What Comes After [HIATUS]
26 Capítulo 23, "Photograph"
Notas iniciais
— Você engoliu um dinossauro? – Johanna inclina a cabeça, analisando a minha barriga. Depois ela vira a cabeça novamente. – Parece que engoliu dois.
— Johanna! Tinha esquecido como era bom ser agraciado com seus comentários inapropriados. – Peeta vem para o meu lado na porta e sorri para a mulher loira na nossa frente. Eu abro espaço para Johanna, e ela tira a mochila das costas, para logo depois jogá-la no sofá.
Há dois dias ela ligou, apenas para anunciar que iria passar uma semana aqui. O que foi surpreendente, considerando que da última vez ela simplesmente apareceu na porta, sem qualquer aviso prévio.
— Aposto que Haymitch vai ficar ainda mais feliz que você. – Digo para Peeta, sem abaixar minha voz, vendo Johanna sorrir de modo presunçoso ao escutar minhas palavras. Ela e Haymitch ficaram muito próximos quando notaram que curtir com a minha cara era o passatempo preferido deles.
— Ah, coitadinha. Você chegou mesmo a cogitar que eu fosse te dar mole só porque você está parecendo um barril? Nada disso! Eu gosto de você agora, as coisas só vão piorar.
Eu bufo sem muita vontade, pois, para ser sincera, é bom tê-la aqui.
— É melhor você se comportar, a minha mãe está de visita.
— Eu acho que é melhor vocês dois se comportarem. Imagina só ela presenciando o que eu presenciei. – Johanna apoia-se nas costas do sofá, arqueia a sobrancelha e se volta para nós. Troco um olhar rápido com Peeta, que tem um sorriso carregado de diversão na boca, esperando pela pérola que ela soltará. – Dá para fecundar um segundo bebê no meio da gestação desse?
Tenho dificuldade em acreditar, mesmo de longe, que ela possa estar falando sério. Ela nunca foi uma ignorante. Rolo os olhos e lhe dou as costas. É assim que a nossa relação funciona.
Caminho para a cozinha, ciente de que não há jeito melhor de lidar com esse tipo de visita. Na geladeira, eletrodoméstico que ainda na semana passada chegou da Capital — um presente de Paylor, que anunciou o fim de seu mandato -, e busco a jarra de suco de frutas preparada por Peeta.
Estando na vigésima primeira semana da gravidez, todos ao meu redor parecem à beira de um surto de ansiedade, embora eu tenha a sensação de estar passando por dois. Além de aguentar o inchaço do meu corpo, meus pés que aparentam ser três, a dor na coluna e mais um milhão de incômodos. Minha mãe, inclusive, veio do Distrito 2 quando eu ainda estava no quarto mês gestacional, o que desde então tem rendido uma rotina que me sufoca: café da manhã, ioga — apesar da carga horária ser minúscula -, sofá, paparicos, novecentas refeições – e a maior parte delas é peixe — e nenhuma permissão para respirar sem que alguém cheque a pureza do ar antes.
Algumas vezes, com sorte, consigo convencer minha mãe a caminhar pela Vila comigo, já que, por experiência própria, as chances de ela me deixar fazer isso sozinha são nulas. Quando esse milagre acontece, eu gasto quase um tubo de protetor solar nos meus braços e rosto. Já Peeta tenta ficar em casa o máximo que pode, o que quase sempre torna as coisas mais suportáveis, porém a demanda de pedidos na Padaria deu um salto assustador nos últimos meses, exigindo mais dele. E o terapeuta que passamos a frequentar, por indicação do Doutor Art, disse que era melhor voltarmos à rotina; que era importante Peeta não se afastar do trabalho. Com isso, tudo que faço é me dar broncas mentais ao cogitar pedir que ele se ausente, ainda mais porque ele teve que abrir mão disso durante mais de um mês para ficar de olho em mim depois do susto que tivemos com o descolamento do saco gestacional.
