Notas iniciais
Oi, oi, babes. Olhem quem apareceu?! Então, tudo bem por aí? Não tenho muito a dizer, somente que o capítulo passado foi um verdadeiro divisor de águas. Provavelmente decepcionei alguns de vocês, enquanto agradei muito também, mas essa é a vida, né?! ha. Enfim, a partir de agora as coisas estão mais zen. Algumas dores parecem irreparáveis, mas quando, aos poucos, elas vão reparando-se sozinhas, é uma surpresa realmente agradável. Válido também trazer à tona o clichê de que nenhuma dor é eterna, então a partir de agora estou trazendo isso para a fanfic. Mas também não esperem que tudo seja um mar de rosas daqui para a frente. As coisas apenas vão indo para os seus lugares e todo mundo estará bem recuperado às suas maneiras. Até mesmo a Katniss. Um agradecimento mais do que especial à linda Agatha Cross. Você, meu amor, foi a responsável pela injeção de ânimo que recebi esses dias e com toda certeza a responsável por esse atualização ter saído bem mais rápido que todas as outras. Obrigada mesmo! O capítulo é seu! Boa leitura, meus amores. Muito obrigada pelos comentário. Estou feliz em saber que estão gostando. Vocês são os melhores!

Quando mexo meu corpo para levantar, ele dói. Meus músculos estão contraídos e ao menor dos meus movimentos eles estalam, fazendo um barulho irritante. Eu estou tão cansada que poderia continuar na cama pelo resto da minha vida, porém, mesmo que soe tentador, não é algo que eu queira realmente fazer.

Peeta se move delicadamente ao meu lado e abraça um pouquinho mais forte o meu corpo ainda nu, enfiando seu rosto no meio dos meus cabelos. De repente, minha mente inunda com as imagens e eu rememoro todas as sensações que percorram o meu corpo e a partir desse segundo a timidez é inevitável.

Com delicadeza, me levanto, puxando o lençol que cobria nossos corpos comigo. Corro para o banheiro, tranco a porta e vou para a frente do espelho.

O que eu fiz?, pergunto a mim mesma, observando meu reflexo. A resposta vem até mim como numa reprodução de cenas que me deixa confusa.

Retiro o lençol, deixando meu corpo marcado à mostra. Movo lentamente meu cabelo bagunçado para o lado, e olho atentamente o meu pescoço. Há roxos por todo ele. E pela clavícula. E em todo o meu colo. Respiro fundo, tentando controlar chegar a alguma conclusão. Contudo, a única coisa que consigo é lembrar de tudo que aconteceu e que me trouxe até o presente momento.

Quando toco determinada área do meu seio, quase posso sentir as mãos de Peeta ali novamente. E estranhamente isso não me traz arrependimentos. Pelo contrário, afasta levemente meus receios perturbadores, ainda que não os leve por completo.

– Katniss? Você está aí?

Meus olhos fiscalizam ansiosamente cada parte do banheiro a procura do meu robe cor de fuligem. O acho e o visto rapidamente, apertando-o junto ao meu corpo.

– Espera um segundo.

As batidas na porta cessam, ouço um suspiro aliviado, e eu a abro, me deparando com Peeta. Nu. Da cabeça aos pés. Instantaneamente, ponha a mão nos meus olhos. Posso ouvir sua risadinha e ralho com ele, tentando ser o menos arrogante possível:

– Cubra-se.

– Mas, Katniss...

– Sua mão não vai cair, eu prometo – insisto.

Ele ri outra vez e eu escuto seus passos ressoarem pelo quarto, em busca de qualquer coisa que pudesse vestir.

– Ei – sinto sua presença. Ele está tão próximo de mim a ponto de eu ouvir sua respiração. – Acho que a gente tem que conversar.

Peeta segura com cuidado a minha mão e descobre meus olhos, permitindo que eu veja a calça de moletom cinza da noite anterior, o que torna tudo mais verídico. Caminho até a cama, incerta. Não consigo organizar meus pensamentos ou encaixar as peças do quebra cabeça. Aliás, parece que tudo que estou fazendo é quebrar a minha cabeça.

