Notas iniciais
Oi, oi, oi! Demorei outra vez, mas dessa eu tenho uma desculpa convincente: provas. Minha escola é dessas que uma prova baseada no ENEM com 110 questões é, tipo, em março. E aí as provas da escola são em abril. E isso todo bimestre, então eu sumi mesmo. Eles não têm pena não, galera. Sinto muito, obviamente. Eu me desliguei totalmente das redes sociais, meu notebook tá quebrado, meu celular tá com problemas e eu só estou postando porque entrei de férias ontem e já fugi logo para a casa do meu pai. Olha, peço perdão mesmo por esta situação e agradeço imensamente a todos vocês que não me deixaram, apesar dos apesares. O capítulo está aí e eu espero que gostem. Se tudo cooperar, próximo capítulo virá BEM mais rápido que este. Enjoy!

— Não, mãe, não quero nada, só preciso descansar o almoço. – Eu digo, quando minha mãe vem me conferir pelo que parece ser a centésima vez . Por mais que eu tente me acostumar com o fato de ser tratada como uma doente em terminal, só fica mais árduo com o tempo.

Ela deixa o quarto, a porta recostada, e eu volto a respirar. Com as minhas costas apoiadas na cabeceira da cama, passo a olhar o relevo do meu corpo; minha companhia de todos os dias. Ponho a mão sobre a minha barriga, prestes a conversar com ela, totalmente disposta a começar um diálogo unilateral. E então eu sinto.

Fico estática por um segundo. Dois. E depois mais, para então ela fazer de novo.

Não é minha imaginação. Não pode ser. Não duas vezes seguidas. Abro a minha boca, fecho, minhas mãos tremem, no entanto não as tiro do meu ventre.

Respiro fundo.

E ela chuta outra vez.

Meu coração bate mais rápido, meu estômago revira, não consigo fazer nada além de continuar sentada sobre a cama em choque. Parece que pela primeira vez me dou conta de que ela é real. Ela é de verdade. Minha filha é mais do que um relevo sob os meus seios, mais que enjoos matinais, dores nas costas, sorrisos chorosos por parte do meu marido. Ela é de carne e osso.

E eu não posso lidar com isso.

Minha respiração está descompassada, estou lutando para levar oxigênio aos meus pulmões, só que é como se todo o ar do mundo tivesse ido para bem longe. Nada do que passei me preparou para este momento e para o pânico que estou sentindo, que está me consumindo por cada nervo.

Engasgo com a minha própria saliva. Não dá para respirar, eu não consigo. Me esforço à medida que tusso, várias e várias vezes. O que está acontecendo? Tudo está girando.

E minha filha chuta outra vez.

Minha mãe aparece no quarto, e corre até mim. Eu, com certeza, estou deplorável. Chorando, engasgando, tremendo, ainda que estática, olhando para o nada.

Minha mãe massageia as minhas costas e me dá o copo de água que está sobre a cabeceira, o qual eu tinha esquecido completamente da existência. Eu bebo só metade do conteúdo, pois o copo cai da minha mãe.

— O que está havendo?! Filha, Katniss, o que houve? – Não respondo. Há quanto tempo, aliás, ela está perguntando isso? Ou sou apenas eu delirando?

Depois, tudo é um zumbido ensurdecedor; o tempo passa embaçado pelos meus olhos.

Outro movimento e eu já não posso aguentar. As lágrimas descem grossas e eu grito com a minha filha:

— Pare! PARE! PARE COM ISSO!

O quarto está vazio, acredito. Estou respirando. Tem um serzinho respirando dentro de mim. É demais para aguentar, eu não consigo.

Não dá para ir em frente. Não quando minha própria vida, a vida da minha filha, não é de minha total responsabilidade e as pessoas possuem um tipo de desejo compulsivo pela obliteração da humanidade.

O que eu vou fazer? Onde eu estava com a cabeça?

Percebo, então, o óbvio: eu não sou capaz de cuidar de ninguém, às vezes nem de mim.

Uma bebê, que precisará da minha atenção vinte e quatro horas. E que será jogada nesse mar de complicações que é a minha vida. E possivelmente terá um final como o de todos que me cercam.

O meu choro chega a minha boca e se mistura com o gosto de sangue. Estive mordendo meus lábios e sequer notei que abri um deles. É uma mistura que me faz querer vomitar.

