What Comes After [HIATUS]
10 Capítulo 8, "Fall to Pieces" - Parte II
Notas iniciais
– Katniss? – ouço o chamado distante. Tudo o que consigo pensar é na foto que está nas minhas mãos.
O bebê que repousa num berço azul é envolvido por cobertores da mesma cor. Os olhos grandes estão abertos, deixando-me ver que são terrivelmente verdes. A pequena quantidade de cabelos que começa a nascer tem tons de castanho claro; quase loiro. Suas bochechas são rosadas e a única coisa que posso dizer com convicção é que se trata de uma criança linda. Um ícone de beleza. Como o pai.
Corro meus dedos pelo rosto do bebê, murmurando para a foto um pedido de desculpas que sai de minha boca inundado pelas lágrimas.
Não ligo para Greasy Sae. Saio da sala vacilando, esbarrando nos móveis e me enrolando nos meus próprios pés. Percebo que tropeçar em mim mesma tem sido comum. Evito ligar esse último pensamentos às metáforas que vêm como ondas na minha direção. Afinal, consigo chegar no meu quarto e me jogar na cama. Mesmo assim, nada muda. Ainda é como se um peso descomunal estivesse sobre meu corpo.
Por que a dor tem tanto prazer em se fazer presente?
Meu choro é abafado pelo travesseiro. Não sei por qual motivo, mas estendo meu braço esquerdo deixando que a fotografia fique à mostra e bem diante dos meus olhos. Acho que é mais fácil desfazer-me em culpa e dilacerar-me desta maneira, porque de alguma forma sei que nada nunca vai poder retirar por completo minha compunção.
Esse é o território que eu não quero atravessar. E, levando em consideração que venho fugindo dele em todos os dias da minha vida, isso é claro. Talvez seja porque lá tudo parece plúmbeo, escuro e enfadonho. Bem como o meu estado em geral, que pode ser adjetivado com as mesmas características do território que tento escapar nesse segundo.
Quando tenho ciência de que já estou começando a perder o controle e a mim mesma, uso o jogo que vem sendo meu melhor amigo há algum tempo.
Necessito ficar estável. Saber quem eu sou, ainda que eu não saiba.
"Comece com algo simples. Comece com coisas que você sabe que é verdade."
Meu nome é Katniss Everdeen. Eu vivo no Distrito 12. Eu matei Finnick Odair. Ele teve um filho. Um filho que agora irá crescer sem pai e a responsabilidade é toda minha. Por que não podia ser eu no lugar dele? Por que eu tinha que propagar tanto a faísca e elevá-la a níveis supremos? Eu sou mesmo assim? Tão ruim a esse ponto?
Refaço a última pergunta centenas de vezes. Continuo deitada na cama estática, vendo a felicidade que senti em algum momento do dia dissipar-se conforme cada incômodo segundo é contabilizado no relógio. Acredito que minutos tenham se passado, porém descubro que na verdade horas foram embora desde que comecei a chorar com a foto de Finn.
É só quando Peeta entra no quarto e me circunda com os seus braços que eu sei que fui envolvida pela minha redoma de dor mais tempo do que gostaria. Me agarro a ele como se fosse a própria personificação do meu débil e último fio de esperança, embora eu saiba que ele realmente é.
Em questão de segundos, passa a restar uma vil linha tênue entre minha sanidade e loucura certa.
– Sabe o que eu vi quando voltei à cidade? – noto que se trata de uma pergunta retórica. E, ainda que não fosse, se dependesse de mim Peeta não obteria uma resposta. – Sorrisos. Depois de tudo que a gente já presenciou, acho que sorrisos têm um valor bem maior. E ver vários deles, das centenas de pessoas que já voltaram para o 12... foi revigorante. Você, Katniss, tem autoria sobre isso – diz com sua voz mais carinhosa. – Já que insiste em se culpar por tudo aquilo que na verdade era inevitável, se culpe também pela felicidade que abrange todas as pessoas que vivem em Panem agora e para todas aquelas que irão viver. Houve perdas lastimáveis? É claro que sim. Porém acho que é nossa obrigação não permitir que elas tenham sido em vão.
