Notas iniciais
Oi, baes. Dessa vez nem demorei muito, né? O capítulo tá pequeno porque eu não estou nem um pouco a fim de encher linguiça, enrolar ou adiar mais esse assunto. Eu também não consegui imaginar nada além para escrever, então se vocês não gostarem, de desculpa. Amanda, querida Soarello, namoradinha, meu amor, ciumenta linda. Capítulo é seu, tá bom? E ah, antes de finalizar isso aqui, queria dizer por último que WCA está entrando em reta final, e talvez tenhamos no máximo mais sete capítulos pela frente. (:( Sem muito mais a falar, aí está:

– Johanna ligou ainda pouco. Disse que foi visitar Annie e viu a cópia do Finnick andando pela casa – Peeta comenta, durante o jantar que estamos tendo na casa de Haymitch.

– Ninguém duvidou em momento algum que aquele garoto seria a cara do pai. Ainda mais agora, com 14 anos. O momento perfeito da puberdade – Haymitch dá de ombros, não parecendo se importar muito.

Quando Johanna ligou, ficamos muito surpresos em saber que ela se estabilizou. Que não fica mais um ano em um distrito, dois em outro. Ela foi para o 2 também, que progride tanto quantos os outros. A qualidade dos hospitais de lá é um assunto recorrente na boca de todos. Depois, ela assegurou que Finn era Finnick. Era tão parecido que chegava a dar "uma dor desgraçada no peito". Foi aí que percebi que já faz 15 anos desde o fim da Rebelião. Até então, eu sinceramente não tinha me dado conta.

O tempo passou voando. E, por mais que soe absurdo, a monotonia da minha rotina não chegou a me desagradar em um segundo. Se eu for pôr na balança os momentos antes e durante meus 16/17 anos, a ideia de estar com 32 anos e não fazer nada além de cuidar da casa e caçar não é desagradável nem de longe. É cansativo, talvez, mas melhor que qualquer outra possibilidade.

Ainda tenho minhas crises esporadicamente. Ainda acordo gritando em algumas noites. Contudo, Peeta, como sempre fez, me abraça e sussurra que tudo está bem. Que vamos ficar bem. Mas ele tem os próprios problemas. Tem dias que chega tão exausto da Padaria que qualquer coisinha mínima pode virar um maldito furacão e levá-lo uma noite inteira. São nessas noites em que eu choro e me sinto mais sozinha que nunca.
– E é por isso que ele se deu bem. Imagina o sucesso que ele faz com as meninas?! – Haymitch continua, e ouço Peeta rir.

Acabo remexendo o prato com o garfo, realmente sem muita animação. Eu provavelmente deveria estar feliz em saber que tudo corre bem, mas eu particularmente não venho me sentindo bem. Não tenho ideia do por quê. Embora parte de mim suponha que tenha a ver com as três noites em que tive que ficar sozinha naquela cama que se assemelha a um mundo inteiro quando Peeta não está.

Pego um pedacinho de pão da bandeja, e mergulho na sopa que meu marido fez. Basta levantar a cabeça para ver seu olhar de preocupação direcionado a mim, ainda que ele não fale nada.

– Minha mãe ligou também. Quis saber se poderia fazer uma visita – digo, sem nenhum entusiasmo especial.

– E aí?!

– Ela chega na semana que vem.

Peeta, num estalo, parece lembrar-se algo muito importante e praticamente pula da cadeira, atraindo nossa atenção.

– Effie está grávida!

Vejo quando Haymitch para a colher no caminho para a sua boca. Quase sorrio com a sua reação.

– Eu sabia que vocês tinham alguma coisa! – Bato minha mão na mesa, feliz com a cara de tacho do meu ex mentor e por Peeta ter lembra-se do pedido que o fiz, quando eu mesma havia esquecido.

Ele me ignora totalmente e se volta para Peeta.

– É verdade, garoto? – Pergunta com um pé atrás. E também deveria, já que tudo não passa de uma armação minha.

– Na cabeça da Katniss é – responde com um sorrisinho.