Por outro lado, Haymitch não pede por uma garrafa de aguardente há meses e só faz assumir o papel de babão de Peeta quando este não está de em casa. Ainda que seja uma vitória ter meu ex mentor sóbrio, é absurdamente estranho saber que ele tem enchido o quarto da minha filha com bichinhos, acessórios, cadernos para rabiscar — apesar de ele insistir que é para colorir, enquanto eu digo que o mais provável é que ela enfie os gizes na boca -, e bonecas. Há uma coleção interminável nas prateleiras e armários.
A presença de Johanna em um momento como este traz, finalmente, a ideia longínqua de liberdade. Embora, vez ou outra, meu estresse tome proporções tão catastróficas que eu tema pela segurança de qualquer um que ouse pisar no meu calo — ou mesmo me dirigir à palavra no momento errado. E Johanna é, de todas as maneiras, essa pessoa.
Me sento à mesa para tomar o suco, antes que alguém venha me lembrar que tenho que me manter hidratada e ingerir vitaminas, sentindo meu corpo dar sinais de cansaço. Coisa que, reconheço, piora meu humor até levá-lo a um ponto onde eu mesma tenho dificuldades de me suportar.
— E aí, como você está funcionando agora que é duas? – Viro o rosto na direção da porta, vendo a mulher loira sorrir.
— Parece que eu não funciono e alguém precisa fazer isso por mim.
Johanna procura por um copo e, ao achá-lo, se serve do suco e senta-se em uma cadeira em frente a mim. Eu me mantenho desinteressada, balançando meu próprio copo, sentindo um comum enjôo.
— Você tá com cara de quem está muito na merda.
— Experimente virar o centro do mundo de todos que estão a sua volta.
Ela sorriu cínica.
— Ah, você já deveria estar acostumada a essa altura. A revolução te preparou para isso.
— Ao menos quando eu era o Tordo não tinha ninguém verificando a cor do meu xixi todas as vezes que eu ia ao banheiro.
Ela sorri.
— Não brinca!
— Minha mãe está agindo como de fosse o meu médico. E, por sinal, ela tem tido conversas bem duradouras com ele todas as vezes que tenho que ir à clínica. É um verdadeiro inferno, parece que a qualquer momento eu vou asfixiar tamanha essa proteção desnecessária. Mal consigo me lembrar da última vez em que estive sozinha para fazer algo que eu gostaria de fazer. – Nem mesmo noto que despejei tudo que sinto sobre Johanna. É só quando ela se senta decentemente na cadeira e olha para mim que me dou conta.
— Já falou com ela? Ou com o seu marido bonitão? – Ergo a sobrancelhas ao ouvir a referência dela a Peeta. – A idade fez muito bem a ele, eu não fiquei cega.
— Eu acho que surtei, duas ou três vezes. Mas todo mundo me ignorou, dizendo que são os hormônios da gravidez. Depois disso desisti. Peeta está ficando louco com a padaria, que não para de crescer. Então eu tento não preocupá-lo muito, ele já está com os nervos à flor da pele desde que eu tive um quase-aborto.
— A questão é que você tá exausta. Você precisa relaxar um pouco, esquecer que virou uma mini baleia, e tirar um tempo para vocês dois. Você mesma disse que o Peeta está nervoso com tudo isso, por que ficar se martirizando então em vez de fazer alguma coisa pra mudar isso?
Fico alguns poucos segundos pensando sobre a proposta, até chegar à conclusão de que Johanna está certa. Além do mais, Peeta é o único que vai entender o que está passando comigo.
— Uhn... Obrigada. – Digo, me levantando.
— Isso não vai sair barato não. Estou louca para andar por aí, essa coisa de ficar dentro de casa não funciona para mim. Não me importo se você está grávida ou não, amanhã você vai andar comigo por todo o Distrito. Soube que tem um centro bacaninha por aqui.
Dou um sorriso fraco para ela antes de sair da cozinha, querendo agradecê-la outra vez por isso. Sei que ela vai arrumar um jeito de driblar minha mãe. E Haymitch.
