What Comes After [HIATUS]
29 Capítulo 26 - Peeta's POV
Notas iniciais
É a intensidade nos olhos dela que faz meu coração palpitar, porque, de súbito, tenho a sensação de que o mundo dela está dentro desse quarto e eu sou uma grande porcentagem dele. Talvez eu até já soubesse; mas todas as vezes que ela me olha assim eu insisto em estremecer.
Aperto a mão dela entre as minhas, dou um beijo em seu dorso, e faço questão de manter o sorriso dela em mente ao avaliar o quarto, procurando por qualquer possível falha.
— Só mais um! – Ela diz, animada.
— Nada de perder tempo, então.
— Você não parecia tão excitado quando dei a ideia.
— Eu não estava pensando direito. – Sorrio, à medida que a guio para a porta, caminhando com ela para o nosso próprio quarto.
Katniss acordou esta manhã extasiada. E, depois de tomar um chá para conter seu enjôo, insistiu que fôssemos ao meu ateliê. Eu já estava com o pé atrás por conta do efeito que o cheiro das tintas teria sobre ela, e quando ela passou um longo tempo observando as gravuras, eu podia jurar que ela correria dali o mais rápido possível e entraria em sua bolha de m morbidez. Para a minha surpresa e felicidade, minha esposa fez o oposto.
Ao se dirigir a mim, tudo que ela fez foi perguntar se poderia expôr alguns dos meus quadros nos nossos quartos. Eu me assustei, obviamente. Ela tinha o costume de despejar elogios sobre mim ao ver o que eu pintava, mas eu sabia que ela se arrepiava ao ver alguns deles — e por isso que nunca entrava no ateliê -, então foi inevitável não hesitar.
Foi inevitável porque eu sabia o poder que aquelas telas poderiam ter, e acabei imaginando momentos futuros, nos quais somente a visão dos quadros faria com que ela ficasse num estado de estupor estarrecedor na cama. Contudo ela parecia tão animada e tão disposta a deixar qualquer lembrança para trás que eu tive de concordar. E, agora, o quarto da nossa filha possui pequeninas telas, de no máximo 30 centímetros de altura, com pássaros, florestas, e a praia do Quarter Quell desenhados. Já no nosso, minha esposa pediu que eu escolhesse algum pelo qual eu tivesse um enorme carinho e que passasse longe das arenas e dos meus pesadelos.
Volto-me, então, para o quadro que estou pendurando na parede branca. Nele está Katniss, no pergolado, deitada em meus braços enquanto nossas mãos se entrelaçam na barriga dela. Minha esposa disse ter amado a minha escolha; garantiu que a aura de paz e bem-estar da pintura não deveriam ser ignoradas, e que era justamente disso que precisávamos.
Ao terminar, dou alguns passos para trás a fim de checar meu trabalho. Sinto Katniss abraçar as minhas costas, e acabo sorrindo, pondo meus braços sobre os dela que descansam em meu peito.
— Fabuloso! – Ela afirma, forçando um sotaque dos residentes da Capital, oriundo da visita de Effie e do tempo que ela passou provocando a nossa antiga acompanhante.
Eu rio do sotaque e, quando me viro, procurando pelo seu rosto, pelos seus olhos de tempestade, pelo sorriso bobo que, ultimamente, costuma brincar em sua boca, pelas bochechas rosadas e salientes, esqueço onde estou ao vê-los.
Eu adoraria admirá-la para ela todos os dias da minha vida.
Sempre entendi a auto depreciação de Katniss. Claro, nunca fui capaz de concordar, e é terrível que ela não enxergue suas qualidades em qualquer área que seja, mas — caramba! -, se tem uma que ela deveria ser obrigada a ver é o quão bonita ela é.
Me permito, dessa vez, referir-me à beleza estética; logo esta que ela não nota de jeito algum. As pessoas da Capital tinham notado... as pessoas da Costura, do centro do distrito 12, todos haviam visto. Podia, para eles, estar escondida pela poeira, pelos fios que caíam em sua testa, pela carranca, e, ainda assim, em minha opinião, nunca houve nada que pudesse disfarçar o quão linda ela é. Mas todas as vezes que eu afirmava isso, lá estava a minha esposa teimosa e tímida, insistindo em mudar de assunto. "Isso é ridículo", ela disse inúmeras vezes, sempre que ressaltei a minha opinião.