No segundo que Haymitch olha para mim e vê que estou prestes a rir dele, me lança um olhar quase mortal. Ele certamente me enforcaria, se pudesse. Mas, depois disso, o jantar até que corre melhor. Ao menos para mim.

**

É outro dia comum, monótono, onde passei a maior parte dele na floresta e estou voltando para casa esperando com uma ânsia estranha por Peeta. Em dias assim, quando tudo parece tão agonizante, eu encontro conforto nos braços dele. E isso facilita a minha escapada das crises.

Abro a porta de casa e vou direto para cozinha. Meu peito se contrai ao ver Peeta com as mãos brancas, as veias sobressaltando e o rosto vermelho, agarrado as costas de uma cadeira. Certamente eu não estava esperando por isso.

Há dias em que ele volta da Padaria assim. Não por um motivo específico, ele diz depois que olhou para um lugar e imaginou algo. Que na própria Padaria tem algumas lembranças incômodas, vez ou outra. E assim sucessivamente, tornando regulares as consequências do telessequestro.

Fico na entrada do cômodo, sem poder fazer muito. Eu preciso esperar passar e depois puxá-lo para o meu colo, assim confortaremos um ao outro e esperaremos que a dor amenize.

Peeta começa a afrouxar o aperto na cadeira e eu posso me permitir respirar novamente. Há vezes onde não dá para ter certeza quanto tempo o telessequestro pode tirá-lo de mim. Pode ser que seja apenas minutos, contudo, já passei dias lidando com a dor de saber que ele estava sofrendo sozinho no quarto ao lado.

Vôo para o lado dele, e rapidamente o abraço. Posso notar como seu rosto se converte num mar de confusão e me sinto mal. O que está passando com ele?

– Meu amor – ele sussurra com a voz rouca. Olho para ele e, um segundo após, o vejo franzir a sobrancelha. – Minha mãe me deu uma surra por derramado um pouco de açúcar no chão. Real ou não real?

Considerando o tipo de pessoa que ela era, eu apenas respondo, sentindo calafrios ao o fazer:

– Real. Sua mãe não era exatamente a pessoa mais amorosa do mundo.

Ele me aperta contra ele, e ficamos uns bons minutos abraçados ali. Quando acabamos, peço para que Peeta vá tomar um banho enquanto eu esquento o ensopado que sobrou do dia anterior para jantarmos. Depois, vamos para o nosso quarto e eu decido conversar, sabendo como isso ajuda Peeta a melhorar.

– Como você está? – pergunto, quando estamos deitados na cama e eu me perco nos desenhos abstratos que faço em sua camisa de algodão. Peeta, por sua vez, está realmente interessado no teto. Mesmo assim, isso está longe de ser uma reclamação. É melhor tê-lo assim, meio disperso, do que não tê-lo de modo algum.

– Tem um monte de coisas na minha cabeça. Memórias da minha infância que estão voltando e outras que não sei dizer se são reais ou não.

– E por que você não está me perguntando sobre?

Vejo-o mexer a cabeça e logo depois virar-se para mim, deixando nossos narizes tocarem um no outro. Passo meu braço sobre seu corpo e começo a fazer carinho no seu quadril, ansiando pelo momento em que ele ficará melhor.

Peeta sela nossos lábios por um breve momento e depois responde:

– Não tenho certeza se você saberá de tudo.

– Você pode tentar. Não fique achando que passou despercebido por mim quando éramos crianças.

Ele sorri e nos minutos que se seguem, há uma enxurrada de afirmações e milhares de "Real ou não real?". São perguntas das quais, em sua maioria, sei a resposta, pois tem a ver com a escola ou o distrito. Pessoas das quais ele vai se lembrando subitamente e lembro de ter visto em algum momento. Só quando ele fala sobre sua família que eu vou me tornando mais monossilábica e hipotética, sabendo responder uma ou outra coisa sobre seu pai e seus irmãos.

Mesmo após um bom tempo, eu não fico cansada. Não estou com sono e só quero ajudá-lo como posso; de todas as maneiras que posso.