Logo as lágrimas diminuem, e dessa maneira o choro acaba se esvaindo por completo. Quase não percebo pois meus olhos se fecham por causa do sono. Antes de apagar, consigo ver e sentir Peeta ajeitar nossos corpos na cama e retirar a foto da minha mão.
– Obrigada. Por tudo. – balbucio no segundo que antecede a minha inércia.
**
Pisco algumas vezes até finalmente acordar. O que avisto logo de cara é um sorrisinho leve no rosto da pessoa que descansa ao meu lado e afaga meu cabelo.
– Você ainda está aqui – digo em meu tom mais cansado, bocejando após minha fala.
Meu músculos estão moídos, totalmente relutantes em relaxar. Como se já não fosse o bastante, eu me sinto fraca, não só externamente como também internamente. Só uma caminhada na floresta poderá afugentar completamente essa sensação desagradável que possui meu corpo. Para ser honesta, sinto vontade de caçar outra vez.
– Eu ainda gosto de te ver dormir – sinto um pequeno rubor tomar conta das minhas bochechas e desvio o olhar de Peeta. – Você ainda não perdeu essa mania, não é? Acho que devia começar a se aceitar mais.
Posso ouvir sua risada leve depois e então arranjo forças para olhá-lo outra vez.
– Quem devia perder alguma mania aqui é você – protesto. – E eu acho sinceramente que você deveria escrever um livro de auto ajuda. – sem deixá-lo responder à brincadeira, me lembro de algo que fez parte dos meus pesadelos até mesmo durante o meu breve cochilo. – Onde está a foto?
Noto que minha voz está mais séria. Até mesmo meu corpo fica enrijecido diante da minha pergunta. Ele faz um carinho gentil em meu rosto para então falar.
– A salvo na gaveta.
Suspiro antes de dizer:
– Eu realmente ponderei sobre o que você disse mais cedo, e acho que vai me ajudar muito se eu passar a enxergar tudo de modo diferente. É bem mais fácil na teoria, mas acredito que já posso, pelo menos, tentar começar a pôr em prática – sorrio. Ele me olha um tanto curioso e eu apenas pego o livro da minha família na cabeceira.
Peeta pega uma caneta e me entrega. Ele não tem dificuldade alguma em entender o que quis exprimir.
O livro sempre baseou-se em pegar os horrores que passamos e transformá-los em algo que possa nos deixar contentes quando olharmos para trás. Em vez de abrir uma página em branco, eu folheio todos os desenhos, fotos e escritos, contemplando tudo que já fizemos até agora.
Lady lambendo a bochecha de Prim. A risada do meu pai. O pai de Peeta com os biscoitos. A cor dos olhos de Finnick. O que Cinna poderia fazer com um pedaço de seda. Boggs reprogramando o Holo. Rue suspensa na ponta dos pés, braços levemente estendidos, como um pássaro prestes a levantar voo. Assim por diante.
Há também uma última primrose, desde que Peeta parou de cultivá-las, preservada entre as páginas. São pedaços estranhos de felicidade, exatamente como seria a foto filho recém-nascido de Finnick e Annie quando nós a colocássemos ali. Em minha caligrafia mais cuidadosa, escrevo todos os detalhes sobre aquela família e sobre as expectativas que tenho para aquele bebê. E leio tudo que está concebido nos papéis.
Admiro esses fragmentos de felicidade que agora deixam claro o motivo pelo qual ainda estou aqui. Meus olhos cravam nos azuis de Peeta e fazemos um pacto que cabe àquele simples olhar. Então nós selamos as páginas com água salgada e prometemos viver bem para fazer com que nossas perdas tenham valido a pena.