Subo as escadas, procurando por Peeta. Não acho ele no nosso quarto, nem muito menos no ateliê, o que me leva a descer outra vez e ir atrás dele no escritório. E lá está ele, com a cabeça enfiada em papéis, uma caneta trabalhando agilmente e uma ruga em sua testa.
— Peeta? – Chamo, com uma doçura que muita das vezes não me é comum.
— Ei, meu amor. Precisa de alguma coisa? – Ele, num gesto automático, larga tudo que está fazendo para voltar sua atenção para mim. Eu ando vou até ele, quem está sentado na cadeira de couro preta que há ali, e seguro sua mão.
— No momento, você.
Peeta sorri para mim, segurando minha cintura e me puxando para o seu colo.
— Como você está? – Ele indaga baixinho, ao beijar meu ombro.
— Eu sinto sua falta. Eu não queria ter que dizer isso, mas no último mês você tem estado tanto na padaria... Os nossos horários mal batem. Você chega de noitinha, e é nesse horário que minha mãe me dopa para que eu consiga dormir. E aí o final de semana chega e parece que há tanto para ser feito. A gente nem tem conseguido conversar. – Envolvo a sua nuca, percebendo enfim como era bom estar assim com ele novamente. O cheiro dele, os fios macios do cabelo, as carícias intermináveis em momentos como esse. – Eu amo quando você traz flores, chocolate, ou algo para a torradinha, e eu vejo como você tem se desdobrado para conseguir fazer tudo, mas eu estou me sentindo sufocada e só consigo conversar com você. E Haymitch, mas ele não conta mais, porque a nossa filha é tudo que ele enxerga quando olha para mim.
— Ah, meu bem. – Ele sussurra, segurando minha trança, com um olhar terno que, mesmo após tantos anos, ainda mexe com o meu estômago. – Eu sinto tanto. Eu não queria ter me afastado de modo algum, e nem ter sido tão displicente com relação aos seus desejos. Eu vou chegar mais cedo agora, tentar trabalhar menos. Acho que o pedido do Doutor Marcus me afetou um pouco, ainda mais porque sua mãe está aqui para suprir meu tempo longe e Haymitch ama te paparicar. Eu te amo tanto. Me desculpa.
Peeta está, tão genuinamente, mal com o que acabei de despejar sobre ele, que eu acabo sentindo certo pesar por ter soado dessa maneira.
Deixo meus dedos correrem pelo seu rosto, e beijo sua testa, olhos, nariz e bochecha, apreciando os arrepios que provoco nele com o meu toque. Quando meus lábios estão rente aos seus, murmuro:
— Você não tem com o que se desculpar, eu deveria ter deixado tudo às claras.
— Eu deveria ter estado mais presente para você.
— Você esteve, eu só não estava acordada na maioria das vezes. No entanto, ainda consigo te ver debruçado sobre a minha barriga de madrugada. E quando tenho um pesadelo aqui está você. – Bico seus lábios rapidamente antes de prosseguir. – Você está nos bons e maus momentos sempre, só não com a frequência de antes. Mas a gente pode trabalhar nisso.
Ele sorri e aperta com cuidado o meu quadril ao me envolver com seus braços.
— Você está tão emotiva, meu amor. Eu definitivamente vou ficar em casa para presenciar isso mais vezes. Eu não vou desgrudar de você por mais um segundo sequer. E se em algum momento você precisar de mim e eu estiver fazendo qualquer outra coisa, lembre-se de que nada é mais importante que você e a nossa filha. Eu troco o mundo inteiro por vocês duas. Desculpa se não venho demonstrando isso como deveria. Desculpa, desculpa, desculpa.
Peeta me beija e um calafrio, que tem início em minha espinha, percorre todo o meu corpo, fazendo com que eu estremeça em seus braços.
Com cerca de um mês de privação de um contato mais duradouro e intenso com ele, é no mínimo reconfortante e animador estar aconchegada no peito de Peeta; sendo agraciada com seus beijos, sentindo suas mãos sempre tão gentis, e ouvindo sua voz baixa que insiste em declarar seu amor por mim.