Sento-me no colchão macio, com Peeta ao meu lado, mesmo que um pouco distante.

– Ahn... Katniss, eu... – Ele não consegue falar, mesmo que há segundos ele tenha parecido tão bem. O constrangimento, que era para ser meu, é visível em seu rosto e também em suas mãos que mexem insistentemente em seus cabelos.

Eu e a situação presente conseguimos deixar Peeta Mellark sem palavras, o que é um fato no mínimo raro.

– Peeta – começo, tentando acalmá-lo a fim de, assim, me acalmar –, eu não tenho arrependimentos a respeito da noite passada.

Ele apenas dá um sorriso fraco na minha direção, prestes a debater.

– Você parece confusa.

– E estou. Porém, não sei ao certo o motivo.

– É arrependimento, não é?

– Não, não. Eu não disse isso – digo.

Me aproximo dele, apertando sua mão que ainda segura a minha.

– Então o que há de errado agora? – indaga, parecendo tentar me ler.

– Eu estou envergonhada, é isso. – falo de uma vez, embora eu tenha quase certeza que a minha confusão interna não seja por culpa da vergonha.

Dessa vez ele sorri.

– Não fique.

No fundo, sou incapaz de não ficar. De não corar ao me lembrar do jeito como Peeta me tocou, me olhou ou de todas as sensações que ele me proporcionou. Foi maravilhoso, essa é a verdade. A questão é que é difícil olhar para ele sabendo que agora ele me conhece tanto. Completamente.

– Você não gostou? – pergunta em determinado momento. – Eu fiz algo? Você não quer outra vez, é isso? Eu não terei problemas se você não quis... – O interrompo em seu momento de insegurança.

– Não é nada disso. Foi perfeito – sorrio fracamente, fazendo com que ele deixe de lado a ruga de preocupação que está em sua testa. – Só acho que preciso de algumas horas para ajeitar tudo na minha cabeça.

Peeta assente.

– Vou te dar seu tempo enquanto eu vou preparar alguns pães de queijo. Ainda te devo um café na cama, não é?

Com um sorriso vitorioso no rosto, respondo:

– Com toda certeza.

Ele deixa o quarto e eu me deito na cama novamente. O cheiro do que fizemos ontem continua impregnado nos lençóis e em cada parte do cômodo, sendo que nem mesmo a janela aberta com o ar quase gélido consegue levá-lo. Olho para a roupa de cama e me assusto um pouco ao ver uma manchinha vermelha.

Na altura da minha coxa, no lado da cama que é destinado ao Peeta, está uma quantidade mínima de sangue. O desconforto que senti num primeiro momento é palpável e tem uma consequência agora.

Me levanto novamente, enrolando a colcha nos braços e colocando-a no banheiro, fazendo uma nota mental de lavá-la mais tarde. No armário, pego uma limpa e estendo no colchão, aproveitando meu momento de inspiração para ir procurar um banho.

Debaixo do chuveiro, a água quente me permite pensar. Depois de tudo e do "real", é certo que assumi um compromisso. Peeta, que por muito tempo não foi minha escolha, e sim da Capital, está comigo por minha própria decisão. Eu que por muito fugi disso, estou aqui, certa de que quero ficar com ele, ainda que tenham mais flashbacks e momentos em que eu fique como uma morta-viva sobre a cama. Existirão dificuldades, mas superamos tanto que, por fim, vale a pena tentar e passar por cima outra vez. Sei que ele ainda irá querer uma família num momento ou em outro, porém, tentarei persuadi-lo e fazê-lo entender o por que da minha escolha. E eu sei que ele compreenderá.

Saio do banho, reconhecendo uma nova Katniss, por mais que o reflexo no espelho seja o mesmo de um dia atrás. As cicatrizes também são iguais. A pele. Tudo. Todavia, algo em meu âmago não é mais o mesmo.