– Além de ver vários sorrisos, o que mais você fez na cidade? – digo sarcasticamente depois de guardar o livro em seu devido lugar.
– Assinei papéis. Alguns só vão ficar prontos ao longo da semana. Mas, em geral, não houve muita burocracia. Acho que eles ficaram com medo de que eu quebrasse tudo ou ficasse maluco caso dissessem não. Os boatos não demorariam a correr do 13 para cá.
– Bem, é aí que está a serventia do telessequestro.
Damos risada.
Percebo que há uma maneira mais suave e fácil de lidar com tudo. Brincar, entender que não há volta, fazer piadas como Haymitch deixa esse ar azedo menos amargo. É o que decido nesse momento, sabendo que Peeta está comigo nessa. Ele sempre esteve, de qualquer forma.
– Quando poderá reconstruir?
– Estou esperando o alvará que sai em cerca de cinco dias. Só assim poderei fazer qualquer coisa, você sabe. Esse sim é o maior empecilho no momento.
Mesmo que haja esse estorvo momentâneo, eu sorrio com o feito e com os acontecimentos em geral.
– Eu sei muito pouco sobre isso, porém algo me diz que um documento como um alvará normalmente leva mais que cinco dias para ficar pronto – falo incerta, erguendo a minha sobrancelha em dúvida.
– Essa é a tal da serventia do telessequestro – ele usa minhas palavras dando um sorriso de canto. – É brincadeira. A verdade é que a Capital está pedindo para as prefeituras liberarem esse tipo de documento rapidamente para que a vida possa voltar ao normal depois de tudo. Estão tentando refazer os comércios dos distritos o mais rápido possível.
– Paylor está governando bem – comento.
Vislumbro um fio de esperança. Esse único fio que veio com a foto de Finn e agora com a padaria. É a ele que devo me agarrar. São essas pequenas coisas que agora soam como um grito de encorajamento para mim. Nosso caminho para a auto destruição parece estar se desfazendo aos poucos.
– E sobre o jantar? – há certa malícia, por conta da aposta vitoriosa, quando repuxo meus lábios em um sorriso e faço a pergunta.
– O que acha de cortar as cenouras?
– Só se você prometer fazer o melhor cozido de carneiro já registrado em Panem.
Ele sorri para mim, pondo as pernas para fora da cama e me levando junto.
– Com sorte eu posso não fazer o pior.
**
– Eu vou ligar para Effie. Você dá conta disso sozinho? – indago com uma desconfiança ridiculamente zombeteira, deixando de lado a colher com a qual mexo o cozido.
– Não, é claro que não! Aliás, é provável que tudo esteja um caos quando voltar – diz com desdém, agora zombando de mim.
– Sendo assim, você poderá se divertir bastante limpando toda a cozinha mais tarde – pego um punhado de sobras dos legumes que estão perto de mim e jogo em Peeta. Antes que ele possa revidar já estou longe do alcance de sua visão.
Na sala, é fácil encontrar Effie na pequena lista que tenho de números de telefone. Não é tarde; não passa das 19:30. E como na Capital tudo costuma fluir até de madrugada, não hesito em discar os números.
Quem me atende é uma criatura controlada demais para ser a acompanhante que um dia conheci.
– Effie? – não posso dizer que não achei estranho o comportamento mais sutil. Acredito que isso aconteceu depois da estadia no 13 e com as privações impostas na própria Capital desde então.
– Minha vencedora! – ela reconhece a minha voz e eu já posso ouvi-la esbaforida. O vocativo me causa arrepios até no pé porque tudo que remete aos Jogos me dá uma enorme agonia, contudo não posso me dar ao luxo de me jogar nos braços da fraqueza outra vez. – Admito que estou surpresa com a ligação. Está tudo bem?
– Bem melhor do que eu imaginava há uns meses atrás. E como andam as coisas na realeza? – não posso evitar fazer a comparação. Por mais que tudo tenha passado, é inevitável não sentir desprezo por aquele lugar que por tantos anos se divertiu à nossa custa e nos fazia de meros súditos.