De súbito, a leveza toma conta de cada uma das minhas células. Não engordei cinco quilos, não tenho dificuldade de andar, ninguém está me dizendo o que fazer. O mundo todo, nesse momento, reduziu, até que só restasse nós dois.
— É muito melhor te abraçar e te beijar quando você está acordada.
— E tem que ser. Seria um tanto assustador você fazer isso enquanto estou dormindo.
— Você não sabe nem da metade! – Eu rio, adaptando minha feição até que eu pareça a pessoa mais cética do planeta.
— O que você tem omitido da sua esposa rechonchuda? – Em resposta, Peeta gargalha no meu pescoço, eriçando todos os pelos que possuo.
— Ah, nada que nos leve a um tribunal.
— Eu espero que sim.
— Algumas noites acordo por conta dos pesadelos e não consigo voltar a dormir. Como eu não iria deixar você sozinha no meio da noite, eu fico acordado te vendo dormir. É um ótimo exercício. Inclusive me faz cochilar esporadicamente também.
Fico calada por cerca de três segundos para, enfim, fazer a pergunta óbvia, que possui uma resposta mais óbvia ainda.
— Você tem tido episódios do telessequestro?
Peeta aperta os lábios um contra o outro, hesitando por algum tempo. Contudo, ele é incapaz de desviar o seu olhar do meu, o que só confirma o que já sei.
— Eu não quero te preocupar. Muito menos agora.
— Droga, Peeta! Quando você começou a esconder as coisas de mim? – Minha voz aumenta algumas oitavas. Então eu acabo segurando o rosto dele, trazendo-o para mim outra vez, sem nem um pingo de raiva.
A mão dele, quase automaticamente, passa a acariciar meu pescoço, à medida que seu braço me envolve com maior veemência. Tenho a impressão de que ele quer me impedir de sair pela porta em um rompante. Não que eu ao menos tivesse cogitado isso, de qualquer forma. Não quero que haja qualquer espaço entre nós, nem muito menos impor isso, mesmo sem querer.
— Eu não posso encher sua cabeça com problemas agora. E, além do mais, não há nada a ser feito. Você sabe como isso funciona. Os flashes vêm e vão. – Peeta, com suavidade, beija meu ombro, com certeza achando que isso amenizará o meu estresse momentâneo ou mesmo o levará para o espaço. Por pouco não funciona.
— Mas eu gostaria que você me dissesse como está se sentindo, gostaria de ser acordada no meio da noite se isso significasse te ajudar ao menos um pouco.
— Eu compreendo isso, Katniss. Mas você não pode achar sinceramente que eu faria isso. Eu jamais iria te acordar no meio da noite para falar sobre o telessequestro. Ainda mais num momento como esse, que você tem andado tão cansada...
Interrompo, num ato brusco, sua declaração.
— Está vendo?! É isso que quero dizer desde que cheguei aqui! É isso que falamos há dez minutos! Você tem estado com tanto medo de que meus transtornos pós-traumáticos voltem, meu estresse seja acionado, que isso faça mal para mim e a nossa filha, que não percebeu que tem me isolado. Mas isso não é justo, Peeta! Eu tenho horário para beber água, não possa andar nem pela Vila sozinha, não posso caçar... sequer posso arrumar a casa! Não há nada que eu possa fazer sem que minha mãe, Haymitch, ou até mesmo você não ache que seja um risco para o bebê. Então como posso estar cansada?! Você deveria estar. Tudo que sinto nesse momento é sua falta, falta da minha liberdade. – Despejo tudo grosseiramente dessa vez, muito diferente de antes. Nos afastamos por um mês e, de súbito, parece que um milhão de coisas não ditas decidiram criar uma barreira entre nós.
Só agora consigo ver Peeta; nem parece que olhei nos seus olhos durante todo o meu discurso, pois sua feição em completo alarde, o maxilar retraído, o rosto contorcido em culpa e um transtorno que nunca lhe foi comum me pegam desprevenida.