Está de noite lá fora? A pouca claridade vinda das janelas diz que sim.

Peço baixinho a ela, minha filha, que vá embora, vá para longe, porque não sou boa para ela. Não posso ser sua mãe. Eu não posso vê-la morrer por minha causa como Prim, Rue, Cinna, Boggs, Finnick e tantos outros. Eu não posso ver minha filha sendo tirada de mim e certamente é isso irá acontecer, porque nada é certo. Que garantia tenho de que um bando de imbecis não se reunirá em uma sala daqui a alguns anos e decidirá um novo jogo macabro para acalmar a população? Basta votarem. Basta dizerem que sim. E então ela irá embora.

Ela precisa ir antes. Ela não pode continuar. Ela precisa ir.

Meu nome é Katniss Everdeen. Meu lar é o distrito 12. Minha filha corre risco de vida somente por existir. Ela não pode existir, ela não pode vir até aqui. Eu só quero fechar os meus olhos e acordar sabendo que este é um pesadelo ruim.

Repito isso mais vezes do que posso contar. Perco a noção do espaço e da hora, me mantenho rolando na cama, com o olhar focado em lugar nenhum, com um gosto ruim na boca, com o medo me consumindo pouco a pouco.

— Vai embora. Por favor, vai embora. Você não pode ficar aqui. – Sussurro.

Fecho os olhos, quase desejando morte; o caminho mais fácil. É nítido que sou a pessoa mais despreparada e instável para um dever como este.

Sobressalto ao sentir os braços de Peeta ao meu redor. Olho para o seu rosto, sentindo-me cansada internamente, já que é como se houvesse coisas demais nas minhas costas.

Não falo nada quando seus braços me tomam. É como se eu fosse somente o meu cadáver, porque, de algum modo, não tenho mais qualquer vontade de me movimentar. O estado mórbido que me toma tira qualquer aspiração que eu ainda tenha pouco a pouco.

Peeta tenta falar comigo, presumo. Mas são necessários dois dias para que eu consiga voltar a falar e não tenha uma crise de pânico quando a minha filha dá sinais de sua existência.

Quando meu marido entra no quarto, eu olho na sua direção, confirmando que, de certa forma, estou de volta. E, se não isso, ao menos meu corpo já responde aos comandos básicos.

Seu caminhar cauteloso na minha direção faz com que eu me sinta mal por colocá-lo nesta situação, embora isto não seja algo que esteja ao meu alcance. Peeta então senta-se na cama e me abraça apertado; um misto de saudade e até certo desespero se fazem presentes. Afundo meu rosto na sua camisa, sem saber realmente como solucionar todos os problemas que foram descarregados sobre mim de repente.

— O que você tem? – Ele sussurra baixinho. Há uma aflição na sua voz que Peeta não é capaz esconder. – Como vocês estão?

Eu fico calada pelos minutos que se seguem, buscando o conforto e a organização dos meus pensamentos no único lugar que me é confortável e seguro neste momento: os seus braços.

Nem consigo notar quando começo a chorar ao dizer:

— Ela se mexeu naquele dia. Ela não parou de se mexer a tarde inteira, Peeta. Isso está acontecendo diariamente. E eu notei que ela está realmente aqui, ela precisa de mim, e eu não posso cuidar dela. Eu não posso ser a mãe que ela precisa, nem muito menos salvá-la de qualquer coisa. Eu estou aterrorizada porque não posso fazer nada quanto isso, e agora eu não sei o que fazer daqui para frente. Ela vai precisar de mim, e eu não vou poder estar lá para ela quando decidirem que é a minha filha que eles querem.

No fundo, estou surpresa por ter conseguido dizer algo com a voz tão embargada e o choro tão assíduo, ainda que ele tenha entendido tudo. Talvez Peeta sequer precisasse ouvir minhas palavras para entender o turbilhão de receios que se passam em mim.

— O futuro não é nenhuma garantia. Eu sei que, tanto quanto eu, você entende que o nosso governo pode decidir que a democracia não é o suficiente, que eles querem mais, e a opressão é o melhor caminho para isso. Mas nós viemos até aqui, prometemos a nós mesmos que iríamos estar juntos e iríamos dar tudo à torradinha. E nós vamos, meu bem. Nós cuidaremos dela, daremos tudo que ela precisa, e se algum dia ousarem querer algo com ela, nós iremos surrar todos. Vai ficar tudo bem, querida. Nós temos um ao outro, e enquanto estivermos juntos nós poderemos passar por cima de tudo. A torradinha vai viver no momento mais apaziguado da história e nós estaremos aqui com ela para presenciar isso, está bem?