**

– Bom dia – Peeta diz, entrando no quarto com uma bandeja que torna meu apetite ainda maior. Me ajeito na cama, como uma criança. Estou faminta e só noto ao ouvir meu estômago roncar.

– Bom dia – respondo, retribuindo seu sorriso e pegando a bandeja que ele oferece. De repente, é como se nosso dia estivesse começando só a partir dali.

Sobre a bandeja há pães de queijo, geleia de amora, biscoitos de chocolate, suco de laranja e café. Eu admiro-a, sabendo que tudo que mais quero é devorá-la.

– Você vai querer o café ou o suco?

Ele se senta ao meu lado e eu ponho a bandeja entre nós, pegando um dos pratos e dando o outro para ele.

– Suco – digo, já pegando uns pães. – Quando você comprou café?

– Greasy Sae trouxe. Ela está lá embaixo.

– Sobre isso, eu acho que deveríamos dar um descanso a ela. Nós podemos nos cuidar sozinhos, mal teremos trabalho com uma segunda casa, já que agora você definitivamente pode trazer suas coisas para cá.

Continuo comendo, tentando disfarçar a minha vergonha pelo convite que mais soa com uma intimação. Ouço o riso leve de Peeta antes dele questionar:

– Você está pedindo, num tom repleto de eufemismo, para que eu me mude para a sua casa?

Dou uma mordida no meu pão de queijo, em seguida balanço os ombros.

– Pode ser que sim.

Ele toma um gole do café, da xícara em suas mãos, com um sorrisinho cínico nos lábios.

– Vamos ter um trabalho extra hoje para trazer as roupas até aqui.

– Bem, isso não é um problema.

Mesmo porque, digo para mim mesma, há algumas peças de Peeta no meu armário. Algumas calças, camisas e casacos das noites que o impedi de ir trocar de roupa na casa dele.

– Você quer ir à estação comigo? – pergunta.

– Eu adoraria.

Já faz um bom tempo desde que eu não tenho nada a perder, então eu não me importo em aceitar seu convite de bom grado, ir e assegurar a todos na cidade que estamos juntos. Sem falar que, para toda Panem somos casados.

– Como vamos trazer tudo?

– Pelo que eu estava vendo nos últimos dias, há guardas nas estações que fazem entregas com os carros. Não custa muito e já tira um peso muito grande das nossas costas. Literalmente.

Sim, guardas. Os pacificadores foram esquecidos por conta de todo o medo que um dia representaram. Guardas assumiram seus lugares e têm bem menos "direitos" que os pacificadores tinham, tendo somente um objetivo: a segurança dos distritos.

– Outra ideia esplêndida de Paylor?

– Certamente.

Terminamos de tomar o café rapidamente, sem que tenhamos passado por um segundo com o terrível silêncio constrangedor. O que particularmente me causa uma felicidade estranha.

– Você já pode ir tomar um banho agora. Você fede a suor, farinha e baunilha. – digo, torcendo o rosto e fingindo incômodo com seu cheiro que realmente está um tanto desagradável às minhas narinas, mas não chega a me incomodar.

– Katniss, você sabe o significado da palavra sutileza? – a ironia em sua voz me faz sorrir.

– É como o que você acaba de fazer agora, certo? – pergunto, no mesmo tom que ele usou. – Ao me chamar de grossa desse jeito totalmente implícito?! Ou devo dizer sutil?

Nós dois rimos e ele se levanta, mas eu o impeço ao chamá-lo, sem conseguir me conter.

– Posso perguntar uma coisa? – ao questionar, sinto as maçãs do meu rosto esquentarem.

Ele olha para mim, parecendo curioso. Porém a única pessoa que está curiosa nesse quarto sou eu.

– Claro. O que é?

– Ahn, bem... como você sabia de tudo aquilo? – digo de uma vez, antes que eu mude de ideia e não satisfaça minha curiosidade.