E é com isto em mente que levo algum tempo para me localizar no espaço e parar de encará-la como um verdadeiro maníaco. No entanto eu a amo tanto que sinto vontade de erguer um pedestal. Não ligo para todos os erros que cometemos no passado, nem todos os medos de Katniss que a levaram a me afastar; nada disso importa. Ela é o centro de tudo na minha vida.
— O quadro ou o posicionamento dele na parede? – Pergunto, tempos depois. As sobrancelhas dela arqueiam, em dúvida. Fiquei tempo demais aéreo, e ela esperava por outra reação; alguma que não fosse uma tentativa de piada. Mas antes que eu possa comentar sobre, explicar o que me tirou de mim, ela fica séria por um instante. E seus olhos, depois, transbordam ceticismo.
Ela entrou na brincadeira.
— É claro que é o posicionamento! Você fez um ótimo trabalho. Talvez, inclusive, você devesse largar a padaria e sair por aí pendurando quadros na casa dos outros.
Nós dois nos encaramos impassíveis. Ela é a primeira a cair na gargalhada e, quando o faz, eu a puxo para os meus braços, beijando sua testa e passando a mão em seu ventre voluptuoso.
Me ajoelho para falar com a minha filha, que, ao sentir minhas mãos, chuta-as. Eu sinto que vou começar a chorar.
— Falta tão pouco, torradinha. – E ela chuta mais uma vez. Eu beijo a barriga de Katniss, e só volto a minha posição anterior quando Aster me responde novamente.
Uma lágrima solitária de felicidade escorre pelo meu rosto e minha esposa me abraça. Enfim, ela pergunta:
— No que você estava pensando? Considerei a hipótese de você ter desmaiado em pé mesmo.
Deixo minhas mãos segurarem seu rosto e murmuro, sabendo que ela vai ficar vermelha:
— Estava pensando em você.
Para disfarçar o rubor que começa a aparecer em suas bochechas, ela pega a minha mão que acaricia seu rosto e tenta se esconder ali. Mesmo assim, seus olhos cinza encontram os meus e eu sorrio, pois não há nada mais a ser feito.
Ela é tudo. Ela representa meu mundo.
Mais do que isso, até.
**
É fato consumado que eu e Katniss sempre saímos do chão durante as consultas, apesar de não haver outra reação plausível.
Aster, minha filha, nossa filha, nossa torradinha, está em sua trigésima terceira semana de vida. Katniss é a grávida mais bonita que já existiu, e se eu não fosse capaz de me apaixonar todos os dias ao olhar o rosto dela, eu então me apaixonaria pelo volume que ela carrega em sua barriga. Eu nunca imaginei em vivenciar o que eu estou vivendo agora; a realidade é melhor e mais feliz que qualquer sonho.
Esta é umas das últimas consultas antes de conhecermos nossa torradinha e nenhum de nós consegue ao menos disfarçar o êxtase.
— Papais, a Aster está com 2 quilos e já tem 43 centímetros. Até o dia do parto, ela vai crescer mais uns 7 a 10 centímetros. Isso significa que você não vai ter passagem, Katniss, e é necessário que faça uma cesariana.
Há um tempo, conversamos com doutor Art sobre as diferenças entre os dois tipos de parto, e eu e Katniss optamos pelo parto normal. É claro que eu a apoiaria em qualquer decisão que tomasse, mas eu já tinha ciência que a recuperação era mais rápida e ela, sem dúvidas, se sentiria menos desconfortável com seu próprio corpo quando acabasse. E foi o que disse a ela quando perguntou o que eu achava. Mesmo assim, minha esposa já tinha a mesma opinião formada.
Katniss olha para mim, com um biquinho nos lábios. E, quando aperto suas mãos entre as minhas, ela está soluçando.
Eu já não sobressalto com as suas crises de choro, são rotineiras, mas fico aflito. Me machuca não poder fazer nada. Levanto da minha cadeira e a abraço, para lhe confortar. Katniss me agarra, e enfia seu rosto em meu abdômen, molhando a minha blusa.
— Está tudo bem, querida. Está tudo bem. – Acaricio seu cabelo, à medida que a pressiono suavemente contra mim.
Vários minutos depois, Katniss para de chorar. Doutor Art, pacientemente, lhe oferece um copo dágua e uma pêra. Ao terminar de comer, ela se aninha no meu colo, e eu não me preocupo, sequer por um segundo, de estarmos num consultório e com outra pessoa ali dentro. Ela é a minha esposa, ela está grávida e ela precisa de mim. Então eu me doarei a ela de todas as formas que eu puder.