Assinto, esperando as palavras dele terem efeito sobre mim.

— Você só não pode fazer isso comigo outra vez, Katniss. Foram mais de 48 horas desesperadoras. Você não se alimentou, mal bebeu água. E você é duas. – Não tenho dificuldades alguma em formar imagens na minha cabeça ou lembrar-me de Peeta ao meu lado tentando me consolar; tentando tomar a minha dor para si. Lembro-me dele sem conseguir dormir e imagino-o sem conseguir trabalhar enquanto estive no meu coma voluntário.

— Eu estou com tanto medo que permiti que meu egoísmo falasse mais alto.

Ele acaricia meus cabelos ao dizer:

— E não tem problema nenhum nisso. Só se cuide, porque minha vida perde o sentido quando você fica nesse estado.

Fico calada, apenas apreciando seu carinho, cuidando da saudade. O sono vai chegando, e tenho uma noite tão turbulenta quanto as três tardes dos últimos dias, e, mesmo que meu marido esteja ao meu lado para me acalmar, eu fico num estado soturno durante quase toda a semana que se segue; levada pelo desespero e medo latente, sem conseguir comer.

E esta crise, dias depois, me leva a tomar inúmeras vitaminas, fazer exames extras, e me arrepender amargamente por tudo que aconteceu.

**

— Não! Vocês não podem simplesmente construir um pergolado. Aliás, para ser honesta, vocês não podem construir coisa nenhuma! – Eu digo, rolando os olhos, com a cara já fechada.

— Amor, imagina só! Seria como uma casinha de bonecas em tamanho real para a torradinha! – Peeta retruca, segurando minha mão sobre a mesa.

— É. E aí nos dias chuvosos e frios, ela vai insistir para ficar saindo e pegar uma pneumonia! Você não está pensando em longo prazo. Essa foi uma das primeiras lições daquele curso para pais, lembra? – Rebato.

Meu marido se mantém voltado para mim, com uma serenidade no rosto que me irrita ainda mais. Eu o fuzilo com os meus olhos.

— Queridinha, basta dizer não a ela. E não é como se ela fosse querer ficar o tempo todo apenas lá. É tudo questão da educação que vocês darão a ela. Além do mais, você nem sabe se ela terá o seu temperamento impossível e o jeito reclamão. Nós todos podemos tirar a sorte grande dela nascer uma cópia do garoto.

Minha fúria se volta para Haymitch.

— Você é pai? – Eu pergunto retoricamente. – Então cale a boca!

Haymitch fecha a cara, repuxando os lábios de raiva.

— Meu bem, ela ainda terá os brinquedos dela aqui e o quarto dela. O pergolado seria para os dias mais amenos, em que estaríamos todos no quintal com ela e poderíamos até aproveitar algumas tardes lá. Faremos um tipo de teto. Não é a coisa mais difícil do mundo.

Eu bufo. Irei matá-los.

Não dou uma resposta a ele, porque parece que essa briguinha levou não só a minha paciência como também a minha disposição. E, de uma hora para outra, é como se essa coisa toda tivesse me dado um sono descomunal. Já estou querendo pôr todas essas cenouras pra fora. Além do mais, sei que Peeta ainda vai conversar comigo até que consiga um sim, pois não quer desistir de sua ideia e muito menos passar por cima de uma decisão minha.

No restante do jantar, fico calada, exatamente como a minha mãe, que apenas uma vez ou outra interage com Peeta ou Haymitch de maneira monossilábica. Imagino que ela só esteja cansada, e sentindo falta de estar na agitação de um hospital apesar de tudo.

Pela manhã, ao me deixarem na ioga, tanto Haymitch quanto Peeta estão extasiados pela pequena aventura que consiste na montagem de um pergolado. Eles disseram que iriam conseguir um manual, algum arquiteto, e até alguém que soubesse como botar a mão na massa. Eu não retruquei mais, apenas deixei claro que se eu ouvisse alguma birra por parte da minha filha, eu culparia aos dois.

**

— Vamos, Katniss, está lindo! – Ele se volta para a minha mãe, à medida que me tira da cozinha. Não passa do meio-dia. – Claire, venha também! Acabamos de decorá-lo.