Enquanto eu sabia tão pouco sobre tudo que aconteceu, Peeta estava certo sobre. E desde ontem à noite eu venho fazendo essa pergunta para mim.

Eu havia matado alguma aula na escola onde falavam sobre isso? Se foi o caso, eu não tenho a menor ideia.

Ele volta a se sentar e então sorri de lado.

– Eu tive irmãos, lembra? E eles falavam. Muito. Ainda que na maior parte do tempo eu não quisesse escutar. Patch tinha uma namorada, inclusive.

Um "ah!" escapa pela minha boca e eu assinto. Peeta continua me olhando com um sorriso um tanto envergonhado e como se esperasse que eu perguntasse mais alguma coisa.

– Era só. Se eu falar mais alguma coisa posso explodir de vergonha em algum momento – admito.

Ele se inclina para dar um beijo na minha bochecha e então diz:

– E só para você saber, Katniss: você foi a minha primeira e única. E sempre será, se me permitir.

Então ele segue para o banheiro, me deixando zonza por um minuto. Inconscientemente, coloco a mão no rosto, na região onde seus lábios estiveram e sorriso. Eu nunca irei admitir que gostei disso.

Aproveito o momento vago para colocar uma roupa e levar a bandeja vazia para a cozinha. Encontro Greasy Sae e digo a ela para voltar para casa, e tirar o dia dessas tarefas absurdas que consistem em cuidar de mim e da minha casa. Insisto que estou bem e assim, ela vai. Telefono rapidamente para minha e depois de muito embaraço pergunto a ela o que faço para evitar a possível gravidez. Ela me fala sobre alguns, na verdade vários, métodos contraceptivos. Quando volto para cima, Peeta está no meio do quarto só de cueca, fazendo com que eu me vire para a direção a oposta.

– Acho que deveríamos conversar sobre essa coisa de nudez. E nudez parcial.

Coro, pois nem em um milhão de anos me acostumarei com isso. Nem depois de ontem, nem com uma conversa e nem nunca. Ouço quando a calça passa pelas suas pernas e se apoia em algum canto na hora de passar a perna com a prótese.

– Pode virar – ele diz e eu o faço, o encontrando pela segunda vez no dia apenas de calça. Mas essa é um jeans escuro. – Eu iria me trocar no banheiro, só vim aqui pegar uma roupa, mas como você não estava no quarto...

– Eu percebi. É só que, sabe... Eu...

– Não precisa explicar. Entendi – responde, pegando a sua camisa vermelha de algodão que está sobre a cama.

Meus olhos pairam sobre o seu peito desnudo e, agora, à luz do dia, vejo as cicatrizes espalhadas por todo ele. Porém, não só no peito. Pelos braços também. Algumas mais grossas que outras e todas numa quantidade que eu acredito ser grande demais. Aperto os olhos, sabendo que boa parte delas foram feitas quando ele esteve sob custódia da Capital. Sob custódia de Snow. Pois as minhas da guerra não são assim e nem tem um padrão. São um pouco mais finas também, apesar de determinadas partes do meu braço discordarem.

– Ahn, Katniss, só para garantir. Você sabe que viu ontem, não é?

Demora uns segundos para que as palavras formem uma sentença compreensível para mim.

– Vi o quê?

Olho para o rosto de Peeta e vejo sua sobrancelha erguida. E aí eu entendo.

Abro a minha boca, em puro espanto e vergonha.

– Não! Quer dizer, sim, ou talvez... – me enrolo exacerbadamente. – Escuta, estava escuro, à noite, eu estava caindo de sono. Eu não vi nada! – protesto como uma criança, arrancando uma gargalhada dele. – Não ria! – pego um escova de cabelo que está no móvel próximo à porta onde me encontro e jogo em Peeta, que põe a mão no braço, no local onde o objeto o atingiu.

– Ok, ok. Você não viu nada. Eu sou um idiota.