Ele não fazia ideia de como eu me sinto enclausurada, na mesma medida em que eu nem desconfiava do retorno usual do telessequestro.
— Amor... – Peeta me abraça forte, pondo sua cabeça na curvatura do meu pescoço. – Eu não sabia. Me perdoa. Eu nunca quis que você se sentisse presa, nem sufocada. Eu sinto tanto.
Envolvo suas costas com os meus braços, cheia de devoção, tornando inexistente qualquer espaço entre nós, vendo qualquer resquício do meu estresse ebulir. Quero xingar o nosso terapeuta com todos os malditos palavrões que conheço, e depois a nós dois por termos permitido que alguém interferisse no nosso relacionamento que está sólido como rocha há dezesseis anos.
Eu não estou mais furiosa. Estou com vontade de não largar mais o meu marido e entrar com ele na nossa bolha reclusa do resto do mundo. Apenas eu, ele e a nossa filha.
— Vamos sair, ok? Vamos esquecer esse mês, esquecer tudo o que aconteceu, e deixar você respirar outra vez, tá legal? – Abro um sorriso maior que eu ao escutar o que ele diz. Me afasto dele para olhar para o seu rosto e garantir que escutei direito, pois eu sabia que quando Peeta colocava alguma coisa na cabeça, seu poder de persuasão entrava em prática até que ele conseguisse o que queria.
— A gente poderia ir ao lago, ou...
— Meu bem, você já está abusando. Você não vai entrar na floresta, grávida de cinco meses, no meio do inverno com um arco e flecha, e um leigo ao seu lado.
— Então tá, bonitão, qual é a sua ideia?
Ele sorri sacana.
— Bonitão?
— Palavras da Johanna, não minhas.
— Então você não me acha bonitão?
Retribuo o seu sorriso.
— Não jogue esse jogo comigo, Peeta.
**
Não foi a tarefa mais simples do mundo convencer a minha mãe, porém depois de um logo discurso, um almoço, e trocentas recomendações, conseguimos deixar nossa casa.
A cidade parece descansar em uma calmaria que, há muito, lhe é comum. Conforme caminhamos até a padaria no meio dessa tarde gelada, são poucos os aventureiros que vemos pelas ruas. O comércio aos domingos é fechado mais cedo, e, no que diz respeito ao inverno, o horário de fechar as portas aqui no 12 diminui ainda mais.
Quando chegamos à padaria, entramos pelos fundos e eu tiro, com pesar, meu braço das costas de Peeta.
— Tudo bem irmos para a cozinha? Eu quero que você experimente um chantilly que fiz. – Ele estende a mão, dois passos a minha frente, e eu a pego porque não quero me soltar dele. Peeta então passa a me guiar pelo corredor estreito.
— Eu preferia ficar atrelada a você no escritório, mas você pode me engordar um pouco mais. – Ele se vira por um instante, me mostrando o sorriso bobo que acabou de nascer em seus lábios. Meu estômago passa a ter vida própria quando isso acontece, e novamente, me sinto uma adolescente. A adolescente apaixonada que não tive a oportunidade de ser quando tive idade.
— Você estava com tantas saudades assim? – Adentramos a cozinha, e eu logo me sento em uma das banquetas de acrílico preto que estão espalhadas por ali. Não porque me sinto cansada, mas sim porque eu preciso ser mimada por Peeta.
Preciso que ele venha até mim, me encha de beijos, cozinhe ao meu lado, deixe-me experimentar absolutamente tudo que suas mãos hábeis preparem, e, principalmente, não permita que nossos corpos se separem mais que alguns centímetros.
— São os hormônios. – Eu digo, dando de ombros. Depois que descobri que "hormônios" são as desculpas perfeitas para tudo, não existe um único momento que eu não use a meu favor. – E a torradinha. Sentimos sua falta.
