coisa está piscando em minha mente. E agora o pânico em mim só faz crescer. Eu estou com tanto medo que preciso de esforço para não fechar os olhos e me deixar levar pela tontura. De repente, não sei se estou preparada para isso, se vou conseguir, se eu estava com a cabeça no lugar quando concordei. Talvez... Talvez o problema durante o parto fosse apenas um sinal.
— Tragam a filha dela. – O médico pede ao ver meu desespero. Mas, droga, esse paspalho entendeu tudo errado! O desespero agora é três mil vezes maior.
Eu arregalo os olhos. Não sei se posso lidar. Aperto os dedos de Peeta, que estão entre os meus, e busco conforto em seu rosto, porque senão desabarei. Ele sorri para mim, abobado, parecendo um tanto aéreo aos meus conflitos.
— Ela é a pessoinha mais linda que eu já vi. Se parece muito com você. É um doce, um poço de serenidade. Tão bonita, de tantas maneiras, que chega a causar hipnose.
Eu não consigo sorrir, apesar da descrição me agradar muito. Soa como a pequenina com quem venho sonhando. Ainda assim, não é o suficiente para me acalmar, para levar tudo embora. Eu não consigo.
— Senhora Mellark – o palerma me chama, dando olhadelas em sua prancheta. O encaro séria, nervosa, assustada. Há um misto de sentimentos divergente em mim e eu não consigo nomear todos, o que piora tudo. – A senhora teve uma complicação de parto rara chamada embolia de líquido amniótico.
Então agora ele decide me dizer o que aconteceu? Quando já tenho coisa o suficiente para me ocupar por uma vida inteira?- Aperto a mão de Peeta, porque se eu não o fizer eu pularei no pescoço desse cara, e o olho séria também; mostrando a minha raiva, mascarando todo o resto. Em resposta, ele acaricia o meu braço, sem nunca se afastar sequer um milímetro de mim, apesar disso não ser o suficiente para controlar minha saudade de seu contato.
— Uma unha da sua filha entrou em contato com o seu sangue, causando diferentes problemas. Entre eles a parada cardíaca. Você ficou em coma por três dias, com uma pontuação de número 8 na escala de coma. Veremos como a senhora se sairá nos exames e, com base nisso, veremos por quanto tempo lhe deixaremos em observação. Mesmo assim, a senhora não teve falência de nem um órgão e nem problemas no sistema nervoso, que era o que esperávamos. Aparentemente, somente a sua memória foi afetada, mas nada que não volte com o tempo ou com os estímulos certos. Seu estado é quase um milagre.
Eu tenho certeza que ele continua falando, mas Aster está ali, entrando no quarto no colo de uma enfermeira. Ela está deitada calmamente, bocejando, surpreendentemente sem chorar. Ela abre e fecha os olhos, olha as pessoas, mexe os bracinhos. A enfermeira vem até mim e a primeira coisa que Aster faz ao chegar perto do leito é olhar para Peeta. Ele dá a mão para ela, quem agarra seu dedo indicador com prontidão.
Eles já têm um laço. Eles já são pai e filha. Eu posso ver pela maneira que eles se olham, o modo como ela se agarra a ele. Ela é uma bebê e já o ama.
Enquanto uma enfermeira desata meus braços da cama, outra traz Aster para mim e eu não consigo evitar o susto. Não sei se posso. Não sei se consigo. Estão, muito provavelmente, entregando-a para a pessoa errada.
Vendo meu receio, meu marido sorri para mim e diz:
— Ela está esperando por isso, meu bem. É tudo o que ela quer. Ela ama você.
Ao menos, as palavras de Peeta conseguem me fazer ajeitar os braços, mas o que quero é fechar os olhos e sumir.
Todavia, no segundo em que Aster é posta no meu colo, eu, de repente, estou atada a ela.
Ela é tudo o que meu marido disse. E o meu medo agora chega a ser bobo e tão descartável. Eu sinto que posso fazer qualquer coisa. Estou recomposta; tão revigorada que, se me oferecerem a oportunidade agora mesmo, eu posso começar outra revolução.
— Meu bebê. – Eu digo, acariciando seus fios de cabelo negros até que ela finalmente olhe para mim. E, ao fazer, fica nítido: ela me reconhece também.
Num passe de mágica, ela está com o seu rosto virado para o meu busto, sua mão pequenina tocando o meu colo, os olhos inconfundivelmente azuis, como duas pedras preciosas, me encarando, me estudando.
— Oh! – Exclamo, automaticamente. – Ela tem os seus olhos, Peeta. Eu sabia! – Afirmo, com um sorriso, sem conseguir desviar minha atenção.
Eu estava errada quando disse a Peeta, há muito, que eu não me distraía com coisas bonitas, pois neste exato momento eu estou perdidamente encantada pela minha filha: a coisinha mais linda que já admirei.
— É, meu amor, você estava certa. – Meu marido responde, afagando meu braço.
Aster, então, começa a arrastar seu rosto pela região dos meus seios, parecendo tentar afastar a roupa que me cobre. Ela me conhece, de fato. Sabe que eu sou sinônimo de comida e cuidado. E eu, cheio de doçura — provocada pelo fascínio que me domina -, pergunto:
– Eu posso amamentá-la? – Eu quero tanto fazer isso que chega a martelar meu peito. Quero fazer tudo por, para, ela. Quero dar tudo que estiver ao meu alcance.
— Deve. – O médico responde.
Pela primeira vez, não me acanho o quarto cheio de espectadores. Não, isso não tem a mínima importância. Só há eu, minha filha e o meu marido em nossa bolha. A bolha da nossa família, onde somente esse momento tem relevância.
Peeta, com muita delicadeza, desabotoa a camisola do hospital no meu pescoço e eu a deixo cair pelo meu ombro direito. Ao ter meu seio livre só para ela, Aster se alimenta como se fosse o seu maior desejo reprimido. Eu choro, é óbvio. Choro porque uma parte do meu coração, que eu nunca achei que pudesse ser preenchida, acaba de ser ocupada. Choro porque há esse tipo de prazer totalmente novo e eu acabei de ter a sorte de descobri-lo.
Ela está tão presa a esse momento, a mim, que eu sei que ela me ama. Tão puramente. E eu sei o quanto eu a amo, o quanto preciso dela. Aster é tudo que sempre quis, mas eu não tive a menor ideia até segurá-la em meus braços.
Quando paro de soluçar de amor por ela, que ainda mama, consigo olhar para Peeta, quem arranjou uma cadeira para se sentar ao nosso lado, finalmente. E enfim eu digo:
— Obrigada.
Ele beija a minha testa, emocionado, porque ele entende o que eu estou dizendo. Sabe o que esta única palavra significa.
— Não, amor. Obrigado você pela dádiva dessa vida. – Sussurra, beijando minha temporada e encarando Aster. Quando ela acaba, eu a ponho para arrotar e continuo com ela, até que ela caia no sono agarrada a mim.
Peeta entrelaça seus dedos os meus enquanto esperamos que alguém venha levá-la para o berçário outra vez. No entanto, enquanto nossa bolha remanesce, tudo está em seu devido lugar, como nunca achei que pudesse estar. E eu tenho a impressão de que nada, no mundo inteiro, poderá chegar perto de se comparar a isto.
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