What Comes After [HIATUS]
23 Capítulo 20
Notas iniciais
Mesmo com a minha decisão tomada, eu desisti ou hesitei pelo menos três vezes nas últimas semanas. Toda vez que a imagem de uma criança vinha à mente eu acabava submetendo aos Jogos, e nas inúmeras noites que eu acordava por conta de pesadelos eu tinha que enrolar Peeta.
O motivo da mentira era simples. Eu não podia lhe dar esperanças. Eu nem mesmo sabia se depois de todos esses anos evitando filhos eu ainda era fértil. Eu também não sabia se desistiria a qualquer momento. E, caso eu tivesse outra atitude egoísta como essa, eu não queria ter que olhar para o seu rosto decepcionado. Então, considerando toda a indecisão da minha suposta decisão, optei por manter segredo e esperar. Optei pelo exame de sangue que comprovaria e tornaria tudo real.
Comecei a me consultar com um médico, o doutor Art, há três meses, no hospital do distrito. Foi preciso muita coragem para que eu conseguisse sair de casa, ir ao lugar e contar todos os meus receios a um desconhecido.
No primeiro dia em que estive sozinha naquela sala insuportavelmente branca, calafrios percorreram todo o meu corpo e eu quase corri para fora. Contudo, contra todas as probabilidades, permaneci. E Art pediu uma bateria gigantesca de exames. Não só para checar a minha fertilidade como também a disposição do meu corpo para conceber um filho, levando em conta o meu problema cardíaco esporádico.
Para a minha surpresa, meu útero estava como o de qualquer outra mulher saudável. Eu apenas precisava esperar meu período fértil. E eu esperei, e depois de uma noite com Peeta, não ousei tomar um comprimido, um chá ou sequer mascar qualquer erva. E fui repetindo isso constantemente até que se tornasse um ciclo vicioso.
Agora, as consequências dessas atitudes e de todas as noites que tive com o meu marido, é um bebê com quatro semanas de vida.
– Obrigada, doutor – agradeço, pegando o papel do exame de sangue e me sentindo realmente tonta por ter acabado de obter a confirmação de que o filho de Peeta cresce dentro de mim.
É surreal; quase impossível de acreditar.
– Não precisa agradecer – ele dá um sorriso, como sempre. Um fato sobre o doutor Art é que apesar da meia idade, a rigidez e a arrogância passam longe dele. – Eu quero a senhora aqui daqui a duas semanas. Espero que com o senhor Mellark.
Ainda meio trêmula, guardo o diagnóstico em minha bolsa.
Acontece que assim que cheguei ao consultório e apontei meus medos ao doutor, o doutor Art me mandou correndo para o laboratório para que colhessem meu sangue. Assim ele poderia confirmar o aumento na minha taxa hormonal. Porque ele sabia tão bem quanto eu, e só ratificou ao apresentar o exame que constava uma quantidade relativamente alta hormônios HCG no meu sangue. Hormônios que indicavam a vida do meu filho.
Meu filho. Uma sentença estranha para mim e que me faz perguntar que gosto terá quando as palavras saírem da minha boca pela primeira vez em toda a minha vida. Logo eu que recusei e bati o pé por tanto tempo... Só para vir parar aqui. Neste exato momento.
– Eu pretendo contar hoje. Mas assim que ele souber é provável que as visitas se tornem diárias.
Doutor Art sorri outra vez, me retiro da sala com um "até mais" e sigo para a Padaria. Hoje é o aniversário do Peeta e farão uma festa surpresa para ele; de algum modo absurdo, parece que tudo conspirou para que as coisas acontecessem neste segundo.
Mesmo assim, para ser honesta, é árduo me concentrar. É árduo pensar em qualquer coisa que não seja o bebê que está fazendo meu corpo de lar. Quando passo a pensar nessa criança, eu já não sei o que sentir além de um pânico que vai aumentando e aumentando, até que tome proporções catastróficas e eu sinta vontade de me trancar no quarto.
Imagino se ficará mais fácil quando eu contar a Peeta. Suponho que sim. No entanto, sei que ainda vou acabar em cima da cama sofrendo e tentando arranjar motivos para viver por conta dessa criança.
Respiro fundo.
Meu nome é Katniss Everdeen. Meu lar é o Distrito 12. Eu estou casada com Peeta Mellark. Nós teremos um filho. Uma criança a qual temos a obrigação de dar uma vida digna e feliz.
Abro a porta da padaria — cheia como de costume -, apenas para rolar os olhos ao notar que o sino atraiu a atenção de todos clientes para a mim. Passo reto até chegar ao caixa e cumprimentar Blake, que, mesmo após todos esses anos, continua trabalhando aqui, assim como a maior parte do corpo de funcionários.
– Oi, Katniss – ela cumprimenta sorridente, com a mesma doçura usual.
– Oi, Blake. Como tem passado?
– Muito bem e você? Meu casamento está marcado!
– Sério?! Isso é ótimo! – Afirmo, ao passar pela bancada e ficar atrás do balcão com ela.
Uma menina, talvez 12 ou 13 anos, se aproxima do caixa balançando duas cédulas em sua mão. Essa é a minha deixa para parar de monopolizar a atendente.