Aperto meu cardigã contra o peito, pois, apesar do céu limpo, a brisa, mesmo pela manhã, é fria. Vou com Peeta até o quintal pela porta dos fundos, vendo a construção de madeira que ele e Haymitch se empenharam durante semanas para construir. E tira o meu fôlego, devo admitir.

Eu já tinha algum conhecimento do processo todo e acompanhei, inclusive, mas estar olhando agora que está todo pronto, decorado com as mais diversificadas flores, algumas almofadas e um pequeno banco — também de madeira — construído à mão me deixa boba.

O pergolado é do tipo abobadado, e eu pude notar a preocupação de Peeta em pôr parte da natureza ali, como se fosse feito para mim. Várias flores amor-agarradinho estão escalando os pequenos arcos que erguem a construção, como se fizessem parte dela — e de fato fazem. No teto, parte de sua cobertura tem rosas de escalada, mini margaridas, crisântemos, alamandas, dentre muitas outras que colorem a estrutura e vão precisar de cuidado diário. Eu estou maravilhada.

— Peeta...! – Eu não consigo dizer muito. Não consigo dizer nada. É muito mais que um pergolado para nossa filha, ele fez para mim, para que eu tivesse descanso aqui fora, tendo um pedacinho da floresta comigo em meio a todo sufoco que estou passando.

Eu não tenho ideia de como ele faz isso, mas, mesmo após quase 16 anos, aqui está ele tirando meu fôlego de novo, todos os dias.

— Você gostou? – Ele questiona, enquanto caminho até a pérgola. Toco um dos arcos, sentindo um alívio arrebatador ao sentir a densidade das folhas verdes, a suavidade de cada uma delas. Se eu fecho os meus olhos sou capaz de ouvir a copa das árvores farfalharem e os sons dos pássaros, sentir o cheiro de pinho, de água molhada, o peso do meu arco em minha mão.

Me viro, notando então que fiquei tempo de mais presa em meus pensamentos.

Caminho até Peeta o mais rápido que posso, envolvendo seu pescoço com uma dependência que só se aflora. Vejo o resquício de sorriso que nasce em seus lábios antes que eu o beije, porque, de forma alguma, sou capaz de dizer, com palavras, o quão grata eu estou pela insistência dele.

— Lindo, lindo! Mas ainda estamos aqui. – Haymitch interrompe, contudo, nem assim, tiro o sorriso da boca.

— Obrigada. – Eu sussurro, só para ele. Meu marido me abraça por trás, e eu apoio minha cabeça em seu pescoço, admirando seu trabalho. – E obrigada também, Haymitch. – Olho nos seus olhos, esperando que ele compreenda que o agradecimento não é só pela construção. Não, não. É por tudo. E, principalmente, pelo que ele tem feito nos últimos meses, que vai muito além do que eu poderia ter imaginado quando ele caiu daquele palco no dia em que Prim foi colhida para os Jogos.

— Peeta, Haymitch, ficou esplêndido. Vocês fizeram um trabalho sensacional! – Minha mãe elogia, quase tão admirada quanto eu.

— Obrigado, Claire. – Peeta agradece, com seus dentes brancos à mostra o tempo todo.

— Que bom que gostaram, porque se eu tivesse que ouvir qualquer comentário negativo sobre eu amarraria vocês a este pergolado.

Estou tão feliz que não retruco, não bufo, só rio baixinho, pensando numa menininha de vestido azul e cabelos loiros esvoaçantes dando passos incertos na pérgola, para logo depois cair com o bumbum no chão e simplesmente gargalhar com toda a sua falta de equilíbrio. A imagem torna meu dia ainda melhor, mesmo que minha irmãzinha venha à memória. Tento imaginar, então, Primrose sorrindo, feliz, pela vida que construí e a sobrinha que será tão amada.

**

Peeta chega cansado do trabalho, mas dessa vez é diferente dos outros dias. Ele não esconde isso. Por conta da gestação, tudo em nossa vida tornou-se mais intenso, então se há dias bons, eles são maravilhosos. Contudo, os dias ruins são terríveis, quase insuportáveis. Então, basta o meu marido adentrar a casa sem o seu sorriso costumeiro e com uma feição de quem levou um soco que eu sei que tudo pode ir por água abaixo.