– Com toda certeza é bem melhor que aquele lugar monótono e sem cor alguma. Estou tão feliz em poder ter minhas roupas de volta! É claro que quase todos os bons estilistas estão em falta, mas eu consigo me virar. E as festas também não acontecem mais com tanta frequência, mas é uma escassez suportável. Você devia vir algum dia desses.
Sei que é impossível eu ir até a Capital para uma festa por vontade própria, e é por isso que procuro focar em todas as outras frases.
Eu fico feliz pelo bem estar dela. Consigo até sentir sua falta. Effie sempre significou muito e sempre se importou demais, apesar disso acontecer à maneira dela. É possível ver que ela mudou muito e ainda permanece a mesma.
– É bom saber disso – afirmo, fazendo uma pausa antes de continuar. – Eu queria te perguntar uma coisa. É mais como um favor, para falar a verdade.
– É só dizer, Katniss. Não há nada que eu não faria pela minha vitoriosa.
– Peeta vai reconstruir a padaria. Tudo está certo, mas ele está começando do zero. Precisa de fornos, tabuleiros, ladrilhos, mesas e até mesmo alguns condimentos que por hora estão em falta aqui. Como não tem como organizar uma viagem até aí, a gente queria saber se você conseguiria mandar todas essas coisas para o 12.
– Oh, Katniss, é claro que sim! Eu vou mudar todo o meu planejamento de amanhã e vou atrás de tudo! Mas preciso de uma lista mais específica.
Organizada do jeito que era, eu já podia imaginar Effie fazendo várias e várias anotações sobre as compras, procurando na sua memória os lugares que deveria ir, montando os horários que levaria em cada loja.
– Eu vou chamar o Peeta, me dê um segundo.
Estou prestes a largar o telefone e ir fazer o que disse, entretanto ouço Effie questionar efusiva:
– Ele está com você?
Ruborizo absurdamente quando dou uma resposta afirmativa. Ainda não consigo lidar muito bem com o que quer que tenhamos.
Caminho em passadas largas até a cozinha e chamo Peeta. Troco de lugar com ele e prometo ficar responsável pelo jantar até que ele volte. O vejo quase correr para a sala de tanta animação.
Quando retorna, quase 10 minutos depois, está extasiado.
– Effie disse que tudo estará aqui em menos de 2 semanas. Não é ótimo?!
– É fantástico – digo assumindo toda a sinceridade que há em mim.
– Ela parece mudada. Mas não posso evitar me perguntar qual é a cor da peruca desta vez.
– Talvez algo como vermelho sangue. Imagino que, depois do 13, tudo que ela mais queira na vida é cor. De preferência vívida e fluorescente – ele concorda num aceno de cabeça.
– Mas, eu não sei... Acho que dessa vez não vão haver muitos exageros.
A frase soa quase como uma piada para mim.
– Nem tente se enganar. É a Effie. Independente de estar mudada ou não, teremos que mandar milhares de coisas de volta.
É aí que tomo consciência de que, talvez, dr. Aurelius esteja certo. A solução é agir normalmente e me deixar surpreender quando as coisas finalmente forem para os seus lugares ou quando eu sorrir outra vez. Em alguns momentos, exatamente como esse aqui, eu acredito que a vida não é tão ruim quanto já foi.
Meus sorrisos têm vindo com mais facilidade do há muito tempo. As últimos lembranças que tenho de sorrisos espontâneos são com meu pai. Com Prim. Com Gale na floresta.
Esquivo do pensamento imediatamente. Gale tem uma linha tão forte com minha irmã que pensar nele significa lembrar dela. E tudo que eu não posso fazer é lembrar da minha irmãzinha. Não quando minhas memórias nesse caso têm a ver com seus últimos segundos de vida.
– Bem, acho que já está pronto – Peeta anuncia, e eu pulo da cadeira onde estou sentada para começar a pôr a mesa.