— Pode me dizer o que houve, Katniss?
— Ahnn, eu não sei dizer. Eu só não gostei de ter que mudar o parto, e de repente eu estava chorando. Tem algo de errado?
Ele sorri para ela.
— Não, está tudo certo, eu só queria ter certeza de que foi uma variação de humor comum.
Ela assente, e depois volta a pôr seu rosto em seu meu pescoço.
— Bem, vocês têm alguma dúvida sobre a cesária: Como vai funcionar, a anestesia, o que vai diferir do parto normal...? Sei que já conversamos sobre isso, mas se sobrou alguma lacuna esse é o momento de preenchê-la.
Acabamos perguntando tudo de novo e, após sanar todas as nossas dúvidas e explicar como funcionaria a cirurgia, o médico questionou:
— Gostariam de marcar uma data? – Eu olhei para Katniss, que instantaneamente tirou seu rosto do meu peito para encontrar os meus olhos. – É claro que vocês não precisam fazer isso neste momento, apenas bastaria me dar uma data o mais rápido possível. De preferência até a nossa próxima consulta.
— Bem, doutor, eu gostaria de não marcar. Eu prefiro que minha filha nasça quando estiver com vontade de nascer, se é que isso parece ter algum sentido. – Para mim, tem. E eu estou feliz que ela tenha tomado essa decisão; é o mais perto do parto normal que vamos chegar.
Katniss olha para mim, esperando uma confirmação, os olhos curiosos pousados no meu rosto enquanto seus dedos brincam com a gola da minha camisa. Eu apenas sorrio.
— Então que assim seja! – O médico também sorriu. – Nos vemos em uma semana. Surgindo qualquer novidade, me liguem.
**
Eu não me importo em passar o resto dos meus dias dessa maneira: segurando a mão da minha esposa, estando ao lado dela para lhe passar todo o conforto que ela precise. Mas o rosto dela contorcido em dor por conta das contrações periódicas quase me faz subir pelas paredes.
Há um consenso no que diz respeito à situação: é o melhor momento de nossas vidas, é a dor mais nobre que existe. Katniss me disse isso. E eu poderia dizer a ela também. Contudo não consigo fazer muito, pois seu sofrimento me agoniza. Estamos há três horas no hospital, Katniss entrou em trabalho de parto há cerca de cinco. Nesse meio tempo, a ajudei com os exercícios de respiração, com massagens, e a tomar banho; tudo que doutor Art recomendou por telefone e que estava ao meu alcance.
Dou um beijo no dorso da mão dela, e sorrio quando ela olha para mim. Mesmo assim, ela só parece desesperada.
— Sabe, isso é inacreditável! — Ela geme, entre um ofego de dor e outro. Meu peito contrai em resposta. Esse é o intervalo que ela tem a cada quatro minutos. — Eu estou em trabalho de parto há quanto tempo?! Aquele maldito tampão já saiu daqui, eu estou dilatando, e já não estou mais aguentando! — Ela se contorce. E eu sei que as contrações estão vindo outra vez.
— Querida, você quer tomar outro banho? — Pergunto, na tentativa inútil de tentar amenizar o sofrimento dela.
Depois de três minutos, obtenho resposta:
— Estou com medo de levantar e não achar uma posição confortável depois.
Suspiro.
— Vou chamar a enfermeira. As contrações já estão com intervalos de três minutos, talvez possam te anestesiar.
— Bem, eu sequer tinha notado. Achei que estivesse vindo de dez em dez segundos. — Ela solta um gemido alto logo em seguida. — Só para registrar: nunca mais me deixe tomar uma decisão estúpida como essa. Deveríamos ter marcado uma data!
Eu esboço um sorriso ao vê-la desse jeito. É a mesma teimosa pela qual eu me apaixonei há anos.
Caminho até a porta e, ao abri-la e checar o corredor, doutor Art está se aproximando do quarto junto a uma enfermeira. Ele teve de adiantar todas as suas consultas e terminá-las para que pudesse operar Katniss, já que a nossa ligação, afirmando que estava na hora, o pegou totalmente de surpresa. Entro junto com eles, quem vão até Katniss. Ao notar que ela não vai conseguir falar, o médico se volta para mim:
— Como estão as contrações?