Ele passa por mim no sofá, me dá um beijo casto nos lábios e outro na minha barriga, ainda que isso ilumine seus olhos por apenas meio segundo. Depois, ele simplesmente sobe, sem sequer começar a conversa rotineira com a minha mãe que está na cozinha.

Cinco minutos depois de sua ida, eu fico impaciente. Dou passos cuidadosos até o quarto, que tem sua luz acesa, e vejo que Peeta está dentro do banheiro. A porta está entre aberta e eu sou capaz de ouvir o barulho da água, o que me preocupa.

Ele está no princípio de uma crise.

Não é a primeira vez. Ao longo de todos esses anos, aconteceu mais vezes do que nós dois gostaríamos. O estresse aciona o seu lado telessequestrado com facilidade, e ele foge de mim para evitar um dano. Só que, com a gravidez, Peeta se corrói ainda mais. Ele não consegue lidar com o fato de não estar presente 100% para mim e a nossa filha.

Quando adentro ao cômodo, a figura dele — com as mãos na cabeça, apertando os fios, o corpo retesado, a perna batendo contra a água da banheira — que vislumbro massacra meu peito. Peeta não olha para mim. Eu cato suas roupas com cuidado no chão, notando, a partir deste desleixo, que ele já está me escapando. Ponho sua prótese na bancada, e caminho até ele.

Hesito. Mas apenas porque eu não quero que ele se culpe por qualquer coisa que possa vir a acontecer comigo e sequer está sob o seu controle.

Primeiro experimento acariciar suas costas com a ponta dos dedos. Ele se retrai mais, no entanto, não desisto. Peeta tomou consciência da minha presença e não reagiu abruptamente. Depois, minha palma passeia livremente sobre os seus ombros e eu me inclino para começar uma massagem, inevitavelmente lembrando-me de todas as que recebi. A perna dele a essa altura faz menos barulho, até finalmente parar.

A posição incomoda minha filha, e, automaticamente, me incomoda também. Por isso, me sento do lado da banheira, e pego a mão dele. Peeta olha para mim, me analisa por bastante tempo, conforme ponho sua palma entre as minhas.

Coloco sua mão sobre a minha barriga, passados alguns segundos. Um soluço me escapa, tanto porque já estou suscetível ao choro de raiva do Snow quanto à dor de ver meu marido assim, quando nossa filha chuta meu abdômen; o exato local onde pus a mão dele.

— Oi, torradinha. Você também está querendo ficar grudada ao papai? Ele precisa da gente agora, então você pode dar uma série de chutes na mamãe dessa vez, só pra ele saber que você o ama muito. – Eu faço um carinho na minha barriga, querendo simplesmente ter minha filha nos braços. Ela se mexe outra vez em resposta.

Olho para Peeta, que tem toda a sua atenção voltada para as nossas mãos no meu volume de seis meses. Ele então foca seus olhos de oceano em mim, e me pede baixinho para não deixá-lo sozinho, porque ele está com medo de ceder.

Passo minha mão livre pelo seus cabelos e então começo a cantar num murmúrio, ciente de que isso o acalmará e levará nossa filha ao êxtase.

Apanhe uma estrela cadente

e a coloque em seu bolso

Nunca deixe que ela desapareça

Apanhe uma estrela cadente

e a coloque em seu bolso

Guarde-a para um dia de chuva

O amor pode vir e tocar-lhe no ombro

Numa noite sem estrelas

Apenas no caso de você sentir que quer abraçá-la

Você terá o bolso com a luz de uma estrela

Para quando seus problemas começarem a se multiplicar,

e eles provavelmente irão

É fácil esquecê-los sem esforço

Com apenas um bolso com a luz de uma estrela

Eu passei a ter certa adoração por essa música no exato momento em que Peeta me contou o quanto ela significava para ele. Não no sentido que ele gostaria, mas eu fiquei feliz em lhe dar uma boa memória a respeito.

Quando ele era pequeno, enquanto estava com seus irmãos na sala, Patrick, o mais velho, começou a cantarolar "Catch a falling star". Peeta nunca tinha escutado música em casa antes, então perguntou de onde seu irmão conhecia a canção de ninar. "A mamãe cantava antes de me colocar para dormir", foi a resposta.