– Espero te ver lá, já entreguei os convites ao Peeta. E, aliás, ele está na cozinha.
Agradeço rapidamente e me despeço, caminhando para a cozinha com odor tão agradável.
As coisas parecem agitadas. Henry, Noah e Vick estão concentrados num balcão, abrindo massas numa velocidade incrível. Jensen e Ben estão do outro lado, decorando um bolo de três andares que eu suponho ser de uma encomenda. Lazy corre de lá para cá com uma tabuleiro em mãos e tropeça em mim quando adentro a cozinha, quase derrubando o objeto que tem em mãos.
– Oh, sra. Mellark! Me desculpe! – Eu recupero o equilíbrio que perdi vagamente e vejo-a fazer o mesmo, além de atrair os olhares de todos para nós. Procuro por Peeta, somente para vê-lo limpar as mãos brancas de farinha no avental e quase correr até mim com um sorriso brilhante, mal se dando conta do que aconteceu. Assim como eu.
– Está tudo bem, não se preocupe.
– Eu sinto muito mesmo! – Diz, realmente apreensiva. Imagino que ela ache que eu vá fazer Peeta demiti-la por isso.
Dou um sorriso ao olhar para ele, que me abraça assim que chega até mim.
– Talvez eu vá fazê-la trabalhar dobrado durante uma semana para recompensar o tropeço em minha esposa, Lazy – Peeta olha duro para ela e eu quase acredito que não é uma brincadeira. A menina arregala os olhos castanhos, assustada. – É claro que é brincadeira! – Ele diz rindo comigo. – Não foi nada.
– É. Aliás, eu que deveria te pedir desculpas por quase fazê-la derrubar esse tabuleiro.
Lazy ri aliviada. Ela foi contratada há duas semanas e aparentemente é o seu primeiro emprego. Isso certamente explica tudo.
– Ai, eu achei que meu coração fosse parar!
Dou um sorriso fraco e então ela volta a correr com o tabuleiro. Finalmente me viro para Peeta, encontrando seu rosto marcado com massa de bolo e todos os seus dentes à mostra.
– É bom te ver aqui – ele diz, beijando minha bochecha e impregnando seu cheiro de baunilha ao me abraçar ainda mais forte que antes.
– É o seu dia, é claro que estou aqui! – E porque tenho algo muito, muito, muito sério para te contar. – A gente pode ir ao escritório?
Ele ergue uma das sobrancelhas.
– Isso tem algo a ver com o meu presente?
– Bem, você terá que me desculpar por não ter pensado em presentes esse ano. – Principalmente nos últimos meses.
– Não me parece vantajoso sair daqui, então – eu aperto seu braço e ele me solta para avisar a todos que "já volta". Os meninos acenam para mim antes que eu saia pela porta e siga Peeta pelo corredor.
E aí que o nervosismo volta com tudo. Eu sei que é tudo que Peeta sempre quis, mas, quando estamos a dois passos do seu escritório, sou eu quem passo a me perguntar se é realmente isso que eu quero. Precisamos garantir o futuro desse bebê, mas como o faremos? O futuro não é um poço de certezas.
De repente, estou sendo engolida por uma avalanche de desespero que não posso dar conta sozinha.
Basta eu fechar a porta da sala para que eu finalmente divida com Peeta o que tanto tem me corroído. Não só a ideia de ser mãe, mas todos os meus esquivos quando ele pergunta sobre os pesadelos, todas as mentiras e a enorme carga que estou escondendo dele, que na verdade é o seu sonho.
Falo mais rápido do que pensei que podia:
– Eu estou grávida.
É um pouco surpreendente voltar a respirar depois de nem ter notado que estava prendendo a minha respiração. Peeta para o seu caminho até a cadeira em que iria se sentar. Ele está de costas para mim, e eu percebo quando seu ombro para de mover-se.
Ele está em estado de choque porque nada diz em resposta.
Abro a minha bolsa, pego o enorme envelope, caminho gentilmente até ele e o encontro estático.
– Katniss, re-repete – ele pede, encarando o nada, mas tendo total consciência da minha presença ao seu lado.
– Eu não preciso – estendo o envelope e alguns segundos se passam até que ele o pegue.
Peeta o abre, lê o conteúdo, voltando seus olhos azuis para mim.
– Por que você fez isso sozinha? – Ele pergunta, impassível.
– Eu não tinha certeza se poderia engravidar e, quando decidi, achei melhor esperar e comecei a me consultar no hospital. E hoje quando cheguei lá o doutor já tinha certeza e me levou direto para o laboratório. – Explico rapidamente, notando o quão nervosa estou, porque todas as minhas sentenças saem numa velocidade incrível da minha boca.
Ele assente.
– É o nosso filho que está aqui? – Peeta questiona, com os olhos brilhantes ao pôr suas duas mãos sobre a minha barriga.
– É. – Isso é tudo que consigo dizer, enquanto assisto lágrimas brotarem nos olhos do meu marido à medida que ele intercala olhares entre a minha barriga e o meu rosto.