Peeta termina de amarrar seu avental e pôr uma touca em sua cabeça, para se pôr entre as minhas pernas e segurar meu rosto com toda a delicadeza do mundo. Posso ver como as lágrima começam a se formar em seus olhos por conta das minhas palavras. Agora ele se culpa mais por ter seguido o conselho do nosso terapeuta.
— Eu vou ficar na padaria ao longo da semana por meio período. Eu não vou sair do lado de vocês, tudo bem? Vocês vão cansar de me ter por perto. – Ele diz, com sua mão em minha barriga, conforme faz um carinho no local. Peeta se agacha, até que fique na altura do meu abdômen, e dá na representação clara dos meus cinco meses de gestação. – Torradinha, eu te amo. Vou continuar lhe dizendo isso todos os dias da sua vida, para que você saiba que sempre estarei aqui por você. Você e a sua mamãe são as melhores coisas que já aconteceram comigo, e eu amo as duas com todo o meu coração. Não esquece disso, princesinha.
Suspiro baixinho, sentindo as lágrimas formarem-se nos meus olhos.
Ele se levanta e dá um singelo beijo na minha bochecha, pegando o tal chantilly, o qual eu como com gosto e não poupo elogios. Quando Peeta pergunta se quero algo em particular, a sentença “torta de melancia” sai antes mesmo que eu note. Eu me entretenho observando tudo que ele faz, bebendo sucos e perguntando sobre a receita ou qualquer amenidade, apenas o incitando a falar.
Assim que ele põe a torta no forno, caminha até um rádio que eu nunca percebi que tinha ali e deixa que uma música sem letra preencha a quietude do ambiente.
A música não é agitada, tampouco é lenta demais. É gostosa de se ouvir; é o ritmo perfeito, que eu adoraria escutar nos momentos em que sou obrigada a ficar trancafiada dentro de casa. É o instrumental perfeito para embalar o momento em que aceito o convite de Peeta para uma dança.
Foram poucas as vezes em que fizemos isso, no entanto, pensando bem, em quase todas as ocasiões em que dançamos foram minutos incríveis. Minutos em que estive contente demais; boba demais para me deixar levar pelos seus passos e por qualquer que fosse a trilha sonora de fundo — fosse ela nossas respirações, ou acordes de um violão.
Eu não tardo em envolver seu pescoço com minhas mãos, mexendo no cós da touca que ele usa. Em contrapartida, seus braços me envolvem e Peeta passa a girar comigo pelo espaço da cozinha, indo o mais devagar a cada rodopio, para não provocar enjôos em mim. Nós então passamos a nos mover de um lado para o outro apenas, sem fazer questão de arriscar nenhum outro passo.
— Você pode me guardar em um dos bolsos do seu robe, para me manter perto o tempo todo até que volte para casa. – Eu sorrio para ele, impressionada com a capacidade que Peeta tem de me tirar o fôlego depois de todos esses anos. Passo meu polegar pelo rosto dele, vendo como sua boca se arrasta pela beijar meu dedo com doçura.
— Vou te guardar dentro do camafeu que você me deu, bem perto do meu coração que é onde você está. – Eu murmuro, já acostumada com os momentos em que me derreto para ele. Em que sinto tanto amor por Peeta que quase machuca e sou obrigada a pôr para fora de algum modo.
Enquanto um de seus braços aperta suavemente minha cintura, sua mão passeia pelo meu ombro, escorregando pelo braço, cotovelo, até que chegue a minha mão em seu pescoço. Ele a segura e, em seguida, afasta de maneira quase imperceptível nossos corpos para fazer com que eu dê uma volta. A música continua a fluir por toda a cozinha sonolenta, enquanto nós dançamos e dançamos até que o cheiro da torta invada o ambiente e Peeta vá tirá-la do forno.
Eu volto a me sentar, lembrando, com nitidez, dos anos tortuosos pelos quais passei para conseguir chegar aqui; chegar a um ponto da minha vida onde o sossego é mais intenso que qualquer pesadelo, medo ou dor. Não é como se todo o horror tivesse ido embora com um piscar de olhos — mesmo porque eu sei que irá embora nunca -, mas é quase como se as coisas fossem mais simples e menos dolorosas. Então eu aprendi a aproveitar cada segundo quando tenho uma oportunidade como esta: de ser feliz.