Estou colocando os pratos quando escuto uma batida na porta e largo o que estou fazendo para ir atender. Não sei por qual motivo, mas é o rosto de Gale que me vem à mente nos segundos que levo para ir até a porta.
– E aí, queridinha. O que teremos para o jantar? – Haymitch sai entrando. Assim, sem mais nem menos. Não faço ideia do por que do seu abuso não me irritar como deveria. De repente é porque é apenas o Haymitch sendo Haymitch.
– Nossa, Haymitch, boa noite pra você também – digo, usando toda a ironia que posso.
Vejo que ele já está bem melhor que antes e tenho certeza que é o motivo é inevitável escassez de bebidas. Era para ele estar um caco, mas acontece justamente o contrário. De qualquer modo, logo, logo ele voltará a um dos seus comas alcoólicos, já que o próximo trem chega em três dias. Até lá, seu hobbie serão os gansos.
Chegamos à cozinha em silêncio e Peeta cumprimenta o convidado com um aceno de cabeça.
– Haymitch, está sendo difícil segurar as piadinhas para com o meu curativo? – Peeta indaga fazendo graça depois que nosso ex mentor o encara durante algum tempo. Especificamente para o corte coberto.
– Você não sabe o quanto! – ele suspira. – Me diz, garoto, qual é o rango?
Cerro os olhos na direção dele que retribui meu olhar fulminante com escárnio. Ele já não vai comer de qualquer jeito?! Saber o que tem para comer ou não saber, não muda nada. Puf.
– Cozido de cordeiro!
Haymitch ergue as sobrancelhas para Peeta e depois seu olhar crava no meu rosto. Então ele se volta para Peeta novamente.
– É, amigo, você não poderia estar mais ferrado. Ela te tem nas mãos.
Calo-me por míseros instantes, incerta sobre o que direi a seguir. Parece tão errado o modo como as palavras saem de modo quase cortante da boca de Haymitch ou como minha doce prepotência não se preocupa com o fato.
Quase me envergonho, quase. Entretanto, honestamente, não posso fingir que não sou soberba. Não posso fingir que isso não faz bem para o meu monstrinho da vaidade e do orgulho.
– Só para a sua informação, Haymitch, foi uma aposta. E adivinha só, ele perdeu!
– Perdeu, é?! Pra você? Qual era a tal aposta, docinho? – ele, que já está com os cotovelos sobre a mesa, apoia a cabeça nas mãos, me fazendo imaginar quantos puxões de orelha Effie direcionaria a ele caso visse a cena.
– Você tinha que dizer que ele era o melhor cozinheiro de todo o Distrito. Como você admitiu, eu ganho café na cama e cozido de carneiro durante uma semana inteira.
– Que mancada, garoto! Seria fantástico vê-la perder.
Lanço um dos meus piores olhares na direção dele, e depois olho para Peeta, vendo-o com um sorrisinho que julgo idiota nos lábios.
– Seria fantástico mesmo, porque se ela perdesse teria que parar de te provocar – ele sorri cúmplice. – Da próxima vez eu dou um jeito de avisar. Nem que seja por sinal de fumaça – os dois riem e tudo que sinto é uma vontade de bater neles. Bem, eu ganhei, certo? Poderiam respeitar, ao menos?
Provavelmente estou com um bico enorme na cara quando Peeta fala:
– Eu não acredito que você tá irritada!
– Vocês dois são uns idiotas. Odeio vocês – rosno, sabendo que, em partes, nem eu mesma estou me levando a sério.
É claro que realmente estou brava e que poderia sim bater em ambos, mas não consigo ficar enfurecida e não tenho ideia do motivo. Apenas parece inviável demais sentir algum ódio concreto pelas pessoas que se preocupam verdadeiramente comigo.