– Você é mesmo – afirmo, fazendo birra. Peeta vem até mim com seus olhos de cachorrinho e eu o ignoro, fazendo com que ele me abrace forte. – Pode me soltar. Você não me merece.

– Ah, é mesmo?! Então também não me procure – ele diz, entrando na brincadeira, me soltando e caminhando na direção oposta àquela onde estou. Eu dou um sorriso e o abraço por trás, espalmando minhas mãos em seu peito.

– Você ainda é um idiota – digo, minha voz saindo um tanto embolada por conta do meu rosto enfiado em suas costas.

– E mesmo assim você disse real.

Solto uma gargalhada, sem ter mais nada a dizer, e vou para a frente do espelho do banheiro fazer uma trança no cabelo. Peeta pega um casaco preto que está num cabideiro e me dá a minha jaqueta. Prontos, descemos as escadas juntos.

Estou pronta para perguntar sobre as obras na padaria, contudo a frase morre nos meus lábios abertos em surpresa.

– Cheguei, crianças – é Haymitch. Desde quando ele invade a minha casa? Tudo bem que eu vivo fazendo isso com ele, porém eu tenho motivos.

Peeta se vira para Haymitch.

– Ei, cara!

– O que você está fazendo aqui essa hora? – questiono, sem nem me dar o trabalho de cumprimentar. Sei o quão agitada estou e conheço perfeitamente a razão pelo qual.

Penso na noite passada e na ideia de Haymitch saber o que aconteceu. Penso na possibilidade de uma próxima vez e de Haymitch entrar aqui de supetão, como acaba de fazer. E esse é o real por quê.

– Garoto, acho que você não fez um bom trabalho ontem. Ela provavelmente deveria estar com um ótimo humor agora...

Meu rosto deve estar em um tom de vermelho sangue, talvez até mais escuro. Como ele sabe? Como sabe o que aconteceu?, me pergunto, olhando para Peeta que está tão desacreditado quanto eu.

Meus medos tomam forma na minha frente. Haymitch sabe e ele não irá sossegar nem mesmo depois que eu dizer "chega!" um zilhão de vezes. E eu quero bater nele por isso. Por saber. Realmente quero. Desfigurar seu rosto, se possível.

– Sabe, docinho, eu ouvi você ontem à noite. No meio da madrugada ouvi um sonzinho agoniado. No mesmo instante fiquei pensando o que poderia ser. Até que levantei e vim para frente da casa. Aquela janela do seu quarto é a porta do inferno! Sabia que qualquer um num raio de 5 quilômetros poderia ter escutado seus gemidos? Que qualquer um poder ter ouvido de camarote a diversão de vocês?

Me agarro a Peeta, desesperada. Afundo meu rosto em seu peito tentando a todo custo dar sumiço ao constrangimento acentuado que toma conta de mim.

– E você, garoto – agora ele se volta para Peeta –, eu também ouvi. Muito mais do que gostaria, aliás.

Eu não sei mais onde enfiar a minha cara. Pior do que Haymitch saber das minhas intimidades, é ele comentar sobre. Bem na minha frente. Se eu pudesse morrer de vergonha, eu morreria. Agora.

– Vocês estão bem calados agora. Deveriam ter tentado essa proeza nessa madrugada também.

Ele sempre foi inconveniente, isso é incontestável, porém os limites dessa vez foram para o espaço. E não tem essa de se pôr no lugar, porque Haymitch podia ter guardado para ele e ter ido para o quintal que é do outro lado da casa. Assim, não existiria motivos para reclamação alguma.

Sei que estou prestes a perder as estribeiras.

– É uma péssima hora, Haymitch – diz Peeta, andando comigo até a porta.

– E vocês acham que tem uma boa hora depois da péssima noite de sono que tive?

– Cala a boca! – é tudo que digo, arrastando Peeta comigo para a porta e deixando a minha casa — e Haymitch — para trás. – Eu não quero nem tocar nesse assunto – me dirijo a ele, inconformada.