– O que você acha de pegarmos o livro? – indago, já me levantando e indo até uma das gavetas do nosso armário.

– Adiantaria eu achar alguma coisa? – Peeta brinca e eu lanço a ele um olhar de poucos amigos.

Volto para a cama, mas, dessa vez, não me deito. Peeta me acompanha. Ficamos folheando o livro por muito tempo, fazendo alguns comentários; primeiro sobre as plantas, sejam as medicinais ou as comestíveis, ou mesmo as que nunca devem ser ingeridas. Mostro a ele as amoras venenosas que ele quase comeu na primeira arena, há 16 anos.

Depois, chegamos a uma sessão do livro que foi construída por nós. A sessão que me deixa feliz e com um tremendo aperto no peito. É uma dor ambígua; ora estou certa de que irá me dilacerar, ora tudo que penso é que me fez bem, de alguma maneira.

Mas, é exatamente no momento em que chegamos à foto de Annie e Finn, quase no final do livro — que eu sempre julguei conhecer tão bem quanto a floresta -, que eu tenho uma surpresa.

– Da onde veio isso?

Peeta enrijece ao meu lado. Olho para ele, buscando entender o que está acontecendo e de onde veio a carta que acabou de cair do livro.

– É de Annie. Quando Greasy Sae te entregou essa foto, há anos atrás, ela já esperava que sua sensibilidade pós rebelião te afetasse. Então assim que cheguei, ela me entregou a carta, a verdadeira carta, a mim. Ela disse saber que naquele que havia te dado, era uma foto simples, e que no meu envelope havia algo certamente bem mais intenso que isso, e que você provavelmente não conseguiria lidar.

"Depois, foi isso que notei quando entrei no quarto e a vi chorando naquele dia. Era demais para você. Então fiquei esperando o momento certo para abrirmos essa carta, o momento certo para que eu pudesse entregá-la, mas sempre temi sua reação. Sempre tive medo que isso te levasse, porque sei o quanto o filho do Finnick te afeta. Me perdoe. Esconder isso de você foi a coisa mais difícil que já fiz."

É uma situação e tanto. Todavia, estou entorpecida. Tudo que digo é:

– Mas a carta veio há muito tempo. Mexi no livro milhares de vezes de lá para cá. Como nunca a vi?

– Ficou pelo menos onze anos no escritório.

Respiro fundo. O quer que haja nessa carta, não pode ser nada arrasador. E Finn está bem agora, está crescido, forte, saudável e é uma cópia do pai. Annie cuidou dele. Annie foi uma mãe perfeita. Está tudo bem.

– Ok, vamos abrir.

– Certeza?

– Eu dou conta.

Não posso negar que realmente não gostei de Peeta ter escondido isso de mim. Compreendo que tudo que fez foi na intenção de me manter estável. Contudo, para ser honesta, eu não fiquei feliz. Não estou feliz.

– Mas, me promete que nunca mais vai esconder absolutamente nada de mim. Que não teremos segredos entre nós.

– Nunca tivemos nada além desse, e não voltaremos a ter – ele jura, sorrindo e fechando o livro quando eu rasgo o envelope da carta, lembrando automaticamente da primeira vez que fiz isso com uma carta de Annie.

Na primeira vez, o envelope era razoavelmente menor. O formato da foto estava delineado por determinadas partes do papel que o envolvia. Agora, nada é assim. É só mais real e também mais doloroso.

Pego o papel, mas minhas mãos ficam trêmulas no mesmo segundo. Fecho os olhos e entrego a Peeta. Antes de começar a ler, ele põe um dos braços em volta do meu corpo e faz com que eu apoie a cabeça em seu peito. O faço de bom grado.

Ele então começa:

"Queridos Katniss e Peeta,

Talvez estejam se perguntando o porquê de eu ter mandado a carta para vocês dois, em vez de tê-lo o feito separadamente. A resposta é simples: Finnick. Vocês podem não saber, mas eu o conheço perfeitamente bem para afirmar que ele sabe o quanto vocês se amam e o quanto ele acredita no que há entre vocês. Sendo assim, eu estou fazendo o mesmo.