– Eu não deveria, mas vou admitir que foi justo. Ela estava certa – Haymitch diz e eu, que estou sentada numa das cadeiras com os braços cruzados sobre o peito, apenas sorrio de lado. – Mas fica ciente, queridinha, você nunca mais vai escutar isso.
**
– Não! Não! Não! Por favor, não! – imploro, aos prantos. Não posso nem mesmo pensar em fingir ser destemida, porque eu não sou. Não mais. E enquanto Coin me obriga a apontar flechas na direção de Prim, minha mãe e mesmo meu pai, eu choro, esperneio e xingo coisas que não distingo. Contudo, é só quando ela vê não pode me manipular a ponto de eu fazer isso é que ela faz por si só.
Três flechas certeiras em três corações.
Quando crianças entram na roda e exigem uma quarta flecha direcionada à mim é que, num baque, eu sinto o calor dos braços de Peeta em torno de mim. A textura, os seus dedos correndo pelos meus braços e cabelo. É disso que preciso para ter certeza de que foi apenas mais um dos meus pesadelos.
– Shh, shh, está tudo bem agora. Você está bem – ele move minha cabeça para o seu peito, deixando que eu me aconchegar.
Como de costume, eu não falo nada por alguns bons minutos, para que eu consiga me recuperar dos danos. Peeta respeita meu silêncio, e acredito que ele entenda o que eu digo em cada um deles. Ele apenas fica ali, sabendo o quanto preciso de sua companhia nesses momentos.
– Como você consegue? – questiono, fungando um pouco.
– O quê? – ele responde suavemente, olhando para mim.
Depois que Haymitch foi para casa, eu fui lavar toda a louça do jantar. Era o mínimo que eu poderia fazer considerando que não cozinhei. O inconveniente foi o que aconteceu quando voltei para sala.
Peeta estava agarrado às costas de uma poltrona, com os olhos apertados e com as veias da mão e da testa quase saltando. Não levei muito tempo para ligar os pontos e me dar conta de que se tratava de um flashback. Não entendi por que aconteceu nem o que acionou, somente fiquei estática na porta esperando que passasse.
Ele se manteve forte durante os minutos que decorreram e aí o prazo esgotou, ele olhou para trás e me viu. Uma lágrima escapou de seus olhos azuis e eu corri para o abraçar. Foi a minha vez de dizer que estava tudo bem.
Quando subimos, Peeta estava revigorado, como se nem mesmo tivesse acontecido. E era esse o assunto em pauta no momento.
– Você sabe. Se refazer dessa maneira. Ter esses flashes e agir como se não tivesse. Ou ter perdido sua... – deixo a sentença morrer, pois sei o quanto pode ser doloroso falar sobre isso. Sei que, por experiência própria, um tiro pode doer menos.
– Eu acho que a questão é olhar para as outras coisas quando a dor vier. Enxergar o outro lado e lembrar só das coisas boas. É mais fácil lidar com a dor da saudade que com a da perda.
– Aparenta ser uma boa teoria, mas por que parece mais fácil quando dita assim do que quando posta em prática? – questiono mais uma vez. Ecoa de um modo tão complicado, inalcançável e árduo.
Peeta olha nos meus olhos firme, sem hesitação quando afirma:
– Porque é. Às vezes é difícil até mesmo lembrar que há uma possibilidade, senão aquele que estamos acostumados. Então a gente acaba indo na direção contrária, acaba fazendo aquilo que dizemos todos os dias que não faremos... e depois a culpa só aumenta. Mas, sabe, chega uma hora que passa. Chega uma hora que os clichês começam a fazer algum sentido.
Assinto diversas vezes, concedendo uma autorização calada para que suas palavras, mais uma vez, penetrem em minha cabeça e fiquem por lá. Ajuda na maior parte do tempo.
Ele me abraça forte e é aí que seus lábios tomam forma sobre os meus, para afugentar toda a dor de uma vez. Nos primeiros segundos nós apenas o mantemos juntos. Contudo, eu estou tão grata pelo que ele fez e por aquilo que sempre faz que movo minha boca, o incitando a fazer o mesmo.