— De três em três minutos.
Ele põe a prancheta de lado, e vai até a cama.
— Katniss, vai ser um pouco incômodo, mas preciso verificar a sua dilatação antes de levá-la para o anestesista. — Ao olhar minha esposa, vejo o quão arrependida ela está da sua decisão de passar pelo trabalho de parto para que nossa filha viesse ao mundo quando sentisse vontade.
Katniss não responde, só passa a respirar com mais dificuldade que antes. É a primeira vez que doutor Art a vê no dia, então suponho que ele queira se harmonizar com o andamento do parto.
Ela abre as pernas, claramente desconfortável. Não havia nada de errado com o nosso obstetra, era um fato. Mesmo assim, eu sabia melhor que qualquer um que Katniss jamais ficaria relaxada nessas circunstâncias. Não basta a dor que ela sente, ainda está lidando com o toque íntimo do médico.
Quando ele terminou, sorriu.
— Está passando da hora, peço perdão pela minha ausência. Vou levá-la para iniciar o processo de anestesia e você pode acompanhar a enfermeira Cooper até a “sala dos pais”.
Assenti e então fui até Katniss.
— Até daqui a pouco, meu amor. Boa sorte. Vai ficar tudo bem. — Pela primeira vez, ela sorri, o que me enche de júbilo. Acredito que ela tenha acabado de se dar conta do que estar por vir. Em questão de horas, seremos uma família de três.
Ela fecha os olhos e faz um biquinho na minha direção. Eu não posso evitar escancarar minha boca num gigantesco sorriso. Beijo seus lábios, e todo o seu rosto suado.
— Eu amo vocês. — Sussurro, quando minha boca encontra a mandíbula dela.
Com esforço, ela responde:
— Nós amamos você.
Eu deixo a sala com a sensação mais estupenda e genuína que já senti em toda a minha vida. É uma alegria tão pura que sinto vontade de pular. É tudo que sempre sonhei tomando forma bem diante dos meus olhos. A enfermeira, certamente notando meu estado – bem como qualquer um num raio de dez quilômetros -, diz à medida que caminhamos pelos corredores cheios:
— É um momento único, aproveite. — Ela aconselha.
— Em breve deixarei a marca dos meus sapatos no teto. — A enfermeira Cooper ri, para em frente a uma sala, abre a porta para mim, esperando que eu passe. Eu o faço, mais excitado que nunca.
Está chegando.
É uma sala espaçosa, com dois sofás e um imenso armário. De dentro dele, e enfermeira tira a indumentária. Ela me entrega e aponta para um banheiro à minha direita. Só noto que há outro pai dentro da sala quando estou fechando a porta. Levo apenas segundos para pôr a calça, o blusão, a máscara, a touca e a sapatilha. Nunca fiz nada tão rápido em toda a minha vida.
Ao voltar para a sala, o homem apreensivo já não está mais lá. A enfermeira Cooper me informa que logo, logo alguém virá me chamar para me encaminhar à sala de cirurgia.
Acabo tendo tremedeiras no meio tempo. Estou nervoso, possivelmente tendo uma crise de ansiedade. É o momento mais importante da minha vida.
Está realmente acontecendo.
O que parece ser uma vida depois, a mulher volta, fazendo, em silêncio, o caminho até a sala de cirurgia comigo. Ao chegar lá, Katniss está calma, muito relaxada, e todas as cinco pessoas dentro da sala estavam apenas me esperando. Eu corro para o lado da minha esposa, quem sorri abertamente para mim e estende a sua mão.
A sua voluptuosa barriga está sendo limpa e há uma espécie de cortina impedindo que Katniss consiga acompanhar a cirurgia. Tudo está numa calmaria tão grande que eu seria capaz de ouvir um alfinete caindo. Mas é aí que, num ímpeto, a coisa toda desanda.
— Pressão arterial subindo. 13 por 8,5. — Levo um segundo para assimilar, e enfim compreendo que é de minha esposa que estão falando. Mas... não entendo. Está tudo bem. — Pressão arterial em 13,8 por 8,9. — Olho para o rosto de Katniss, querendo a confirmação de que isto não significa nada. E aí a vejo lutando por ar. Sua boca está aberta enquanto ela puxa ar para os seus pulmões com desespero. — 14 por 9.