– Beleza. Mas uma única pergunta – o olho furiosa, mas mesmo assim ele continua. – Foi tão alto assim?

– Cala a boca! – repito.

**

Depois de ir ao Edifício da Justiça resolver questões sobre a reconstrução da padaria, vamos à estação e pagamos para que enviassem todas as doze caixas enormes para a casa de Peeta, a qual teríamos que organizar para poder empilhar as caixas. Pessoas nas ruas vez ou outra nos olham e cumprimentam, como se fôssemos grande coisa. Eu retribuo, ainda que sejam poucas as vezes em que um sorriso se forme nos meus lábios.

No fim da tarde, após ir até a casa de Delly por insistência de Peeta, optamos por voltar para a Vila pelo caminho mais longo e passar pela Campina. Esta, está verde e florida, sem parecer o cemitério que realmente é. Eu admiro a diversidade de flores sem hesitar em perder-me nelas.

– Está incrível. Mais bonito que nunca.

– Daria um ótimo quadro – afirmo. – Há quanto tempo não pinta?

– Cheguei a rabiscar algumas coisas no 13 e teve o bolo do Finnick e da Annie, mas desde então nada. Ou seja, são meses sem chegar perto de um pincel.

– Talvez você deva mudar isso.

Caminhamos lentamente, de mãos dadas, observando tudo com atenção. É tão claro para mim, agora, que voltar a ser feliz não significa esquecer ou abrir mão das pessoas que amei e perdi. Prim ficaria radiante por mim. Como Rue. Ou Cinna. Ou meu pai e o próprio Finnick.

A poucos metros de distância de onde estamos, avisto um dente de leão, junto a poucos outros que florescem pelo perímetro, junto às flores que crescem envolta, as quais eu reconheço como Iris. São flores brancas e que, como os dentes de leão, representam esperança.

Peeta segue a direção na qual meu olhar está preso e solta a minha mão, caminhando até o local e retirando com delicadeza as flores do gramado. Um único dente de leão e uma única Iris. Sorrio para ele quando se volta para mim e para na minha frente.

– Vou fingir que são para mim – digo, olhando-as e rindo para ele.

Ele suspira por um instante e eu não posso imaginar o que vem a seguir.

– Katniss – Peeta diz, estendendo as flores –, faz muito tempo desde que tenho certeza do que sinto por você. E ontem isso apenas se autenticou com uma força ainda maior. Porque a verdade é que eu te amo, sempre amei e sempre irei. Embora você, às vezes, diga que não é o melhor para mim, eu sei que posso decidir por mim mesmo – nos seus olhos, todo o sentimento que ele passa através das palavras apenas se torna mais intenso. A essa altura, algo no meu estômago se remexe. Tudo que sei é que eu ainda sou uma garota, eu ainda preciso disso. Desse doce romance que só vem dele. – Você é o mais próximo do paraíso que sempre estarei. E se você quiser, eu quero recomeçar. Dessa vez sem Capital e sem ninguém no meio de nós. Sem obrigações, sem jogos.

Eu sei que estou tremendo no momento em que pego as flores e nossas mãos se tocam.

– Você aceita namorar comigo. Real ou não real? – ele pergunta e uma lágrima solitária cai pelo meu rosto. E com a mesma facilidade da noite passada e no mesmo frágil sussurro eu respondo, agarrando Peeta e as flores em sua mão:

– Real.

Notas finais
"Iris" é uma música do Go Go Dolls. Aliás, é uma das minhas músicas favoritas no mundo inteiro! Leiam a letra, é fantástica e tem uma frase dela no capítulo. Espero que tenham gostado e sim, tá beeeeem romântico, mas acho que pelo fato da Katniss ser uma heroína a gente esquece que ela também é só uma garota de 17 anos e precisa sim de romance. Bem, é isso. Obrigada por todo apoio, pelos favoritos, por TUDO! Nos vemos em breve. @lwrenci ask.fm/lwrenci