— Amor, aguenta só mais um pouco para que a torta possa esfriar.
Eu torço os lábios.
— Você não disse que tinha torta de damasco? – Pergunto, desejando com todas as minhas forças enfiar o meu rosto na travessa. Minha filha claramente não iria perdoar no quesito comida.
— Tem sim, você quer? – Peeta tira a luva térmica de sua mão e olha para mim, vendo-me assentir. Ele então caminha até uma das geladeiras e tira de lá a bendita torta. Eu pego um prato e um garfo, já salivando.
Quando ele põe uma fatia na minha frente, eu quase pulo em cima, tamanha a vontade que, de repente, nasceu em mim. No instante em que como o primeiro pedaço, eu faço careta.
Peeta obviamente nota.
— Está ruim?
— Não. É só que tá faltando alguma coisa.
Ele ergue uma das sobrancelhas, pegando um garfo e pondo um pedaço em sua própria boca.
— É a mesma receita de sempre. Você adora. – Eu quase posso ouvir a dose de ressentimento em sua voz. O problema é que eu não estou questionando os dotes culinários inquestionáveis dele. Eu estou é sofrendo com mais um dos desejos insanos da menininha que descansa em minha barriga.
— Creme de cebola!
Os olhos azuis dele me examinam, e Peeta faz a mesma cara de sempre. "Você não pode estar falando sério", ele diz no silêncio.
— Creme de cebola?
— É. Eu quero creme de cebola.
— Com o quê?
— Com a torta, Peeta. – Eu digo, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Ele se levanta sem contestar e começa a pegar os ingredientes para dar vida ao meu pedido.
Eu belisco a torta vez ou outra, mas só a como novamente quando, trinta e cinco minutos depois, meu marido traz um potinho com creme de cebola e põe na minha frente. Ele se senta ao meu lado e eu ignoro sua careta quando ele ver eu derramar com vontade o creme sobre a torta.
— Quer? – Ofereço, com a minha boca cheia, para provocá-lo. Os meus desejos gestacionais causam refluxos em Peeta. E em qualquer um que esteja perto.
— Não, meu bem. É tudo seu.
Duas fatias depois, eu estou radiante. Não sobrou um gota do creme de cebola. E enquanto Peeta desenforma e decora a torta intocada de melancia, eu lavo os pratos. Ele me põe a par dos pedidos da Padaria, da encomenda de um buffet de casamento para o Distrito 8, tudo sem tirar um sorriso enorme do rosto. O que me afeta.
Depois, eu acabo dizendo sem pensar:
— Quando eu me despedi da Effie... Quando eu e Haymitch voltamos ao 12... – Me enrolo, sem saber ao certo o que vou dizer; aonde quero chegar. – Effie me pediu para prometer a ela que eu iria encontrar uma coisa.
— E que coisa era essa? – Ele larga a espátula com chantilly para me dar atenção. Eu ponho a última colher que faltava no escorredor e viro também.
— A vida de uma vitoriosa.
— E você encontrou?
— Eu nunca tinha entendido o que ela queria dizer. Mas, bem aqui, nesse exato momento, eu acho que compreendi, porque eu jamais me senti tão vitoriosa quanto agora. – Ele sorri, limpa as mãos no avental e dá alguns passos na minha direção, até que possa me abraçar.
— Eu poderia te beijar agora, se não fosse por esse cheiro de cebola.
Eu rio, segurando o rosto dele para encostar seus lábios nos meus. Ele se afasta minimamente.
— Como você se atreve? – O olho séria e nós nos encaramos antes de cair na gargalhada, sem nenhum motivo aparente. Peeta me abraça ainda mais e, logo depois, sorri antes de me beijar com carinho, não dando a mínima para o terrível hálito de cebola que eu admito carregar.
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