Na sonda intravenosa ligada a ela, vejo um enfermeiro correndo para injetar algum medicamento.
— 120 miligramas de diazóxido na veia periférica.
Quando procuro o rosto dela outra vez, vejo o seu sufoco. Ela não consegue respirar!
Nada se compara ao meu desespero no momento em que alguém passa a me arrastar porta afora e eu sou capaz de ouvir perfeitamente o monitor cardíaco fazer aquele barulho insuportável.
— Código azul.
Minha cabeça continua voltando à imagem de Katniss lutando por ar, o som do monitor berrando que algo estava errado, os médicos e enfermeiros correndo para salvá-la, mesmo quando já estou fora da sala. O mundo está despedaçando sob os meus pés e eu estou impotente. É a segunda vez que isso acontece, e agora parece ainda mais atroz que no passado.
— A quem devemos dar prioridade? — De súbito, a epifania vem. O enfermeiro está falando comigo. Meu cérebro, com certeza, só processa a informação por se tratar de uma pergunta tão macabra. E, sem dúvidas, quem dá uma resposta por mim é o pânico.
— Você e sua equipe devem tirar as duas com vida dessa cirurgia, porque você vocês estudaram para isso. Vocês farão o que são pagos para fazer: manter a minha esposa e filha vivas. Ambas! — Eu berro. O rapaz, um tanto alarmado — possivelmente porque eu seguro a gola de seu jaleco com extrema brutalidade -, entra na sala outra vez.
E, quando estou sozinho neste corredor assustadoramente branco, deixo que o surto de adrenalina se esvaia e a dor pungente me ataque com força total.
Há um prédio ruindo acima de mim e eu caio aos pedaços junto a ele.
É a vida das duas mulheres que eu mais amo em jogo. É a possibilidade nefasta de só uma delas sair desta sala. É alguém, medindo por mim, qual das duas vidas vale mais; pondo na balança o peso delas, como se isso fosse algo admissível.
Minha cabeça começa a latejar. Não sei como vim parar no chão; sinto apenas os espasmos indicadores dos flashes, as lembranças buliçosas da tortura, a respiração hesitante.
Bato com a cabeça contra a parede. Eu não tenho tempo para isso. É egoísta demais quando o amor da minha vida teve uma parada cardíaca e minha filha, que sequer nasceu ainda, pode não nascer. Outra porrada contra a parede. Eu não posso ser levado pelo veneno das teleguiadas, porque já está doendo demais sem isso.
Se Katniss não consegue respirar, Aster não recebe oxigênio.
Como isso pode estar acontecendo?
Queima, rasga, consome as minhas entranhas não estar no lugar delas. Antes outro Jogos Vorazes, antes vários meses de tortura, do que minha esposa lutando pela sua vida e pela da nossa filha sem que eu pudesse fazer algo.
O corredor passa a se mover, e eu preciso me concentrar para me manter consciente.
Meu nome é Peeta Mellark. Meu lar é o distrito 12.
Não importa quantas vezes eu repita o mantra, nem quantas vezes eu soque minha cabeça no concreto, nada faz com que as falsas memórias oscilem de encontro às verdadeiras.
Vejo Katniss com um sorriso diabólico nos lábios após me beijar na praia de uma arena, indo para longe de mim, ao encontro de alguém que não consigo distinguir. Só enxergo sua silhueta e tenho vislumbre de um rapaz alto, de pele cor de oliva, muito parecido com ela. Os dois me olham, gargalhando, abraçados. Eles apontam para a minha mão. Ao olhar para baixo, vejo algumas amoras. Reconheço-as de imediato. Não se trata de simples amoras, são amoras-cadeado. E há resquício delas em minha boca.
Real ou não real?
Meus braços estão presos a uma cadeira, assim como minhas pernas; sinto algo em minha veia e noto que há um tubo conectado a ela. Estou em um cômodo pouco iluminado, onde somente as luzes de um telão, aceso à minha frente, dão clareza ao lugar. Não há nada no monitor, exceto um brilho incômodo, como o de uma lâmpada fluorescente num recinto completamente apagado. Tento me mover, mas me arrependo instantaneamente. A carga dos choques é muito intensa; chega a queimar. Perco a vontade de mexer sequer um músculo pelo resto da minha vida.