E então, uma vez, enquanto estávamos deitados juntos, eu cantarolei. E meu marido me disse que atribuí uma nova e melhor lembrança à música. A partir daí, eu fazia questão de cantar nesses dias ruins, na intenção de fazer deles melhores, mesmo que só um pouco.

Peeta aperta a minha mão quando termino, e deita a sua cabeça na minha, à medida que faz um carinho suave em meu abdômen, o que me deixa praticamente abraçada a ele, exceto pela interferência incômoda da banheira.

— Você me faz melhor. – Ele murmura. Viro suavemente a minha cabeça para olhar seu rosto, quando me dou conta de que ele está dormindo. Sorrio, deixando a leveza do momento me afagar.

Perco a noção de tempo, e imagino que ele também, pois, como uma criança, continua adormecido nos meus braços. Peeta está tão exausto que nem o chamado de minha mãe para o jantar o desperta, e sobra para mim o papel de carrasca. Ao menos, é dessa maneira que me sinto quando o acordo.

— Ei. – Passo meus dedos em seu rosto, sem me mexer. No fundo, estou tendo que me esforçar exacerbadamente para tirá-lo de seu precioso cochilo. – Peeta, acorde. – Me ajoelho com um pouco de dificuldade, segurando sua cabeça. – Você está me ouvindo? – Pergunto, num sussurro. É nítida a minha vontade nula de acordá-lo. – Peeta, venha se deitar.

Ele se mexe, abre seus olhos, e um bocejo escapa.

— O que houve? – Questiona, levemente eufórico. Com toda certeza achando que algo aconteceu comigo. Ele olha em volta, tentando se localizar e, aos poucos, parece voltar a si. – Está tudo bem?

— Está sim. Se acalme.

— Por que me deixou dormir? – Pergunta com suavidade, erguendo suas mãos enrugadas para pôr sobre as minhas que envolvem seu rosto.

— Porque você se assemelha a um zumbi.

Peeta sorri. Depois, beija a palma de minha mão.

— Desculpe por isso.

Ergo a sobrancelha.

— Por se sentir cansado? Por fazer de tudo por mim e pela nossa filha? Por ter sido telessequestrado? Ora, por favor. Não me faça querer lhe dar uns tapas.

Ele avalia a minha resposta, e eu passo a acariciar sua nuca, esperando por nada em especial. Está bom assim.

— Eu te amo. Não há nada, absolutamente nada, para mim sem você aqui. Sem vocês. Você sabe disso, não é? – Eu fico calada, ciente da veracidade de suas palavras, antes dele me beijar.

"Está tudo bem agora", é o que dizemos no silêncio em meio ao beijo.

— Você já comeu? – Pergunto, saindo da minha atual posição para me levantar.

— Acho que houve uma inversão de papéis.

Sorrio.

— Comeu ou não?

— Comi uma torta salgada na padaria.

— Está com fome?

Ele ergue a sobrancelha, parecendo se perguntar o motivo da inquisição.

— Não.

— Bem, então você pode voltar a dormir. Só não aí dentro. – Peeta finalmente se dá conta de que ainda está dentro da água — a essa altura já gelada -, e se apoia na parede para começar a se levantar. – Você não tomou banho, tomou?

— Droga! – Ele pragueja, voltando para dentro da banheira. Eu rio. Pego a esponja e o sabonete, puxo um banco de madeira capenga que descansa ao lado do cabideiro, e me sento outra vez — agora mais confortável que antes.

— Minha companhia é tão ruim assim?

Ele ri.

— Os papéis definitivamente se inverteram. Não que eu esteja reclamando, é claro.

Enquanto passo a bucha no seu corpo, sem disfarçar o meu contentamento pela superação de outra crise, Peeta começa a me contar sobre o seu dia. Ele fala sobre os bolos que confeitou, os clientes com os quais conversou, e, não muito depois, passa a bola da vez para mim. Sem nem ao menos percebermos, o assunto é a torradinha, as minhas consultas, e logo estamos descendo para o jantar, porque passamos tanto tempo falando que a fome bate, e ambos esquecemos o cansaço latente de outrora.

Notas finais
Então, o que acharam? Estou finalmente indo responder os lindos comentários de vocês! E, ah, estou sem redes sociais por enquanto, então se quiserem bater um papo, mandem uma mensagem no privado. Obrigada por não me abandonarem, vocês são os melhores! ♥ Até o próximo. Prometo nunca mais desaparecer desta maneira. Beijo, beijo.