Sua língua serpenteia pela minha boca e eu não consigo fazer nada que não seja consentir ou mesmo ficar à mercê. Retribuo a mesma necessidade que há por parte dele no beijo e sinto um tipo de frio na barriga, que torna-se mais intenso no segundo em Peeta percorre sua mão do meu braço até minha cintura. Em vez de fugir do seu toque, fico de lado, me arrumando nessa posição que parece melhor para mim. Ele faz o mesmo. Minha mão corre pelo seu pescoço até que finalmente meus dedos estejam nos fios de sua nuca.
Pode ter começado por conta da minha gratidão, porém a certeza que tenho é que agora já não é só ela que está aqui.
Um curtíssimo espaço de tempo passa e o beijo precisa ser cortado, pois já não há mais fôlego para nenhum de nós. Eu olho nos olhos dele que provavelmente refletem a intensidade que há nos meus e aí que retomamos o beijo.
De repente, sinto aquela mesma quentura já conhecida nascer pelo meu corpo. Vem fazendo parte da minha rotina experimentar essas sensações pelo corpo sem saber o que fazer com cada uma delas, sabendo somente que elas tem a ver com uma necessidade daquilo que só posso ter de uma pessoa.
Não sei ao certo o motivo, contudo aproximo mais nossos corpos, ocasionando assim o afastamento de Peeta de mim no mesmo instante.
– Eu fiz alguma coisa? – pergunto, surpresa e um tanto assustada, realmente sem entender o que diabos acaba de acontecer.
– Não, claro que não – diz, ofegante. – Não é nada, vamos dormir – sussurra, beijando a minha testa e voltando a deitar-se com as costas no colchão. Me arrumo também e ele inclina o corpo para que eu possa me apoiar nele e pegar no sono.
Quero questionar, pois realmente preciso saber o que aconteceu agora, entretanto sei que não posso; que não é certo. Ele que respeita tanto o meu espaço merece que eu faça o mesmo, apesar de eu estar quase determinada a agir de outra maneira.
Eu ultrapassei algum limite que eu nem mesmo sabia da existência? Bem, eu estou começando a acreditar na ideia. Fecho os olhos frustrada e espero o sono chegar. Odeio estar de mãos atadas.
**
Eu levanto cedo, a ponto de acordar antes de Peeta. Não estou particularmente feliz, contudo sou capaz de sentir o cheiro das árvores que existem na floresta e isso acaba de dando uma injeção de ânimo. Estive lá há quatro dias atrás depois de meses longe, e, afinal, tenho ido todos os dias pois me faz lembrar quem eu era e dá um impulso para que eu possa saber quem eu sou.
Dentro desses cinco dias que passaram, tudo anda estranhamente melhor. Em uma dessas noites, durante o jantar, Haymitch veio mais uma vez sem ser convidado, a diferença é que havia uma surpresa. Ele pediu pelo nosso livro de memórias e depois de folhear começou a falar.
Ele finalmente se juntou a nós, contribuindo com 23 anos de tributos que ele foi forçado a ser mentor. O que, provavelmente, foi um dos pontos altos da semana.
Tiro a cabeça das nuvens, visto minha roupa de caça e pego o casaco do meu pai que já voltou do Distrito 13 há algumas semanas. Desço para preparar o café e finalmente ir à floresta, voltando a alguns velhos hábitos.
No meio do café da manhã, quando estou com uma xícara de chá quente em mãos e pães de queijo do dia anterior, Peeta aparece, me dá bom dia e senta para tomar café comigo. Não diz muito, mas não é preciso. Hoje é o dia em que sairá o alvará. Os materiais da construção já começaram a chegar e estão começando a amontoar o quintal.
– Não é do seu feitio ficar calado assim. Inclusive, está começando a me assustar – digo alguns minutos depois, chegando ao meu limite. Eu gosto do silêncio, realmente gosto, mas esse é incômodo.