– Meu amor! – Peeta me abraça forte, a ponto de me levantar do chão e rodopiar comigo pela sala, fazendo com que eu ria contra o seu peito. – Isso é melhor do que qualquer presente que eu poderia ter ganhado hoje!
No fundo, era isso que eu esperava, porque era exatamente o que eu precisava para que todos os meus medos bobos fossem embora. A mesma certeza que tive quando lemos a carta de Annie brota em algum canto do meu peito e cresce por todo o meu corpo, e então eu abraço Peeta mais forte.
É a nossa cura.
Ele me solta rapidamente, somente para transformar sua feição estupendamente contente em uma preocupada.
– Você está se sentindo enjoada? Meu cheiro de doce te incomoda?
Eu rio com o seu nervosismo abrupto.
– Não. Pelo menos eu acho que ainda não.
Ele sorri, segurando meu rosto em suas mãos para depois se abaixar e ficar com o rosto na altura da minha barriga.
– Oi, torradinha. – Ele cumprimenta acariciando a minha barriga, cheio de amor. – É o papai aqui. Eu acabei de descobrir a sua existência e isso é como a melhor coisa que já ouvi em toda a minha vida. Porque, de alguma forma, eu já te amo desesperadamente. E eu prometo de proteger de tudo de ruim que há nesse mundo, até das coisas horríveis que se escondem debaixo da cama. Você vai poder contar tudo para mim e eu vou te ensinar a fazer biscoitos de chocolate e pães de queijo, que são os favoritos da sua mamãe. Nós dois esperamos te ver logo, torradinha.
Eu começo a chorar, porque é inevitável não chorar ao ver as lágrimas de felicidade rolarem com tanta pressa do rosto tão bonito do meu marido. Então, acabamos eu e Peeta sentados na sua cadeira chorando abraçados. De felicidade.
Não permito que medo algum recaia sobre mim, já fiz isso por todos esses meses e tudo que não preciso é continuar me mutilando dessa maneira. Peeta está aqui. Eu estou aqui. E vamos dar conta. Vamos amar esse bebê com tudo que há em nós.
– Torradinha, hun?! – Eu digo, fungando. – Não posso deixar que você chame o nosso filho assim.
– Mas esse é o melhor apelido do mundo! – Peeta afirma, com o rosto inchado por conta do choro. Eu passo meus dedos polegares embaixo dos seus olhos, limpando as lágrimas que ainda se formam ali.
– Peeta, você acabou de chamá-lo de torradinha! Você está chamando-o de pão! Um pedaço de pão torrado! – Eu resmungo, não realmente furiosa com o apelido.
– E qual o problema? Será o nosso segredo. O nosso segredo de duas pessoas e meia.
Eu rio. Depois, chego para frente para selar nossos lábios e sentir o gosto salgado deles. Quando nos separamos, eu observo os detalhes do rosto dele, e passo meus dedos pelo seu nariz, queixo, boca, sobrancelhas e olhos, vendo como Peeta faz o mesmo comigo. Ele diz, então:
– Eu espero que ele ou ela se pareça com você.
– Não, não. Ele ou ela tem que herdar seus olhos, maxilar, nariz, bochechas... – Peeta me interrompe com um sorriso.
– Talvez ele possa herdar meu maxilar e bochechas. Mas definitivamente tem que ter os seus olhos.
– Não! Os seus são muito mais bonitos!
– Você não sabe o que está dizendo.
Arregalo os olhos, fingindo estar muito inconformada.
– Como é?!
– Exatamente isso, docinho. Você não sabe o que está dizendo – eu bufo. Ele beija meus cabelos e eu fecho meus olhos, sabendo, sem qualquer dúvida, que ele está sorrindo, escondido pelo mar negro dos meus fios.
– Vou deixar passar. Estou em um dia bom. Mas eu sei que ele terá seus olhos.
Peeta segura carinhosamente meu rosto e o traz para perto; um sorrisinho brincando eu seus lábios finos.
– Você tem sorte por eu te amar tanto.
– Ah, é?! E por quê? – Desdenho.
– Porque poderíamos ter um longa discussão sobre os olhos que esse bebê irá ter. No entanto, eu estou bem mais interessado em conhecer seu médico e não deixar que você nunca mais, em nenhuma circunstância, apareça naquele consultório sem mim.
Sorrio para ele, me sentindo estranhamente feliz. É muito melhor do que eu sequer havia imaginado que poderia ser. O calor dos seus braços, o sorriso que não sai das nossas bocas, a ideia de uma vida crescendo dentro de mim. E ainda que seja a coisa mais assustadora com a qual já lidei na minha vida — e sei que será durante toda essa gravidez -, é a coisa mais extraordinária também.
– Eu não ousaria.
Peeta beija minha bochecha outra vez e diz:
– Mas você acha torradinha algo tão ruim assim?
– Você não pode estar me perguntando isso!
– Tudo bem, pode ser biscoitinho.
– Se você quer que continuemos a conviver bem, você tem que parar de tentar apelidar o nosso filho com nomes de comida!
Ele gargalha no meu ouvido, me fazendo ter certeza de que ele continuará com isso até o fim, só para me provocar.
Fale com o autor