Imagens tomam conta de tela. É Katniss com os carreiristas do nosso primeiro Jogos Vorazes, me caçando pela floresta. Estou ciente de aquilo é uma mentira. Insisto diversas vezes para mim mesmo, mas, em algum ponto, começo a hesitar. Fecho meus olhos, a fim de organizar meus pensamentos, e a eletricidade que é descarregada em meu corpo é duas vezes maior. Fico trêmulo por alguns instantes, minha cabeça dói. Há algo sendo injetado outra vez em minha veia.
Katniss nunca me amou. Eu sou um fardo para ela.
Real ou não real?
Eu estou nu do quadril para cima na mesma sala mal iluminada. Meu corpo está estranho; parece magro demais, como se só houvesse ossos e uma camada fina de pele. Sangue escorre de cortes feitos em meu peito e costas; eles ardem e meus braços estão doendo por estarem presos a uma corrente no teto, e serem os únicos a sustentar o peso do meu corpo.
Minha boca está seca; parece que não bebo água há meses. Sinto o cheiro de álcool invadir o cômodo, e a ardência descomunal percorre as minhas feridas.
Estremeço, um grito agudo escapando pela minha garganta. Quero chorar, mas não sei como. Meu corpo parece desidratado até para isso.
Vejo uma navalha surgir à meia luz e, por entre a penumbra, o conhecido rosto surge, com seus cabelos negros esvoaçando por conta da saída de ar do teto.
Real ou não real?
Preciso de muito esforço para me acostumar com a claridade abrupta. Onde raios eu estou? Eu tenho certeza de que não apaguei aqui.
Eu estava no corredor. Como vim parar neste quarto?
Toco meus braços, repleto de cicatrizes, dizendo a mim mesmo que esta é a realidade. Minha cabeça continua a pulsar à medida que o desespero me domina novamente. Eu não tenho ideia do tempo em que estive estirado, desacordado, no meio do hospital, mas eu esperava que fosse o suficiente para que alguém surgisse com alguma notícia. Ou para que eu não fosse parar em qualquer outro lugar além do corredor onde eu aguardava.
Me levanto num pulo, analisando o que posso. Minhas roupas são as mesmas, o quarto é como qualquer outro do hospital e eu estou deitado numa maca.
Bem, com isso eu posso lidar. Só não consigo aceitar o fato de não estar Katniss nem Aster. Será que... Estive apagado por tempo o suficiente para que elas já não estivessem mais aqui?
Não gosto de considerar a hipótese e nem mesmo quero. Tudo que eu preciso é das duas comigo, sem que nada no mundo possa machucá-las.
Saio do quarto num rompante e, ao olhar no corredor a fim de descobrir qual direção seguir, avisto Haymitch. Ele conversa com uma senhora — gesticulando demais para o papo ser bom -, e suas feições demonstram preocupação. Mesmo assim, ele dá um sorriso. Não consigo saber o que eles dizem, mas sei que esse sorriso tem algo a ver com minha esposa ou filha. Uma delas está bem.
Praticamente corro na direção deles, sendo torturado ao longo do caminho pela falta de informações e por uma dormência anormal nos meus músculos.
— Garoto, você acordou! — Haymitch é o primeiro a me ver; está realmente animado com a minha presença, mas não o suficiente para apaziguar o embrulho que sinto no estômago, porque posso ver em seu rosto, mesmo que ele tente esconder, que há algo de muito errado.
A senhora, com quem ele dialogava, se volta para mim logo depois.
— Senhor Mellark? — Assinto. — Estava atualizando o senhor Abernathy a respeito da sua condição...
A interrompo, sem me preocupar em ser cortês.
— Minha esposa e minha filha? — Balbucio.
A mulher me encara por um segundo, duvidosa.
— Sua filha já foi examinada e se encontra na incubadora, dentro de algumas horas ela irá para o berçário e vocês poderão vê-la.
Aster está bem. Ela está viva e saudável. E eu estou absurdamente feliz. Ainda assim, há uma outra parte de mim que é incapaz de conter o desespero pela minha esposa.
— O que há com Katniss?
— Receio não poder lhe dar maiores informações. Ela ainda está no centro cirúrgico, isso é tudo o que sei.
— Se... Se algo tivesse acontecido eu teria sido informado, correto?
— Sem dúvidas. — Ela diz, sucinta. — Agora, se me derem licença... — E, assim, ela vai. Me deixando com Haymitch no corredor, quem parece tão ambiguamente preocupado e feliz quanto eu.
Fale com o autor