Estou tão acostumada a conversar durante o café da manhã que essa mínima troca de palavras torna-se insuportável.
– Algo está me dizendo que vou chegar lá e irão me arranjar um milhão de desculpas para dizer que o documento não está pronto, que algo está faltando... há esse pessimismo absurdo agora e eu não sei o que fazer – diz e eu coloco a minha mão sobre a sua, que está em cima da mesa um tanto trêmula. Sorrio para ele.
– Você sempre me diz que eu tenho que ver o lado bom de tudo e acreditar nesse mesmo lado bom. Por que não deixa essa agonia pra lá e vai à prefeitura tendo a certeza de que tudo estará certinho como deve ser?
Os papéis dessa vez estão invertidos e eu estou surpresa. Comigo, não com Peeta. Eu tenho essa terrível mania de estar para baixo e contagiar todo mundo ao meu redor a entrar nessa minha bolha quase masoquista, porém, desde o conselho dele, é como se eu conseguisse ver o dente-de-leão na primavera outra vez.
E agora, minha obrigação é contagiar Peeta dessa maneira.
– Você vai ter que me consolar se nada der certo.
– Eu te devo isso.
Ele começa a ficar menos angustiado e conversamos como deveríamos conforme o café da manhã segue. Por fim, saímos juntos e seguimos caminhos contrários. Eu para a floresta, ele para a cidade.
Quando passo pela cerca, adentro sem medo e passo a me embrenhar por entre as árvores, me sentindo quase uma delas por conta da familiaridade. O verão está só começando, embora pareça estar presente há dias. Num pedaço de tronco oco, encontro meu inseparável arco e flecha feito pelo meu pai.
Minhas botas fazem barulho sobre as folhas e na copa das árvores consigo ouvir o farfalhar delas. Aqui e ali estão alguns pássaros. Aqui e ali existem tordos.
Não é preciso caçar, eu sei perfeitamente. Entretanto eu ainda prezo uma boa caça fresca. Do mesmo modo que Greasy Sae, Peeta e Haymitch. Então não hesito na hora enfiar uma das minhas flechas num coelho.
Por um segundo tenho remorso. Noutro eu já estou pensando em como ele ficará delicioso num cozido. Os animais selvagens estão por aí devido a atual estação, por causa disso meus olhos e ouvidos estão mais apurados que estariam se as coisas estivessem em outro estágio. E ainda que eu tenha competição, eu me saio bem. Pego um coelho, dois esquilos, algumas raízes e frutas.
Bem melhor que ontem, penso. Nas minhas recentes idas à floresta não faço muito além de rememorar meus tempos ali e até me remoer um pouco. Quase não sobra tempo para caçar, porém, ainda assim, alguns animais praticamente pararam para me dar oi e simplesmente pediram por um flecha no corpo. Ou no olho, para ser mais específica. O que sem dúvidas eu concedi.
Hoje, decido ir até o lago, onde eu almoço e lembro da refeição que tive com Bonnie e Twill. Faço um pequena fogueira para cozinhar as raízes e um dos esquilos. Como também algumas frutas vermelhas e quando vejo, estou nadando no lago. Sentindo a água molhar minhas roupas íntimas e metade da minha trança.
Absorvo a beleza do lugar e relaxo, deixando a pureza da água cristalina me contagiar.
À tarde, no instante em que o sol já está se pondo, eu pego minhas roupas e as visto. Passo pela cerca outra vez, sabendo o quanto estou parecida com a antiga Katniss agora, exceto por uma ou duas coisas que se alteraram com o passar do tempo. Como o rumo que meus pés tomam. Antes, a direção seria o Prego, para comutar grande parte da minha caça, mas agora é apenas uma casa ampla na Vila dos Vitoriosos.
Não demoro para chegar. Não é longe. Nunca foi. E qual é tamanho da minha surpresa ao avistar Gale parado na minha porta?, me pergunto.
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