Eu sinto falta dele todos os dias. E reconheço, sem sombra de dúvidas, que ele foi uma das melhores coisas que já me aconteceu. Se eu tivesse que fazer uma lista, ele estaria em segundo lugar. É claro que ele ainda é o único que amei, contudo, foi ele também que me deu outro homem para amar. E esse homem, esse pequeno pedacinho de ser humano, que estaria em primeiro lugar nessa lista.

Eu tento não pensar nas coisas de um jeito errôneo nem me deixar levar pelos "e se?". Finnick me ensinou isso. Hoje, em vez de me lamentar, procuro usufruir todo o bem que ele me deu. E, atualmente, o maior bem que ele poderia ter me dado está nos meus braços.

É óbvio que gostaria que Finn tivesse conhecido o pai e também gostaria que tudo tivesse acontecido de modo diferente. Mas, já que não é possível, sou grata por tudo que aconteceu e me trouxe até aqui. Me trouxe até o meu filho e me trouxe até o amor do pai dele, que vai estar comigo até o meu último suspiro.

Não foi fácil chegar até aqui sozinha nem continuar sem sucumbir. No entanto, meu filho todos os dias me dá uma injeção de energia. Eu estou lúcida, bem, e me sinto renovada. Acho que a palavra que procuro para englobar tudo isso afinal de contas é simplesmente paz, porque a minha cura eu já encontrei e ela me trouxe até aqui. E porque nada se compara a essa paz que achei com ele, em meio a todo o caos de outro momento, e nada posso chegar perto de destruir isso.

Eu espero, então, que vocês também possam encontrar essa paz. Que encontrem isso todos os dias da vida de vocês. E que sejam felizes, em nome de tudo que perdemos em busca dessa felicidade. Acreditem em vocês e achem a força no que vocês têm. Eu sei que vão achar.

Annie."

É como se uma luz tivesse sido aberta diante da minha cabeça. Um pedido antigo, esquecido e adormecido no meu peito, de Peeta ressoa no meu coração. A carta de Annie foi aberta no momento ideal; no momento em que eu precisava de uma razão além para que pudesse seguir.

Meu marido supôs, durante todos esses anos, que não teria um momento certo para isso. Embora nesse exato instante eu tenha a certeza de que aconteceu num momento incrivelmente propício e sublime.

É simples. É a maneira de acabar com o telessequestro de Peeta, com a minha solidão e finalmente poder realizar o maior desejo dele.

Não há mais Jogos. Não existe mais nenhuma arena. Eu posso fazer isso.

Num passado não tão distante, essa era a razão pela qual eu me sentia tão incapaz de conceber uma criança. No entanto, Panem está em seu auge e eu adquiri toda a coragem que precisava. Nunca me senti tão preparada e tão certa disso. Nunca quis filhos também, mas, nesse exato momento, onde acabei de descobrir que a cura simplesmente está em uma criança, sei que é disso que preciso. Talvez, tudo que eu sempre tenha precisado.

Notas finais
O que acharam? Posso ser honesta com vocês? Não gostei muito. Tentei encaixar a carta da Annie aí porque eu não conseguia imaginar a Katniss aceitando ter filhos do nada, por nenhuma razão específica e depois de todo o ataque que ela deu dizendo que não iria ter. Enfim, é isso. E eu estou escrevendo uma short fic (só cinco capítulos) em um universo alternativo de Jogos Vorazes, em que a Katniss e o Peeta estão vivendo uma vida infeliz, regada de sexo, bebidas e cigarro, por conta de problemas do passado. O problema é que eles tentam se ajudar no meio disso, o que obviamente só poderia render mais problemas. O link é esse se estiverem interessados: https://fanfiction.com.br/historia/661512/DrunkinLove/ Bem, obrigada por todo o apoio de vocês, espero não ter lhes decepcionado e espero que curtam o finalzinho dessa fanfic que já, já vem por aí. Até mais, @lwrenci.